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livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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  • livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.
    quinta-feira, abril 13, 2006
    REGRESSO AO
    ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
    ALDOUS HUXLEY


    Tradução de Eduardo Nunes Fonseca
    Sobre o Autor:
    Escritor inglês. Escreveu novelas, sátiras, ensaios, biografias, dramas, versos e
    romances. Espírito céptico mas brilhante, celebrizou-se sobretudo com o romance
    de antecipação Admirável Mundo Novo (1932), em que faz uma sátira implacável à
    sociedade industrial contemporânea.
    Sobre a digitalização desta obra:
    Se os livros tivessem preços acessíveis, todos poderiam comprá-los. A digitalização
    desta obra é um protesto contra a exclusão cultural, e por conseqüência social,
    causada pelos preços abusivos dos livros editados e publicados no Brasil. Assim, é
    totalmente condenável a venda deste e-livro em qualquer circunstância. Distribua-o
    livremente.
    “Em homenagem a Guy Montag”
    .:: Índice ::.
    1. Superpopulação (05)
    2. Quantidade, Qualidade, Moralidade (16)
    3. Superorganização (19)
    4. A Propaganda Numa Sociedade Democrática (31)
    5. A Propaganda Sob Uma Ditadura (39)
    6. As Artes de Vender (47)
    7. Lavagem Cerebral (58)
    8. Persuasão Química (68)
    9. Persuasão Subconsciente (77)
    10. Hipnopédia (85)
    11. Educação Para a Liberdade (96)
    12. Que Podemos Fazer? (108)
    .:: Prefácio ::.
    A síntese do espírito de finura pode transformar-se na
    própria essência da não-verdade. Por mais elegante e resumida
    que seja, a brevidade nunca pode, pela natureza dos fatos, ter em
    conta todos os casos de uma atuação complexa. Ao cuidar-se um
    tema com essas características só se pode ser conciso à custa de
    omissões e simplificações. A omissão e a simplificação auxiliamnos
    a compreender, contudo auxiliam-nos, em muitos casos a
    compreender imperfeitamente; porque a nossa percepção pode
    ser só a percepção das noções nitidamente formuladas por quem
    resume, e não a da realidade vasta e ramificada, a partir da qual
    tais noções foram separadas de modo tão arbitrário.
    Porém a vida é curta e o conhecimento ilimitado: ninguém
    dispõe de tempo para tudo. Na realidade somos, de um modo
    geral, forçados a optar entre uma exposição impropriamente
    breve e a impossibilidade de expor. Sintetizar é um mal
    necessário, e a tarefa daquele que sintetiza é fazer da melhor
    maneira possível um trabalho que, embora essencialmente mau,
    ainda seja melhor do que nada. Deve aprender simplificar, mas
    sem chegar ao extremo de falsificar. Sem aprender a concentrarse
    sobre o imprescindível de uma conjuntura, mas sem
    desconhecer muitos aspectos marginais expressivos da realidade.
    Assim sendo, pode suceder que não esteja capacitado a dizer toda
    a verdade (porque toda a verdade em torno de quase todos os
    assuntos importantes é incompatível com a concisão), mas
    poderá dizer avultadamente mais do que as temerárias meiasverdades
    e quartas-partes da verdade que sempre foram a moeda
    corrente do pensamento.
    A questão da liberdade e dos seus inimigos é colossal, e o
    que escrevi certamente seja demasiado resumido para o tratar
    como merece: contudo atingi muitos aspectos do problema. Cala
    qual desses aspectos talvez tenha sido resumido em excesso na
    exposição; porém estes contínuos excessos de simplificação
    justapõem-se num quadro que, espero, oferta uma sugestão da
    imensidão e complexidade do original.
    Foram omitidos do quadro (não porque não sejam valiosos.
    porém tão somente por conveniência e porque os discuti em
    ocasiões anteriores) os inimigos mecânicos e militares da
    liberdade – as armas e os engenhos que fortaleceram em demasia
    as mãos dos condutores do mundo contra os seus súditos, e os
    preparativos ainda mais desgraçadamente caros para guerras ainda
    mais insanos e suicidas. Os capítulos que seguem devem ser lidos
    contra um pano de fundo de pensamentos sobre a revolta da
    Hungria e da sua repressão, sobre as bombas H, sobre o
    orçamento que cada nação reserva para a sua “defesa”, sobre as
    intermináveis colunas de rapazes uniformizados, que marcham
    obedientemente para a vala comum.
    .:: 1. Superpopulação ::.
    Em 1931, quando a Admirável Mundo Novo estava para ser
    escrito, achava-me convencido de que restava ainda muito tempo.
    A sociedade completamente organizada, o sistema científico das
    castas, a abolição da vontade livre através de um
    condicionamento comedido, a servidão que se tornara aceitável
    através de doses regulares de felicidade artificialmente
    transmitidas, as ortodoxias propagadas em cursos noturnos
    ministrados enquanto se dorme – estas coisas aproximavam-se
    tais eu as dizia, mas não chegariam no meu tempo, nem mesmo
    no tempo dos meus netos. Esqueci a data exata dos
    acontecimentos registrados no Admirável Mundo Novo;
    ocorreram, contudo. lá pelos séculos VI ou VII d. F. (depois de
    Ford). Nós, que vivíamos na segunda metade do século XX d. C.,
    éramos os habitantes de um universo na realidade horrível;
    porém, o pesadelo daqueles anos de depressão era totalmente
    diferente do pesadelo do futuro, descrito no Admirável Mundo
    Novo. O nosso era um pesadelo de absoluta falta de ordem; o
    deles, no século VII d. F., de ordem em excesso. No decurso de
    passagem de um ao outro extremo, haveria um longo intervalo,
    imaginava eu, durante o qual a terça parte mais afortunada da raça
    humana aproveitar-se-ia melhor de ambos os mundos – o mundo
    desordenado do liberalismo e o demasiado ordenado Admirável
    Mundo Novo, onde a eficácia perfeita não deixaria lugar para a
    liberdade ou para a iniciativa pessoal.
    Vinte e sete anos depois, no terceiro quartel do século XX
    d. C., e muito antes do fim do século I d. F., sinto-me muito
    menos otimista do que quando estava para escrever o Admirável
    Mundo Novo. As profecias feitas em 1931 estão para realizar-se
    muito mais depressa do que eu calculava. O abençoado espaço
    entre a excessiva falta de ordem e o pesadelo da ordem em
    excesso não surgiu e não apresenta sinais de começar. Verdade é
    que, no Ocidente, homens e mulheres gozam ainda de uma vasta
    medida de liberdade individual. Contudo, até nos países que têm
    uma tradição de governo democrático, esta liberdade, e até o
    desejo desta liberdade, parece achar-se em declínio. No resto do
    mundo a liberdade para os indivíduos já desapareceu, ou estão
    patentemente em vias de desaparecer. O pesadelo da organização
    total, que eu situara no século VII d. F., surgiu no futuro remoto,
    e desta forma tranqüilizante, e encontra-se agora aguardando por
    nós na primeira confluência da estrada.
    O 1984 de George Orwell constituía a projeção amplificada,
    no futuro, de um presente que continha o Estalinismo, e de um
    passado imediato que testemunhara o florescimento do Nazismo.
    O Admirável Mundo Novo foi escrito antes da ascensão de Hitler
    ao poder supremo na Alemanha e quando o tirano russa ainda
    não calculara a sua marcha. Em 1931, o terrorismo metódico
    ainda não era a causa obsessiva nossa contemporânea que se
    havia torna do em 1948, e a futura ditadura do meu mundo
    fictício era, em grande parte, menos brutal do que a futura
    ditadura tão brilhantemente descrita por Orwell. No argumento
    de 1948, 1984 parecia terrivelmente convincente. Porém, afinal de
    contas, os tiranos são mortais e as circunstâncias variam. A
    recente evolução na Rússia, e progressos recentes no campo da
    ciência e da tecnologia subtraíram do livro de Orwell boa parte da
    sua medonha verossimilhança. Uma guerra nuclear subtrairia
    certamente todo o sentido das predições de qualquer pessoa. Mas,
    afirmando neste momento que as Grandes Potências podem
    abster-se por algum tempo de nos destruir, justo é dizer-se que
    tudo se apresenta, no momento. como se todas as vantagens
    pareçam mais a favor de algo como o Admirável Mundo Novo
    do que de algo como 1984.
    Ã luz do que verificamos recentemente sobre o comportamento
    do animal, em geral, e sobre o comportamento humano, em
    especial, torna-se claro que o controle do comportamento
    indesejável através do castigo é menos eficaz, afinal de contas, do
    que o controle através de reforço do comportamento desejável
    mediante recompensas, e que o governo, lançando mãos do
    terror funciona, no conjunto, pior do que o governo realizado
    pela condução não-violenta do ambiente, e dos pensamentos e
    sentimentos dos homens, das mulheres e das crianças, como
    indivíduos. A punição sustém temporariamente o
    comportamento indesejável, porém não elimina definitivamente a
    tendência da vítima em sentir-se bem ao agir desse modo. Além
    disso, as conseqüências psicofísicas do castigo podem ser
    justamente tão indesejáveis como as causas pelas quais um
    indivíduo foi castigado. A psicoterapia consagra-se largamente às
    conseqüências debilitantes ou antisociais das sanções sofridas no
    passado.
    A sociedade descrita no 1984 é uma sociedade controlada
    quase exclusivamente pelo castigo e pelo receio do castigo. No
    mundo fictício da minha própria imaginação, o castigo não é
    freqüente e é, de um modo geral, brando. O controle quase
    perfeito exercido pelo governo é executado pelo reforço
    metódico de comportamento desejável, por inúmeras variações
    de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica,
    e pela estandardização genética. As crianças geradas em
    laboratórios e o controle centralizado da reprodução não são
    talvez improváveis; mas é perfeitamente claro que, por muito
    tempo ainda, continuaremos a ser uma espécie vivípara que se
    procria ao acaso. A estandardização genética com fins práticos
    pode ser deixada de lado. Continuará a haver nas sociedades o
    controle pós-natal – pela repressão, como no passado, e, em
    extensão cada vez maior, pelos métodos mas eficientes da
    recompensa e da manipulação científica.
    Na Rússia, a ditadura fora de moda, estilo 1984, de Stalin,
    começou a ceder lugar a uma forma mais atualizada de tirania.
    Nas camadas superiores da hierarquia social dos Sovietes, o
    reforço do comportamento desejável principiou a substituir os
    métodos mais antigos de controle mediante a punição do
    comportamento indesejável. Os engenheiros e cientistas, os
    professores e os funcionários são liberalmente pagos pelo
    trabalho bem feito, e tão comedidamente coletados que se acham
    sob um incentivo permanente para fazerem melhor e serem,
    dessa forma, mais recompensados. Em alguns setores cabe-lhes a
    liberdade de pensar e de fazerem, mais ou menos, o que desejam.
    O castigo só os aguarda quando ultrapassam os limites regulados
    no campo da ideologia e da política. Pelo fato de ter sido
    garantida uma relativa dose de liberdade profissional é que os
    professores, cientistas e técnicos russos levaram a cabo
    realizações tão notáveis. Os que vivem junto à base da pirâmide
    soviética não usufruem de nenhum dos privilégios outorgados
    aos afortunados ou à minoria especialmente dotada. Os seus
    salários são irrisórios e pagam, sob a aparência de preços altos,
    um imposto disparatadamente grande. A área em que podem
    fazer o que desejam é bastante restrita, e os seus dirigentes
    subjugam-nos mais pelo castigo e pela ameaça de castigo do que
    pela condução não-violenta ou pelo reforço do comportamento
    desejável através da recompensa. O sistema soviético coordena
    elementos de 1984 com elementos que vaticinam o que se
    passava entre as castas mais elevadas no Admirável Mundo
    Novo.
    Contudo, forças impessoais as quais quase não podemos
    controlar parecem estar a empurrar-nos a todos em direção ao
    pesadelo descrito no Admirável Mundo Novo; e este impulso
    impessoal está sendo cuidadosamente acelerado por
    representantes de organizações comerciais e políticas que
    desenvolveram um número avultado de notas técnicas de
    manipulação, em prol dos interesses de uma minoria, dos
    pensamentos e sentimentos das massas. As técnicas de
    manipulação serão analisadas em capítulos posteriores. Por ora,
    limitemos a nossa atenção àquelas forças impessoais que estão,
    atualmente, tornando o mundo bastante inseguro para a
    democracia, e rude para a liberdade individual. Quais são estas
    forças? E por que conseguiu velozmente um avanço em nossa
    direção o pesadelo que eu havia ideado para o século VII d. F.? A
    resposta a estas perguntas pode iniciar-se onde a vida de todas as
    sociedades, até das mais altamente civilizadas, teve os seus
    primórdios – no plano da biologia.
    No primeiro Dia de Natal, a população do nosso planeta
    contava perto de duzentos e cinqüenta milhões de seres humanos
    – menos da metade da população da China atual. Dezesseis
    séculos após, quando os peregrinos desembarcaram em Plymouth
    Rock, o número de seres humanos subiu para um pouco além de
    quinhentos milhões. Por ocasião da assinatura da Declaração da
    Independência, a população terrestre ultrapassara a cifra de
    setecentos milhões. Em 1931, quando estava escrevendo o
    Admirável Mundo Novo, apresentava um número próximo aos
    dois biliões. Hoje, apenas vinte e sete anos após, há dois biliões e
    oitocentos milhões de seres. E amanhã – quantos? Penicilina,
    DDT e água pura são produtos baratos, cujos efeitos sobre a
    saúde públi.ca não condizem com a proporção do seu custo. Até
    um governo paupérrimo tem recursos para prover os seus súditos
    com os meios fundamentais de controle da mortalidade. O
    controle da natalidade é um outro assunto bem diferente. O
    controle da mortalidade é algo que pode ser oferecido a todo um
    povo por técnicos que trabalham a soldo de um governo
    benévolo. O controle da natalidade exige a cooperação de todo
    um povo. Pode ser praticado por grande número de indivíduos,
    dos quais exige mais inteligência e força de vontade do que
    possuem a maioria dos analfabetos que pululam pelo mundo, e
    (onde são usados métodos químicos ou mecânicos
    anticoncepcionais) um dispêndio maior de capital do que podem
    suportar muitos destes milhares de seres. Outrossim, não existem
    mais em parte alguma, quaisquer tradições religiosas que pugnem
    a favor da morte ilimitada, ao passo que as tradições religiosas e
    sociais a favor da reprodução ilimitada estão largamente
    espalhadas. Por todos estes motivos, o controle da mortalidade é
    executado com muita facilidade, o controle da natalidade é
    efetuado com grande dificuldade. As taxas de mortalidade caíram,
    portanto, nos anos mais recentes, com rapidez assustadora.
    Porém as taxas de natalidade, ou permaneceram no seu antigo
    alto nível ou, se caíram, foi muito pouco e muito lentamente.
    Consequentemente, o número de seres humanos está
    aumentando atualmente com mais rapidez do que em qualquer
    outra época da história da espécie.
    Outrossim, o crescimento anual está subindo também.
    Aumentam regularmente, conforme as regras das proporções
    compostas; e crescem também, irregularmente, com cada
    emprego dos princípios da Saúde Pública numa sociedade
    tecnologicamente atrasada. Presentemente, o crescimento anual
    da população mundial aproxima-se de aproximadamente quarenta
    e três milhões. Isto indica que, de quatro em quatro anos, a
    humanidade acrescenta ao seu total o equivalente à população
    atual dos Estados Unidos, e, de oito anos e meio em oito anos e
    meio, o equivalente à população da Índia, atualmente. No ritmo
    de crescimento que predominou entre o nascimento de Cristo e a
    morte da rainha Isabel I, foram precisos dezesseis séculos a fim
    de que a população da terra duplicasse. No ritmo atual, a
    população mundial duplicará em menos de meio século. E esta
    duplicação incrivelmente rápida do número de seres humanos
    ocorrerá num planeta cujas áreas mais férteis e produtivas já estão
    densamente povoadas, cujos solos estão sendo desgastados pelos
    esforços loucos de maus agricultores, com o objetivo de obterem
    mais alimento, e cujo capital de minerais facilmente utilizáveis
    está sendo dissipado à semelhança de um marinheiro embriagado
    que se priva rapidamente dos vencimentos que acumulou.
    No Admirável Mundo Novo da minha fantasia, a questão do
    número de seres humanos na sua relação com os recursos
    naturais foi realmente resolvido. Foi calculado um número ideal
    para a população terrestre e a totalidade da população seria
    mantida neste nível (um pouco abaixo de dois biliões, se bem me
    lembro), geração após geração. No mundo contemporâneo, a
    questão da população não foi solucionada. Bem ao contrário, o
    problema está se tornando mais grave e mais tremendo a cada
    ano que passa. É contra este sinistro pano de fundo biológico que
    se desenvolvem todos os dramas políticos, econômicos, culturais
    e psicológicos de nossa época. A medida que o século XX se
    aproxima de seu final, e os novos biliões são acrescidos aos
    biliões existentes (quando minha neta tiver cinqüenta anos, o
    número total de seres humanos ultrapassará os cinco biliões e
    meio), este pano de fundo biológico avança, sempre com mais
    insistência, sempre mais ameaçador, para a vanguarda e para o
    centro do palco histórico. O problema da relação entre o número
    total de seres humanos, que aumenta rapidamente, e os recursos
    naturais, a estabilidade social, e o bem-estar dos indivíduos – é
    agora o problema crucial da humanidade; e continuará a sê-lo,
    com certeza, durante mais um século e, talvez durante ainda
    vários séculos. Supôsse que uma nova época teve início a 4 de
    outubro de 1957. Mas na verdade, no presente contexto, toda a
    nossa exuberante tagarelice pós-Sputnik é imperdoável e
    destituída de sentido. No que tange às massas de humanidade, a
    época que se aproxima não será a Idade do Espaço; será a Idade
    Superpopulação. Podemos parodiar os termos da velha canção e
    perguntar :
    O espaço de que sois tão ricos
    acenderá um fogo na cozinha,
    ou o pequeno deus do espaço volta o espeto,
    [o espeto, o espeto?
    A resposta, é lógico, é negativa. Um desembarque na Lua
    poderá ser de alguma utilidade militar para a nação que o
    conseguir. Mas em nada contribuirá para tornar a vida mais
    tolerável, durante os cinqüenta anos que vamos despender na
    nossa duplicação, para os biliões de subalimentados que pululam
    na terra. E mesmo se, em época posterior, a emigração para
    Marte se tornar viável, mesmo que um número considerável de
    homens e de mulheres estivessem suficientemente desesperados
    para escolher uma nova vida em condições semelhantes às que
    prevalecem numa montanha duas vezes mais elevada do que o
    Monte Evereste, que diferença faria? No transcorrer dos últimos
    quatro séculos um grande número de pessoas velejou do Velho
    para o Novo Mundo. Mas, nem a sua partida, nem o fluxo, em
    sentido contrário, de matérias-primas e alimentares, solucionaram
    os problemas do Velho Mundo. Da mesma forma, envio de
    alguns seres humanos em excesso para Marte (com um custo,
    para transporte e instalação, de vários milhões de cruzeiros por
    cabeça) em nada contribuiria para anular a explosão de uma
    população humana crescente do nosso próprio planeta. Não
    resolvido, este problema tornará insolúveis todos os outros
    nossos problemas. Pior ainda, acarretará condições tais que a
    liberdade individual e as vantagens sociais do sistema
    democrático de vida tornar-se-ão impossíveis, quase imaginárias.
    Nem todas as ditaduras surgem da mesma forma. Há muitos
    caminhos que vão dar ao Admirável Mundo Novo; mas, o mais
    curto e mais largo de todos eles talvez seja o caminho que
    seguimos agora, o caminho que atravessa por entre números
    imaginários de seres humanos e o seu aumento acelerado.
    Passemos em revista, por alto, as razões desta estreita correlação
    entre povo em excesso, entre povo que se multiplica
    rapidamente, e a formulação de filosofias autoritárias, o
    nascimento de sistemas totalitários de governo.
    Assim que o número elevado e crescente de seres humanos incide
    mais pesadamente nos recursos disponíveis, a posição econômica
    da sociedade que sofre esta pressão torna-se ainda mais difícil.
    Isto é verdadeiro em relação àquelas regiões subdesenvolvidas,
    onde uma queda súbita da mortalidade devido ao DDT, à
    penicilina e à água pura não foi seguida de uma descida
    correspondente da taxa de natalidade. Em certas regiões da Ásia,
    e na maior parte da América Central e do Sul, as populações estão
    crescendo de maneira tal que ver-se-ão duplicadas em pouco mais
    de vinte anos. Se a produção de alimentos e de produtos
    manufaturados, de casas, escolas e professores for aumentada em
    rapidez superior à do número de habitantes, será possível
    melhorar a sorte miserável dos que vivem nestas regiões
    subdesenvolvidas e superpovoadas. Mas, infelizmente, falta a
    estas regiões não apenas maquinaria agrícola e unidades
    industriais para fabricarem essa maquinaria, como também a
    verba requerida para montar tais fábricas. O capital é o que resta
    depois de terem sido atendidas as necessidades básicas de uma
    população. Porém as necessidades básicas de muitos desses seres
    que vivem em regiões subdesenvolvidas nunca serão totalmente
    satisfeitas. Quase nada resta ao final de cada ano e, portanto,
    quase não há verba disponível para criar os equipamentos
    industrial e agrícola, através dos quais as necessidades da
    população poderiam ser supridas. Apesar disso, em todos estes
    países subdesenvolvidos há uma enorme escassez de mão-deobra
    especializada, sem a qual não funcionam unidades agrícola
    ou industrial modernas. As atuais possibilidades educacionais são
    inadequadas; o mesmo pode-se dizer dos recursos financeiros e
    culturais, destinados a melhorar as situações vigentes nesses
    países com a rapidez que a situação exige. Contudo, a população
    de alguns desses países subdesenvolvidos está crescendo no ritmo
    de três por cento ao ano.
    A trágica condição de tais países foi debatida num
    importante livro, publicado em 1957 – The Next Hundred Years,
    dos professores Harrison Brown, James Bonner e John Weir do
    California Institute of Technology. Como é que a humanidade vai
    pugnar contra o problema do seu aumento sempre crescente?
    Não com muito sucesso. “A evidência sugere claramente que na
    maioria dos países subdesenvolvidos a sorte da média dos
    indivíduos decaiu a olhos vistos durante os últimos cinqüenta
    anos. O povo permaneceu pior alimentado. Há menos bens de
    consumo disponíveis por pessoa. E, praticamente, cada
    experiência feita no sentido de melhorar a condição tem sido
    invalidada pela pressão inexorável de um crescimento contínuo
    da população.”
    Sempre que a vida econômica de uma nação se torna
    deficitária, o governo central se vê forçado a assumir
    responsabilidades adicionais pelo bem-estar. Deve apresentar
    planos meticulosos que lhe dêem condições de enfrentar uma
    situação crítica; deve impor limitações ainda maiores às atividades
    dos governados; e se, como é admissível, o agravamento das
    condições econômicas gera intranqüilidade política, ou rebelião
    aberta, o governo central deve interferir a fim de salvaguardar a
    ordem pública e a sua própria autoridade. Assim, na direção do
    executivo e dos burocratas que o administram concentra-se cada
    vez mais poder. Mas é tal a ordem do poder que mesmo aqueles
    que o não procuraram, mas sobre quem o poder foi lançado,
    miram a adquirir gosto por ele. “Não nos deixes cair na
    tentação”, pedimos – e com bons motivos; porque quando os
    seres humanos são tentados, de maneira demasiado sedutora ou
    durante tempo demasiado, geralmente caem. Uma constituição
    democrática é um achado que impede aos chefes locais de caírem
    nessas tentações geralmente perigosas que se levantam quando
    excesso de poder está concentrado em poucas mãos. Tal
    constituição funciona muito bem onde, como na Inglaterra ou
    nos Estados Unidos, há um respeito tradicional pelos sistemas
    constitucionais. Onde a tradição republicana ou a tradição
    monárquica atenuada são fracas, a melhor das constituições não
    impedirá os políticos ambiciosos de se rejubilarem às tentações
    do poder. E em qualquer país onde o povo começou a exercer
    severa pressão sobre os recursos disponíveis, estas tentações não
    podem deixar de aparecer. A superpopulação encaminha à
    insegurança econômica e à intranqüilidade social. intranqüilidade
    e insegurança conduzem a maior controle por parte dos governos
    centrais e a um aumento de autoridade. Na ausência de uma
    tradição constitucional, este poder reforçado será talvez exercido
    de forma ditatorial. Ainda que o Comunismo não tivesse sido
    criado, isto provavelmente sucederia. Porém o Comunismo foi
    instituído. Assim sendo, a possibilidade da superpopulação
    conduzir, através da intranqüilidade, à ditadura, tornou-se uma
    certeza virtual. Pode-se apostar, sem receio que, daqui a vinte
    anos, todos os países subdesenvolvidos e superpovoados do
    mundo estarão sob uma forma de domínio totalitário –
    provavelmente exercido pelo Partido Comunista.
    Como é que esta evolução prejudicará os países europeus
    superpovoados, porém altamente industrializados e ainda
    democráticos? Se as ditaduras recentemente criadas lhes fossem
    adversas, e se o fluxo normal de matérias-primas provindas dos
    países subdesenvolvidos fosse propositadamente interrompido,
    os países do Ocidente achar-se-iam, eles próprios em um
    caminho na realidade muito mau. O seu sistema industrial ruiria,
    e a tecnologia altamente desenvolvida, que até então lhes permitiu
    sustentassem uma população muito além do que a que poderia
    ser mantida pelos recursos locais disponíveis, não mais as
    protegeria contra as conseqüências de terem excesso de
    população num território reduzido. Se isto sucedesse, os enormes
    poderes impostos aos governos centrais pelas condições adversas
    podem chegar a ser empregados segundo o espírito de ditadura
    totalitária.
    Os Estados Unidos não são, atualmente, um país superpovoado.
    Se, porém, a população continuar a crescer no ritmo atual (que é
    mais rápido do que o aumento do da Índia, se bem que uma boa
    parte, felizmente, menos rápida do que o ritmo agora corrente no
    México ou na Guatemala), o problema da ligação entre o número
    de seres humanos e os recursos disponíveis pode alterar-se desde
    o começo do século XXI. Atualmente, a superpopulação não
    oferece ameaça direta para a liberdade pessoal dos americanos.
    Continua, todavia, uma ameaça indireta, o esboço de uma
    ameaça. Se a superpopulação levar os países subdesenvolvidos ao
    totalitarismo, e se essas novas ditaduras se aliassem com a Rússia,
    então a posição militar dos Estados Unidos tornar-se-ia menos
    segura e o preparativos de defesa e represália teriam de ser
    intensificados. Mas a liberdade, como todos sabemos, não pode
    vicejar num país que está permanentemente em pé de guerra, ou
    mesmo próximo de uma guerra. As crises contínuas justificam o
    controle permanente de todo o povo e de todas as coisas pelos
    responsáveis do governo central. E a, crise contínua é o que
    esperamos num mundo onde a superpopulação está gerando um
    estado de coisas em que a ditadura, sob os agouros comunistas, se
    torna quase inevitável.
    .:: 2. Quantidade, Qualidade, Moralidade ::.
    No Admirável Mundo Novo da minha ficção, o eugenismo e
    o seu contrário eram metodicamente praticados. Numa série de
    frascos, óvulos biologicamente superiores, fertilizados por
    esperma biologicamente superior, recebiam o melhor tratamento
    pré-natal possível e eram finalmente purificados como Betas,
    Alfas e até Alfas Positivos. Em outra série de frascos, muito mais
    numerosa, óvulos biologicamente inferiores, fertilizados por
    esperma biologicamente inferior, foram sujeitos ao Processo
    Bokanovsky (noventa e seis gêmeos retirados de um só ovo) e
    tratados, pré-natalmente, com álcool e outros conteúdos
    proteínicos. As criaturas finalmente geradas eram quase
    subumanas; mas eram capazes de realizar trabalhos que não
    requeriam perícia e, quando adequadamente condicionadas,
    enfraquecidas por livres e freqüentes relações com o sexo oposto,
    constantemente distraídas pelo divertimento gratuito, e incitadas
    a cumprir os padrões do seu bom comportamento por doses
    diárias de Soma, podiam considerar-se como incapazes de causar
    qualquer preocupação aos seus superiores.
