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livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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  • livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. parte final
    quinta-feira, abril 13, 2006
    nervoso central. John Wesley iniciava o seu sermão com uma
    descrição longa e minuciosa dos tormentos a que os seus ouvintes
    seriam, com certeza, condenados para todo o sempre, a menos
    que se convertessem. Depois, quando o medo e um sentimento
    de culpabilidade torturante levavam o auditório à beira da
    vertigem, ou até, em alguns casos, a uma depressão cerebral
    completa, alterava o tom de voz e prometia a salvação àqueles
    que cressem e se arrependessem. Com este método de pregação,
    Wesley converteu milhares de seres humanos. O pavor intenso e
    prolongado levavaos a soçobrar e gerava um estado de sugestibili
    dade extremamente intensificada. Nesta situação, as pessoas eram
    capazes de aceitar, sem discussão, as afirmações teológicas do
    pregador. Depois disso, eram restabelecidos na sua integridade
    com palavras de consolação, e saíam da provação com sistemas
    de comportamento novos, e geralmente melhores, implantados
    de modo indestrutível nos seus espíritos e no seu sistema
    nervoso.
    A eficiência da propaganda religiosa e política depende dos
    métodos aplicados, não das doutrinas ensinadas. Estas doutrinas
    podem ser verdadeiras ou falsas, sadias ou perniciosas – pouca ou
    nenhuma diferença faz. Se a doutrinação for efetivada de maneira
    proporcionada no estado adequado da exaustão nervosa, será
    eficiente. Sob condições favoráveis, praticamente qualquer pessoa
    pode ser convertida a qualquer coisa.
    Possuímos descrições minuciosas dos métodos empregados
    pela polícia comunista no seu tratamento dos prisioneiros
    políticos. A partir do momento em que é detida, a vítima é
    automaticamente submetida a muitos gêneros de pressões físicas
    e psicológicas. É mal alimentada e alojada sem nenhum conforto,
    não é autorizada a dormir mais que poucas horas por noite. E é
    conservada durante esse tempo num estado de tensão psíquica,
    de incerteza e de aguda apreensão. Dia após dia, – ou melhor,
    noite após noite, porque estes polícias pavlovianos conhecem o
    valor da fadiga como intensificador da sugestibilidade – é
    interrogada freqüentes vezes, durante horas seguidas, por
    interrogadores que se esforçam por amedrontá-la, por confundila
    e por desorientá-la. Após algumas semanas ou meses de tal
    tratamento, o seu cérebro entra em confusão, e confessa tudo o
    que os seus captores querem que ela confesse. Então, se é para
    ser convertida e não para ser destruída, oferecem-lhe o conforto
    da esperança. Se ela aceitar a nova ideologia, pode ser, todavia,
    salva – não, certamente, numa vida futura (porque, oficialmente,
    não há vida futura) mas na vida presente.
    Meios semelhantes, se bem que menos violentos, foram
    empregados durante a guerra da Coréia em prisioneiros de guerra.
    Nos campos chineses onde se achavam, jovens prisioneiros
    ocidentais foram submetidos sistematicamente a pressões. Dessa
    forma, pelas mais ínfimas infrações das regras, os transgressores
    eram encaminhado ao gabinete do comandante, submetidos a
    interrogatório, tratados com arrogância e humilhados em público.
    E o processo repetir-se-ia, várias vezes, a qualquer hora do dia ou
    da noite. Esta hostilização seguida acarretava, nas suas vítimas,
    uma sensação de desorientação e de ansiedade permanentes. Para
    lhes agravar o sentimento de culpa ordenavam que os prisioneiros
    escrevessem e voltassem a escrever, com minúcias cada vez mais
    íntimas, longos relatórios autobiográficos das suas infrações. E
    depois de terem confessado suas culpas, era-lhes requerido que
    confessassem as culpas dos seus companheiros. O objetivo
    colimado consistia em criar dentro do acampamento uma
    sociedade de pesadelo, onde um espionava e denunciava os
    outros. A estas pressões mentais acrescentavam-se as pressões
    física da subalimentação, do desconforto e da doença. O
    acréscimo de sugestibilidade assim obtido era explorado
    habilmente pelos Chineses, que saciavam estes cérebros
    anormalmente receptivos com grandes doses de literatura prócomunista
    e anti-capitalista. Estas técnicas pavlovianas eram
    altamente eficazes. Entre sete, havia um americano culpado de
    grave colaboração com as autoridades chinesas, informamnos
    oficialmente, um entre três de colaboração técnica.