    Nesta segunda metade do século XX, nada realizamos com
    caráter metódico pela nossa procriação; porém, com a nossa
    maneira desordenada e irregular, estamos não somente a
    superpovoar o nosso planeta, como também, parece, agindo
    seguramente para que esta população, cada vez mais numerosa,
    seja da mais baixa qualidade biológica. Nos maus dias de
    antigamente, as crianças com defeitos hereditários consideráveis
    ou até leves, raramente sobreviviam. Hoje, graças à higiene, à
    farmacologia moderna e à consciência social, muitas das crianças
    nascidas com defeitos hereditários atingem a maturidade e
    multiplicam a sua espécie. Sob as condições atualmente em vigor,
    cada avanço na medicina terá tendências a ser superado por um
    avanço correspondente no ritmo de sobrevivência dos seres
    atingidos por qualquer insuficiência genética. Apesar das novas
    drogas milagreiras e dos melhores tratamentos (de fato, em certo
    sentido, precisamente devido a estas coisas), a saúde física da
    população, em geral, não apresentará qualquer melhoria; pelo
    contrário poderá até regredir. E a par com uma queda da saúde
    média bem pode surgir um declínio na inteligência média. Na
    verdade, algumas autoridades idôneas estão convencidas de que
    tal queda já ocorreu e está em progresso. “Sob condições que são
    fáceis e irregulares”, escreve o Dr. W. H. Sheldon, “as nossas
    camadas superiores tendem a ser subvertidas por outras que lhes
    são inferiores sob todos os aspectos... É costume em certos
    círculos acadêmicos assegurar aos estudantes que o alarma
    provocado pelas taxas diferenciais de natalidade não tem
    fundamento; que estes problemas são apenas econômicos, ou
    meramente educacionais, ou simplesmente religiosos, ou
    tampouco culturais, ou qualquer coisa deste gênero. h um
    otimismo exagerado. A delinqüência no tocante à reprodução é
    biológica e básica.” E acrescenta que “ninguém sabe com certeza
    em que medida o nível do Quociente de Inteligência neste país
    (Estados Unidos da América) declinou desde 1916, quando
    Terman tentou fixar com precisão o sentido do Q.I. 100.”
    Num país subdesenvolvida e superpovoado, onde quatro
    quintos da população recebem menos de duas mil calorias por dia
    e um quinto goza de uma dieta apropriada, podem as instituições
    democráticas nascer espontaneamente? Ou se fossem impostas
    de fora, ou de cima, poderiam sobreviver?
    E agora verifiquemos o caso de uma sociedade rica,
    industrializada e democrática em que, devido à prática ocasional
    mas eficaz do contrário do eugenismo, o Quociente de
    Inteligência e o vigor físico estão decaindo. Por quanto tempo
    pode uma tal sociedade manter as suas tradições de liberdade
    individual e de governo democrático? Dentro de cinqüenta ou
    cem anos os nossos filhos obterão a resposta para esta pergunta.
    Contudo, achamo-nos a nós próprios frente a um problema
    moral mais embaraçante. Sabemos que o prosseguimento dos
    bons fins não justifica o emprego de maus meios. Mas que falar
    destas situações, agora tão comumente observáveis, em que os
    bons meios apresentam resultados finais que se constata serem
    maus?
    Por exemplo, dirijamo-nos para uma ilha nos trópicos e
    com o auxílio do DDT libertemo-la da malária e, dentro de dois
    ou três anos, salvaremos centenas de milhares de vidas. Isto é
    simplesmente bom. Mas as centenas de milhares de seres
    humanos salvos desta maneira, e os milhões que eles geram e
    trazem à vida, não podem ser normalmente vestidos, alojados,
    educados ou até alimentados com os recursos locais disponíveis.
    A morte pela malária foi abolida; mas a vida tornada miserável
    pela subalimentação e pelo superpovoamento é agora a norma, e
    a morte lenta, por inanição, ameaça um número cada vez maior
    de habitantes.
    E que dizer a respeito dos organismos congenitamente
    insuficientes, que a nossa medicina e os nossos serviços sociais
    agora preservam, de tal maneira que eles possam propagar a
    espécie? Ajudar os desafortunados é logicamente bom. Porém, a
    transmissão em massa, aos nossos descendentes, dos resultados
    de mutações desfavoráveis, e o contágio progressivo da reserva
    genética o qual os membros da nossa espécie terão de beber, não
    é menos logicamente mau. Estamos nas extremidades de um
    dilema ético, e para acharmos o caminho intermediário serão
    necessárias toda a nossa inteligência e toda a nossa boa vontade.
    .:: 3. Superorganização ::.
    A estrada mais curta e mais larga em direção ao pesadelo do
    Admirável Mundo Não passa, como já assinalamos, através da
    superpopulação e do aumento sempre crescente do número total
    de seres humanos – dois biliões e oitocentos milhões hoje, cinco
    biliões e quinhentos milhões ao findar do século, com a maior
    parte da humanidade encarando a escolha entre a anarquia e o
    controle total. Porém a pressão crescente do número de seres
    humanos sobre os recursos disponíveis não é a única força que
    nos impele em direção ao totalitarismo. Este cego inimigo
    biológico da liberdade é aliado com forças muitíssimo poderosas,
    geradas precisamente pelos progressos efetuados no campo da
    tecnologia, de que mais nos orgulhamos; do que nos orgulhamos
    justificadamente, pode acrescentar-se; porque estes progressos
    são os frutos do gênio, e do árduo trabalho persistente da lógica,
    da imaginação, do sacrifício – enfim, de virtudes morais e
    intelectuais pelas quais não se pode ter senão admiração. Mas a
    Natureza das Coisas é tal que ninguém neste mundo pode atingir
    coisa alguma sem dar alguma coisa em troca. Tivemos que pagar
    estes progressos espantosos e de fato admiráveis, tal como a
    lavadora do ano precedente que ainda não foi paga – e cada
    prestação é mais elevada do que a imediatamente anterior. Muitos
    historiadores, muitos sociólogos e psicólogos escreveram
    longamente, e com profundo pesar, sobre o preço que o homem
    do Ocidente tem de pagar e continuará a pagar para o progresso
    técnico. Eles assinalam, por exemplo, que pouca esperança se
    pode ter em que a democracia floresça em sociedades onde o
    poder econômico e político será progressivamente concentrado e
    centralizado. Porém, o progresso da tecnologia conduziu e ainda
    conduz precisamente a uma tal concentração e centralização do
    poder. À medida que o mecanismo de produção em massa se
    torna mais eficiente tende a tornar-se mais complexo e mais
    dispendioso – e, portanto, longe do alcance do homem
    empreendedor que possui poucos recursos. Além disso, a
    produção em larga escala não pode funcionar sem uma
    distribuição em grande escala; a distribuição em grande escala
    apresenta problemas que só os maiores produtores podem
    resolver razoavelmente. Em um mundo de produção e de
    distribuição em grande escala os Pequenos, com o seu fundo
    insuficiente de capital operante, vêem-se em grande desvantagem.
    Em competição com os Grandes perdem o seu capital e,
    finalmente, a sua própria existência como produtores
    independentes; os. Grandes engoliram-nos. Quando os Pequenos
    desaparecem, é cada vez maior o poder econômico que passa a
    ser manipulado por mãos cada vez menos numerosas. Sob uma
    ditadura, o Alto Negócio, tornado realizável pelo progresso
    tecnológico e pela conseqüente ruína do Pequeno Negócio, é
    controlado pelo Estado – isto é, por um grupo pequeno de chefes
    políticos e de militares, polícias e funcionários civis que lhes
    executam as ordens. Numa democracia capitalista, como os
    Estados Unidos, é controlado pelo que o Prof. C. Wright Mills
    chamou a Elite do Poder. Esta Elite do Poder emprega
    diretamente milhões de unidades de mão de obra do país nas suas
    fábricas, escritórios e armazéns; controla muitos milhões de
    outros homens, emprestando-lhes dinheiro para adquirirem os
    seus produtos e, pela sua posse dos meios de comunicação com
    as massas, influencia os pensamentos, sentimentos e ações de
    quase toda a gente. Relembrando as palavras de Winston
    Churchill, nunca tantos foram dirigidos por tão poucos. Estamos
    de fato muito distante do ideal de Jefferson : uma sociedade
    francamente livre composta de uma hierarquia de unidades que se
    autogovernam – “as repúblicas elementares das circunscrições, as
    repúblicas das comarcas, as repúblicas dos Estados e a República
    da União, formando um crescimento de autoridade.”
    Vemos, pois, que a tecnologia moderna tem conduzido à
    concentração do poder econômico e político, e ao
    desenvolvimento de uma sociedade controlada (inflexivelmente
    nos Estados totalitários, polida e imperceptivelmente nas
    democracias) pelo Alto Negócio e pelo Alto Governo. Mas as
    sociedades são compostas de indivíduos e só são boas à medida
    em que ajudam os seres a realizar as suas potencialidades e
    conduzem a uma vida feliz e criadora. Como é que os indivíduos
    foram simulados pelos progressos técnicos dos anos recentes? Eis
    a resposta dada a esta pergunta por um filósofo-psiquiatra, Dr.
    Erich Fromm :
    “A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do
    seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez
    menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior,
    a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende
    a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as
    doenças mentais cada vez mais freqüentes e desespero oculto sob
    um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.”
    As nossas “doenças mentais cada vez mais freqüentes”
    podem achar manifestação em sintomas neuróticos. Estes
    sintomas são patentes e extremamente perigosos. Mas, “cuidemonos”,
    diz o Dr. Fromm, “de definir a higiene mental como
    prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos
    inimigos, porém, nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e
    conflito indica sempre que as forças da vida, que pugnam pela
    harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença
    mental realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem
    mais normais. “Muitos dos que são normais, são-no porque se
    encontram tão bem adaptados ao nosso modo de viver, porque as
    suas vozes humanas ficaram reduzidas ao silêncio tão cedo em
    suas vidas, que nem porfiam, ou sofrem, ou exibem sintomas
    como o neurótico.” São normais, não no que se pode denominar
    o sentido restrito da palavra; são normais apenas em relação a
    uma sociedade imensamente, anormal. O seu perfeito
    ajustamento a esta sociedade anormal dá a proporção da sua
    doença mental. Estes milhões de indivíduos anormalmente
    normais que vivem sem aparato numa sociedade a que, se fossem
    seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda
    acariciam “a ilusão da individualidade”, mas de fato foram em
    larga escala desindividualizados. A sua conformidade continua
    evoluindo para algo como a uniformidade. Mas, “uniformidade e
    liberdade são contraditórias. A uniformidade e a saúde mental são
    igualmente incompatíveis... O homem não foi preparado para ser
    um autômato, e se se transforma em autômato, a base da saúde
    mental estará arruinada.”
    No transcorrer da sua evolução, a natureza não se furtou a
    desgraças sem fim para que cada indivíduo fosse diferente dos
    outros indivíduos. Reproduzimos a nossa espécie estabelecendo
    contato entre os genes do pai com os genes da mãe. Estes fatores
    hereditários podem ser dispostos num número quase infinito.
    Física e mentalmente, cada um de nós é exclusivo. Qualquer
    cultura que, no interesse da eficácia, ou em nome de qualquer
    dogma político ou religioso, procura padronizar o indivíduo
    humano, comete um ultraje contra a natureza biológica do
    homem.
    A Ciência pode ser determinada como a redução da
    multiplicidade à unidade. Procura explicar os ilimitadamente
    diversos fenômenos da natureza ignorando a unicidade das
    ocorrências particulares, concentrando-se sobre o que eles
    apresentam de comum e, finalmente, abstraindo uma “lei”, em
    termos que façam sentido e com os quais possamos realmente
    lidar. Por exemplo : os frutos caem das árvores e a lua move-se
    pelo céu. Os homens notaram estes fatos desde tempos
    imemoriais; como Gertrude Stein, estavam convencidos de que,
    uma maçã é uma maça, ao passo que a lua é a lua. Estava
    reservado a Isaac Newton aperceber-se do que estes fenômenos
    dissemelhantes tinham em comum, e o expôs numa teoria da
    gravitação em termos tais que alguns aspectos do comportamento
    das maçãs, dos corpos celestes e até de todas as demais coisas do
    universo físico possam ser explicados e estudados em termos de
    um único sistema de idéias. Seguindo o mesmo espírito, o artista
    toma as inumeráveis variedades e unicidades do mundo externo,
    e a sua própria imaginação, e dá-lhes sentido dentro de um
    sistema determinado de modelos plásticos, literários ou musicais.
    O anelo de conferir ordem à confusão, de originar a harmonia a
    partir da dissonância, e a unidade da multiplicidade, é uma espécie
    de instinto intelectual, impulso primário e básico do espírito.
    Dentro dos domínios da Ciência, da Arte e da Filosofia os efeitos
    do que posso denominar “Vontade de Ordem” são sobretudo
    benéficos. Na verdade, a “Vontade de Ordem” originou muitas
    sínteses prematuras fundadas em dados insuficientes, muitos
    sistemas paradoxais de metafísica e de teologia, muita confusão
    pretensiosa entre as idéias e a realidade, entre os símbolos e
    abstrações e os dados da experiência imediata. Contudo estes
    erros, por mais lamentáveis que sejam, não prejudicaram muito,
    pelo menos diretamente – se bem que aconteça por vezes que um
    mau sistema filosófico possa prejudicar indiretamente, ao ser
    aplicado como justificação para ações carentes de sentido e
    inumanas. É na esfera social, no domínio da política e da
    economia, que a “Vontade de Ordem” se converte realmente em
    perigo.
    Aqui, a conversão teórica da ingovernável multiplicidade à
    unidade compreensiva transforma-se na redução prática da
    diversidade humana à uniformidade subumana, da liberdade à
    servidão. Em política, o equivalente de uma doutrina científica ou
    de um sistema filosófico plenamente desenvolvido é um sistema
    totalitário. Em economia, o equivalente a uma obra de arte criada
    com beleza é uma fábrica que funciona sem obstáculos, na qual
    os operários se encontram perfeitamente adaptados às máquinas.
    A Vontade de Ordem pode converter em tiranos os que aspiram
    simplesmente a desfazer a confusão. A beleza da, boa ordenação
    é aplicada como justificação para o despotismo.
    A organização é indispensável; porque a liberdade só surge e
    tem sentido dentro de uma comunidade auto-regulamentada de
    indivíduos que colaboram livremente. Porém, mesmo que
    indispensável, a organização pode também ser fatal. A
    organização em excesso transforma em autômatos homens e
    mulheres, reprime o espírito criador e elimina a própria
    possibilidade de liberdade. Como sempre, o único caminho
    seguro está no meio-termo, entre o excesso do laissez-faire, num
    dos topos da escala, e o controle total, no outro extremo.
    Durante o século passado, os progressos sucessivos da
    tecnologia foram seguidos de progressos adequados no campo da
    organização. A maquinaria complicada foi contrabalançada por
    complexas disposições sociais, destinadas a trabalharem tão
    branda e eficientemente como os novos instrumentos de
    produção. A fim de se adaptarem nestas organizações, os
    indivíduos viram-se, eles mesmos, forçados a
    desindividualizarem-se, renegaram a sua diversidade nativa, e se
    conformaram com um modelo padronizado, fizeram o máximo,
    em suma, para se tornar autômatos.
    Estes resultados desumanizadores da superorganização são
    reforçados pelos resultados desumanizadores da superpopulação.
    A indústria, quando se expande, atrai uma proporção cada vez
    maior de homens para os grandes centros. Mas a vida nas grandes
    cidades não leva à saúde mental (a mais alta incidência de
    esquizofrenia, dizem-nos, encontra-se entre os enxames de
    habitantes dos bairros sórdidos dos setores industriais) ; a
    indústria também não desenvolve o gênero de liberdade
    responsável dentro de pequenos grupos autônomos, que é a
    condição sine-qua-non da verdadeira democracia. A vida na
    cidade é anônima e, por isso mesmo, abstrata. As pessoas se
    relacionam umas com as outras, não como personalidades
    integrais, mas como personificações de funções econômicas ou,
    quando não estão no emprego como pessoas que procuram
    irrefletidamente o entretenimento. Sujeitos a uma vida desta
    espécie, os indivíduos tendem a sentir-se solitários e sem
    importância. A sua existência deixa de ter qualquer importância
    ou qualquer sentido.
    Biologicamente falando, o homem é um ser moderadamente
    gregário, e não completamente social – uma criatura mais
    parecida ao lobo, por exemplo, ou a uma formiga. Na sua forma
    primitiva, as sociedades humanas nada tinham em comum com
    um cortiço ou com um formigueiro; eram, apenas, grupos. A
    Civilização é, entre outras coisas, o processes pelo qual os grupos
    primitivos são transformados num análogo, grosseiro e mecânico,
    às comunidades orgânicas dos insetos sociais. Presentemente, a
    explosão da superpopulação e das modificações tecnológicas
    estão acelerando este processo. A termiteira representa agora um
    ideal realizável e, para alguns, até desejável. É desnecessário
    repetir que o ideal jamais será, de fato, atingido. Um grande
    abismo separa o inseto socializável do mamífero não muito
    gregário e dotado de um grande cérebro; e ainda que o mamífero
    aplicasse todos os esforços por imitar o inseto, o abismo
    continuaria. Por maior que seja a tentativa, os homens não
    conseguem criar um organismo social, apenas pode criar uma
    organização. Insistindo nas tentativas de criação de um
    organismo, os homens instituirão tão somente um despotismo
    totalitário.
    O Admirável Mundo Novo apresenta um quadro fictício e
    um pouco grosseiro de uma sociedade em que a tentativa de
    recriar seres humanos à semelhança de térmites foi levada quase
    até as raias do possível. Que estamos sendo impulsionados em
    direção do Admirável Mundo Novo é evidente. Porém não é
    menos lógico v fato de que nos podemos, se assim o quisermos,
    recusar a cooperar com as forças obscuras que nos impulsionam.
    Por ora, todavia, a ânsia de resistir não nos parece ser muito forte
    ou muito generalizada. Como o sr. William Whyte apresentou no
    seu notável livro, The Organization Man, uma nova Ética Social
    está substituindo o nosso sistema ético tradicional – o sistema em
    que o indivíduo se apresenta em primeiro lugar. As palavraschave
    desta Ética Social são : “ajustamento”, “adaptação”,
    “comportamento socialmente orientado”, “integração”,
    “aquisição de técnicas sociais”, “trabalho de equipe”, “vida em
    grupo”, “lealdade ao grupo”, “dinâmica de grupo”, “pensamento
    de grupo” e “criatividade de grupo”. A sua afirmação
    fundamental é a de que o todo social tem mais valor e
    importância do que as suas partes peculiares, que as diferenças
    biológicas inatas devem ser renunciadas à uniformidade cultural,
    que os direitos da coletividade têm primazia sobre o que o século
    XVIII proclamava os Direitos do Homem. De acordo com a
    Moral Social, Jesus errou completamente ao afirmar que o sabbat
    fora feito para o homem. Pelo contrário, o homem é que foi feito
    para o sabbat, e deve sacrificar as suas idiossincrasias herdadas e
    pretender ser o tipo de bom rapaz sociável que os organizadores
    da atividade de grupo consideram ideal para os seus objetivos.
    Este ser ideal é o homem que exibe o “conformismo dinâmico”
    (deliciosa frase! ) e uma forte lealdade ao grupo, um incansável
    desejo de se subordinar, de ser aceito. E o homem ideal deve ter
    uma mulher ideal, altamente gregária, infinitamente adaptável, e
    não apenas conformada ao fato de que a primeira lealdade de seu
    marido seja para a Corporação, senão que também bastante leal
    por sua conta própria. “Ele só para Deus”, como disse Mílton de
    Adão e Eva, “ela para Deus nele”. E um aspecto importante, a
    mulher do homem ideal para a organização é, em grande parte,
    menos partilhada do que o foi nossa mãe Eva. A ela e a Adão
    consentiu o Senhor que não tivessem quaisquer inibições em
    matéria de “carícias juvenis”.
    Nem Adão se afastava, suponho,
    de sua alegre esposa, nem Eva recusava
    os ritos misteriosos do amor conjugal.
    Hoje, de acordo com um colaborador da Harvard Business
    Review, a mulher do homem que procura viver à altura do ideal
    proposto pela Ética Social “não deve exigir demasiado tempo e
    interesse de seu marido. Devido ao seu concurso exclusivo para o
    trabalho, até a sua atividade sexual deve ser relegada para segundo
    plano.” O monge faz votos de castidade, pobreza e obediência. O
    homem da organização é autorizado a ser rico, porém promete
    obediência (“aceita a autoridade sem ressentimento, e admira os
    seus superiores” – Mussolini Ha sempre ragione) e deve estar
    apto, para maior glória da organização que o emprega, a rejeitar
    até o amor conjugal.*
    * Com Mao TseTung esses conselhos capitalistas de perfeição se transformaram em
    mandamentos e modificados como regulamentos. Nas novas Comunidades Populares a
    condição conjugal foi abolida. Não havendo ternuras mútuas, maridos e esposas habitam
    barracões separados e lhes é permitido dormir juntos (por um breve período de uma ou duas
    horas, como prostitutas e seus clientes) somente em noites alternadas de sábado.
    É importante notar que, em 1984, os membros do Partido
    eram compelidos a conformar-se a uma moral sexual de uma
    severidade mais do que puritana. No Admirável Mundo Novo,
    por outro lado, qualquer pessoa tem o direito de satisfazer os seus
    desejos sem preconceito ou constrangimento. A sociedade
    exposta na ficção de Orwell é uma sociedade permanentemente
    em guerra, e o objetivo dos seus dirigentes é, em primeiro plano,
    decerto, exercer o poder para seu gozo próprio e, em segundo
    plano, manter os seus súditos num estado de tensão constante
    que um estado de guerra constante exige daqueles que a travam.
    Fazendo cruzada contra a sexualidade, os dirigentes estão aptos a
    manter a tensão requerida aos seus seguidores e ao mesmo tempo
    podem satisfazer de uma forma mais amena a sua cobiça de
    poder. A sociedade descrita no Admirável Mundo Novo é um
    Estado mundial em que a guerra foi eliminada e onde o principal
    objetivo dos que a conduzem é tolher a todo custo que os seus
    súditos causem quaisquer perturbações. Conseguem isto pela
    (entre outros métodos) legalização de um relativo grau de
    liberdade sexual (tornada possível pela abolição da família) que
    assegura praticamente os habitantes do Admirável Mundo Novo
    de qualquer forma de tensão emocional destrutiva (ou criadora).
    Em 1984 o desejo de poder é satisfeito infligindo-se o
    sofrimento; no Admirável Mundo Novo, infligindo um prazer
    pouco menos humilhante.
    A Ética Social corrente, é evidente, constitui apenas uma
    justificação a posteriori das conseqüências menos desejáveis da
    superorganização. Representa uma tentativa enternecedora para
    fazer da necessidade virtude para exaurir um valor positivo de um
    elemento desagradável da experiência. É um sistema de
    moralidade de fato irrealista e, portanto, bastante perigoso. O
    todo social, cujo valor se considera maior do que o das suas
    partes componentes, não é um organismo como um cortiço ou
    uma termiteira podem ser considerados como tal. É apenas uma
    organização, uma peça do maquinismo social. Só pode ter valor
    relativamente à vida e à consciência. Uma organização não é
    consciente nem viva. O seu valor é instrumental e derivado. Não
    é boa em si; é boa apenas na medida em que promove o bem dos
    indivíduos que são partes do todo coletivo. Dar primazia às
    organizações sobre as pessoas é subordinar os fins aos meios. O
    que sucede quando os fins são subordinados aos meios foi
    claramente comprovado por Hitler e por Stalin. Sob os seus
    repugnantes governos, os fins pessoais eram subordinados aos
    meios da organização devido a uma mistura de violência e de
    propaganda, terror sistemático e sistemática manipulação de
    espíritos. Nas mais eficientes ditaduras do futuro haverá, talvez,
    muito menos violência do que sob Hitler e Stalin. Os súditos do
    ditador do futuro serão governados sem sofrimentos por um
    corpo de Engenheiros Sociais altamente instruídos. “O desafio
    lançado pela engenharia social do nosso tempo”, escreve um
    advogado admirador desta nova ciência, “é como o desafio
    lançado pela engenharia técnica há cinqüenta anos. Se a primeira
    metade do século XX foi a era dos engenheiros técnicos, a
    segunda metade bem pode ser p, era dos engenheiros sociais” – e
    o século XXI, cálculo, será a era dos Administradores do Mundo,
    do sistema científico das casas e do Admirável Mundo Novo. À
    pergunta quis custodiet custodes? – quem montará guarda em
    volta dos nossos guardas, quem será o engenheiro desses
    engenheiros? – a resposta é uma suave negação de que eles
    precisem de qualquer supervisão. Parece ser uma crença
    concernente, entre os doutorados em sociologia, a de que os
    doutorados em sociologia jamais serão corrompidos pelo poder.
    Assim como Sir Galahad, a força deles é semelhante à força de
    dez porque o seu coração é puro – e o coração deles é puro
    porque são cientistas e despenderam seis mil horas de aulas sobre
    Ciências Sociais.
    Ai de nós, a instrução superior não é precisamente uma
    certeza de virtude superior, ou de superior sabedoria política. E a
    estes receios originados por causas morais e psicológicas devem
    acrescentar-se receios de índole puramente científica. Podemos
    nós aceitar as teorias nas quais os engenheiros sociais assentam a
    sua prática, e em cujos termos eles justificam a sua condução dos
    seres humanos? Por exemplo, o Prof. Elton Mayo diz-nos
    formalmente que “o desejo que o homem experimenta de estar
    seguidamente associado aos seus semelhantes no trabalho é uma
    característica humana relevante, senão a mais relevante.” Pareceme
    que isto é obviamente uma inverdade. Algumas pessoas
    possuem essa espécie de desejo descrito por Mayo; outras não o
    experimentam. É apenas uma questão de temperamento e de
    constituição hereditária. Qualquer organização social alicerçada
    no princípio de que o “homem” (seja qual for o “homem” que
    possa ser) deseja estar seguidamente associado aos seus
    semelhantes seria, para muitos homens e muitas mulheres, um
    leito de Procusta. Seria necessário amputá-los ou levarem-nos ao
    pelourinho para que se adaptassem a isso.
    Depois, como são quimericamente enganadoras as
    descrições líricas da Idade Média, com as quais muitos teoristas
    contemporâneos das relações sociais adornam as suas obras! “O
    fato de pertencer a uma guilda, a um domínio senhorial ou a uma
    aldeia protegia o homem medieval durante sua vida e oferecia-lhe
    paz e serenidade.” Protegia-o de quê, pode-se saber? Certamente,
    não de maus tratos que os seus senhores lhe infligiam sem
    remorsos. E do mesmo modo que toda essa “paz e serenidade”
    havia, através de toda a Idade Média, uma grande onda de
    frustração crônica, infelicidade aflitiva e um ressentimento
    arrebatado contra o rígido e hierárquico sistema que não permitia
    qualquer movimento vertical rumo ao topo da escala social e,
    para aqueles que estavam presos à terra, muito pouco movimento
    horizontal no espaço. As forças impessoais da superpopulação e
    da superorganização, e os engenheiros sociais que estão tentando
    dirigir essa forças, estão a impelir-nos em direção a um novo
    sistema medieval. Este ressurgimento será mais aceitável do que o
    original, através de algumas amenidades do Admirável Mundo
    Novo, tais como o condicionamento pré-natal, o ensino durante
    o sono e a euforia provocada por drogas; mas, para a maioria dos
    homens e das mulheres, isso será ainda um tipo de servidão.
    .:: 4. A Propaganda Numa Sociedade Democrática ::.
    “As doutrinas da Europa”, escreveu Jefferson, “diziam que
    os homens, dentro de associações numerosas, não podiam ser
    confinados no interior dos limites da ordem e da justiça, a não ser
    por forças físicas e morais desencadeadas sobre eles por
    autoridades alheias ao seu querer... Nós (os fundadores da nova
    democracia americana) cremos que o homem é um animal
    racional, dotado de direitos pela natureza, e com um sentido inato
    de justiça, que pode ser obstado de prejudicar, e conservado no
    bem, através de poderes moderados, confiados a pessoas de sua
    própria escolha e ligadas aos seus deveres por dependência da sua
    própria vontade.” Para ouvidos pós-freudianos, este tipo de
    linguagem parece concernentemente extravagante e ingênuo. Os
    seres humanos são, em grande parte, menos racionais e
    inatamente justos do que supunham os otimistas do século
    XVIII. Por outro lado, nem são tão moralmente cegos nem tão
    incontestemente desrazoáveis como os pessimistas do século XX
    pretenderam fazer acreditar. A despeito do Id e do
    Subconsciente, a despeito da neurose endêmica e da supremacia
    de baixos quocientes de inteligência, a maioria dos homens e das
    mulheres são, talvez, suficientemente honestos e razoáveis para
    lhes ser entregue a direção dos seus próprios destinos. As
    instituições democráticas são preceitos destinados a conciliar a
    ordem social com a liberdade e a iniciativa individual, e submeter
    o poder imediato dos governantes de um país ao poder último
    dos governados. O fato de estes preceitos, na Europa Ocidental e
    na América, terem funcionado no final das contas, de forma que
    não foi de todo má, é prova bastante de que os otimistas do
    século XVIII não se enganaram completamente. Se lhes oferecem
    oportunidade, os seres humanos podem governar-se a si próprios,
    e governar-se a si próprios melhor, ainda que talvez com menos
    eficiência mecânica, do que podem sê-lo por “autoridades alheias
    à sua vontade”. Se lhes oferecem boa oportunidade, repito;
    porque a oportunidade é um requisito prévio indispensável.
    A respeito de nenhum povo que passa abruptamente de um
    estado de servilismo, sob o governo de uma déspota, para um
    estado ainda não experimentado de independência política,
    podes-e dizer que teve um grande ensejo para fazer funcionar as
    instituições democráticas. Além disso, nenhum povo em
    condições econômicas precárias tem uma grande oportunidade
    para estar capaz de governar-se democraticamente a si próprio. O
    liberalismo prospera numa atmosfera de progresso e declina
    quando a prosperidade decadente exige do governo a sua
    intervenção, cada vez mais freqüente e drástica, nos assuntos dos
    seus súditos. A superpopulação e a superorganização são duas
    condições que, como já observei, retiram de uma sociedade a boa
    oportunidade de fazer as instituições democráticas funcionarem
    efetivamente. Vemos, pois, que há determinadas condições
    históricas, econômicas, demográficas e tecnológicas que tornam
    bastante difícil aos animais racionais de Jefferson, dotados pela
    natureza de direitos inalienáveis e de um sentimento inato da
    justiça, o exercício da sua razão, a reivindicação dos seus direitos
    e o agirem de maneira honesta numa sociedade
    democraticamente organizada. Nós, no Ocidente, tivemos a
    felicidade inestimável de nos ter sido oferecida boa oportunidade
    de realizarmos a grande experiência do autogoverno.
    Infelizmente, parece agora que, devido a transformações recentes
    do nosso ambiente, essa oportunidade imensamente preciosa
    está, pouco a pouco, sendo afastada de nós. E isto talvez não seja
    tudo. Estas forças impessoais cegas não são as únicas inimigas da
    liberdade individual e das instituições democráticas. Há também
    forças de outra tendência, menos abstrata, forças que podem ser
    deliberadamente empregadas por homens ávidos de poder, cujo
    objetivo seja estabelecerem controle parcial ou total sobre os seus
    semelhantes. Há cinqüenta anos, quando eu era rapaz, parecia
    evidente que os maus dias de outrora tinham terminado, que a
    tortura e o massacre, a escravidão e a perseguição do herético
    eram coisas do passado. Para as pessoas que usavam chapéu alto,
    viajavam em trens, e tornavam banho todas as manhãs, tais
    horrores estavam simplesmente fora de discussão. Afinal de
    contas, vivíamos no século XX. Alguns anos mais tarde, estas
    pessoas que tornavam um banho diário e iam à igreja, de cartola,
    praticavam atrocidades em grau tal que os Africanos e os
    Asiáticos, mergulhados nas trevas da ignorância, jamais
    sonharam. À luz da história recente, seria loucura supor que este
    estado de coisas não possa voltar a suceder outra vez. Pode e,
    sem dúvida, sucederá. Mas, num futuro imediato, há alguma
    razão para acreditarmos que os métodos punitivos de 1984
    cederão lugar aos reforços e manipulações do Admirável Mundo
    Novo.
    Há dois tipos de propaganda – propaganda racional a favor
    da ação que é de acordo com o próprio interesse esclarecido
    daqueles que a fazem e daqueles a quem é dirigida, e a
    propaganda não-racional, que não é de acordo com o próprio
    interesse esclarecido de ninguém, mas que é ditada por e apeia
    para, paixões, impulsos cegos, desejos ou medos inconscientes.
    Quando se trata de atas individuais, existem motivos mais
    elevados do que o interesse próprio bem compreendido, mas
    quando se trata de uma ação coletiva, no domínio da política e da
    economia,, o próprio interesse bem compreendido é, talvez, o
    mais importante dos incentivos. Se os Políticos e seus eleitores
    procedessem sempre com o objetivo de promover o seu próprio
    interesse durável, ou o do seu país, este mundo seria um paraíso
    terrestre. Na verdade, procedem muitas vezes contra o seu
    próprio interesse, apenas para satisfazer as paixões menos dignas
    de surpresa; o mundo, por conseqüência, é um vale de lágrimas.
    A propaganda encaminhada a favor da ação que concorda com o
    interesse bem compreendido apeia para a razão por meio de
    indícios lógicos baseados sobre as provas livres mais sólidas,
    expostas honesta e totalmente. A propaganda a favor da ação
    inspirada por impulsos que estão abaixo do verdadeiro interesse,
    apresenta provas falsas, falsificadas ou incompletas, evita os
    argumentos lógicos e procura influenciar as suas vítimas pela
    simples repetição de frases feitas, pela denúncia louca de bodes
    expiatórios, estrangeiros ou domésticos, e pela associação hábil
    das paixões mais vis com os mais elevados ideais, de modo tal
    que são perpetradas atrocidades em nome de Deus e a mais cínica
    espécie de realpolitik chega a converter em algo como um
    princípio religioso ou um dever patriótico.
    Segundo os princípios de John Dewey, “um rebento de fé
    na natureza humana comum, nas suas potencialidades em geral, e
    no seu poder, em particular, de anuir à razão e à verdade, é
    obstáculo mais seguro contra o totalitarismo do que uma
    demonstração de êxito material, ou do que a devoção religiosa
    por uma certa manifestação legal e política.” O poder de anuir à
    razão e à verdade existe em todos nós. Mas, da mesma maneira,
    infelizmente, também há a tendência para anuirmos à desrazão e
    à falsidade – particularmente naqueles casos em que a falsidade
    evoca qualquer emoção deliciosa, ou onde o apelo à desrazão faz
    vibrar qualquer corda, que lhe corresponde, das profundidades
    subumanas e primitivas do nosso ser. Em certas atribuições da
    atividade, os homens aprenderam a responder à razão e à verdade
    com plena conformidade. Os autores de artigos eruditos não
    apeiam para as paixões dos seus camaradas cientistas e técnicos.
    Expõem o que, em sincera consciência, é a verdade sobre
    qualquer aspecto particular da realidade, utilizam a razão para
    explicar os fatos que observaram, e sustentam o seu ponto de
    vista com testemunhos que apeiam para a razão de outras
    pessoas. Tudo isto é relativamente simples no setor das ciências
    físicas e da tecnologia. É muito mais difícil no setor da política, da
    religião e da ética. Aqui, os fatos principais fogem-nos muitas
    vezes, assim como o significado dos fatos que depende
    obviamente do sistema particular de idéias em cujos termos
    deliberamos interpretá-los. E estes não são o.; únicos obstáculos
    com que topa quem procura a verdade razoavelmente. Na vida
    pública e privada, sucede muitas vezes que não há apenas tempo
    para colher os fatos relevantes ou para avaliar a importância deles.
    Somos forcados a agir firmados em fatos insuficientes e dirigidos
    por uma luz bem menos refulgente do que a da lógica. Com a
    melhor das boas vontades do mundo, nem sempre podemos ser
    totalmente verdadeiros ou logicamente racionais. Tudo o que está
    ao nosso alcance é sermos tão verdadeiros e racionais quanto as
    circunstâncias o permitam, e reagirmos como pudermos à
    limitada verdade e aos raciocínios imperfeitos, oferecidos à nossa
    consideração por outros.
    “Se uma nação diz-se ignorante e livre”, disse Jefferson,
    “espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem
    estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e
    cada homem capaz de ler, tudo está salvo.” Do outro lado do
    Atlântico, na mesma época, outro crente exaltado da razão,
    pensava em termos quase precisamente iguais. Observe-se o que
    John Stuart Mill escrevia a respeito de seu pai, o filósofo
    utilitarista James Mill. “Tão completa era a sua confiança no
    domínio da razão sobre o espírito humano, sempre que lhe é
    dada a possibilidade de o atingir, que percebia que tudo estaria
    salvo se toda a população fosse capaz de ler e se permitisse-se
    que toda espécie de opiniões fosse dirigida aos homens pela
    palavra ou pela escrita, e se, pelo voto, os homens pudessem
    eleger uma legislatura que efetuasse as opiniões que tivessem
    adotado.” Tudo está salvo, tudo estaria ganho! Mais uma vez,
    ouvimos a voz do otimismo do século XVIII. É verdade que
    Jefferson era tão realista quanto otimista. Sabia, por amarga
    experiência, que da liberdade de Imprensa pode-se abusar
    escandalosamente. Jefferson declarou : “Em nada do que se lê
    num jornal pode-se acreditar atualmente”. Contudo, Jefferson
    afirmava (e nós só devemos concordar com ele), que “nos limites
    da verdade, a Imprensa é uma nobre instituição, igualmente amiga
    da ciência e da liberdade civil.” A comunicação com as massas,
    em uma palavra, não é boa nem má; é simplesmente um poder e,
    como qualquer outro poder, pode ser bem ou mal empregado.
    Utilizados de uma maneira, a Imprensa, o rádio e o cinema são
    imprescindíveis para a sobrevivência da democracia. Utilizados de
    modo diverso, encontram-se entre as armas mais poderosas do
    arsenal dos ditadores. No campo da comunicação com as massas,
    como em quase todos os demais campos da indústria humana, o
    progresso técnico lesou os Pequenos e favoreceu os Grandes. Há
    apenas cinqüenta anos, todos os países democráticos
    orgulhavam-se do grande número de pequenos jornais e diários
    locais. Milhares de editoriais expressavam milhares de opiniões
    independentes. Por toda parte imprimia-se praticamente o que
    quisesse. Hoje, a Imprensa é ainda legalmente livre; mas a maioria
    desses pequenos jornais desapareceu. O custo do papel, das
    máquinas das modernas tipografias e das agências de informação,
    é muito elevado para os Pequenos. No Leste totalitário há uma
    censura política, e os meios de comunicação com as massas são
    controlados pelo Estado. No Ocidente democrático há a censura
    econômica e os meios de comunicação com o povo são
    controlados pela “Elite do Poder”. A censura, através do
    aumento das despesas e a concentração do poder de comunicação
    nas mãos de alguns grandes organismos, é menos censurável do
    que o monopólio do Estado e a propaganda governamental; mas
    não é, com certeza, algo que um democrata jeffersoniano deva
    aprovar.
    No que diz respeito à propaganda, os primeiros defensores
    da instrução obrigatória e de uma Imprensa livre só enfrentavam
    duas possibilidades : a propaganda podia ser verdadeira ou falsa.
    Não previam o que realmente sucedeu, principalmente nas nossas
    democracias capitalistas acidentais – o crescimento de uma vasta
    indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte
    não se preocupa nem com o verdadeiro nem com o falso, mas
    com o irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa
    palavra, não levaram em conta o quase infinito apetite humano de
    distrações.
    No passado, a maioria das pessoas nunca teve oportunidade
    de satisfazer completamente este apetite. Desejavam demais
    distrações, mas não lhas forneciam. O Natal só surgia uma vez
    por ano, as festas eram “solenes e raras”, havia poucos leitores e
    muito pouco que ler, e o que havia mais aproximado de um
    cinema de bairro era a igreja paroquial, onde os espetáculos, se
    bem que freqüentes, eram bastante monótonos. Para encontrar
    condições, mesmo de longe comparáveis às atualmente
    existentes, temos de recuar até à Roma Imperial, onde o povo era
    mantido de bom humor graças a doses repetidas e gratuitas das
    mais variadas distrações – desde os dramas em verso até os
    combates dos gladiadores, desde recitais de Virgílio até os
    combates de pugilismo, desde festivais de música até paradas
    militares e execuções públicas. Mas, mesmo em Roma, não havia
    nada de semelhante à distração contínua agora fornecida por
    jornais e magazines, pelo rádio, televisão e cinema. No Admirável
    Mundo Novo, as distrações contínuas da mais fascinante natureza
    são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo,
    com a finalidade de obstar o povo de prestar demasiada atenção
    às realidades da situação social e política. O mundo da religião é
    diferente do mundo do divertimento; mas parecem-se um com o
    outro por, decididamente, “não serem deste mundo”. Ambos são
    divertimentos e, se vivemos neles de forma excessivamente
    contínua, ambos podem tornars-e, segundo a frase de Marx, “o
    ópio do povo”, tornando-se assim uma ameaça à liberdade. Só
    uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os
    que estão constante e inteligentemente despertos podem
    alimentar a esperança de se governar a si próprios eficazmente
    por meios democráticos. Uma sociedade, cuja maioria dos
    membros dissipa uma grande parte do seu tempo não na vigília,
    não aqui e agora e no futuro previsível, mas em outra parte, nos
    outros mundos irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da
    mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às
    investidas daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.
    Na sua propaganda, os ditadores atuais limitam-se, na
    maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização –
    repetição de estribilhos que pretendem sejam aceitos como
    verdades, à supressão de fatos que eles pretendem sejam
    ignorados, ao desencadeamento e à racionalização de paixões que
    podem ser aplicadas nos interesses do Partido ou do Estado.
    Quando a arte e a ciência da manipulação vierem a ser mais bem
    conhecidas, os ditadores do futuro aprenderão, sem dúvida, a
    combinar estas técnicas com as distrações ininterruptas que, no
    Ocidente, ameaçam agora submergir num mar de irrelevância a
    propaganda racional indispensável à manutenção da liberdade
    individual e à sobrevivência das instituições democráticas.
    .:: 5. A Propaganda Sob Uma Ditadura ::.
    No seu processo após a Segunda Guerra Mundial, Albert
    Speer, ministro do Armamento de Hitler, pronunciou um longo
    discurso em que, com considerável argúcia, descrevia a tirania
    nazista e analisava-lhe os métodos. “A ditadura de Hitler”, disse,
    “diferençou, num ponto fundamental, de todas as que a
    antecederam historicamente. Foi a primeira ditadura no presente
    período do progresso técnico moderno, uma ditadura que aplicou
    um uso total de todos os recursos técnicos para dominar o seu
    próprio país. Através de artifícios técnicos como o rádio e o altofalante,
    oitenta milhões de pessoas foram privadas da liberdade
    de pensar. Desta maneira foi possível sujeitá-las ao desejo de um
    homem... Os ditadores que antecederam Hitler necessitavam de
    assistentes altamente qualificados mesmo nos escalões mais
    inferiores – homens que podiam pensar e agir de maneira
    totalmente livre. O sistema totalitário, no período do moderno
    desenvolvimento técnico, pode dispensar tais homens; graças a
    métodos modernos de comunicação, é possível mecanizar a
    direção dos escalões inferiores. Em conseqüência disto, surgiu o
    tipo atual do homem que recebe ordens e se abstém de críticas.”
    No Admirável Mundo Novo da minha profética ficção, a
    tecnologia avançou para muito além do ponto a que chegara no
    tempo de Hitler; em conseqüência, os que receberam ordens
    eram muito menos críticos do que os seus semelhantes nazistas,
    muito mais submissos à “elite” dirigente. Apesar disso, foram
    padronizados geneticamente e condicionados após o nascimento,
    de forma a realizarem as suas funções subalternas e, portanto, a
    comportarem-se de maneira tão previsível como máquinas.
    Conforme veremos noutro capítulo, este condicionamento dos
    “escalões inferiores” já é praticado nas ditaduras comunistas. Os
    Chineses e os Russos não se prendem meramente aos efeitos
    indiretos da tecnologia que sempre progride; trabalham
    diretamente nos organismos psicofísicos dos subordinados mais
    inferiores submetendo corpos e espíritos a um sistema de
    moderação inflexível e, sob todos os aspectos, altamente
    eficiente. “Quantos homens”, disse Speer, “têm sido obsediados
    pela pesadelo de que as nações pudessem ser um dia dominadas
    por meios técnicos. Esse pesadelo foi quase. concretizado pelo
    sistema totalitário de Hitler.” Quase, mas não totalmente. Os
    nazistas não tiveram tempo – e talvez não tivessem inteligência e
    os necessários conhecimentos – para fazer lavagens cerebrais e
    condicionar os seus escalões inferiores. Talvez seja este um dos
    motivos do seu fracasso.
    Desde o tempo de Hitler, o arsenal de dispositivos técnicos
    à disposição do aspirante a ditador foi consideravelmente
    aumentado. Além do rádio, do alto-falante, do cinema e das
    grandes rotativas, o publicista contemporâneo pode empregar a
    televisão para transmitir a imagem, assim como a voz, do seu
    cliente, e pode registrar tanto a voz como a imagem nos carretéis
    das fitas magnéticas. Graças ao progresso técnico, o Grande
    Irmão pode ser agora quase tão onipresente como Deus. E não é
    apenas na atribuição da técnica que a mão do aspirante a ditador
    recebeu novas forças. Desde o tempo de Hitler, têm-se realizado
    trabalhos notáveis nos campos da psicologia e da neurologia
    aplicadas, que são o campro próprio do propagandista, do
    doutrinador e do lavador de cérebros. Antigamente, estes
    especialistas na arte de transformar os espíritos dos homens eram
    empiristas. Através ele um método de aproximações constantes
    tinham apurado um determinado número de técnicas e métodos,
    que usavam com grande proveito sem, contudo, conhecerem
    necessariamente por que eram capazes. Hoje, a arte de controlar
    os espíritos está em vias de tornar-se uma ciência. Os praticantes
    desta ciência sabem o que estão fazendo e por quê. São guiados
    na sua obra por meio e hipóteses firmemente estabelecidas sobre
    uma grande massa de fatos experimentalmente constatados.
    Graças a novos pontos de vista, e a novas técnicas tornadas
    possíveis por esses novos pontos de vista, o pesadelo que foi
    “quase concretizado no ‘sistema totalitário de Hitler” não tardará
    talvez a ser totalmente realizável.
    Mas antes de discutirmos estes novos pontos de vista e estas
    novas técnicas, demos uma vista de olhos no pesadelo que quase
    se concretizou na Alemanha nazista. Quais eram os métodos
    aplicados por Hitler e Goebbels para “privarem oitenta milhões
    de pessoas da liberdade do pensamento e para sujeitarem-nas à
    vontade de um homem”? E qual seria a teoria e sobre qual
    natureza humana estes métodos terrivelmente bem ocorridos
    estavam baseados? Podemos encontrar a maioria das respostas a
    estas perguntas nas próprias palavras de Hitler. E como essas
    palavras são notavelmente claras e sagazes! Quando escreve
    acerca de devaneios tão amplos como Raça, História e
    Providência, Hitler é estritamente ilegível. Mas, quando escreve
    acerca das massas alemãs e dos meios que empregou para
    dominá-las e dirigi-las, o seu estilo se transforma. A ausência de
    sentido dá lugar ao sentido, as frases espalhafatosas cedem lugar a
    uma lucidez amarga e cínica. Nas meditações filosóficas, Hitler
    sonhava acordado ou traduzia idéias fumarentas e um tanto cruas
    de outras pessoas. Nas suas notas sobre as multidões e a
    propaganda Hitler escrevia sobre coisas que conhecia por
    experiência direta. Segundo as palavras do seu excelente biógrafo,
    Alan Bullock, “Hitler era o maior demagogo da história.” Aqueles
    que acrescentam “não além de um demagogo” falham na
    apreciação da natureza do poder político numa época de política
    de massas. Como ele próprio dizia, “Ser um dirigente significa
    estar apto a mover as massas”. O objetivo de Hitler era,
    primeiramente, mover as massas e após, tendo-as arrancado às
    suas fidelidades e moralidades tradicionais, impunha-lhes (com o
    consentimento hipnotizado da maioria) uma nova ordem
    autoritária, de sua própria inventiva. “Hitler”, escrevia Herman
    Rauschning em 1939, “tem uma profunda reverência pela Igreja
    Católica e pela ordem dos Jesuítas; não devido à sua doutrina
    cristã, mas devido ao “maquinismo” que eles elaboraram e
    controlaram, o seu método hierárquico, as suas táticas bastante
    hábeis, o seu profundo conhecimento da natureza humana e o
    sagaz uso da fraqueza humana para dominarem os crentes.”
    Clericalismo sem Cristianismo, a disciplina de uma regra
    monástica, não para maior glória de Deus ou para execução da
    salvação pessoal, mas para glória do Estado e para maior glória e
    poder do demagogo convertido em dirigente político – tal era o
    fim para que tendia a direção sistemática das massas.
    Vamos ver o que julgava Hitler das massas que dirigia, e
    como as movimentava. O princípio fundamental de que partia era
    um julgamento de valor : as massas são absolutamente
    desprezíveis. São incapazes de pensamento concentrado e
    desinteressadas de qualquer caso que ultrapasse a sua experiência
    direta. O seu comportamento é regulado, não pelo conhecimento
    e pela razão, mas por sensibilidades e impulsos inconscientes. É
    nestes impulsos e sensibilidades que “as raízes das suas atitudes,
    tanto positivas como negativas, estão implantadas”. Para obter
    êxito, um propagandista deve aprender a dirigir estes instintos e
    emoções. “A força de impulsão que ocasionou as revoluções mais
    terríveis do mundo nunca foi um corpo de ensinamentos
    científicos que estendesse a sua influência sobre as massas, porém
    foi sempre uma afeição que as inspirou, e muitas vezes como uma
    histeria que as impulsionou para a ação. Quem pretenda arrastar
    as multidões deve conhecer a chave que lhes abre a porta dos
    corações”. – Em termo pós-freudiano, do seu inconsciente.
    Hitler lançou o seu mais forte apelo àqueles membros da
    pequena burguesia que foram arruinados pela inflação de 1923, e
    depois arruinados novamente pela depressão de 1929 e dos anos
    seguintes. “As massas” de que falava eram estes milhões de
    pessoas desnorteadas, frustradas e inveteradamente ansiosas. Para
    os tornar mais “massa”, mais identicamente subumanos, Hitler
    reunia-os, por milhares e dezenas de milhares, em recintos e
    anfiteatros vastos onde os indivíduos normalmente perdiam a
    identidade pessoal, até mesmo a sua humanidade elementar, e
    fundiamse com a multidão. Um homem ou uma mulher tornam
    contato direto com a sociedade de duas maneiras : como membro
    de um grupo familiar, profissional ou religioso, ou como membro
    de uma multidão. Os grupos são capazes de ser tão morais e
    inteligentes como os elementos que os formam; uma multidão é
    desordenada, não tem objetivo próprio, e é capaz de qualquer
    desatino com exceção de ação inteligente e de pensamento
    realista. Agrupadas numa multidão, as pessoas perdem o poder de
    raciocínio e a capacidade da escolha moral. A sugestibilidade
    pode ser fomentada até o ponto em que cessam de ter qualquer
    juízo ou vontade própria. Tornam-se excitáveis, perdem todo o
    senso de responsabilidade individual ou coletiva, são sujeitos a
    acessos súbitos de ódio, de entusiasmo e de pânico. Numa
    palavra, uma pessoa numa multidão comporta-se como se tivesse
    tomado uma grande dose de tóxico. É uma vítima do que eu
    denominei “envenenamento gregário”. Como o álcool, o veneno
    gregário é uma droga ativa e estimulante. Os membros de uma
    multidão intoxicada fogem à responsabilidade, à inteligência e à
    moralidade, e entram numa espécie de animalidade frenética e
    alienada.
    Durante a sua longa carreira de agitador, Hitler estudou os
    efeitos do veneno gregário e aprendeu a expiá-los em benefício
    dos seus próprios fins. Descobriu que o orador pode apelar para
    aquelas “forças ocultas” que provocam as ações dos homens,
    muito mais eficientemente do que o escritor. Ler é uma ocupação
    privada e não coletiva. O escritor dirige-se apenas a indivíduos,
    sentados em suas casas, num estado de sobriedade normal. O
    orador fala para massas de indivíduos, já bastante contaminados
    pelo “veneno gregário”. Estão à sua mercê e, se conhece bem o
    seu ofício, pode fazer deles o que lhe agradar. Como orador,
    Hitler conhecia o seu ofício de forma elevada. Era capaz,
    segundo as suas próprias declarações, “de seguir a indicação da
    grande massa de maneira tal que, a partir da emoção viva dos seus
    ouvintes, era-lhe sugerida a palavra adequada de que necessitava
    e, por sua vez, esta ia direta ao coração dos seus ouvintes.” Otto
    Strasser denominou-o “um alto-falante, proclamando os desejos
    mais íntimos, os instintos menos admissíveis, os sofrimentos e
    revoltas pessoais de todo um país”. Vinte anos antes da Madison
    Avenue se ter lançado na “Investigação das Motivações”, Hitler
    explorava e utilizava metodicamente os temores e esperanças
    íntimas, os desejos, as ansiedades e frustrações das massas alemãs.
    É pelo manuseio de “forças ocultas” que os versados em
    publicidade nos induzem a comprar-lhes os produtos – um
    dentifrício, uma marca de cigarros, um candidato político. E foi
    recorrendo para as mesmas forças ocultas – e para outras
    demasiado perigosas para que a Madison Avenue tornasse
    contato com elas – que Hitler levou as massas alemãs a
    comprarem elas própria um Fuehrer, uma filosofia insana e a
    Segunda Guerra Mundial.
    Ao contrário das massas, os intelectuais têm gosto pela
    ponderação e interesse pelos acontecimentos. O espírito de critica
    torna-os resistentes ao tipo de propaganda que tão bem atua
    sobre a multidão. Entre as massas “o instinto é o senhor
    supremo, e do instinto vem a fé... Enquanto os indivíduos sãos
    do povo cerram automaticamente fileiras para formar uma
    comunidade de pessoas” (sob um dirigente, é desnecessário dizêla),
    “os intelectuais tentam vários caminhos, assim como galinhas
    debicam o chão do galinheiro. Com eles não se pode fazer a
    História; não podem ser empregados como elementos
    componentes de uma comunidade.” Os intelectuais são o tipo de
    pessoas que exigem provas e ficam melindrados pelas
    inconsistências lógicas e pelos falatórios. Olham a
    supersimplificação como o pecado original do espírito e não
    fazem qualquer uso de slogans, de afirmações categóricas e
    generalizações abusivas que são o repertório do publicista. “Toda
    propaganda efetiva”, escreveu Hitler, “deve resumir-se ao
    estritamente indispensável e deve, portanto, exprimir-se em meia
    dúzia de fórmulas estereotipadas.” Estas fórmulas estereotipadas
    devem ser constantemente marteladas porque “só pela repetição
    constante conseguir-se-á imprimir finalmente uma idéia na
    memória de uma multidão.” A filosofia nos ensina a sentirmonos
    indecisos sobre coisas que nos parecem evidentes por si
    mesmas. A propaganda, no extremo oposto, nos ensina a aceitar
    como por si mesmo evidente aquilo de que seria razoável duvidar
    ou sustar o nosso juízo. O propósito do demagogo é criar a
    coesão social sob o seu próprio comando. Mas, como Bertrand
    Russel observou, “sistemas dogmáticos sem fundamentos
    empíricos, tais como a Escolástica, o Marxismo e o Fascismo,
    apresentam a vantagem de gerar uma grande dose de coerência
    social entre os seus adeptos”. O propagandista demagógico deve,
    portanto, ser regularmente dogmático. Todas as suas afirmações
    são feitas de modo explícito. Na sua visão do mundo não há
    atenuantes, as coisas ou são diabolicamente pretas ou
    celestialmente brancas. Segundo as próprias declarações de Hitler,
    o propagandista deve tomar “uma atitude sistematicamente
    parcial em relação aos problemas de que cuidar.” Jamais deve
    admitir que tenha errado ou que as pessoas que defendem um
    ponto de vista diferente possam ter parcialmente razão. Não se
    deve altercar com adversários; serão atacados, reduzidos ao
    silêncio, ou, se se tornam demasiado prejudiciais, liquidados. O
    intelectual com demasiados escrúpulos morais pode ficar
    melindrado com este tipo de coisas. Mas as massas estão sempre
    convictas de que “o direito está do lado do agressor ativo.”