    Não se deve cogitar que este tipo de tratamento esteja
    reservado unicamente para os seus inimigos pelos comunistas. Os
    jovens trabalhadores cuja função era, durante os primeiros anos
    do novo regime, agir como missionários e organizadores do
    regime, nas inúmeras cidades e aldeias da China, eram submetidos
    a um curso de doutrinação muito mais rígido do que aquele a que
    qualquer prisioneiro de guerra foi sujeito. No seu livro China
    under Communism, R. L. Walker descreve os métodos através
    dos quais os dirigentes do partido puderam forjar, a partir de
    homens e mulheres vulgares, os milhares de fanáticos
    resolutamente devotados que lhes são necessários para propagar a
    doutrina comunista e fazer obedecer as suas ordens. Sob tal
    sistema de treino, o material humano bruto é remetido para
    campos especiais, onde é totalmente isolado dos seus amigos,
    famílias e do mundo exterior em geral. Nestes campos, ordenamlhes
    que executem trabalhos esgotantes, físicos e mentais; nunca
    permanecem sós, estão sempre em grupos; são encorajados a
    espiaremse mutuamente; mandamlhes que escrevam
    autobiografias acusatórias; vivem num estado de medo
    permanente do terrível destino a que podem ser levados devido
    ao que tenha sido dito sobre eles por informadores, ou do que
    eles próprios confessaram. Nesta situação de sugestibilidade
    aumentada, fazem-lhes seguir um curso intensivo do Marxismo
    teórico e aplicado – um curso em que o fracasso no exame final
    pode acarretar não importa que sanção, desde a expulsão
    vergonhosa até à permanência num campo de trabalhos forçados,
    ou mesmo a morte. Após seis meses nesta espécie de treino, a
    prolongada tensão mental e física produz resultados que as
    experiências de Pávlov fariam prever. Um após outro, ou por
    grupos inteiros, os pacientes soçobram. Surgem indícios
    neuróticos e histéricos. Alguns suicidam-se, outros (até vinte por
    cento do total, dizem-nos) adquirem uma doença mental grave.
    Os que sobrevivem aos rigores do método de conversão, surgem
    com novos e impecáveis padrões de comportamento. Todas as
    suas ligações com o passado – família, amigos, tradições – foram
    rompidas. São homens novos, recriados à imagem dos seus novos
    deuses e inteiramente dedicados ao seu serviço.
    Nas novas Comunidades Populares da China, os métodos
    educacionais até agora reservados aos missionários são
    atualmente usados, ao que parece, para todos. Um dia de trabalho
    de doze horas assegura um estado de permanente exaustão;
    espionagem, delação e ubiqüidade de policiais nutridores de uma
    ansiedade crônica; e a forçada repressão dos impulsos sexuais e as
    afeições comuns tendem a criar um senso de profunda e
    desesperançosa frustração. Nos homens, mulheres e crianças
    amolecidos por tais métodos testados de Pavlov há
    freqiientemente uma incessante tormenta de comando e asserções
    dogmáticas incandescentes e hinos de ódio, de tratamentos de
    horrendos castigos mitigados por milhares de promessas de
    coisas gloriosas a vir. Quantos milhões dobrarão sob essa forma
    educacional, resta a ser visto.
    Em todos os países comunistas dezenas de milhares destes
    jovens, disciplinados e devotados, são preparados todos os anos
    em centenas de centros de formação. O que os Jesuítas fizeram
    na Igreja Católica da Contra-reforma, estão a fazê-la agora estes
    produtos de um treino mais científico e ainda mais rígido, e
    continuarão, sem dúvida, a praticála nos partidos comunistas da
    Europa, da Ásia e da África.