    Tal era, pois, a opinião de Hitler sobre a humanidade nas
    massas. É uma opinião muito vil. Era, por sua vez, uma opinião
    incorreta? A árvore é conhecida pelos seus frutos, e uma teoria
    sobre a natureza humana que inspirou o tipo de técnicas que se
    provaram tão medonhamente eficazes deve conter, pelo menos,
    um elemento de verdade. A virtude e a inteligência pertencem aos
    seres humanos como indivíduos livremente interligados com
    outros indivíduos em pequenos grupos. O pecado e a
    imbecilidade também. Mas a ausência subumana de espírito a que
    o demagogo dirige o seu apelo, a imbecilidade moral em que se
    apoia quando induz as suas vitimas à ação, são características não
    dos homens e das mulheres como indivíduos, mas dos homens e
    das mulheres em multidão. A ausência de espírito e a estupidez
    moral não são atributos especificamente humanos; são sinais de
    envenenamento gregário. Nas mais altas religiões de todo o
    mundo, a salvação e a iluminação são para os indivíduos. O reino
    dos céus está no íntimo de uma pessoa, não dentro da demência
    coletiva de uma multidão. Cristo prometeu estar presente onde
    dois ou três se encontrassem reunidos. Nada disse sobre a sua
    presença onde milhares de pessoas se envenenam umas às outras
    com tóxico gregário. Sob os nazistas, grandes grupos de pessoas
    eram forçadas a despender muito tempo marchando em filas
    cerradas do ponto A para o ponto B e outra vez para trás, de B
    para A. “Este desvelo em pôr toda, a população em marcha
    parecia uma insensata perda de tempo e de energia. Só muito
    mais tarde”, diz Hermann Rauschning, “é que se descobriu nisso
    uma intenção engenhosa, baseada numa bem considerada
    adaptação dos fins e dos meios. Marchar diverte o pensamento
    humano. A marcha distrai o pensamento. A marcha põe um fim à
    individualidade. A marcha é o passe de mágica indispensável com
    o objetivo de habituar o povo a uma atividade mecânica, quase
    ritual, até que se torne uma segunda natureza.”
    Do seu ponto de vista e até o nível que escolheu para
    realizar a sua terrível obra, Hitler tinha perfeita razão na sua
    opinião sobre a natureza humana. Nós que olhamos os homens e
    as mulheres como pessoas mais do que como indivíduos do
    povo, ou coletividades arregimentadas, julgamos que ele tenha se
    enganado redondamente. Numa época de superpopulação
    crescente, de crescente superorganização e de meios de
    comunicação cada vez mais eficientes com as massas, como
    podemos manter intacta a integridade e reafirmar o valor do ser
    humano individual? Eis uma questão que ainda pode ser
    levantada e que seja talvez possível resolver de maneira eficaz.
    Daqui a uma geração poderá ser demasiado tarde para se
    encontrar uma resposta, e talvez seja até impossível, no asfixiante
    ambiente coletivo dessas épocas futuras, suscitar o problema.
    .:: 6. As Artes de Vender ::.
    A sobrevivência da democracia depende da capacidade de
    grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de
    uma informação sólida. Uma ditadura, pelo contrário, mantém-se
    censurando ou deturpando os fatos, e apelando, não para a razão,
    não para o interesse próprio esclarecido, mas para a paixão e para
    o convencionalismo, para as poderosas “forças ocultas”, como
    Hitler as denominava, presentes nas profundezas inconscientes
    de cada espírito humano.
    No Ocidente, os princípios democráticos são proclamados, e
    muitos propagandistas capazes e conscienciosos fazem o possível
    para prestar aos leitores informações concretas e convencê-los,
    por meio de argumentos racionais, a fazerem escolhas realistas à
    luz dessa informação. Tudo isso é ótimo. Mas, infelizmente, a
    propaganda, nas democracias acidentais, especialmente na
    América, apresenta duas faces e uma personalidade dividida.
    Como chefe de redação encontra-se muitas vezes um
    democrático Dr. Jekyll – um publicista que seria muito feliz se
    conseguisse provar que John Dewey tinha razão quando falava
    acerca da aptidão da natureza humana para reagir à verdade e à
    razão. Mas este estupendo homem só dirige uma parte do
    maquinismo de comunicação com as massas. No serviço de
    publicidade temos pela frente um antidemocrático, porque antiracionalista
    Sr. Hyde – ou antes um Dr. Hyde, porque Hyde é
    agora doutorado em psicologia e tem, outrossim, uma licenciatura
    em Ciências Sociais. Este Dr. Hyde seria de fato muito infeliz se
    as pessoas se mostrassem sempre dignas da confiança que John
    Dewey depositava na natureza humana. Verdade e razão formam
    parte das atribuições de Jekyll, não das suas. Hyde é um analista
    das Motivações, e a sua função é estudar as fraquezas e falhas
    humanas, investigar estes desejos e medos inconscientes pelos
    quais é analisado o pensamento consciente e o comportamento
    exterior de tantos homens. E fá-lo, não com o espírito do
    moralista que gostaria de tornar melhores as pessoas, ou do
    médico que gostaria de lhes melhorar a saúde mas tão só com o
    fim de assegurar a melhor maneira de usufruir vantagens da sua
    ignorância e de explorar-lhes a irracionalidade em benefício
    pecuniário dos seus patrões. Mas depois de tudo, pode afirmar-se
    que “o capitalismo está morto, e o consumidor é rei” – e o
    consumidor requer os préstimos do técnico de vendas
    especializado em todas as artes (incluindo as artes mais capciosas)
    de persuasão. Sob o sistema da livre concorrência, a propaganda
    comercial por todos e quaisquer meios é absolutamente
    indispensável. Mas o indispensável não é indispensavelmente o
    desejável. O que é seguramente bom na esfera da economia, pode
    estar muito longe de ser bom para os homens e mulheres como
    eleitores ou até como seres humanos. Uma geração precedente,
    mais impregnada de moral, teria ficado profundamente
    melindrada pelo franco cinismo dos Analistas de Motivações.
    Lemos hoje um livro como The Hidden Persuaders do sr. Vance
    Packard e sentimo-nos mais divertidos do que horrorizados, mais
    resignados do que indignados. Dado Freud, dada a Psicologia do
    Comportamento, dada a necessidade arraigadamente desesperada
    que o produtor em massa necessita de um consumo em massa, é
    o gênero de coisa que devemos esperar. Mas qual é, podemos
    perguntar, o tipo de coisa que devemos esperar para o futuro?
    São as atividades de Hyde conciliação a longo prazo com as de
    Jekyll? Pode uma campanha a favor da racionalidade obter êxito
    quando apanhada nas mandíbulas de outra, e ainda 'mais
    vigorosa, campanha em prol da irracionalidade? 'país são as
    perguntas que, no momento, não tentarei responder, porém
    deixarei pendentes, por assim dizer, a fim de que sirvam de pano
    de fundo para a nossa discussão dos meios de persuasão em
    massa numa sociedade democrática tecnologicamente avançada.
    A função de um propagandista comercial numa sociedade
    democrática é, sob alguns ângulos, mais fácil e, sob outros, mais
    difícil do que a de um propagandista político encarregado por um
    ditador já constituído ou por um ditador em vias de se
    estabelecer. É mais fácil à medida em que quase todo o povo tem,
    de início, um preconceito favorável em relação à cerveja, a
    cigarros e a frigoríficos, ao passo que quase ninguém tem
    qualquer convencionalismo a favor de tiranos. É mais difícil à
    medida em que não é consentido a um propagandista comercial,
    pelas normas do seu jogo profissional, apelar para os instintos
    mais selvagens do seu público. O agente de publicidade de
    laticínios bem que gostaria de dizer aos leitores e ouvintes que
    todas as suas infelicidades são originadas pelas maquinações de
    um horrível bando internacional de fabricantes de margarina, sem
    qualquer tipo de fé religiosa, e que é sua obrigação patriótica
    marchar contra as fábricas dos opressores e incendiá-las. Este
    tipo de coisas, todavia, é deixado de lado, e tem de contentar-se
    com algo de mais comedidamente aproximado. Mas essa
    aproximação comedida é menos estimulante do que a violência
    verbal e física. A longo termo, a cólera e o ódio são emoções que
    se exterminam. Mas a curto prazo apresentam altos dividendos,
    sob a forma de satisfações psicológicas e até (dado que libertam
    grandes quantidades de adrenalina e noradrenalina) fisiológicas.
    As pessoas podem iniciar com um convencionalismo inicial
    contra os tiranos; porém quando os tiranos ou aspirantes a tais
    lhes fornecem uma propaganda libertadora de adrenalina sobre a
    ignomínia dos seus inimigos – principalmente dos inimigos
    suficientemente fracos para poderem ser perseguidos – estão
    prontos a segui-lo com entusiasmo. Nos seus discursos, Hitler
    não cessava de martelar palavras violentas como “ódio”, “força”,
    “impiedade”, “esmagar”, “despedaçar”; e acompanhava estes
    termos violentos com gestos ainda mais violentos. Urrava,
    vociferava, as veias inchavam-lhe, tornava-se arroxeado. As
    emoções fortes (como todos os atares e dramaturgos sabem)
    contagiam no mais alto grau. Contaminada pelo frenesi funesto
    do orador, a assistência gemia, soluçava e urrava, numa orgia de
    paixão desenfreada. E estas orgias provocavam tal deleite que
    muitos daqueles que as provavam pediam avidamente mais.
    Quase todos desejamos a paz e a liberdade; mas somos poucos a
    ter entusiasmo pelos pensamentos, sentimentos e ações que
    concorrem para a paz e para a liberdade. Analogamente, quase
    ninguém deseja a guerra e a tirania; contudo grande parte das
    pessoas encontra prazer intenso nos pensamentos, sentimentos e
    ações que concorrem para a guerra e para a tirania. Estes
    pensamentos, sentimentos e ações são demasiado perigosos
    quando explorados com finalidades comerciais. Aceitando esta
    desvantagem, o técnico de publicidade obterá o máximo de
    resultados com um mínimo de emoções menos venenosas, com
    as formas mais tranqüilas de irracionalidade.
    Uma propaganda eficiente e racional só se torna possível
    quando há uma compreensão clara, por parte de todos a quem é
    dirigida, da natureza dos símbolos e das suas relações com as
    coisas e com os fatos representados. A eficiência da propaganda
    irracional depende de uma derrocada geral na compreensão da
    natureza dos símbolos. Os simples de espírito têm a propensão a
    igualar o símbolo com o que ele representa, a atribuir às coisas e
    aos fatos algumas das qualidades manifestadas por palavras que o
    propagandista escolheu para dissertar sobre eles, em função dos
    seus próprios fins. Consideremos um simples exemplo. Muitos
    cosméticos são feitos de lanolina, que é uma fusão de gordura
    extraída da lã de carneiro e de água, fusão agitada em emulsão.
    Esta emulsão apresenta muitas propriedades salutares : penetra a
    pele, não rança, é ligeiramente anti-séptica, etc. Mas os
    propagandistas comerciais ‘nada dizem a respeito das genuínas
    virtudes da emulsão. Dão-lhe um nome pitorescamente deleitoso,
    falam arrebatada e incorretamente da beleza feminina, e exibem
    figuras de louras sensuais cuidando dos seus tecidos cutâneos
    com um trófico da pele. “Os produtores de cosméticos”,
    escreveu um deles, “não estão vendendo lanolina, estão vendendo
    esperança.” Por esta esperança, por esta fraudulenta promessa
    tácita de serem transfiguradas, as mulheres pagarão dez ou vinte
    vezes o valor da emulsão que os propagandistas expuseram tão
    habilmente, por meio de sinais enganadores, a uma ambição
    feminina profundamente enraizada e quase universal – a ambição
    de ser mais atraente aos indivíduos do sexo oposto. Os princípios
    atinentes a esta espécie de propaganda são extremamente simples.
    Encontrar uma ambição generalizada, um receio ou uma
    ansiedade inconsciente bastante geral; encontrar um meio de
    relacionar este desejo ou medo com o produto que se tem para
    vender; construir, depois, uma ponte de símbolos verbais ou
    visuais sobre o qual o cliente possa passar da realidade a um
    sonho compensatório, e do sonho à ilusão de que o seu produto,
    quando procurado, fará que o sonho se torne realidade. “Já não
    compramos laranjas, compramos vitalidade, já não compramos
    um automóvel, compramos prestígio.” E assim sucessivamente.
    Com um dentifrício, por exemplo, adquirimos, não um mero
    anti-séptico ou um produto de higiene, mas sim a libertação do
    medo de sermos sexualmente repulsivos. Com o “vodka“ ou o
    “whisky” não adquirimos um veneno protoplásmico que, em
    pequenas doses, pode afetar o sistema nervoso de maneira
    psicologicamente valiosa; estamos adquirindo amizade e boa
    camaradagem, o calor de Dingley Deli e o brilho da Mermaid
    Tavem. Com os nossos laxantes adquirimos a saúde de um deus
    grego, o brilho radiante de uma ninfa de Diana. Com o
    heortseller do mes adquirimos cultura, a inveja dos vizinhos
    menos ilustrados e a admiração dos que são intelectuais. Em cada
    um dos casos, o analista de motivações encontrou um desejo ou
    receio fundamente enraizado, cuja energia pode ser aplicada para
    levar o consumidor a distribuir dinheiro e assim, de maneira
    indireta, a fazer girar as rodas da indústria. Armazenada nos
    espíritos e nos corpos de inúmeros indivíduos, esta energia
    potencial é liberada e transmitida por uma linha de símbolos
    cuidadosamente disposta de modo a evitar a racionalidade e a
    ofuscar a verdadeira questão.
    Por vezes, os símbolos adquirem efeito por serem
    desigualmente impressivos, obsessivos e por si mesmos
    fascinantes. São deste tipo os ritos e as pompas da religião. Estas
    “belezas sagradas” fortalecem a fé, onde já haja fé e, onde não há
    fé, contribuem para a conversão. Apelando, como apeiam, apenas
    para o sentido estético, não confirmam a verdade nem o valor
    ético das doutrinas a que foram, de maneira muito arbitrária,
    associadas. Num plano de verdade histórica, as belezas sagradas
    foram muitas vezes igualadas e até ultrapassadas pelas belezas
    profanas. Com Hitler, por exemplo, as reuniões anuais em
    Nuremberg eram obras-primas de arte ritual e teatral. “Passei seis
    anos em S. Petersburgo, antes da guerra, nos melhores dias do
    velho bailado russo”, escreveu Sir Neville Henderson, o
    embaixador inglês na Alemanha de Hitler, “porém nunca vi um
    bailado que se comparasse em beleza ao congresso de
    Nuremberg.” Pensase em Keats – “a beleza é a verdade, a
    verdade é a beleza”. Aí, a identidade só existe num plano último,
    supra-terrestre. Nos planos político e teológico, a beleza é
    perfeitamente conciliável com o sem sentido e a tirania. O que é
    aliás uma sorte, porque se a beleza fosse incompatível com o
    absurdo e com a tirania haveria muito pouca arte neste mundo.
    As obras-primas de pintura, de escultura e de arquitetura foram
    feitas como propaganda religiosa ou política, para maior glória de
    um deus, de um governo ou de um clero. Porém muitos reis e
    sacerdotes foram despóticos e todas as religiões foram assinaladas
    pela superstição. O gênio foi servidor da tirania e a arte fez a
    propaganda dos méritos do culto local. O tempo, à medida que
    escoa, separa a boa arte da má metafísica. Podemos nós aprender
    a fazer esta distinção, não depois do acontecimento, mas
    enquanto ele está por realizar-se? Eis o problema.
    Na propaganda comercial, o princípio do símbolo
    desmedidamente fascinante é claramente compreendido. Cada
    propagandista tem a sua Seção de Arte, e constantemente são
    feitas tentativas com o objetivo de se embelezarem os painéis
    publicitários com cartazes sedutores, as páginas de anúncios dos
    magazines com desenhos e fotografias repletos de vida. Não
    aparecem obras-primas, porque as obras-primas são visam a um
    público muito limitado, e a propaganda comercial é destinada a
    cativar a maioria. Para a propaganda comercial, o ideal é uma
    mediania excelente. Aqueles que prezam esta arte, não demasiado
    boa mas suficientemente cativante, decerto apreciarão os
    produtos a que ela foi associada e que tal arte representa
    simbolicamente.
    Outro símbolo desmedidamente fascinante é o “Canto
    Comercial”. Os Cantos Comerciais são uma invenção recente;
    porém o Canto Teológico e o Canto Religioso – o hino e o salmo
    – são tão antigos como a própria religião. Os Cantos Militares, ou
    marchas, são contemporâneos da guerra, e os Cantos Patrióticos,
    os precursores dos nossos hinos nacionais, eram certamente
    empregados com o objetivo de promover a solidariedade do
    grupo, para acentuar a distinção entre “nós” e “eles”, pelos
    bandos nômades de caçadores do paleolítico e pelos coletores de
    alimentos. Para a maioria das pessoas, a música é intimamente
    atraente. Além disso, as melodias tendem a gravar-se por si
    mesmas no espírito do ouvinte. Uma ária pode molestar a
    memória durante uma vida inteira. Eis, por exemplo, uma
    afirmação ou um juízo de valor de pouco interesse. Tal como é
    dito, ninguém lhe dará atenção. Mas colocai agora as palavras
    numa ária eletrizante e de fácil recordação. Tornam-se de
    imediato palavras poderosas. Outrossim, as palavras terão
    tendência a se repetir automaticamente toda vez que a melodia
    for ouvida ou recordada espontaneamente. Orfeu aliou-se com
    Pavlov – o poder dos sons com o reflexo condicionado. Para o
    prapagandista comercial, como para os seus companheiros da
    política e da religião, a música possui ainda outra vantagem. Os
    absurdos que seria vergonhoso para um ser humano escrever,
    dizer ou ouvir dizer, podem ser cantados ou ouvidos pelo mesmo
    ser humano, com prazer, e até com uma certa convicção
    intelectual. Podemos nós aprender a isolar o prazer de cantar ou
    de ouvir cantar e a propensão demasiado humana para crer na
    propaganda que a canção encobre? Eis novamente o problema.
    Graças ao estudo obrigatório e às rotativas, o propagandista
    conseguiu, há muitos anos, fazer chegar as suas mensagens quase
    a todos os adultos, em todo país civilizado. Hoje, graças ao rádio
    e à televisão, o propagandista acha-se na feliz posição de ser
    capaz de comunicar até com os adultos e crianças ainda não
    instruídas.
    As crianças, como é de se esperar, são muito sensíveis à
    propaganda. Desconhecem o mundo e seus costumes, e estão,
    portanto, totalmente desprevenidas. As suas faculdades críticas
    não estão desenvolvidas. Os mais novos ainda não alcançaram a
    idade da razão e aos mais velhos falta-lhes a experiência sobre a
    qual a sua recém-descoberta faculdade de raciocinar poderia agir
    efetivamente. Na Europa, era costume designar em tom jocoso
    os recrutas pela expressão “carne para canhão”. Os seus
    irmãozinhos e irmãzinhas transformaram-se, agora, em carne para
    a televisão ou para o rádio. Na minha infância ensinavam-nos a
    cantar canções infantis e, nas famílias religiosas, hinos. Hoje as
    crianças sussurram Cantos Comerciais. O que é melhor –
    “Rheingold é a minha cerveja, a cerveja que mata a sede”, ou “Foi
    na loja do Mestre André...”? “Deus nos chama, é nossa a hora”
    ou “Dentes brancos e sadios, só com a pasta Pepsodent”? Quem
    sabe?
    “Não digo que as crianças devam correr atrás de seus pais
    para que comprem os produtos que viram anunciados na
    televisão, porém, ao mesmo tempo não posso desconhecer o fato
    de que isso sucede diariamente”. Assim escreve conhecido ator
    de um dos muitos programas dirigidos a assistências juvenis. “As
    crianças”, diz o ator, “são registros vivos e falantes daquilo que
    lhes narramos todos os dias.” E, no devido tempo, estes registros
    vivos e falantes da televisão comercial crescerão, ganharão
    dinheiro e adquirirão os produtos da indústria.
    “Pensai”, escreve o sr. Clyde Miller, admirado, “pensai no
    que pode apresentar de lucros para a vossa firma se conseguirdes
    aliciar um milhão, ou dez milhões de crianças, que se tornarão
    adultos treinados para a aquisição dos vossos produtos, como os
    soldados são antecipadamente treinados para avançar quando
    ouvem as palavras-estímulo : Em frente, marche”. Sim, pensemos
    em tudo isso! E, ao mesmo tempo, lembremos que os ditadores e
    os seus sequazes andam há anos pensando neste tipo de coisa, e
    que milhões, dezenas de milhões de crianças se encontram num
    ritmo de crescimento para comprar o produto ideológico do
    déspota local e, como soldados bem treinados, para responder
    com um comportamento adequado às palavras-estímulo injetadas
    nestes jovens espíritos pelos propagandistas dos déspotas.
    O autogoverno está na razão inversa do quantitativo de
    seres humanos. Quanto mais elevado for o eleitorado, mais baixo
    é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um
    entre milhões, o indivíduo-eleitor sente-se uma quantidade
    irrelevante e sem forças. Os candidatos para os quais votou estão
    muito distante, no último degrau da pirâmide do poder.
    Teoricamente são os servidores do povo; contudo, são os
    servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base da
    grande pirâmide, que deve acatar as ordens. O crescimento da
    população e os progressos da tecnologia resultaram em um
    aumento do número e da complexidade das organizações, em um
    aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos
    dirigentes, e em uma diminuição correspondente da intensificação
    do controle exercido pelos eleitores, ao mesmo tempo que se dá
    um decréscimo do interesse do público pelos processos
    democráticos. Já enfraquecidas por imensas forças impessoais que
    agem no mundo moderno, as instituições democráticas estão
    agora sendo interiormente minadas pelos políticos e pelos seus
    propagandistas.
    Os seres humanos agem de múltiplas maneiras irracionais,
    mas todos eles parecem aptos a fazer uma escolha razoável com
    as informações de que dispõem, se lhes derem oportunidade de a
    fazer. As instituições democráticas não podem funcionar, a não
    ser que todos os interessados façam o máximo para difundir
    conhecimentos e para encorajar o emprego da razão. Mas hoje,
    na democracia mais poderosa da Terra, os políticos e os seus
    propagandistas preferem escarnecer as instituições democráticas
    apelando quase unicamente para a ignorância e para a falta de
    tino dos eleitores. “Ambos os partidos”, disse-nos em 1956 o
    editor de uma poderosa revista comercial, “mercadejam os seus
    candidatos e programas, pelos sistemas idênticos de que os
    negociantes lançam mãos para vender os seus produtos. Estes
    exigem a escolha científica de proposições e a repetição
    planificada deles... Os anúncios e os comerciais feitos na rádio
    repetirão os estribilhos com uma intensidade premeditada. Os
    cartazes exibirão estribilhos de efeito comprovado... Os
    candidatos necessitam, além de vazes meigas e dicção perfeita, de
    ser capazes de olhar “com sinceridade” a câmara de TV.”
    Os vendedores de política recorrem apenas para a
    debilidade dos eleitores, não para a sua força potencial. Não
    fazem qualquer sacrifício no sentido de educar as massas a fim de
    que estas se preparem para se governar a si próprias, contentamse
    tão só com a manipulação e a exploração delas. Para a
    consecução deste objetivo são mobilizados e colocados em ação
    todos os recursos da psicologia e das ciências sociais. Amostras
    cuidadosamente escolhidas do eleitorado são submetidas a
    “entrevistas em profundidade”. Estas entrevistas em
    profundidade revelam os receios e desejos inconscientes que mais
    sobressaem, numa determinada sociedade, na ocasião da eleição.
    Frases e imagens destinadas a amenizar ou, em caso de
    necessidade, a intensificar estes receios, a satisfazer estes anelos,
    pelo menos simbolicamente, são então selecionadas pelos
    técnicos, experimentadas em eleitores e auditores, alteradas ou
    melhoradas, segundo os dados conseguidos desta forma. Então a
    campanha eleitoral está apta para uma transmissão em cadeia.
    Agora só falta dinheiro e um candidato que possa ser treinado a
    fim de assumir o “comando”. Deste novo princípio, os pontos de
    vista políticos e os planos para uma ação específica acabaram por
    perder grande parte da sua importância. A personalidade do
    candidato e a maneira por que ele é lançado pelos técnicos de
    publicidade são as coisas que realmente entram em ação.
    De qualquer modo, sob o aspecto de um homem viril ou de
    um pai amável, o candidato deve ser encantador. Deve ser,
    outrossim, palrador e que nunca aborreça a assistência.
    Acostumada à televisão e ao rádio, esta assistência está habituada
    a ser distraída e não deseja que lhe peçam que se concentre ou
    faça um sacrifício intelectual prolongado. Todos os discursos
    proferidos pelo conversador-candidato devem, portanto, ser
    curtos e incisivos. As grandes questões da atualidade devem ser
    tratadas, no máximo, em cinco minutos – e preferivelmente (dado
    que a assistência estará impaciente para ver qualquer coisa de
    mais atraente do que a inflação ou a bomba H) em sessenta
    segundos. Dada à natureza da oratória, sempre houve entre os
    políticos e os eclesiásticos a tendência para simplificarem ao
    extremo as questões complexas. De um púlpito ou de uma
    tribuna, até os oradores mais conscienciosos acham difícil falar a
    verdade. Com os recursos aplicados agora, para comerciar o
    candidato político como se ele fosse um desodorizante, coloca-se
    positivamente o eleitorado ao amparo de ouvir toda a verdade
    sobre o que quer que seja.
    .:: 7. Lavagem Cerebral ::.
    Nos dois capítulos anteriores descrevi as técnicas do que se
    pode chamar manipulação em massa dos espíritos, tal qual foi
    posta em prática pelo maior demagogo e pelos mais eficientes
    técnicos de vendas da história escrita. Mas nenhum problema
    humano pode ser solucionado apenas pelos meios destinados a
    grandes quantidades. A arma de caça tem sua vez, contudo a
    seringa hipodérmica tem também a sua. Nos capítulos posteriores
    descreverei algumas das técnicas mais eficientes não para
    manusear multidões, não para manusear público, porém para
    indivíduos isolados.
    No decurso das suas experiências, que marcaram época,
    sobre os reflexos condicionados, Ivan Pavlov notou que, quando
    submetidos a uma tensão física ou psíquica prolongada, os
    animais de laboratório exibiam todos os sintomas de uma grande
    depressão nervosa. Recusando-se a afrontar por mais tempo uma
    situação intolerável, os seus cérebros entravam em greve, por
    assim dizer, e, ou deixavam completamente de funcionar (o cão
    perdia a consciência) ou então lançavam mão da marcha lenta e
    da sabotagem (o cão comportava-se de modo incoerente, ou
    exibia o tipo de sintomas físicos que, num ser humano,
    denominaríamos histéricos). Alguns animais são mais resistentes à
    tensão do que outros. Os cães que possuíam o que Pavlov
    denominava uma constituição “fortemente excitável”
    soçobravam mais depressa do que os cães dotados de um
    temperamento simplesmente “vivo” (em oposição ao
    temperamento colérico ou agitado). Identicamente, os cães
    “fracamente inibidos” esgotavam a sua energia muito mais
    depressa do que os “tranqüilos e imperturbáveis”. Mas até os cães
    mais resistentes eram incapazes de resistir indefinidamente. Se a
    tensão a que fosse submetido fosse suficientemente intensa ou
    suficientemente prolongada, o cão acabava por soçobrar de um
    modo tão abjeto como o animal menos resistente da sua espécie.
    As descobertas de Pavlov foram confirmadas da maneira
    mais aflitiva, e numa escala muito ampla, durante as duas Guerras
    Mundiais. Em conseqüência de uma única experiência
    catastrófica, ou de uma série de terrores menos violentos mas
    freqüentemente repetidos, os soldados apresentam um
    determinado número de sintomas de demolição psicofísico.
    Inconsciência temporária, agitação extrema, letargia, cegueira ou
    paralisia funcional, respostas inteiramente desconexas para o
    estímulo dos acontecimentos, alterações estranhas de
    comportamentos normais – todos os sintomas que Pavlov
    observara nos seus cães ressurgiram entre as vítimas do que foi
    denominado na Primeira Guerra Mundial “o horror nervoso à
    guerra” e, na Segunda, “a fadiga de guerra”. Cada homem, como
    cada cão, tem o seu limite individual de resistência. A maior parte
    dos homens atinge esse limite após trinta dias de tensão, mais ou
    menos contínua, sob as condições do combate moderno. Os mais
    fracos sucumbem em quinze dias. Os mais fortes perduram por
    quarenta e cinco ou até cinqüenta dias. Fortes ou fracos, todos
    finalmente soçobram. Todos, quer dizer, os que gozavam de boa
    saúde. Porque, diga-se com sarcasmo, as únicas pessoas que
    conseguem suportar indefinidamente a pressão da guerra
    moderna são os psicopatas. A loucura individual está prevenida
    em relação às conseqüências da loucura coletiva.
    O fato de cada indivíduo ter um limite de resistência foi
    conhecido e explorado desde tempos remotos de uma maneira
    lamentavelmente pouco científica. Em alguns casos, a horrível
    falta de 'humanidade do homem para com o homem foi inspirada
    pelo amor da crueldade, devido à terrível fascinação que esta
    exerce. Com muita freqüência, contudo, o puro sadismo foi
    abrandado pelo utilitarismo, pela teologia ou por razões de
    Estado. O castigo físico e outras formas de violência foram
    infligidas pelos homens da lei com o objetivo de soltarem a língua
    das testemunhas obstinadas; por clérigos, a fim de punir os não
    ortodoxos e os impelirem a mudar de opiniões; pela polícia
    secreta, com a finalidade de extrair confissões de pessoas
    suspeitas de ser hostis ao governo. Com Hitler, a tortura, seguida
    pelo extermínio em massa, era aplicada em relação a esses
    heréticos biológicos, os judeus. Para um jovem nazista, uma
    temporada de serviço nos campos de concentração era (segundo
    as próprias palavras de Himmler) “a melhor doutrinação sobre os
    seres inferiores e as raças subumanas”. Dada a virtude vexatória
    do anti-semitismo adquirido por Hitler durante a juventude, nos
    bairros pobres de Viena, esta reminiscência dos meios
    empregados pelo Santo Ofício contra os heréticos e feiticeiros era
    inevitável. Mas, em virtude das descobertas de Pávlov e dos
    conhecimentos obtidos pelos psiquiatras no tratamento das
    neuroses de guerra, tal reminiscência parece um anacronismo
    ridículo e repugnante. Agressões suficientemente amplas para
    causarem uma completa derrocada cerebral podem ser efetuadas
    por meios que, embora abominavelmente desumanos, ficam
    aquém da tortura física.
    Seja o que for que tenha ocorrido outrora, parece mais ou
    menos razoável que a tortura já não é muito aplicada pela polícia
    comunista atual. Esta inspira-se não no inquisidor ou no SS, mas,
    sim, no fisiologista e nos seus animais de laboratório,
    devidamente condicionados. Para o ditador e sua polícia, as
    descobertas de Pavlov têm conseqüências práticas importantes.
    Se o sistema nervoso central dos cães pode ser levado a soçobrar,
    o sistema nervoso central dos prisioneiros políticos pode sê-la da
    mesma forma. É apenas uma questão de aplicar a quantidade
    exata de tensão durante o tempo adequado. Ao final do
    tratamento, o prisioneiro estará em estado de neurose ou de
    histeria e, portanto, apto a confessar o que os seus captares
    desejarem que ele confesse.
    Contudo a confissão não é suficiente. Um neurótico
    incurável jamais será útil a alguém. O ditador inteligente e prático
    não precisa de um paciente para ser hospitalizado, ou de uma
    vítima para ser abatida, porém de um convertido que trabalhe
    pela causa. Voltando-se mais uma vez para Pavlov, o ditador
    aprende que, no seu caminho para a queda final, os cães se
    tornam anormalmente sugestionáveis. Quando o paciente se
    encontra perto do limite final da sua resistência cerebral, é fácil
    fazer-lhe contrair novos comportamentos que permanecem
    radicados para sempre. O animal em que tais formas de
    comportamento foram implantadas jamais voltará a ser
    descondicionado; o que o animal aprendeu sob o seu estado de
    tensão, permanecerá como parte integrante do seu ser.
    A tensão psicológica pode ser gerada de muitas maneiras. Os
    cães sentem-se perturbados quando os estímulos são
    demasiadamente fortes; quando o intervalo entre o estímulo e a
    resposta habitual é por demais prolongado, e o animal
    conservado num estado de suspensão psíquica, quando o cérebro
    fica confundido pelos estímulos que aparecem ao contrário do
    que o cão aprendeu a esperar, quando os estímulos não fazem
    sentido dentro da disposição de referência do paciente. Além
    disso, observou-se que, provocando deliberadamente o temor, a
    cólera ou a ansiedade, avolumava-se notavelmente a
    sugestibilidade do cão. Se estas emoções forem levadas a um
    elevado grau de intensidade, durante um tempo relativamente
    longo, o cérebro põe-se “em greve”. Quando isto sucede, podem
    instalar-se, com bastante êxito, novos padrões de
    comportamento.
    Entre as causas físicas que desenvolvem a sugestibilidade de
    um cão acham-se a fadiga, os ferimentos e todas as formas de
    doença.
    Para o aspirante a ditador, estas descobertas contêm
    importantes conseqüências práticas. Estas observações provam,
    por exemplo, que Hitler estava com a razão ao afirmar que as
    reuniões em massa eram mais eficientes à noite do que de dia.
    “Durante o dia”, escreveu Hitler, “a vontade do homem rebela-se
    com maior energia contra qualquer tentativa de o forçarem a
    submeter-se a outras vontades e opinião. À noite, porém, o
    homem sucumbe mais facilmente à força dominante de uma
    vontade mais forte.”
    Pavlov teria concordado com ele; a fadiga aumenta a
    sugestibilidade. (É por esse motivo, entre outros, que as firmas
    que patrocinam um programa de televisão preferem as emissões
    noturnas e se prontificam a pagar caro a sua preferência.)
    A doença é ainda mias efetiva do que a fadiga, no que tange
    à intensificação da sugestibilidade. No passado, os quartos de
    doentes eram palcos de inumeráveis cenas de conversão religiosa.
    O ditador do futuro, cientificamente treinado, terá todos os
    hospitais dos seus domínios prontos a receberem o som e
    equipados com almofadas alto-falantes. Persuasão em conserva
    permanecerá no ar vinte e quatro horas por dia, e os pacientes
    mais ilustres serão visitados por salvadores da alma política e por
    transformadores do espírito, como no passado os seus pais eram
    visitados por padres, freiras e leigos piedosos.
    O fato das emoções fortes e negativas tenderem a aumentar
    a sugestibilidade e a facilitarem, assim, uma substituição de
    opiniões, foi anotada e explorada muito antes de Pavlov. Como
    assinalou o Dr. William Sargant no seu tão esclarecedor livro,
    Battle for tbc Mind, o grande êxito de John Wesley como
    pregador baseava-se no conhecimento intuitivo do sistema
    nervoso central. John Wesley iniciava o seu sermão com uma
    descrição longa e minuciosa dos tormentos a que os seus ouvintes
    seriam, com certeza, condenados para todo o sempre, a menos
    que se convertessem. Depois, quando o medo e um sentimento
    de culpabilidade torturante levavam o auditório à beira da
    vertigem, ou até, em alguns casos, a uma depressão cerebral
    completa, alterava o tom de voz e prometia a salvação àqueles
    que cressem e se arrependessem. Com este método de pregação,
    Wesley converteu milhares de seres humanos. O pavor intenso e
    prolongado levavaos a soçobrar e gerava um estado de sugestibili
    dade extremamente intensificada. Nesta situação, as pessoas eram
    capazes de aceitar, sem discussão, as afirmações teológicas do
    pregador. Depois disso, eram restabelecidos na sua integridade
    com palavras de consolação, e saíam da provação com sistemas
    de comportamento novos, e geralmente melhores, implantados
    de modo indestrutível nos seus espíritos e no seu sistema
    nervoso.
    A eficiência da propaganda religiosa e política depende dos
    métodos aplicados, não das doutrinas ensinadas. Estas doutrinas
    podem ser verdadeiras ou falsas, sadias ou perniciosas – pouca ou
    nenhuma diferença faz. Se a doutrinação for efetivada de maneira
    proporcionada no estado adequado da exaustão nervosa, será
    eficiente. Sob condições favoráveis, praticamente qualquer pessoa
    pode ser convertida a qualquer coisa.
    Possuímos descrições minuciosas dos métodos empregados
    pela polícia comunista no seu tratamento dos prisioneiros
    políticos. A partir do momento em que é detida, a vítima é
    automaticamente submetida a muitos gêneros de pressões físicas
    e psicológicas. É mal alimentada e alojada sem nenhum conforto,
    não é autorizada a dormir mais que poucas horas por noite. E é
    conservada durante esse tempo num estado de tensão psíquica,
    de incerteza e de aguda apreensão. Dia após dia, – ou melhor,
    noite após noite, porque estes polícias pavlovianos conhecem o
    valor da fadiga como intensificador da sugestibilidade – é
    interrogada freqüentes vezes, durante horas seguidas, por
    interrogadores que se esforçam por amedrontá-la, por confundila
    e por desorientá-la. Após algumas semanas ou meses de tal
    tratamento, o seu cérebro entra em confusão, e confessa tudo o
    que os seus captores querem que ela confesse. Então, se é para
    ser convertida e não para ser destruída, oferecem-lhe o conforto
    da esperança. Se ela aceitar a nova ideologia, pode ser, todavia,
    salva – não, certamente, numa vida futura (porque, oficialmente,
    não há vida futura) mas na vida presente.
    Meios semelhantes, se bem que menos violentos, foram
    empregados durante a guerra da Coréia em prisioneiros de guerra.
    Nos campos chineses onde se achavam, jovens prisioneiros
    ocidentais foram submetidos sistematicamente a pressões. Dessa
    forma, pelas mais ínfimas infrações das regras, os transgressores
    eram encaminhado ao gabinete do comandante, submetidos a
    interrogatório, tratados com arrogância e humilhados em público.
    E o processo repetir-se-ia, várias vezes, a qualquer hora do dia ou
    da noite. Esta hostilização seguida acarretava, nas suas vítimas,
    uma sensação de desorientação e de ansiedade permanentes. Para
    lhes agravar o sentimento de culpa ordenavam que os prisioneiros
    escrevessem e voltassem a escrever, com minúcias cada vez mais
    íntimas, longos relatórios autobiográficos das suas infrações. E
    depois de terem confessado suas culpas, era-lhes requerido que
    confessassem as culpas dos seus companheiros. O objetivo
    colimado consistia em criar dentro do acampamento uma
    sociedade de pesadelo, onde um espionava e denunciava os
    outros. A estas pressões mentais acrescentavam-se as pressões
    física da subalimentação, do desconforto e da doença. O
    acréscimo de sugestibilidade assim obtido era explorado
    habilmente pelos Chineses, que saciavam estes cérebros
    anormalmente receptivos com grandes doses de literatura prócomunista
    e anti-capitalista. Estas técnicas pavlovianas eram
    altamente eficazes. Entre sete, havia um americano culpado de
    grave colaboração com as autoridades chinesas, informamnos
    oficialmente, um entre três de colaboração técnica.
    Não se deve cogitar que este tipo de tratamento esteja
    reservado unicamente para os seus inimigos pelos comunistas. Os
    jovens trabalhadores cuja função era, durante os primeiros anos
    do novo regime, agir como missionários e organizadores do
    regime, nas inúmeras cidades e aldeias da China, eram submetidos
    a um curso de doutrinação muito mais rígido do que aquele a que
    qualquer prisioneiro de guerra foi sujeito. No seu livro China
    under Communism, R. L. Walker descreve os métodos através
    dos quais os dirigentes do partido puderam forjar, a partir de
    homens e mulheres vulgares, os milhares de fanáticos
    resolutamente devotados que lhes são necessários para propagar a
    doutrina comunista e fazer obedecer as suas ordens. Sob tal
    sistema de treino, o material humano bruto é remetido para
    campos especiais, onde é totalmente isolado dos seus amigos,
    famílias e do mundo exterior em geral. Nestes campos, ordenamlhes
    que executem trabalhos esgotantes, físicos e mentais; nunca
    permanecem sós, estão sempre em grupos; são encorajados a
    espiaremse mutuamente; mandamlhes que escrevam
    autobiografias acusatórias; vivem num estado de medo
    permanente do terrível destino a que podem ser levados devido
    ao que tenha sido dito sobre eles por informadores, ou do que
    eles próprios confessaram. Nesta situação de sugestibilidade
    aumentada, fazem-lhes seguir um curso intensivo do Marxismo
    teórico e aplicado – um curso em que o fracasso no exame final
    pode acarretar não importa que sanção, desde a expulsão
    vergonhosa até à permanência num campo de trabalhos forçados,
    ou mesmo a morte. Após seis meses nesta espécie de treino, a
    prolongada tensão mental e física produz resultados que as
    experiências de Pávlov fariam prever. Um após outro, ou por
    grupos inteiros, os pacientes soçobram. Surgem indícios
    neuróticos e histéricos. Alguns suicidam-se, outros (até vinte por
    cento do total, dizem-nos) adquirem uma doença mental grave.
    Os que sobrevivem aos rigores do método de conversão, surgem
    com novos e impecáveis padrões de comportamento. Todas as
    suas ligações com o passado – família, amigos, tradições – foram
    rompidas. São homens novos, recriados à imagem dos seus novos
    deuses e inteiramente dedicados ao seu serviço.
    Nas novas Comunidades Populares da China, os métodos
    educacionais até agora reservados aos missionários são
    atualmente usados, ao que parece, para todos. Um dia de trabalho
    de doze horas assegura um estado de permanente exaustão;
    espionagem, delação e ubiqüidade de policiais nutridores de uma
    ansiedade crônica; e a forçada repressão dos impulsos sexuais e as
    afeições comuns tendem a criar um senso de profunda e
    desesperançosa frustração. Nos homens, mulheres e crianças
    amolecidos por tais métodos testados de Pavlov há
    freqiientemente uma incessante tormenta de comando e asserções
    dogmáticas incandescentes e hinos de ódio, de tratamentos de
    horrendos castigos mitigados por milhares de promessas de
    coisas gloriosas a vir. Quantos milhões dobrarão sob essa forma
    educacional, resta a ser visto.
    Em todos os países comunistas dezenas de milhares destes
    jovens, disciplinados e devotados, são preparados todos os anos
    em centenas de centros de formação. O que os Jesuítas fizeram
    na Igreja Católica da Contra-reforma, estão a fazê-la agora estes
    produtos de um treino mais científico e ainda mais rígido, e
    continuarão, sem dúvida, a praticála nos partidos comunistas da
    Europa, da Ásia e da África.
    Em política, Pavlov parece ter sido um liberal da velha
    guarda. Mas, por uma estranha ironia da sorte, as suas
    investigações e as teorias nas quais se baseou trouxeram à
    realidade um grande exército de fanáticos dedicados de alma e
    coração, de reflexos e de sistema nervoso, à destruição do
    liberalismo à moda antiga, seja onde for que ele se encontre.
    A lavagem cerebral, tal como é agora praticada, é uma
    técnica híbrida, em parte dependente, no que se refere à sua
    eficiência, do emprego metódico da violência, em parte da
    habilidade de manipulação psicológica. Representa a tradição de
    1984 na sua marcha para se tornar a tradição do Admirável
    Mundo Novo. Sob uma ditadura instituída há longo tempo e bem
    organizada, os nossos métodos atuais de manipulação semiviolenta
    parecerão, sem dúvida, paradoxalmente primários.
    Condicionado desde a mais tenra infância (e talvez
    biologicamente predestinado), o indivíduo de classe média ou
    baixa jamais terá necessidade de se converter, ou mesmo de
    seguir um curso que lhe reanime a nova fé. Os membros da classe
    superior terão de criar novos pensamentos a fim de responder a
    novas situações, e obviamente, o seu treino será muito menos
    intenso do que o imposto àqueles cuja função não é pensar, mas
    simplesmente trabalhar e morrer com um mínimo de
    complicações. Estes elementos da classe superior serão, além
    disso, membros de uma classe selvagem – treinadores e guardas,
    eles próprios também levemente condicionados, de um vasto
    rebanho de animais domésticos completamente amansados. A sua
    selvageria poderá levá-los a se tornarem heréticos e rebeldes.
    Quando isto suceder, serão liquidados, ou sofrerão uma lavagem
    cerebral que os devolva à ortodoxia, ou (como no Admirável
    Mundo Não) serão exilados para uma ilha, onde não possam
    causar mais transtornos exceto, certamente, uns aos outros. Mas
    o condicionamento universal da infância e outras técnicas de
    manipulação e controle ainda estão afastados de nós pelo lapso
    de algumas gerações. No caminho que leva ao Admirável Mundo
    Novo os nossos dirigentes têm de contentar-se com técnicas de
    lavagem cerebral provisórias e transitórias.
    .:: 8. Persuasão Química ::.
    No Admirável Mundo Nono da minha ficção não havia
    uísque, nem tabaco, nem heroína proibida, nem cocaína de
    contrabando. As pessoas não fumavam, nem bebiam, nem
    cheiravam rapé, nem se dopavam. Quando alguma pessoa se
    sentia deprimida, ou mal disposta, tornava uma ou duas pílulas de
    um composto químico denominado Soma. O Soma original, do
    qual criei o nome desta droga hipotética, era uma planta
    desconhecida (talvez a Asclepias acida) usada pelos antigos
    arianos, invasores da Índia, em um dos seus mais solene rituais
    religiosos. O suco intoxicante, retirado dos caules desta planta,
    era ingerido por nobres e sacerdotes, no transcorrer de uma
    cerimônia complexa. Nos hinos védicos dizem-nos que os
    bebedores de Soma sentiam alguns efeitos benéficos. Os seus
    corpos robusteciam-se, os seus corações enchiam-se de ardor, de
    alegria e de entusiasmo, os seus espíritos enchiam-se de lucidez, e,
    numa experiência imediata da vida eterna, recebiam a certeza da
    imortalidade. Porém o sumo sagrado apresentava os seus
    inconvenientes. O Soma era uma droga perigosa – tão perigosa
    que mesmo o grande deus do céu, Indra, adoecia às vezes, por têla
    ingerido. Os mortais vulgares podiam até morrer, devido a uma
    dosagem forte. Contudo a experiência causava uma felicidade tão
    transcendente e tal iluminação que o beber Soma era encarado
    como um grande privilégio. Por este privilégio nenhum preço era
    exorbitante.
    O Soma do Admirável Mundo Novo não apresentava
    nenhum dos inconvenientes do seu antepassado indiano. Ingerido
    em pequenas doses, oferecia uma sensação de felicidade; em
    doses mais elevadas, fazia-nos ter visões e, se engolíssemos três
    pílulas, cairíamos, após alguns minutos, num sono refrigerante.
    Tudo isto sem qualquer problema físico ou mental. Os habitantes
    do Admirável Mundo Não podiam libertarse dos seus humores
    negros, ou dos conflitos familiares da vida diária, sem que
    sacrificassem a saúde ou minorassem permanentemente a sua
    eficiência.
    No Admirável Mundo Novo o hábito de tomar Soma não
    era um vício privado; era uma instituição política, era a verdadeira
    essência da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade
    garantidas pela Declaração de Direitos. Mas este privilégio
    supremamente precioso e inalienável dos súditos era, da mesma
    forma, um dos mais poderosos instrumentos de domínio do
    arsenal do ditador. A dopagem sistemática dos indivíduos para
    benefício do Estado (e circunstancialmente, talvez, para o próprio
    prazer deles) era um elemento primordial da política dos
    Dominadores do Mundo. A dose diária de Soma era uma garantia
    contra a desadaptação pessoal, contra a agitação social e a
    divulgação de idéias subversivas. A religião, declarara Karl Marx,
    é o ópio do povo. No Admirável Mundo Novo, a situação
    invertera-se. O ópio, ou antes o Soma, era a religião do povo.
    Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e de
    compensar, criava visões de outro mundo, de um mundo melhor,
    dava esperança, fortalecia a fé e promovia a caridade. “A cerveja”,
    escreveu um poeta
    faz mais do que Mílton
    para justificar as vias de Deus
    [perante os homens.
    Recordemos que, comparada ao Soma, a cerveja é uma droga
    do tipo mais grosseiro e incerto. No caso de justificar as vias de
    Deus perante os homens, Soma está para o álcool como este está
    para os argumentos teológicos de Mílton.
    Em 1931, enquanto eu descrevia os efeitos deste imaginário
    produto sintético, através do qual as gerações futuras seriam
    felizes e dóceis, o bem conhecido bioquímico americano, Dr.
    Irvine Page, preparava-se para deixar a Alemanha, onde passara
    os três anos anteriores, no Kaiser Wilhelm Institut, a estudar
    química cerebral. “É difícil compreender” – escreveu o dr. Page
    num artigo recente – “porque è que os sábios demoraram tanto
    tempo a empreender o exame das reações químicas no seu
    próprio cérebro. Falo – acrescentou o dr. Irvin Page – por
    experiência pessoal. Quando regressei em 1931... não encontrei
    uma situação neste campo (no campo da química cerebral), nem
    consegui despertar o menor interesse a respeito dele.” Hoje, vinte
    e sete anos após, o interesse não despertado em 1931 tornou-se
    um enorme foco incandescente de investigações bioquímicas e
    psicofarmacológicas. Estudam-se os enzimas que regulam os
    processos cerebrais. Foram isoladas no corpo substâncias
    químicas até então desconhecidas, tais como o adrenocromo e a
    serotonina (da qual o Dr. Page foi co-descobridor), e os seus
    vastíssimos efeitos nas nossas funções mentais e físicas estão,
    presentemente, a ser investigados. Entretanto, foram sintetizadas
    novas drogas – drogas que reforçam, ou corrigem, ou interferem
    nos efeitos de várias substâncias químicas, através das quais o
    sistema nervoso opera os seus milagres de todos os dias e de
    todas as horas, na sua função de controlar o corpo, de
    instrumento e mediador da consciência. Do nosso ponto de vista
    presente, o fato mais notável, no que tange a estas drogas, é o de
    elas alterarem temporariamente a química cerebral e o estado de
    espírito que lhe está associado, sem causarem prejuízo
    permanente ao organismo, em seu conjunto. Neste aspecto, são
    semelhantes ao Soma – e marcadamente diferenciadas das drogas
    modificadoras da mente, empregadas no passado. Por exemplo, o
    ópio é o calmante clássico. Mas o ópio é uma droga perigosa que,
    desde o neolítico até o presente, fez toxicômanos e acarretou a
    ruína à saúde de muita gente. O mesmo sucede com o álcool – a
    droga que, segundo as palavras do Salmo, “torna alegre o coração
    do homem.” Mas, infelizmente, o álcool não se reduz a tornar
    alegre o coração do homem; causa, em doses excessivas, a doença
    e o vício, e tem sido uma das principais causas, há oito ou dez mil
    anos, do crime, da infelicidade doméstica, da degradação moral e
    de acidentes evitáveis.
    Entre os estimulantes conhecidos, o chá, o café e o mate são,
    felizmente, quase inofensivos. São, aliás, estimulantes muito
    fracos. Ao contrário dessas “chávenas que alegram mas não
    inebriam”, a cocaína é uma droga muito poderosa e muito
    perigosa. Aqueles que fazem uso dela devem pagar os seus
    êxtases, o seu sentido do poder ilimitado, físico e mental, com
    fases agudas de depressão agônica, com aqueles horríveis
    sintomas físicos, tais como a sensação de ser infestado por
    miríades de insetos rastejantes, e por alucinações paranóicas que
    podem levar a crimes violentos. Outro estimulante, descoberto há
    pouco tempo, foi a anfetamina, mais conhecido pelo nome
    comercial de Benzedrina. A anfetamina é dotada de grande efeito
    – mas atua, quando dela se abusa, à custa da saúde física e mental.
    Calculou-se que, no Japão, há aproximadamente um milhão de
    viciados na anfetamina.
    Dos alucinantes em evidência, os mais conhecidos são o
    peyote do México e do sudoeste dos Estados Unidos, e a
    Cannabis sativa, consumidos, em todo o mundo, sob o nome de
    hachiche, bhang, kif e marijuana. De acordo com as mais
    convincentes provas médicas e antropológicas, o peyote é muito
    menos prejudicial do que o “gin” ou o uísque do Homem
    Branco. O peyote permite aos índios, que ousam nos seus rituais
    religiosos, que ingressem no paraíso e se sintam em união perfeita
    com a bemamada comunidade, sem lhes cobrar estes privilégios
    por algo pior do que a provação de terem de mascar uma
    substância de gosto repugnante e experimentarem náuseas
    durante uma ou duas horas. A Cannabis sativa não é uma droga
    tão inócua – se bem que menos perigosa do que os amadores de
    sensações nos quereriam fazer supor. O Comité Médico,
    encarregado em 1944 pelo “Mayor” de Nova Iorque de investigar
    o problema da marijuana, chegou à conclusão, depois de
    cuidadosa investigação, de que a Cannabis sativa não é uma séria
    ameaça para a sociedade, ou mesmo para aqueles que se lhe
    entregam. É um simples incômodo.
    Destes conhecidos transformadores do espírito passemos
    aos produtos mais recentes da investigação psíquicofarmacológica.
    De entre estes, os mais largamente divulgados são
    três novos tranqüilizantes : a reserpina, a cloropromazina e o
    metrobamato. Ministrados em algumas classes de psicopatas, os
    dois primeiros provaram ser altamente eficazes, não na cura de
    doenças mentais, mas pelo menos na extinção dos seus sintomas
    mais cruéis. O meprobamato (aliás Miltown) produz efeitos
    semelhantes em pessoas que sofrem de vários tipos de neurose.
    Nenhuma destas drogas é totalmente inofensiva; porém o seu
    custo, em termos de saúde física e de eficiência mental, é
    extremamente baixo. Num mundo onde ninguém procura algo
    sem uma finalidade, os tranqüilizantes oferecem bastante por
    muito pouco. O Miltown e a cloropromazina ainda não são
    Soma; contudo não estão longe de ser um dos aspectos desta
    droga mítica. Proporcionam uma libertação temporária da tensão
    nervosa sem infligirem, na grande maioria dos casos, um prejuízo
    orgânico permanente, e sem causarem mais do que uma pequena
    diminuição, enquanto a droga atua, da eficiência física e mental.
    Exceto como narcóticos, são talvez preferíveis aos barbitúricos,
    que enfraquecem a agudeza intelectual e, em grandes doses,
    causam um certo número de sintomas psico-físicos indesejáveis e
    podem resultar numa viciação caracterizada.
    Com o LSD25 (dietilamida do ácido lisérgico), os
    farmacologistas criaram recentemente outro aspecto de Soma –
    um intensificador da percepção e um gerador de visões, que é,
    fisiologicamente falando, quase de graça. Esta droga
    extraordinária, que é eficaz em doses tão pequenas como
    cinqüenta ou até vinte e cinco milionésimos do grama, tem a
    virtude (como o peyote) de transportar as pessoas para o Outro
    Mundo. Na maioria dos casos, o Outro Mundo a que o LSD25
    dá acesso é celestial; mas pode ser outrossim, alternadamente,
    purgatório ou até infernal. Porém, positiva ou negativa, a,
    experiência do ácido lisérgico é sentida por quase todos os que
    passam por ela como marcadamente significativa e iluminante.
    De qualquer maneira, o fato de o espírito poder ser transformado
    tão radicalmente por preço tão reduzido para o corpo, é
    espantoso.
    O Soma não era apenas um gerador de visões e um
    tranqüilizante; era também (coisa seguramente impossível) um
    estimulante do espírito e do corpo, um produtor de euforia ativa,
    assim como da felicidade negativa que se segue à libertação da
    ansiedade e da tensão.
    O estimulante ideal – poderoso, porém inócuo – ainda está
    por ser descoberto. A anfetamina, como vimos, estava longe de
    ser satisfatória; o preço que vale excede muito o que nos oferece.
    Um candidato mais promissor ao papel de Soma, no seu terceiro
    aspecto, é a Iproniazida, que está sendo usada atualmente para
    livrar da sua miséria os doentes de depressão, para dar mais
    energia aos apáticos e, em geral, para aumentar a dose de energia
    psíquica disponível. Mais promissor ainda, segundo um distinto
    farmacologista meu amigo, é um novo composto, ainda em
    experiência, que será denominado Deaner. Deaner é um aminoálcool,
    e calcula-se que aumenta dentro do corpo a produção de
    acetilcolina, e, portanto, aumenta a atividade e eficiência do
    sistema nervoso. O homem que ingere esta nova pílula sente
    menos necessidade de dormir, sente-se mais desperto e mais
    eufórico, raciocina melhor e de forma mais rápida – e tudo isto
    quase sem prejuízo para o corpo, pelo menos a curto prazo. Isto
    parece demasiado belo para ser verdadeiro.
    Vemos assim que, se bem que Soma não exista ainda (e
    talvez nunca existirá), já foram descobertos magníficos
    substitutos para vários aspectos de Roma. Há, hoje em dia,
    tranqüilizantes fisiologicamente baratos, geradores de visões
    fisiologicamente baratos e estimulantes também fisiologicamente
    baratos.
    É evidente que um ditador podia, se assim o desejasse,
    empregar estas drogas para fins políticos. Poder-se-ia prevenir
    contra a agitação política transformando a química cerebral dos
    seus súditos, e fazer, desta maneira, que se contentassem com a
    sua condição servil. Podia empregar tranquilizantes para acalmar
    os excitados, estimulantes para avivar o entusiasmo nos
    indiferentes, alucinantes para distrair da sua miséria a atenção dos
    inditosos. Contudo, poder-se-á perguntar, como é que o ditador
    levará os seus súditos a ingerirem as pílulas que os farão pensar,
    sentir e comportarem-se das maneiras que ele julga desejáveis?
    Com toda a probabilidade, será suficiente que lhes coloque as
    pílulas ao alcance da mão. Hoje, o álcool e o tabaco são de fácil
    alcance, e as pessoas gastam bem mais dinheiro com estes tão
    pouco satisfatórios euforizantes, pseudoestimulantes e sedativos,
    do que estão dispostas a despender com a educação dos filhos.
    Ou, então, analisemos os barbitúricos e tranqüilizantes. Nos
    Estados Unidos estas drogas só podem ser adquiridas com receita
    médica. Mas a procura que o público americano faz de algo que
    tornará um pouco mais suportável a vida num ambiente urbanoindustrial
    é tão grande que os médicos estão agora a aviar receitas
    de vários tranqüilizantes ao ritmo de quarenta e oito milhões por
    ano. Além disso, a maioria destas receitas volta a ser aviada. Cem
    doses de felicidade não são suficientes : tragamos da farmácia
    outro frasco – e, quando este terminar, mandemos buscar outro...
    Não há dúvida de que, se os tranqüilizantes pudessem ser
    adquiridos a preço tão módico e de forma tão fácil como a
    aspirina, seriam consumidos, não aos biliões, como são no
    presente, mas às vintenas e centenas de biliões. E um estimulante,
    bom e barato, seria quase tão popular como estes.
    Sob uma ditadura, os químicos receberiam ordem de mudar
    de direção a cada modificação das circunstâncias. Em época de
    crise nacional, seriam encarregados de autorizar a venda de
    estimulantes. Entre cada crise, excesso de vivacidade e energia
    por parte dos seus súditos poderia tornar-se embaraçante para o
    tirano. Em tais épocas, as massas seriam levadas a comprar
    tranqüilizantes e alucinantes. Sob a influência destes lenitivos, não
    teriam possibilidade de criar a menor dificuldade ao tirano.
    Estando as coisas como estão, os tranqüilizantes podem
    obstar as pessoas de causarem muita intranqüilidade, não só aos
    seus superiores como a si próprias. Demasiada tensão é doença;
    mas pouca tensão também é uma doença. Há ocasiões em que
    devemos estar tensos, em que um excesso de tranqüilidade (e
    especialmente de tranqüilidade vinda do exterior, por um agente
    químico) é inteiramente desapropriado.
    Num simpósio recente sobre o meprobamato, do qual
    participei, um eminente bioquímica sugeriu, jocosamente, que o
    governo dos Estados Unidos da América deveria doar ao povo
    soviético cinqüenta biliões de doses do tranqüilizante mais
    popular da América. A piada tinha algo de sério. Numa luta entre
    duas populações, sendo que uma está sendo incessantemente
    estimulada com ameaças e promessas, constantemente movida
    por uma propaganda insistente, enquanto que a outra é não
    menos constantemente distraída pela televisão e tranqüilizada por
    Miltown, qual dos oponentes terá maior probabilidade de ganhar?
    Além da particularidade de tranqüilizar, alucinar e estimular,
    o Soma da minha ficção tinha a propriedade de aumentar a
    sugestibi!idade e, desta maneira, podia ser empregado para
    alicerçar os efeitos da propaganda governamental. De modo
    menos eficaz e mais prejudicial para a saúde, várias drogas, já
    incluídas na farmacopéia, podem ser empregadas com a mesma
    finalidade. Há a scopolamina, por exemplo, o princípio ativo do
    meimendro e, em grandes doses, um veneno poderoso; há o
    pentotal e o amitalsódio. Apelidado, por razão obscura, o “soro
    da verdade”, o pentotal foi empregado pela polícia de vários
    países com o objetivo de extrair confissões (ou talvez para sugerir
    confissões) aos criminosos obstinados. O pentotal e o
    amitalsódio baixam a barreira entre o consciente e o
    subconsciente, e são de grande valia no tratamento da “fadiga de
    guerra”, pelo processo conhecido, na Inglaterra, pelo nome de
    “terapêutica dos traumatismos psicofisiológicos do soldado” e, na
    América, pela designação de “narcosíntese”. Diz-se que estas
    drogas são, por vezes, usadas pelos Comunistas quando preparam
    prisioneiros de gabarito para se apresentarem publicamente em
    tribunal.
    Entretanto, a farmacologia, a bioquímica e a neurologia
    estão evoluindo sem parar, e podemos estar cientes de que, no
    transcorrer de poucos anos, serão descobertos novos e mais
    eficientes métodos químicos de aumento da sugestibilidade e de
    abaixamento da resistência psicológica. Como qualquer outra
    coisa, estas descobertas podem ser usadas para o bem ou para o
    mal. Podem auxiliar o psiquiatra na luta contra a doença mental,
    ou podem ajudar o ditador na sua luta contra a liberdade. Visto
    que a ciência é divinamente imparcial, é mais provável que tais
    descobertas escravizem e libertem, curem e destruam, ao mesmo
    tempo.
    .:: 9. Persuasão Subconsciente ::.
    Numa nota de rodapé inserta na edição de 1919 do seu livro
    A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção
    para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que
    publicava recentemente um artigo onde descrevia as suas
    experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um
    instrumento que se apresenta sob duas formas – um tipo de
    caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fração de
    segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com
    obturador ultra-rápido que pode projetar, pelo espaço de alguns
    segundos, uma imagem sobre uma tela.) Nestas experiências,
    “Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que
    tinham observado conscientemente de uma imagem que fora
    exposta à vista deles no taquistoscópio. Depois chamava-lhes a
    atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite
    anterior e rogava-lhes, mais uma vez, que desenhassem aquilo que
    se recordavam. Os resultados mostravam, sem sombra de dúvida,
    que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido
    observados pelo paciente, proporcionavam os elementos da
    construção do sonho”.
    Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências
    de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente pelo
    dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o
    Problema dos sonhos e “a percepção pré-consciente”, no Journal
    of the American Psychoanalitic Association. Contudo, os
    psicologistas clássicos não permaneceram inativos. Confirmando
    as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as
    pessoas vêem e ouvem, de fato, muito mais coisas do que aquelas
    que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e
    ouvem, sem que o recordem, é recordado pelo subconsciente, e
    pode afetar os pensamentos, sentimentos e comportamentos
    conscientes delas.
    A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais
    cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e,
    finalmente, tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber
    torna-se poder, as fórmulas e as experiências de laboratório
    sofrem uma metamorfose, e surgem como a bomba H. No
    presente caso, o belo fragmento de ciência pura descoberto por
    Poetzl, assim como os demais descobertos no campo da
    percepção pré-consciente, conservaram a sua antiga pureza
    durante um período de tempo demasiadamente longo. Depois,
    nos princípios do Outono de 1957, exatamente quarenta anos
    após a publicação do primeiro artigo de Poetzl, anunciou-se que a
    pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido
    aplicadas, haviam adentrado o reino da tecnologia. A revelação
    causou enorme sensação, e em todo o mundo civilizado falou-se
    e escreveu-se sobre isso. E não é para admirar; porque a nova
    técnica de “projeção subliminal”, como a denominaram, estava
    intimamente associada com a distração das massas, e na vida do
    ser humano civilizado a distração das massas desempenha, agora,
    um papel semelhante ao que foi desempenhado pela religião na
    Idade Média. Têm sido dadas várias denominações à nossa época
    – a Idade da Ansiedade, a Idade Atômica, a Idade do Espaço.
    Poderseia denominá-la, com igual propriedade, a Idade do vício
    da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Disk
    Jockey. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl
    havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projeção
    subliminal não podia deixar de despertar o mais vívido interesse
    entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a
    nova técnica era-lhes diretamente dirigida, e o alvo era a
    manipulação dos seus espíritos sem que eles suspeitassem do que
    lhes estava sendo feito. Por intermédio de taquistoscópios
    especialmente concebidos, seriam projetadas palavras ou imagens
    durante um milionésimo de segundo, ou menos, nas telas dos
    aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem
    depois) o programa. “Beba Coca-Cola” ou “Fume Camel” seriam
    projetadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe
    atribulada, e os nervos éticos dos espectadores recolheriam estas
    mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e,
    na devida hora, teriam o desejo consciente de coca-cola e do
    cigarro. E, entretanto, outras mensagens secretas seriam
    retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que
    pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o
    ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como “Querida,
    amo-te”; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos
    terrivelmente sensíveis, e o seu subconsciente, registrariam a boa
    notícia referente a desodorizantes e a laxantes.
    Este tipo de propaganda comercial é realmente eficaz? Os
    dado.; trazidos pela empresa comercial que empregou, pela
    primeira vez, um processo de projeção subliminal são vagos e, do
    ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a
    intervalos regulares durante a projeção de um filme, num cinema,
    a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de
    cinqüenta por cento, a venda do mesmo durante o intervalo. Mas
    uma única experiência comprova muito pouco. Além disso, esta
    experiência particular fora mal planejada. Não havia controle e
    não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras
    variações que, sem dúvida, prejudicam o consumo do milho
    torrado por uma assistência, num cinema. Além disso, era esta a
    maneira mais correta de aplicar o conhecimento adquirido havia
    alguns anos pelos investigadores científicos da percepção
    subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a simples
    projeção do nome de um produto e a ordem de comprá-la
    fossem suficientes para quebrar a resistência à compra e adquirir
    novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é
    obviamente negativa. Mas isto não indica, talvez, que as
    descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não ofereçam
    qualquer importância prática. Aplicado com habilidade, o
    bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode tornar-se muito
    bem num instrumento poderoso de manipulação de espíritos
    desprevenidos.
    Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, deixemos
    de lado os vendedores de milho torrado para aqueles que, com
    menos espalhafato, mas com maior imaginação e melhores
    métodos, fizeram experiências no mesmo campo. Na Inglaterra,
    onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da
    consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os
    investigadores assinalaram a importância prática de se gerarem as
    condições psicológicas apropriadas à persuasão subconsciente.
    Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais capaz de
    produzir efeito se aquele que a receber estiver num estado de
    ligeira hipnose, sob a influência de algumas drogas, ou se se
    encontrar debilitado por doença, por inanição ou não importa
    qual tensão psíquica ou moral. Mas o que é verídico para sugestão
    realizada acima do limiar de consciência é também verdadeiro
    relativamente a sugestões feitas abaixo deste princípio. Numa
    palavra, quanto mais baixo for o nível psicológico de uma pessoa,
    tanto maior será a eficiência das sugestões injetadas sem controle.
    O ditador cientifico do futuro definirá as suas máquinas de
    transmitir mensagens secretas e os seus projetos subliminais nas
    escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente
    sugestionáveis), e em todos os locais públicos onde os auditórios
    possam receber um abrandamento preliminar por intermédio de
    um discurso ou de ritos que aumentam a sugestibilidade.
    Das condições sob as quais podemos aguardar que a
    sugestão subliminal seja eficiente passamos agora à própria
    sugestão. Em que áreas deverá dirigir-se o propagandista ao
    subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens diretas
    (“Compre pipoca” ou “Vote em Jones”) e afirmações categóricas
    (“O Socialismo cheira mal” ou “O dentifrício X abole o mau
    hálito”) só terão, talvez, efeito naqueles espíritos que já são por
    Jones e pelo milho torrado, já despertas para os perigos dos
    odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de
    produção. Mas para robustecer a fé existente não basta isto; o
    propagandista, se for digno desse nome, deve gerar nova fé, deve
    saber como atrair o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve
    ser capaz de abrandar e talvez até de convencer os que lhe são
    contrários. À asseveração subliminal e à ordem, deve acrescer a
    persuasão subliminal.
    Acima do limiar de consciência, um dos meios mais
    eficientes da persuasão não-racional é o que se pode denominar
    persuasão “por associação”. O propagandista associa
    caprichosamente o seu produto selecionado, ou o seu candidato
    ou a sua causa com uma idéia, uma imagem de uma pessoa ou de
    uma coisa, que muita gente, de uma determinada cultura,
    considera, com razão um bem. Assim, numa promoção de
    vendas, a beleza feminina pode ser coisa, desde o “bulldozer” até
    um diurético; numa campanha política o patriotismo pode ser
    associado com qualquer causa desde a segregação até à
    integração, e com qualquer tipo de pessoa, desde Mahatma
    Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América
    Central, notei um exemplo de persuasão por associação que me
    encheu de espanto aterrorizado pelos homens que a imaginaram.
    Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas
    são os calendários coloridos, distribuídos gratuitamente pelas
    companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos índios.
    Os Americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades
    seminuas em seus calendários; porém para os nativos, os cães não
    vão além de objetos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram
    de presenciar todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem
    nenhum atrativo, talvez até um pouco repugnantes.
    Consequentemente, os calendários americanos conseguiram
    muito menos êxito do que os calendários alemães, porque estes
    haviam tido a precaução de procurar o que os índios admiravam,
    o que lhes despertava interesse, e lembro-me em particular de
    uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o
    calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da
    imagem, via-se a marca usual sobre o familiar tubo de
    comprimidos brancos. Acima, nada de paisagens nevadas ou de
    florestas no Outono, cães felpudos, ou beldades despidas. Não –
    os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro
    requintadamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob
    uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria,
    de uma combinação de santos e de revoadas de anjos. As virtudes
    milagrosas do ácido acetilsalicílico eram garantidas desta maneira,
    nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo
    Deus Pai e por toda a corte celestial.
    Este tipo de persuasão por associação é algo a que parecem
    moldar-se particularmente bem as técnicas de projeção
    subconsciente. Numa série de experiências levadas a cabo pela
    Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto
    Nacional da Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma
    pessoa acerca de qualquer imagem vista conscientemente podem
    ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com
    outra imagem, ou melhor, com palavras portadoras de valor.
    Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra
    “feliz”, uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha
    amigavelmente, amavelmente, acolhedoramente. Quando a
    mesma face fora associada, também no plano subconsciente, com
    o termo “furioso”, mostrava-se agressiva, desagradável e hostil.
    (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito
    masculina – ao passo que, quando era associada com a palavra
    “feliz”, viam a face como se esta pertencesse a um indivíduo do
    seu próprio sexo. Pais e maridos, façam o favor de tomar nota.)
    Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são,
    como é evidente, altamente expressivas. Se conseguir deixar as
    suas vítimas num estado excepcionalmente elevado de
    sugestibilidade, se puder apresentar-lhes, quando se encontram
    neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a coisa
    que tem para lhes oferecer, e se, no plano subconsciente, pode
    associar essa coisa ou pessoa ou símbolo, com qualquer palavra,
    ou imagem portadora de valor, o propagandista será capaz de
    modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas
    tenham a mínima idéia do que ele está realizando. Será possível,
    segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orleans,
    aumentar, mediante o uso desta técnica, o valor recreativo dos
    filmes e das peças de televisão. As pessoas apreciam sentir
    emoções fortes e, portanto, admiram as tragédias, os melodramas,
    os filmes policiais e as narrações de grandes paixões. A
    dramatização de uma batalha ou de um beijo produz fortes
    emoções nos espectadores. Podia gerar até emoções mais fortes
    se fosse associada, ao nível subconsciente, às palavras ou
    símbolos apropriados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus
    às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada
    mais pungente do que já é, mediante a repetida projeção
    subliminal na tela, durante o desenrolar da cena, de palavras tão
    nefastas como “dor”, “sangue” e “morte”. As palavras não serão
    conscientemente vistas; mas o seu impacto sobre o subconsciente
    pode ser muito grande, e estes impactos podem reforçar, e muito,
    as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela ação e pelo
    diálogo. Se, como parece certo, a projeção subliminal pode avivar
    poderosamente as emoções sentidas pelos freqüentadores de
    cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota
    – se os produtores de peças de televisão não se apropriarem da
    idéia primeiro.
    Em face do que se disse sobre a persuasão por associação e
    da intensificação de emoções por sugestão subliminal, calculemos
    o que será uma reunião política do futuro. O candidato (se ainda
    houver candidatos), ou o representante indicado da oligarquia
    dirigente fará o discurso que todos ouvirão. Entretanto, os
    taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e
    segredadas, os projetores de imagens tão fracas que só o
    subconciente lhes pode reagir, fortalecerão o que ele diz, através
    da associação sistemática do homem e da sua causa, a palavras
    sobrecarregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e
    pela “injeção estrombônica” de palavras sobrecarregadas de
    valores negativos e de símbolos odientos, sempre que ele cite os
    inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da
    América, reflexos rápidos de Abraham Lincoln e as palavras
    “governo pelo povo” serão projetadas na tribuna. Na Rússia, o
    locutor será, talvez, associado a imagens rápidas de Lenine, com
    as palavras “democracia do povo”, e a barba profética do Pai
    Marx. Porque tudo isto sucederá num futuro ainda bastante
    remoto, podemos sorrir. Porém, daqui a dez ou vinte anos
    parecerá, possivelmente, um pouco menos divertido. Porque o
    que é agora mera ficção científica, tornar-se-á um fato político de
    todos os dias. Poetzl foi um dos profetas que esqueci ao escrever
    o Admirável Mundo Novo. Na minha ficção não há qualquer
    referência à projeção subliminal. É um erro de omissão que, se
    voltasse a escrever o livro novamente, eu corrigiria certamente.
    .:: 10. Hipnopédia ::.
    Pelos fins do outono de 1957, o Woodland Road Camp, uma
    instituição penal localizada em Tulare County, na Califórnia, foi
    alvo de uma experiência bastante curiosa e interessante. Altofalantes
    em miniatura foram dispostos sob os travesseiros de um
    grupo de presos que se tinham oferecido para ser cobaias de uma
    experiência de psicologia. Cada um dos alto-falantes de cabeceira
    estava ligado a um fonógrafo localizado no gabinete do diretor.
    Durante a noite, a cada hora que se escoava, um murmúrio
    moralizador repetia um rápido sermão sobre “os princípios da
    vida moral”. Acordando à meia-noite, um prisioneiro podia ouvir
    a voz enaltecer as virtudes cardiais ou sussurrar, em nome do que
    havia de melhor em si próprio, “Estou cheio de amor e de
    compaixão por todos, assim me ajude Deus.”
    Depois de ler isto sobre Woodland Road Camp, voltei ao
    segundo capítulo do Admirável Mundo Novo. Neste capítulo, o
    Diretor das Incubadoras e do Condicionamento para a Europa
    Ocidental explica a um grupo de jovens condicionadores e
    técnicos de incubação o funcionamento deste método de
    educação ética controlado pelo Estado, conhecido no século VII
    d. F. pela denominação de Hipnopédia. Os primeiros ensaios de
    ensino feitos durante o sono, fala o Diretor ao seu auditório,
    foram mal orientados e, portanto, inúteis. Os educadores
    tentaram dar um treino intelectual aos seus alunos sonolentos.
    Porém, a atividade intelectual é inconciliável com o sono. A
    hipnopédia só obteve êxito quando foi usada para treino moral –
    por outras palavras, para condicionamento do comportamento
    através da sugestão verbal num tempo de resistência psicológica
    diminuída. “O condicionamento sem palavras é grosseiro e
    inteiriço, não pode inculcar os modos de comportamento mais
    complicados exigidos pelo Estado. Para isso são necessárias
    palavras, mas palavras sem razão...” o tipo de palavras que não
    requerem qualquer raciocínio para serem compreendidas, mas
    podem ser sorvidas em bloco pelo cérebro adormecido. Esta é a
    verdadeira hipnopédia, “a maior força de moralização e de
    socialização de todos os tempos”. No Admirável Mundo Novo,
    nenhum cidadão pertencente a uma classe inferior causou jamais
    qualquer perturbação. Por quê? Porque, desde o momento em
    que pôde falar e compreender o que lhe diziam, toda criança de
    uma classe inferior era exposta a sugestões vagamente repetidas,
    noite após noite, durante as horas de modorra e de sono. Estas
    sugestões eram “semelhantes a gotas de lacre líquido, gotas que
    grudam, se incrustam, se agregam a si próprias naquilo sobre o
    que caem, até que, por fim, a rocha não se parece mais do que
    uma massa encarnada. Até que, finalmente, o espírito da criança
    seja estas sugestões, e a soma destas sugestões seja o espírito da
    criança. E não apenas o espírito da criança. Mas também o
    espírito do adulto – durante toda a sua vida. O espírito que decide
    e que anela e julga – constituído por estas coisas sugeridas. Mas
    estas sugestões são as nossas sugestões – as sugestões do
    Estado...”
    Atualmente, tanto quanto sei, as sugestões hipnopédicas não
    foram administradas por um estado superior a Tulare County, e a
    natureza das sugestões hipnopédicas aplicadas em Tulare, aos
    infratores da lei, é vulgar. Se todos nós, e não apenas os
    habitantes de Woodland Road Camp, pudéssemos estar
    realmente repletos de amor e compaixão por todos durante o
    sono! Não, não é contra a mensagem transmitida pelo sussurro
    inspirador que apontamos objeções; é contra o método de ensino
    durante o sono realizado pelos poderes do Estado. É a
    hipnopédia o tipo de instrumento que personagens oficiais,
    encarregadas de exercer a autoridade numa sociedade
    democrática, devem ter autorização para usar como bem lhes
    parecer? Na atual instância, estão aplicando esse instrumento
    apenas em voluntários imbuídos das melhores das intenções. Mas
    não há certeza de que, em outras situações, as intenções sejam
    boas ou que a doutrinação tenha um fundamento voluntário.
    Qualquer lei ou prescrição social que torne viável a personagens
    oficiais serem levados à tentação é má. Qualquer lei ou preceito
    que os preserve de serem tentados de abusar do poder que lhes
    foi delegado, em seu benefício próprio, ou para benefício do
    Estado ou de alguma organização política, econômica ou
    eclesiástica, é boa. A hipnopédia, se fosse eficiente, seria um
    instrumento penosamente poderoso nas mãos de uma pessoa
    qualquer que se encontre numa posição que lhe permitisse impor
    sugestões sobre um auditório que não seja livre. Uma sociedade
    democrática está baseada na certeza de que se abusa muitas vezes
    do poder e que é conveniente, consequentemente, não o confiar
    aos funcionários, senão em porções limitadas e por intervalos de
    tempo reduzidos. Numa tal sociedade, o uso da hipnopédia por
    funcionários do Estado seria regulado pela lei – supondo, bem
    entendida, que a hipnopédia é, na realidade, um instrumento do
    poder. Mas é realmente um instrumento de poder? Funcionará
    ele tão bem quanto o imaginei em funcionamento no século VII
    depois de Ford? Analisemos os fatos.
    No Psychological Bulletin de julho de 1955, Charles W.
    Simon e William H. Emmons analisaram e criticaram os dez
    estudos mais importantes que se efetuaram neste domínio. Todos
    estes estudos diziam respeito à memória. O ensino efetuado
    durante o sono ajudará o aluno quando se trata de aprender de
    cor? E até que ponto é que o material sussurrado ao ouvido da
    pessoa adormecida é recordado na manhã seguinte quando a
    pessoa desperta? Simon e Emmons respondem da seguinte forma
    : “Dez estudos sobre o ensino realizado durante o sono foram
    examinados e vários deles foram mencionados
    indiscriminadamente por empresas comerciais, ou em revistas de
    divulgação e artigos de jornal, como provas a favor da viabilidade
    de aprender enquanto dormimos. Foi feita uma análise crítica da
    organização das experiências em causa, das estatísticas, da
    metodologia e dos meios aplicados para definir o sono. Todos os
    estudos revelaram pontos fracos em um ou vários destes campos.
    Não determinavam com uma clareza inequívoca que sejam
    assimilados conhecimentos pelo sujeito enquanto dorme
    realmente. Parece, contudo, que se produz um tipo de aquisição
    num estado de vigília particular, de tal maneira que os pacientes já
    não se lembram depois se estavam ou não acordados. Este
    fenômeno é capaz de ter uma grande importância prática do
    ponto de vista da economia do tempo de estudo, mas não pode
    ser analisado como um ensino durante o sono... O problema fica
    parcialmente ofuscado por uma definição insuficientemente
    precisa do sono”.
    Permanece, no entanto o fato de que, no exército americano,
    no transcorrer da última guerra mundial (e mesmo durante a
    primeira, a título experimental), cursos do código Morse e de
    línguas estrangeiras ministrados durante o dia eram completados
    por instruções durante o sono – com resultados que parecem
    satisfatórios. Desde o fim das hostilidades, várias empresas
    comerciais, nos Estados Unidos e em outros países, venderam
    grandes quantidades de alto-falantes de cabeceira, de fonógrafos
    com mecanismos de relojoaria e de magneto-fones e atares que
    tinham urgência de decorar os seus papéis, a políticos e a
    pregadores que queriam dar a ilusão de uma eloquência natural, a
    estudantes que se preparavam para os exames e por fim àqueles,
    incontáveis, que não estão satisfeitos consigo próprios e
    desejariam que a sugestão ou a auto-sugestão os ajudassem a
    tornar-se diferentes. A sugestão que cada um ministra a si próprio
    pode ser gravada com facilidade numa fita magnética e ouvida,
    repetidas vezes, de dia e durante o sono. As sugestões exteriores
    podem ser adquiridas sob a forma de discos portadores de uma
    variedade bastante considerável de conselhos salutares. Há no
    comércio discos que libertam da tensão e levam a um profundo
    relaxamento, a fim de favorecer a confiança em si (muito
    solicitados pelos caixeiros viajantes), discos para aumentar os
    nossos atrativos e tornar a personalidade mais marcante.
    Entre os que estão mais em moda, encontram-se os que
    permitem a realização da harmonia sexual e os discos para quem
    quer emagrecer. (“Sou indiferente ao chocolate, insensível à
    atração de batatas, desinteressado por completo de bolos”.) Há
    discos para melhorar a saúde, e até para ganhar mais dinheiro. E a
    coisa realmente notável é que, segundo testemunhos não
    solicitados, enviados por reconhecidos compradores destes
    discos, muitas pessoas ganham realmente mais dinheiro após
    ouvirem as sugestões hipnopédicas indicadas para este caso;
    muitas senhoras obesas emagrecem e muitos casais à beira do
    divórcio conseguem a harmonia sexual e vivem, a partir de então,
    felizes.
    Neste contexto, um artigo de Theodore X. Barber, “Sono e
    hipnose”, aparecido em The Journal of Clinicai and Experimental
    Hypnosis de outubro de 1956, é mais elucidativo. O sr. Barber
    assinala que há uma diferença expressiva entre o sono leve e o
    sono profundo. No sono profundo o eletroencefalograma não
    registra ondas alfa; no sono leve, elas aparecem. Nestas
    circunstâncias, o sono leve está mais próximo das situações de
    vigília e de hipnose (em ambos se apresentam as ondas alfa) do
    que no sono profundo. Um ruído violento fará despertar uma
    pessoa adormecida profundamente. Um estímulo menos violento
    não a fará despertar, mas ocasionará o reaparecimento das ondas
    alfa. O sono profundo cedeu lugar durante algum tempo ao sono
    leve.
    Uma pessoa adormecida profundamente não é sugestionável.
    Mas quando são dadas sugestões a pacientes mergulhados em
    sono leve, eles responderão a essas sugestões, da mesma maneira
    como reagem a sugestões quando em estado de hipnose, segundo
    diz o sr. Barber.
    Muitos dos que exploraram pela vez primeira o hipnotismo
    fizeram experiências análogas. Na sua clássica History, Practice
    and Theory of Hypnotism, inicialmente publicada em 1903, Milne
    Bramwell assinala que “muitas autoridades apregoam ter alterado
    o sono natural em sono hipnótico. Segundo Wetterstrand, por
    vezes é bastante fácil entrarmos em comunicação com pessoas
    adormecidas, notadamente crianças... Wetterstrand julga de
    grande valia prática este método de gerar a hipnose e afirma que
    o aplicou muitas vezes com êxito.” Branwell cita, neste sentido,
    vários outros hipnotizadores com experiência (inclusive
    autoridades eminentes como Bernheim, Moll e Forel). Hoje, um
    experimentador não falaria de “mudança do sono natural em
    sono hipnótico”. Tudo o que pode dizer é que o sono leve
    (oposto ao sono pesado sem ondas alfa) é uma situação em que
    muitos pacientes receberão sugestões tão facilmente como sucede
    quando estão sob a hipnose. Por exemplo, depois de lhes
    dizerem, quando levemente adormecidos, que não demorarão a
    acordar sedentos, muitos pacientes despertarão de fato com a
    boca seca e uma sede ardente. O córtex pode estar bastante
    inativo para pensar com clareza, mas desperto suficientemente
    para reagir a sugestões e enviá-las ao sistema nervoso autônomo.
    Como já observamos, o muito conhecido médico e
    experimentador sueco, Wetterstrand, conseguia êxito em
    particular no tratamento hipnótico de crianças adormecidas. Os
    métodos de Wetterstrand são seguidos em nossos dias por
    numerosos pediatras que instruem as jovens mães na arte de dar
    sugestões valiosas aos filhos durante as horas em que estes se
    encontram levemente adormecidos. Através desta espécie de
    hipnopédia, as crianças podem ser curadas da incontinência de
    urina e de onicofagia, permite que se preparem os pequenos
    doentes para sofrerem, sem apreensão, uma intervenção cirúrgica,
    para lhes transmitir confiança e segurança, quando, por qualquer
    motivo, as circunstâncias da sua vida se tornaram aflitivas.
    Verifiquei, pessoalmente, os apreciáveis resultados conseguidos
    por esse processo em crianças, e é possível que o método não
    fosse menos eficiente para adultos.
    Para o aspirante a ditador, a moral de tudo isto é notória.
    Sob condições adequadas, a hipnopédia oferece resultados
    efetivamente – resultados, parece, tão eficientes como a hipnose.
    Muitas das coisas que se podem fazer com uma pessoa em estado
    hipnótico podem ser feitas com uma pessoa levemente
    adormecida. As sugestões orais podem ser comunicadas através
    do córtex sonolento para o cérebro médio, para a medula
    alongada e para o sistema nervoso autônomo. Se estas sugestões
    são bem concebidas e repetidas com freqüência, as funções
    corpóreas de quem está dormindo podem ser excitadas ou
    inibidas, e é possível alojar novos modelos de sentimento ao
    passo que os antigos são modificados, é possível darem-se ordens
    pós-hipnóticas, slogans, fórmulas, e palavras-chave
    profundamente gravadas na memória. As crianças são melhores
    pacientes hipnopédicos do que os adultos, e o aspirante a ditador
    auferirá. vantagem do fato. As crianças das creches e dos jardins
    de infância serão submetidas a sugestões hipnopédicas durante o
    sono da tarde. Para as crianças mais idosas, e particularmente
    para os filhos dos membros do partido – rapazes e moças que
    crescerão para serem dirigentes, administradores e professores –
    haverá internatos, em que uma esmerada educação diurna será
    completada pelo ensino noturno durante o sono. No caso dos
    adultos, será dedicada atenção particular ao doente. Como Pávlov
    comprovou há muitos anos, os cães dotados de grande
    envergadura mental e de grande resistência tornam-se totalmente
    sugestionáveis depois de uma operação ou quando sofrem de um
    mal debilitante. O nosso ditador cuidará, portanto, para que cada
    enfermaria seja dotada com aparelhagem sonora. Uma
    apendicectomia, um parto, uma pneumonia ou uma hepatite,
    podem constituir motivo para um curso intensivo sobre a
    lealdade e a verdadeira fé, um calmante dos princípios da
    ideologia local. Outras assistências cativas podem encontrarse nas
    prisões, nos campos de trabalho, nos acampamentos militares,
    barcos em viagem, trens e aeroplanos, durante a noite, nas
    soturnas salas de espera das rodoviárias e das estações
    ferroviárias. Ainda que as sugestões dadas a estas assistências
    forçadas só fossem eficientes em dez por cento dos casos, os
    resultados ainda seriam impressionantes e, para um ditador,
    altamente desejáveis.
    Da sugestibilidade aumentada, em associação com o sono
    leve e com a hipnose, passemos à sugestibilidade normal dos que
    estão acordados – ou, pelo menos, que se supõem acordados. (Na
    realidade, como insistem os budistas, muitas pessoas estão meio
    adormecidas durante todo o tempo e passam a vida como
    sonâmbulos que obedecem às sugestões de qualquer pessoa. A
    iluminação é o despertar total. A palavra Buda pode traduzir-se
    por “o Iluminado”.)
    Do ponto de vista genético, cada ser humano é único e em
    muitos sentidos diferente de qualquer outro ser humano. A escala
    das variações individuais, partindo-se do normal estatístico, é
    surpreendentemente ampla. E o normal estatístico, recordêmo-la,
    é útil tão só para os cálculos dos estatísticos, não na vida real. Na
    vida real não há pessoa que corresponda ao homem médio. Há
    apenas homens particulares, mulheres e crianças particulares, cada
    um com as suas idiossincrasias inatas, físicas e mentais, e todos
    eles tentando (ou sendo impelidos) comprimir as suas
    diversidades biológicas na conformidade de um molde cultural.
    A sugestibilidade é uma das qualidades que variam
    correspondentemente de indivíduo para indivíduo. Os fatores
    mesológicos desempenham, certamente, o seu papel na
    modelação da maior ou menor receptividade a sugestões das
    pessoas, mas há, outrossim, de maneira não menos carreta,
    diferenças constitucionais no tangente à sugestibilidade dos
    indivíduos. A extrema resistência à sugestão é bastante rara.
    Ainda bem. Porque, se cada pessoa fosse tão incapaz de ser
    sugestionada como algumas o são, a vida em sociedade seria
    impossível. As sociedades podem funcionar com um grau
    razoável de eficiência porque muitas pessoas são, em grau
    variável, facilmente sugestionáveis. A sugestibilidade extrema é
    mais ou menos tão rara como a incapacidade extrema para ser
    sugestionada. E também felizmente que assim o seja. Porque se
    muitas pessoas fossem tão receptivas em relação a sugestões
    exteriores como os homens e as mulheres que se acham nos
    limites extremos da sugestibilidade, a escolha livre, racional,
    tornar-se-ia praticamente impossível, para a maioria dos eleitores,
    e as instituições democráticas não poderiam sobreviver, nem
    sequer teriam surgido.
    Há alguns anos, no “Massachusetts General Hospital”, um
    grupo de investigadores fez um conjunto de experiências
    extremamente reveladoras sobre o efeito analgésico do placebo.
    (Um placebo é algo que um doente crê ser uma droga ativa, mas
    que é, realmente, farmacologicamente inócua.) Nestas
    experiências, os pacientes eram cento e sessenta e dois doentes
    que acabavam de ser operados e padeciam grandes dores. Onde
    quer que um paciente pedisse um medicamento para se livrar da
    dor, davam-lhe uma injeção, ou de morfina ou de água destilada.
    Todos os pacientes receberam injeções de morfina e outras de
    placebo. Cerca de trinta por cento dos pacientes não obtiveram
    qualquer resultado com o placebo. Por outro lado, catorze por
    cento conseguiram alívio depois de todas as injeções de água
    destilada. Os restantes cinqüenta e cinco por cento, obtinham
    alívio com o placebo em algumas ocasiões, em outras não.
    Sob quais aspectos diferiam entre si estes dois grupos?
    Estudos meticulosos e aprofundados comprovaram que a idade e
    o sexo não constituíam fatores significativos. Os homens reagem
    ao placebo tão normalmente como as mulheres, e os jovens com
    tanta freqüência quanto os adultos. Mesmo a inteligência, quando
    medida pelos testes normais, se apresenta como um fator de
    destaque. O Quociente de Inteligência de ambos os grupos era
    relativamente o mesmo. Era, acima de tudo, no temperamento,
    nos modos de reagir em relação a si próprios e em relação aos
    outros, que os indivíduos dos dois grupos eram
    significativamente desiguais. Os que reagiam cooperavam mais do
    que os que não reagiam, menos críticos e menos suspeitosos. Não
    davam trabalho às enfermeiras e pensavam que os cuidados que
    recebiam no hospital eram simplesmente “maravilhosos”. Porém,
    se bem que mais cordiais para com os demais, do que os que não
    reagiam, sentiam-se geralmente muito mais ansiosamente
    preocupados consigo próprios. Sob tensão, esta ansiedade
    propendia a transferir-se para vários sintomas psicossomáticos,
    tais como indigestões, diarréias e dores de cabeça. Contudo, ou
    devido à ansiedade, muitos dos que reagiam mostravam-se menos
    inibidos na manifestação da sua emoção do que os que não
    reagiam, e mais inconstantes. Eram também muito mais
    religiosos, muito mais preocupados com as coisas da sua igreja e
    muito mais preocupados, sob um nível subconsciente, com os
    seus órgãos abdominais e pélvicos.
    É interessante fazer uma comparação entre estes números
    relativos ao placebo com os cálculos realizados, no seu campo
    especial, pelos adeptos do hipnotismo. Um quinto da população
    aproximadamente pode ser hipnotizada muito facilmente, é o que
    nos dizem. Outro quinto não pode ser hipnotizado de maneira
    alguma, ou só pode ser hipnotizado quando as drogas, ou a
    fadiga, lhes minaram a resistência psíquica. Os três quintos
    restantes podem ser hipnotizados pouco menos facilmente do
    que o primeiro grupo, mas de maneira bem mais fácil do que o
    segundo. Um fabricante de discos hipnopédicos narrou-me que
    aproximadamente vinte por cento dos seus clientes sentiam-se
    entusiasmados e contavam extraordinários resultados
    conseguidos em muito pouco tempo. No outro extremo do
    fantasma de sugestibilidade há uma minoria de oito por cento que
    pede o reembolso da despesa. Entre estes dois extremos, achamse
    as pessoas que não conseguem resultados rápidos, mas que são
    suficientemente sugestionáveis para que alcancem resultados a
    longo prazo. Se continuarem a ouvir incessantemente as
    instruções hipnopédicas apropriadas acabarão por obter o que
    querem – confiança em si próprias ou harmonia sexual, menos
    peso ou mais dinheiro.
    Os ideais da democracia e da liberdade vão de encontro
    com o caso brutal da sugestibilidade humana. Um quinto dos
    eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos,
    um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante a aplicação
    de injeções de água, um quarto responderá de pronto e
    entusiasticamente à hipnopédia. A todas estas minorias bastante
    dispostas a cooperar, devemos acrescentar as maiorias de reações
    mais lentas, cuja sugestibilidade menos acentuada pode ser
    explorada por qualquer manipulador cônscio de sua função,
    pronto a dedicar para isso o tempo e os esforços indispensáveis.
    É a liberdade individual conciliável com um elevado grau de
    sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas
    reagir contra a subversão exercida do interior por especialistas
    hábeis na ciência e no mister de explorar a sugestibilidade dos
    indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada
    pela educação, para benefício do próprio indivíduo ou para
    benefício de uma sociedade democrática, a tendência natural para
    ser sugestionável em excesso? Até que ponto pode ser controlada,
    pela lei, a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de
    homens de negócio e de eclesiásticos, por políticos dentro e fora
    do poder? Explícita ou implicitamente, as duas primeiras
    perguntas foram estudadas no decorrer dos capítulos
    precedentes. Nos que se seguem abordarei os problemas da
    prevenção e da cura.
    .:: 11. Educação para a Liberdade ::.
    A educação para a liberdade deve começar por impor fatos e
    por expor argumentos de valor, e deve ir ao ponto de gerar
    técnicas apropriadas à execução de valores e ao combate de quem
    que, por qualquer motivo, prefere a ignorância da realidade ou a
    negação dos valores.
    Em capítulo anterior discorri sobre a Ética Social, em termos
    tais que os males oriundos da superorganização e de
    superpopulação são justificados e surgem como bens. É um tal
    sistema de valores que concordam com o que conhecemos do
    corpo e do temperamento humanos? A Moral Social afirma que a
    educação é de máxima importância na definição do
    comportamento humano e que a natureza – o equipamento
    psico-físico com os quais os indivíduos nasceram – é um fator
    desprezível. Porém, será isto realidade? Será verdade que os seres
    humanos nada mais são do que produtos do seu ambiente social?
    E se não for verdade, que justificativa pode alegar-se para o caso
    de se afirmar que o indivíduo tem menos importância do que o
    grupo do qual é membro?
    Todos os informes disponíveis nos levam à dedução de que,
    na vida dos indivíduos e da sociedade, a hereditariedade não é
    menos expressiva do que a cultura. Todo indivíduo é
    biologicamente único e distinto dos demais indivíduos. A
    liberdade é, pois, um grande bem, a tolerância uma grande virtude
    e a associação uma grande desgraça. Por razões práticas ou
    utopistas, os ditadores, os Homens de Organização e alguns
    cientistas estão ávidos por reduzir a exasperante diversidade da
    qualidade humana a uma sorte de uniformidade maneável. Na
    primeira maré deste fervor behaviourista, J. B. Watson declarou,
    formalmente, que não conseguia encontrar “qualquer indicação
    em prol da existência de métodos de comportamento
    hereditários, nem das capacidades especiais (artísticas, etc.) que se
    supõem receber da família.” Hoje ainda, ouvimos um eminente
    psicólogo, o Prof. B. F. Skinner, de Harvard, afirmar que “quanto
    mais a explicação científica se torna compreensiva, tanto mais a
    contribuição que se pode atribuir ao indivíduo tende aproximarse
    de zero. Os exaltados poderes criativos do homem, as suas
    realizações artísticas, científicas e morais, a sua capacidade de
    optar e o nosso direito de julgá-lo responsável pelas
    conseqüências da sua escolha – tudo isto é insignificante diante
    do novo auto-retrato científico.” Em suma, as peças de
    Shakespeare não foram escritas por ele, nem mesmo por Bacon
    ou pelo conde de Oxford; foram escritas pela Inglaterra
    Elizabetiana.
    Há mais de sessenta anos, William James redigiu um
    trabalho sobre Os Grandes Homens e o seu meio, no qual
    tentava defender o indivíduo excepcional contra os ataques de
    Herbert Spencer. Este declarara que “A Ciência” (essa
    personificação maravilhosamente conveniente das opiniões dos
    Profs. X, Y, Z, em determinada data) abolira totalmente o
    Grande Homem. “O Grande Homem”, anotara Spencer, “deve
    ser classificado juntamente com os outros fenômenos na
    sociedade que lhe deu o ser, como um derivado dos seus
    antecedentes.” O grande homem pode ser (ou parece ser) “o
    iniciador imediato de transformações... Porém, se quisermos
    encontrar-lhes uma explicação um tanto verídica necessário é que
    a procuremos neste conglomerado de circunstâncias e de
    condições de que o Grande Homem e as modificações
    apareceram”. Eis uma daquelas profundezas vazias a que se não
    pode atribuir, talvez, qualquer sentido prático. O que o nosso
    filósofo diz é que temos necessidade de tudo conhecer antes de
    podermos compreender a fundo o que for. Não há dúvida.
    Realmente, porém, jamais teremos conhecimento de tudo.
    Devemos contentar-nos, portanto, com o conhecimento parcial e
    com as causas próximas – incluindo entre elas a influência dos
    grandes homens. “Se qualquer coisa for humanamente certa”,
    escreve William James, “é que a sociedade do grande homem,
    propriamente dita, não o faz antes de que ele possa refazê-la.
    Forças fisiológicas, com as quais as condições sociais, políticas,
    geográficas e, em larga escala, antropológicas, apresentam
    exatamente tanta analogia, nem mais, nem menos, quanto a
    cratera do Vesúvio está em relação com a vacilação do gás que
    me alumia neste instante, eis o que torna o grande homem.
    Afirmará o sr. Spencer que as pressões sociológicas dirigiram-se
    com tanto ímpeto sobre StatforduponAvon por volta de 26 de
    abril de 1564, que certo W. Shakespeare, com todas as suas
    peculiaridades mentais, teve de nascer lá?... Quererá ele afirmar
    que, se o supramencionado W. Shakespeare tivesse sucumbido de
    cólera infantil, uma outra mãe de Stratford-upon-Avon deveria
    apresentar uma cópia igual ao original para restabelecer o
    equilíbrio sociológico?”
    O Prof. Skinner é um psicólogo experimentado, e o seu
    trabalho sobre “A Ciência e o Comportamento Humano” está
    baseado firmemente sobre fatos. Porém, infelizmente, estes
    pertencem a uma classe tão reduzida que, quando o autor se
    arrisca finalmente a fazer uma propagação, as suas conclusões são
    tão elementares e tão remotas da realidade quanto as do teorista
    vitoriano. Não podia ser de outra maneira, porque a indiferença
    do Prof. Skinner relativamente ao que William James chamava
    “forças fisiológicas” é quase tão completa como a de Herbert
    Spencer. As causas genéticas determinantes do comportamento
    humano são resumidas em menos de uma página pelo Prof.
    Skinner. No seu livro não há a menor alusão às descobertas da
    medicina constitucional, nem a essa psicologia constitucional
    cujos princípios seriam os únicos que permitiriam (tanto quanto
    posso julgar) que narrássemos a biografia completa e realista de
    um indivíduo, em relação aos casos relevantes da sua existência –
    o corpo, o temperamento, os dotes intelectuais, o meio imediato
    em cada instante, o tempo, situação e cultura. Uma ciência do
    comportamento humano é semelhante à ciência do movimento
    no abstrato – necessária, mas, por si própria, totalmente
    imprópria aos acontecimentos. Consideremos uma libélula, um
    foguete, uma vaga que se desfaz. Os três casos ilustram as
    mesmas leis básicas do movimento; mas ilustram de maneiras
    diferentes estas leis, e as peculiaridades são pelo menos tão
    importantes como as suas semelhanças. Por si próprio, um estudo
    do movimento quase nada pode apresentar-nos sobre o que, em
    dado momento, está se movendo. Igualmente, um estudo do
    comportamento, por si próprio, quase nada pode dizer-nos sobre
    o composto “corpo-espírito” individual que, em um dado
    instante, apresenta o seu comportamento. Mas para nós, que
    somos compostos “corpo-espírito”, o conhecimento deles é de
    suma importância. Além do mais, sabemos por observação e
    experiência que as diferenças entre compostos “corpo-espírito”
    individuais são demasiadamente grandes, e que alguns compostos
    “corpo-espírito” podem prejudicar e prejudicam profundamente
    o seu ambiente social. Acerca deste último ponto, o sr. Bertrand
    Russel está em completo acordo com William James – e
    praticamente com toda a gente, acrescerei, com exceção dos
    proponentes do pensamento spenceriano ou behaviorístico.
    Segundo Russel os princípios das modificações históricas são de
    três espécies – desenvolvimento econômico, teoria política e
    individualidades importantes. “Não creio”, disse Russel, “que
    qualquer uma delas pode ser ignorada, ou totalmente explicada
    como efeito de causas de outra natureza.” Assim, se Bismarck e
    Lenine tivessem morrido na infância, o nosso mundo atual seria
    muito diferente do que, graças em parte a Bismarck e a Lenine, o
    é atualmente. “A História não é ainda uma ciência e só pode
    passar por científica graças à mistificação e omissões.” Na vida
    real, na vida tal como é vivida no dia a dia, o individual nunca
    pode ser aniquilado por uma explicação. É apenas em teoria que a
    sua cooperação parece aproximar-se do zero; na prática, essa
    cooperação é de suma importância. Quando se executa um
    trabalho no mundo, o que o executa verdadeiramente? De quem
    são os olhos e os ouvidos que o percepcionam, o cérebro que o
    idealiza? Quem experimenta os sentimentos que fazem agir, a
    vontade que supera os obstáculos? Certamente não será o
    ambiente social; porque um grupo não é um organismo, porém
    apenas uma cega organização sem consciência. Tudo o que é
    realizado dentro de uma sociedade é realizado pelos indivíduos.
    Estes indivíduos são, certamente, profundamente influenciados
    pela cultura local, pelos tabus e preconceitos morais, pela
    informação correta ou incorreta que se transmitiu do passado ao
    presente no corpo das tradições orais ou da literatura escrita; mas
    seja o que for que cada indivíduo tira da sociedade (ou, para
    sermos mais explícitos, o que ele recebe de outros indivíduos
    reunidos em associações, ou dos arquivos simbólicos coligidos
    por outros indivíduos, vivos ou mortos) será empregado por ele
    na sua própria e única maneira com os seus sentidos, a sua
    formação bioquímica, o seu físico, o seu temperamento e não
    com os dos outros. Nenhuma explicação científica, por mais
    completa e profunda que seja, pode eliminar estes fatos evidentes.
    E lembremos que a apresentação científica do homem, feita pelo
    Prof. Skinner, como produto do meio social, não é a única
    apresentação científica. Há outros, de aparências mais realistas.
    Consideremos, por exemplo, a exposição realizada pelo Prof.
    Roger Williams. O que ele representa, não é o comportamento
    em abstrato, mas complexos “corpo-espírito” a comportarem-se
    – complexos “corpo-espírito” que são, em parte, conseqüências
    do ambiente que partilham com outros complexos “corpoespírito”,
    em parte da sua hereditariedade particular. Em The
    Human Frontier e Free but Unequal, o Prof. Williams estendeuse,
    com provas abundantes e evidentes, sobre estas diferenças
    naturais entre indivíduos para as quais o Dr. Watson não
    encontrava qualquer apoio e cuja importância, aos olhos do Dr.
    Skinner, aproxima-se de zezo. Entre os animais, a diferença
    biológica dentro de uma dada espécie torna-se cada vez mais
    acentuada assim que subimos na escala da evolução. Esta
    diferença biológica é superior no homem, e os seres humanos
    apresentam um grau de diversidade bioquímica, estrutural e
    temperamental, superior à dos membros das outras espécies. É
    um fato facilmente observável. Mas o que eu denominei a
    Vontade de Ordem, o desejo de impor uma uniformidade
    compreensível acerca da diversidade embaraçante das coisas e dos
    acontecimentos, levou muita gente a desconhecer este fato.
    Reduziram ao mínimo a unicidade biológica e concentraram toda
    a atenção em fatores ambientais, mais simples, e, no estado atual
    do conhecimento, mais compreensíveis, que abarcam o
    comportamento humano.
    “Como resultado deste pensamento e desta investigação
    sediada sobre o ambiente”, escreve o Prof. Williams, “a doutrina
    da uniformidade primordial dos filhos do homem foi
    declaradamente aceita e afirmada por um grande setor da
    psicologia social, da sociologia, da antropologia social, e por
    muitos outros investigadores, incluindo historiadores,
    economistas, pedagogos, juristas e homens públicos. Esta
    doutrina foi anexada à maneira predominante de pensamento de
    muita gente que teve ocasião de agir no campo da educação e da
    administração, e é muitas vezes aceita, sem discussão, por aqueles
    que pouco uso fazem do seu pensamento crítico.”
    É possível que um sistema ético fundado sobre uma
    apreciação tão realista dos dados da experiência seja mais
    benéfico do que maléfico. Porém muitos sistemas éticos foram
    alicerçados sobre uma apreciação da experiência, um ponto de
    vista sobre a natureza das coisas, que é funestamente irrealista.
    Tais éticas ocasionarão, talvez, mais prejuízos do que benefícios.
    Assim, até uma época bastante recente, acreditava-se piamente
    que o mau tempo, as doenças do gado e a impotência sexual
    podiam ser, e eram realmente em muitos casos, ocasionadas por
    ações malévolas de mágicos. Prender e exterminar mágicos era,
    por isso, um dever – e este dever, além disso, fora ordenado por
    Deus no segundo livro de Moisés: “Não sofras a fim de que viva
    um mágico”. Os sistemas éticos e jurídicos que se alicerçavam
    sobre este errôneo ponto de vista sobre a natureza das coisas
    foram causa (durante os séculos em que foram levados mais a
    sério pelos homens e pelas autoridades) de males aterradores. Os
    excessos de espionagem, de linchamento, e do crime judicial, que
    estas errôneas concepções sobre a magia tornaram lógicas e
    obrigatórias, não foram igualadas até os nossos dias quando as
    éticas comunistas e nazistas, a primeira alicerçada em pontos de
    vista errôneos sobre a economia, a segunda baseada¿ em pontos
    de vista errados sobre as raças, ordenaram e justificaram
    atrocidades numa escala ainda maior. conseqüências pouco
    menos indesejáveis seguem-se verossimilmente da aceitação
    generalizada de uma Ética Social, alicerçada do ponto de vista
    errôneo de que somos uma espécie amplamente sociável, que os
    filhos dos homens nascem uniformes e que os indivíduos são a.
    conseqüência do condicionamento levado a efeito pelo e dentro
    do ambiente coletivo. Se estes pontos de vista fossem corretos, se
    os seres humanos fossem, realmente, membros de espécies
    autenticamente saciáveis, e se as suas diferenças individuais
    fossem as menores possíveis e facilmente deléveis mediante um
    condicionamento adequado, não haveria então, necessariamente,
    necessidade de liberdade, e o Estado teria justificação para o fato
    de perseguir os heréticos que a reclamassem. Para a térmite
    individual, o serviço da termiteira representa a liberdade perfeita.
    Porém os seres humanos não são seres totalmente saciáveis; são
    apenas ligeiramente gregários. As suas sociedades não são
    organismos, à semelhança do cortiço ou do formigueiro, porém
    organizações, ou em outros termos, máquinas ad hoc preparadas
    para a vida coletiva. Além do mais, são tão grandes as diferenças
    entre indivíduos que, malgrado a mais intensa cultura
    transformadora, um endomorfo extremo (usando a terminologia
    de W. H. Sheldon) há de reter as suas características
    viscerotônicas, sociáveis, um mesomorfo extremo permanecerá
    energeticamente somatotônico apesar de tudo, e um ectomorfo
    será sempre cerebrotônico, introvertido e hipersensível. No
    Admirável Mundo Novo da minha ficção, o comportamento
    socialmente desejável seria garantido por um processo duplo de
    manipulação genética e condicionamento pós-natal. As crianças
    seriam geradas em provetas e estaria, assim, assegurado um alto
    grau de uniformidade do produto humano, devido a utilização de
    óvulos provenientes de um número reduzido de mães, através do
    tratamento a que cada um deles seria submetido, de maneira tal
    que seriam realizadas neles divisões e subdivisões até o infinito,
    gerando gêmeos idênticos em quantidades de uma centena ou
    mais. Assim sendo, seria possível fabricar máquinas-padrão
    possuidoras de cérebro para servir a máquinas-padrão. E a
    padronização das máquinas detentoras de cérebro seria
    aperfeiçoada, após o nascimento, pelo condicionamento infantil
    através da hipnopédia e pela euforia quimicamente induzida
    como substituição para a satisfação de nos sentirmos livres e
    criadores. No mundo em que vivemos, como foi assinalado em
    capítulo anterior, enormes forças impessoais estão agindo a favor
    da centralização do poder e por uma sociedade centralizada. A
    padronização genética dos indivíduos é, por enquanto,
    impossível; mas o Grande Governo e o Alto Negócio já
    possuem, ou não tardarão a possuir, todas as técnicas de
    manipulação do espírito descritas no Admirável Mundo Novo,
    além de outras que, por falta de imaginação, não pude idealizar.
    Faltando-lhes capacidade para impor a uniformidade genética aos
    embriões, os dirigentes do superpovoado e superorganizado
    mundo do futuro tentarão impor a uniformidade social e cultural
    sobre os adultos e sobre os seus filhos. Para conseguirem este
    objetivo, lançarão mãos (a menos que sejam impedidos) de todas
    as técnicas de manipulação do espírito de que disponham, e não
    titubearão em reforçar estes meios de persuasão não-racional pela
    pressão econômica e pela ameaça de torturas físicas. Se
    desejarmos que este tipo de tirania seja evitado, devemos
    começar, sem demora, a educar-nos a nós e aos nossos filhos
    para a liberdade e o autogoverno.
    Uma tal educação para a liberdade será, como disse, uma
    educação alicerçada, em princípio, em fatos e valores – os fatos
    atinentes à diversidade individual e à unicidade genética, e os
    valores de liberdade, tolerância e caridade mútuas que são as
    conseqüências éticas deste fatos. Porém, infelizmente, o
    conhecimento exato e princípios sólidos não são suficientes. Uma
    verdade sem luz pode ser eclipsada por uma falsidade
    apaixonante. Um apelo hábil à paixão é, geralmente, demasiado
    forte contra as melhores das boas intenções. As conseqüências da
    propaganda falsa e perniciosa só podem ser bloqueadas por um
    treino sólido no mister de analisar as suas técnicas e de enxergar
    claramente através dos seus sofismas. A linguagem tornou
    possível o progresso do homem da selvageria à civilização.
    Contudo a linguagem inspirou, também, essa loucura
    perseverante e essa maldade sistemática, essa maldade
    verdadeiramente diabólica que não são menos distinções do
    comportamento humano do que as virtudes do pensamento
    metodicamente previdente e da contínua benevolência angélica
    inspiradas pela palavra. Àqueles que a usam, a palavra permitelhes
    que prestem atenção às coisas, às pessoas e aos
    acontecimentos, quando as coisas e as pessoas estão ausentes e os
    acontecimentos estão por se realizar. A linguagem dá clareza e
    nitidez às nossas recordações e, traduzindo as experiências em
    símbolos, converte a fugacidade imediata do desejo ou do horror,
    do amor ou do ódio, em princípios duradouros do sentimento e
    da conduta, de maneira que não tendo nós consciência, o sistema
    reticular do cérebro seleciona, de uma quantidade inumerável de
    estímulos, aquelas parcas experiências que são de importância
    prática para nós. Destas experiências selecionadas a esmo,
    separamos e abstraímos mais ou menos conscientemente um
    relativo número, que catalogamos com palavras do nosso
    vocabulário e classificamos, então, num sistema ao mesmo tempo
    metafísico, científico e ético, construído por outras palavras do
    mais elevado nível de alheamento. Nos casos em que a seleção e
    alheamento não foram inspirados por um método que não é
    demasiado errôneo como ponto de vista sobre a natureza das
    coisas, e onde os rótulos verbais foram inteligentemente
    selecionados e a sua natureza aparente claramente compreendida,
    o nosso comportamento será capaz de ser realista e
    toleravelmente decente. Porém, sob a influência de palavras mal
    selecionadas, mal aplicadas, sem qualquer compreensão do seu
    caráter meramente simbólico, que foram separadas e abstraídas à
    luz de um sistema de idéias errôneas, somos capazes de nos
    comportar com uma perversidade e uma estupidez organizadas,
    de que os animais mudos (precisamente porque são mudos e não
    conseguem falar) são, felizmente, inaptos.
    Na sua propaganda anti-racional, os adversários da liberdade
    corrompem automaticamente os recursos de linguagem com a
    finalidade de, através da badalação ou do pavor, levarem as suas
    vítimas a pensar, sentir e agir como eles, os manipuladores dos
    espíritos, querem que elas pensem, sintam e ajam. Uma educação
    para a liberdade (e para o amor e para a inteligência que são, ao
    mesmo tempo, as condições e as conseqüências da liberdade),
    deve ser, entre outras coisas, uma educação do emprego correto
    da linguagem. No transcorrer das duas últimas ou três gerações,
    os filósofos dedicaram grande parte do tempo e do pensamento
    para a análise de símbolos e para o significado do significado.
    Como se referem as palavras e as frases que pronunciamos com
    as coisas, pessoas e fatos com os quais estamos em contato na
    nossa vida diária? A discussão deste problema tomar-nos-ia
    bastante tempo e levar-nos-ia demasiado longe. Basta assinalar
    que todos os instrumentos intelectuais necessários para nos
    instruírmos bastante no emprego exato da linguagem – a todos os
    níveis educativos, desde o jardim de infância até os cursos para
    pós-graduados – estão atualmente à nossa disposição. Uma tal
    educação na arte de distinguir entre a aplicação carreta e o uso
    incorreto dos símbolos pode ser de imediato inaugurada. Na
    verdade, poderia ter sido inaugurada em qualquer ocasião,
    durante os últimos trinta ou quarenta anos. E todavia, em
    nenhuma parte se ensina às crianças um meio sistemático de
    distinção entre afirmações inverídicas, verdadeiras, com sentido
    ou sem sentido. Por que sucede isto? Porque os mais idosos,
    mesmo nos países democráticos, não desejam que elas sejam
    educadas desta maneira. Neste contexto, a resumida triste história
    do Institute for Propagand Analpsis é bastante significativa. O
    instituto foi fundado em 1937, quando a propaganda nazista fazia
    o seu mais intenso ruído e a sua maior eficácia, pelo sr. Filene,
    filantropo da Nova Inglaterra. Sob os seu auspícios elaborava-se
    uma análise da propaganda não-racional e eram preparados vários
    textos para educação dos estudantes dos liceus e das
    universidades. Surgiu então a guerra – uma guerra ampla em
    todas as frentes, na frente intelectual não menos do que na frente
    física. Com todos os Governos Aliados envolvidos na “guerra
    psicológica” insistir-se sobre a necessidade ou não de analisar a
    propaganda pareceu um pouco destituída de tato. O Instituto foi
    fechado em 1941. Porém, mesmo antes de terem início as
    hostilidades, havia muita gente para quem as suas atividades eram
    inteiramente capazes de objeção. Certos educadores, por
    exemplo, não adotavam o ensino da análise da propaganda com a
    desculpa de que isso tornaria os adolescentes indevidamente
    cínicos. Também não era bem recebida pelas autoridades
    militares, que tinham receio de que os soldados pudessem
    começar a analisar as palavras dos sargentos instrutores. E havia
    ainda os eclesiásticos e os especialistas de publicidade. Os
    eclesiásticos eram contrários à análise da propaganda porque ela
    tendia a solapar a fé e a diminuir a freqüência às igrejas; os
    especialistas de publicidade faziam objeções à análise da
    propaganda com o argumento de que ela podia minar a fidelidade
    à marca e a reduzir as vendas.
    Estes receios e repugnâncias não são infundados. Um
    exame demasiado crítico, efetuado por muitos homens médios,
    do que é dito pelos seus pastores e superiores pode revelar-se
    profundamente subversivo. Na sua forma atual a ordem social
    depende, para continuar a sobreviver, da aceitação, sem demasia
    de problemas embaraçantes, da propaganda posta a circular pelas
    autoridades e da propaganda consagrada pelas tradições locais. O
    problema, mais uma vez, é encontrar o meio-termo. Os
    indivíduos devem ser suficientemente sugestionáveis para querer
    e poder assegurar o funcionamento da sua sociedade, mas não em
    demasia, para evitar que caiam, desamparados, sob o império dos
    manipuladores de cérebro profissionais. Da mesma forma devem
    ser suficientemente informados da análise da propaganda para
    que se livrem de crer a esmo no puro sem sentido, mas não
    demasiado, para que não recusem em massa as efusões nem
    sempre racionais dos guardiães bem intencionados da tradição.
    Talvez o meio-termo entre a crença e o ceticismo total jamais
    possa ser descoberto e apoiado apenas pela análise. Esta
    aproximação um tanto negativa do problema deverá ser
    suplementarizada por algo mais positivo – a exposição de um
    conjunto de valores geralmente aceitos – fundado sobre uma
    sólida base de fatos constatados. O primordial será a liberdade
    individual, alicerçada nos fatos da diversidade humana e na
    unicidade genética; o valor da caridade e da compaixão, fundada
    no velho fato familiar, recentemente redescoberto pela psiquiatria
    moderna – o fato de que, seja qual for a sua diversidade física ou
    mental – o amor é tão imprescindível aos seres humanos como o
    alimento e o abrigo; e, por fim, o valor da inteligência, sem o qual
    a amor é impotente e a liberdade inacessível. Este conjunto de
    valores fornecer-nos-á um critério segundo o qual a propaganda
    poderá ser analisada. Aquela que for reconhecida ao mesmo
    tempo como absurda e imoral poderá ser abolida de imediato. A
    que for simplesmente irracional, porém conciliável com o amor e
    com a liberdade, e não por princípio aposta ao exercício da
    inteligência, poderá ser aceita de início pelo que vale.
    .:: 12. Que podemos fazer? ::.
    Podemos ser doutrinados para a liberdade – muito melhor
    doutrinados para a liberdade do que o somos atualmente. Mas a
    liberdade, como tentei demonstrar, está ameaçada de tomar
    muitas direções, e estas ameaças são de muitos tipos diferentes –
    demográficos, sociais, políticos e psicológicos. A nossa doença
    tem uma multiplicidade de causas que cooperam e só pode ser
    sanada por uma multiplicidade de remédios também cooperantes.
    Para tentar resolver qualquer situação humana complicada,
    devemos ter em mente todos os fatores relevantes, não apenas
    um só fator. Mesmo que isso seja tudo, é realmente suficiente. A
    liberdade está ameaçada, e a educação para a liberdade torna-se
    necessária, urgentemente. Porém, nessa mesma situação, achamse
    muitas outras coisas – por exemplo, a organização social para a
    liberdade, a limitação dos nascimentos para a liberdade, a
    legislação para a liberdade. Iniciemos por este último ponto.
    Desde a época da Magna Carta, e mesmo antes, os legistas
    anglo-saxônicos cuidaram-se da proteção da liberdade física do
    indivíduo. Uma pessoa presa por duvidosa legalidade tem o
    direito de apelar para uma das altas instâncias jurídicas a fim de
    obter uma ordem de habeas-corpus, nos termos da Common Lav
    precisados pelo estatuto de 1679. O documento de apelação é
    remetido por um juiz do tribunal ao chefe da polícia, ou ao
    diretor da prisão, e ordena-lhe que faça comparecer ao tribunal,
    nos prazos ordenados, a pessoa que mantém sob custódia, a fim
    de que o seu caso seja examinado – que traga, note-se, não a
    queixa por escrito da pessoa, não os seus representantes legais,
    mas o seu corpus, o seu corpo, a carne demasiado carnal que foi
    forçada a dormir numa tarimba, a respirar uma atmosfera pútrida
    e a ingerir a alimentação condenável da cadeia. Esta preocupação
    com a condição básica da liberdade – a falta de constrangimento
    físico – é, sem discussão, necessária, porém não é tudo o que é
    indispensável. É perfeitamente natural que um homem esteja
    longe da prisão sem estar livre, que não se ache sob qualquer
    constrangimento físico e esteja, todavia, preso do ponto de vista
    psicológico, forçado a raciocinar, a sentir e a agir como os
    representantes do Estado ou de qualquer interesse privado dentro
    da nação, querem que ele raciocine, sinta e proceda. Jamais
    haverá tal coisa como o habeas-mentem; porque nenhum juiz ou
    carcereiro pode levar a um tribunal um espírito preso ilegalmente,
    e nenhuma pessoa cujo espírito tenha sido tornado cativo pelos
    meios traçados nos capítulos precedentes estaria em condições
    para se lamuriar do seu cativeiro. A natureza do manuseamento
    psicológico é tal que os que agem sob constrangimento
    conservam-se sob a impressão de que estão agindo por sua
    própria iniciativa. A vítima da manipulação do espírito ignora que
    é vítima. Para ela, são invisíveis os muros da prisão, e julga-se a si
    própria livre. Que não esteja livre é visível apenas para as outras
    pessoas. A sua servidão é estritamente objetiva.
    Não torno a dizer, não pode haver coisa semelhante como o
    direito ao habeas-mentem. Mas pode haver uma legislação
    preventiva – uma proibição do tráfico da escravidão psicológica,
    um estatuto para a salvaguarda de espíritos contra os provisores
    sem escrúpulos da propaganda venenosa, modelado pelos
    estatutos para a salvaguarda de corpos contra os vendedores sem
    escrúpulos de alimentos impróprios para consumo e de drogas
    perniciosas. Exemplificando, poderia haver, e, julgo, deveria
    haver uma legislação que reduzisse o direito das autoridades
    públicas, civis ou militares, a sujeitarem as assistências forçadas,
    sob as suas ordens, ou sob a sua responsabilidade, ao ensino
    durante o sono. Poderia haver, e julgo que deveria haver, uma
    legislação que coibisse o uso da sugestão subliminal em locais
    públicos ou em programas de televisão. Poderia haver, e penso
    que deveria haver, uma legislação que coibisse os candidatos
    políticos não só a disporem mais do que relativa importância nas
    campanhas eleitorais, mas também que os proibisse de usar
    aquela espécie de propaganda anti-racional que torna numa
    pantomima todo o processo democrático.
    Uma legislação preventiva desse tipo pode gerar algum bem;
    mas se as grandes forças impessoais que ameaçam, no momento,
    a liberdade, continuarem a ganhar terreno, tal legislação não
    poderá ser benéfica durante muito tempo. A melhor das
    constituições e das leis previdentes não terá qualquer poder
    contra a pressão sempre crescente da superpopulação e de um
    excesso de organização imposto pelo número sempre crescente
    dos seres humanos pelo desenvolvimento da técnica. As
    constituições não serão abrogadas e as boas leis continuarão nos
    códigos; porém estas formas liberais servirão apenas para
    dissimular e adornar uma substância profundamente não-liberal.
    Não subjugado o excesso de população e o excesso de
    organização, podemos prever, em países democráticos, uma
    inversão do método que transformou a Inglaterra numa
    democracia, ao mesmo tempo em que mantinha todas as formas
    aparentes de monarquia. Sob a pressão desumana de uma
    superpopulação crescente e de uma crescente superorganização, e
    através de recursos cada vez mais eficazes de manipulação do
    espírito, as democracias transformarão a sua natureza; as velhas
    formas pitorescas – eleições, parlamentos, Supremos Tribunis e
    tudo o mais – subsistirão. A substância subjacente será um novo
    tipo de totalitarismo não-violento. Todos os nomes tradicionais,
    todos os dísticos consagrados permanecerão tal e qual como nos
    velhos tempos; a democracia e a liberdade serão os argumentos
    de todas as emissões radiodifundidas e de todos os artigos de
    fundo – porém tratar-se-á de uma democracia, de uma liberdade
    num sentido absolutamente pickwickiano. Entretanto, a
    oligarquia dirigente e a sua altamente treinada “elite” de soldados,
    policiais, forjadores de pensamento e manipuladores de cérebros
    conduzirão tranqüilamente o espetáculo como lhes apetecer.
    Como podemos controlar as grandes forças impessoais que
    agora ameaçam as nossas liberdades conquistadas com tanto
    sacrifício? No plano verbal e geral das questões, pode-se
    responder à pergunta com grande facilidade. Analisemos o
    problema da superpopulação. A quantidade sempre crescente de
    seres humanos pesa cada vez mais sobre os recursos naturais. O
    que fazer? Evidentemente, devemos, com toda a rapidez possível,
    aumentar a produção de alimentos, instituir e pôr em ação um
    plano mundial para a preservação dos solos e das florestas,
    desenvolver a produção de substâncias que substituam os
    combustíveis, de preferência os menos perigosos e que se
    esgotem com menos rapidez do que o urânio, e, poupando
    sempre os recursos em minerais facilmente acessíveis, que
    diminuem, devemos pôr em execução novos e não muito
    dispendiosos meios a fim de extrairmos estas substâncias dos
    minerais cada vez mais pobres – sendo a água do mar o mais
    pobre de todos. Mas quase não vale a pena dizer que tudo isto é
    mais fácil de escrever do que fazer. É necessário reduzir o
    excedente anual dos nascimentos. Como? Devemos escolher
    entre a fome, as epidemias e a guerra, de um lado, e o
    maltusianismo de outro lado. A maioria das pessoas optará por
    esta última solução – e encontramo-nos imediatamente frente a
    frente a um problema que é, ao mesmo tempo, um puzzle
    fisiológico, médico, sociológico, psicológico e mesmo teológico.
    “A Pílula” ainda não está aperfeiçoada. Quando, e se chegar a ser
    aperfeiçoada, como distribuí-la aos muitos milhões de mães em
    potência (ou, se for uma pílula que aja sobre o macho, pais em
    potência) que terão de ingeri-la se a natalidade da espécie tiver de
    ser limitada? E, em virtude dos costumes sociais existentes, as
    forças culturais e a inércia psicológica, como podem as pessoas
    que devem tomar a pílula, mas não querem tomá-la, ser
    persuadidas a modificarem o seu parecer? E que fazer contra as
    objeções estabelecidas pela Igreja Católica a qualquer forma de
    controle da natalidade a não ser pelo chamado Método rítmico –
    método que, diga-se de passagem, constatou-se até então ser
    quase totalmente ineficaz na limitação da taxa de natalidade nas
    sociedades de economia subdesenvolvida onde a limitação dos
    nascimentos seria mais necessária? Essas mesmas questões que
    devem ser propostas sobre a “pílula” supostamente perfeita,
    surgem, com tão pequena hipótese de lhes darmos respostas
    convincentes, a propósito dos meios mecânicos e químicos já
    utilizáveis.
    Quando passamos dos problemas do controle da natalidade
    aos problemas do aumento das quantidades de gêneros
    alimentícios disponíveis e à conservação dos recursos naturais,
    vemo-nos frente a dificuldades não talvez tão grandes, mas ainda
    insuperáveis. Há, acima de tudo, o problema da educação. Como
    podem ser rapidamente educados na aperfeiçoamento dos seus
    métodos os incontáveis camponeses e lavradores agora
    responsáveis pela colheita da maior parte da produção mundial de
    alimentos? E quando educados, se o forem, onde encontrarão
    eles o capital que lhes permita equiparem-se com as máquinas, os
    combustíveis e os lubrificantes, a energia elétrica, os adubos e as
    espécies selecionadas das sementes produtoras de víveres, e os
    animais domésticos, sem o que a sua melhor formação agrícola
    não tem utilidade? Semelhantemente, quem vai inculcar à raça
    humana os princípios e processos práticos de conservação?
    Como poderemos impedir os cidadãos-camponeses esfomeados,
    de uma nação cuja população e as necessidades essenciais
    crescem celeremente, de fazerem uso do solo? E se o
    conseguirmos, quem pagará a alimentação deles enquanto a terra,
    cansada, for paulatinamente dotada, se possível, de vigor e
    fertilidade? Consideremos, outrossim, as sociedades
    desenvolvidas que tentam atualmente a industrialização. Se o
    conseguirem, quem as tolherá, nos seus esforços desesperados
    por alcançarem o nível das outras e de se manterem nele, de
    consumirem os recursos insubstituíveis do planeta, tão
    estupidamente e em pura perda como os seus precursores
    fizeram, e ainda o fazem, na sua evolução? E quando surgir o dia
    de regular as coisas, onde encontraremos, nos países mais pobres,
    os técnicos e os gigantescos capitais que serão necessários para
    extrair dos minerais de fraca concentração, os metais
    imprescindíveis, nas contingências atuais, para que esse trabalho
    seja viável sob o ponto de vista técnico, ou justificável sob o
    ponto de vista econômico? Pode suceder que, com o tempo,
    encontre-se uma resposta prática para todas estas questões.
    Porém, dentro de quanto tempo? Em uma corrida, seja ela qual
    for, entre a quantidade das massas humanas e os recursos
    naturais, o tempo trabalha contra nós. No final do presente
    século, haverá, se empregarmos ingentes esforços,
    aproximadamente duas vezes mais produtos alimentícios, nos
    mercados mundiais, do que hoje; contudo haverá, também, duas
    vezes mais seres humanos, e vários biliões deles viverão em países
    pouco industrializados onde consumirão dez vezes mais energia,
    água, madeira e minerais insubstituíveis do que os seus pais
    consomem hoje. Em resumo, a situação alimentar será tão
    péssima como é agora, e a das matérias-primas ficará
    consideravelmente agravada.
    Encontrar uma solução para o problema da
    superorganização é pouco menos difícil do que encontrá-la para o
    problema da desigualdade dos recursos naturais e do número
    crescente de seres humanos. No plano verbal e em termos
    genéricos, a resposta é perfeitamente simples. Assim, é um
    provérbio político que o poder acompanha a propriedade.
    Contudo, atualmente é um fato histórico que os meios de
    produção tornam-se depressa propriedade monopolística do Alto
    Negócio e do Grande Governo. Portanto, se acreditais na
    democracia, adotai medidas que permitam distribuir a
    propriedade tão amplamente quanto possível.
    Ora, consideremos o direita ao voto. De início, é um grande
    privilégio. Na prática, como a história contemporânea tem
    provado reiteradamente, o direito ao voto, por si mesmo, não é
    garantia de liberdade. Portanto, se quereis evitar a ditadura por
    plebiscito, dividi as enormes coletividades, semelhantes a
    maquinismos, da sociedade moderna, em grupos independentes
    que cooperem voluntariamente, capazes de funcionarem
    independentes dos sistemas burocráticos do Alto Negócio e do
    Grande Governo.
    A superpopulação e a superorganização fizeram a metrópole
    moderna, na qual uma vida totalmente humana de múltiplas
    relações pessoais quase se tornou impossível. Portanto, se desejais
    evitar o empobrecimento espiritual dos seres humanos e de
    sociedades inteiras, deixai a metrópole e fazei ressurgir a pequena
    comunidade rural, ou então humanizai a metrópole, criando no
    interior da rede da sua organização mecânica, os equivalentes
    urbanos das pequenas comunidades rurais onde os indivíduos
    podem encontrar-se e cooperar como pessoas, não como meras
    encarnações de atribuições especializadas.
    Tudo isto é evidente hoje, como de fato, o era há cinqüenta
    anos. Desde Hilaire Belloc a Mortimer Adler, desde os primeiros
    apóstolos das uniões cooperativas de crédito até os reformadores
    agrários da Itália e do Japão modernos, homens de boa vontade
    defenderam, durante gerações, a descentralização do poder
    econômico e a distribuição mais ampla da riqueza. E quantos
    sistemas argutos foram propostos para a dispersão da produção,
    para um retorno à “indústria aldeã” em pequena escala. E depois,
    surgiram os estudos bastante aprofundados de Dubreuil, com o
    objetivo de oferecer uma relativa medida de autonomia e de
    iniciativa aos diversos serviços de uma grande organização
    industrial. Apareceram os sindicalistas com os seus projetos, para
    uma sociedade sem Estado, organizada como uma federação de
    grupos produtores, sob os augúrios das associações profissionais.
    Na América, Arthur Morgan e Baker Brownell formularam a
    teoria, e descreveram a prática, de um novo tipo de comunidade,
    vivendo à semelhança da aldeia e da pequena cidade.
    O Prof. Skinner, de Harvard, apresentou o ponto de vista
    do psicólogo sobre este problema no seu Walden T»o, romance
    de ficção que apresenta uma comunidade organizada de maneira
    de tal modo científico que ninguém jamais é induzido na tentação
    antisocial e, sem os meios de coação ou de propaganda
    indesejável, cada pessoa cumpre o seu dever, e todas são felizes e
    inventivas. Na França, durante e após a Segunda Guerra Mundial,
    Marecl Barbu, e os seus adeptos, organizaram um certo número
    de grupos de produção autônomos, sem hierarquia, e que eram
    ao mesmo tempo sociedades de socorros mútuos e centros de
    vida realmente humana. Contudo, em Londres, a experiência de
    Pechkam comprovava que é possível, coordenando os serviços de
    saúde com os interesses mais amplos do grupo, formar uma
    verdadeira comunidade, mesmo numa metrópole.
    Vemos, pois, que a doença da superorganização foi
    claramente reconhecida, que algumas medidas de penetração
    foram tomadas, e que a terapêutica experimental dos sintomas foi
    tentado aqui e ali, por vezes com bastante êxito. E, contudo, a
    despeito de toda esta pregação e desta prática exemplificativa, o
    mal se expande com rapidez. Sabemos que é perigoso consentir
    que o poder se concentre nas mãos de uma oligarquia dirigente;
    contudo, o poder está realmente sendo concentrado em um
    número cada vez menor de mãos. Sabemos que, para a maioria
    das pessoas, a vida numa metrópole moderna é anônima,
    atômica, abaixo da condição humana, e, contudo, as cidades
    crescem cada vez mais e o sistema de vida urbano-industrial
    permanece o mesmo. Sabemos que numa sociedade vasta e
    complexa, a democracia não tem qualquer sentido senão em
    função de grupos autônomos de dimensões manejáveis – e
    todavia, uma parte cada vez mais importante dos negócios de um
    país é gerido pelos burocratas dos Grandes Governos e do Alto
    Negócio. Em todos estes casos, sabemos o que seria preciso
    fazer, mas em nenhum deles fomos capazes de agir com
    eficiência em função do que sabemos.
    Neste ponto encontramo-nos frente a uma pergunta
    atribuladora : Desejamos realmente agir segundo o que sabemos?
    Considerará a maioria da população que vale a pena fazer
    esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter
    a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados
    Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do
    mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações
    recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos
    adolescentes abaixo dos vinte anos, os eleitores do futuro, não
    acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagem
    na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo
    do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por
    serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos
    qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo a
    que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores
    bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do
    mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se
    governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade
    de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não
    muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos, e
    invejamos os seres alados devido ao seu poder de movimento
    ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de
    nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a
    esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as
    asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para
    sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres
    humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três
    vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de
    pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao
    final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao
    final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos :
    “Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos”. E quando Alyosha
    Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o
    Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde :
    “Absolutamente! Ele reivindica como um louvor para si próprio e
    para a sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito
    para tornarem os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens
    felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi
    mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do
    que a liberdade.” Nada, exceto a ausência de liberdade, porque
    quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os
    infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas
    – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os
    tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem
    mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina
    agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para
    lutar pela liberdade. O grito de “Dêem-me televisão e cachorrosquentes,
    mas não me assombrem com as responsabilidades da
    liberdade”, pode ceder lugar, sob uma, modificação das
    circunstâncias, ao grito de “Dêem-me a liberdade ou a morte.” Se
    tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças
    sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito
    pouco domínio, em parte devido à falta de competência destes
    dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o
    emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a
    ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o
    aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão
    pobremente se encontravam preparados, os Grandes Inquisidores
    do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus
    sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos
    de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor.
    O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os
    homens à liberdade e diz-lhe : “Corrigimos a tua obra e
    estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade.” Mas o
    milagre, o mistério e a autoridade não são o necessário para
    garantir a sobrevivência duradoura de uma ditadura. No
    Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a
    ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela
    manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos
    espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar
    apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos
    mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os
    seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres
    – transformando a fé em conhecimento extasiado. Os ditadores
    antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente
    aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não
    tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação
    mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram
    muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa.
    Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores
    clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a
    palmatória de um ditador científico, a educação produzirá
    realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos
    homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem
    nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido
    para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia
    derrubada.
    Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É
    verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um
    relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres
    humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a
    liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que
    agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se
    lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever
    fazer tudo o que pudermos para resistir-lhes.
    posted by iSygrun Woelundr @ 1:39 PM  
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