    Em política, Pavlov parece ter sido um liberal da velha
    guarda. Mas, por uma estranha ironia da sorte, as suas
    investigações e as teorias nas quais se baseou trouxeram à
    realidade um grande exército de fanáticos dedicados de alma e
    coração, de reflexos e de sistema nervoso, à destruição do
    liberalismo à moda antiga, seja onde for que ele se encontre.
    A lavagem cerebral, tal como é agora praticada, é uma
    técnica híbrida, em parte dependente, no que se refere à sua
    eficiência, do emprego metódico da violência, em parte da
    habilidade de manipulação psicológica. Representa a tradição de
    1984 na sua marcha para se tornar a tradição do Admirável
    Mundo Novo. Sob uma ditadura instituída há longo tempo e bem
    organizada, os nossos métodos atuais de manipulação semiviolenta
    parecerão, sem dúvida, paradoxalmente primários.
    Condicionado desde a mais tenra infância (e talvez
    biologicamente predestinado), o indivíduo de classe média ou
    baixa jamais terá necessidade de se converter, ou mesmo de
    seguir um curso que lhe reanime a nova fé. Os membros da classe
    superior terão de criar novos pensamentos a fim de responder a
    novas situações, e obviamente, o seu treino será muito menos
    intenso do que o imposto àqueles cuja função não é pensar, mas
    simplesmente trabalhar e morrer com um mínimo de
    complicações. Estes elementos da classe superior serão, além
    disso, membros de uma classe selvagem – treinadores e guardas,
    eles próprios também levemente condicionados, de um vasto
    rebanho de animais domésticos completamente amansados. A sua
    selvageria poderá levá-los a se tornarem heréticos e rebeldes.
    Quando isto suceder, serão liquidados, ou sofrerão uma lavagem
    cerebral que os devolva à ortodoxia, ou (como no Admirável
    Mundo Não) serão exilados para uma ilha, onde não possam
    causar mais transtornos exceto, certamente, uns aos outros. Mas
    o condicionamento universal da infância e outras técnicas de
    manipulação e controle ainda estão afastados de nós pelo lapso
    de algumas gerações. No caminho que leva ao Admirável Mundo
    Novo os nossos dirigentes têm de contentar-se com técnicas de
    lavagem cerebral provisórias e transitórias.
    .:: 8. Persuasão Química ::.
    No Admirável Mundo Nono da minha ficção não havia
    uísque, nem tabaco, nem heroína proibida, nem cocaína de
    contrabando. As pessoas não fumavam, nem bebiam, nem
    cheiravam rapé, nem se dopavam. Quando alguma pessoa se
    sentia deprimida, ou mal disposta, tornava uma ou duas pílulas de
    um composto químico denominado Soma. O Soma original, do
    qual criei o nome desta droga hipotética, era uma planta
    desconhecida (talvez a Asclepias acida) usada pelos antigos
    arianos, invasores da Índia, em um dos seus mais solene rituais
    religiosos. O suco intoxicante, retirado dos caules desta planta,
    era ingerido por nobres e sacerdotes, no transcorrer de uma
    cerimônia complexa. Nos hinos védicos dizem-nos que os
    bebedores de Soma sentiam alguns efeitos benéficos. Os seus
    corpos robusteciam-se, os seus corações enchiam-se de ardor, de
    alegria e de entusiasmo, os seus espíritos enchiam-se de lucidez, e,
    numa experiência imediata da vida eterna, recebiam a certeza da
    imortalidade. Porém o sumo sagrado apresentava os seus
    inconvenientes. O Soma era uma droga perigosa – tão perigosa
    que mesmo o grande deus do céu, Indra, adoecia às vezes, por têla
    ingerido. Os mortais vulgares podiam até morrer, devido a uma
    dosagem forte. Contudo a experiência causava uma felicidade tão
    transcendente e tal iluminação que o beber Soma era encarado
    como um grande privilégio. Por este privilégio nenhum preço era
    exorbitante.
    O Soma do Admirável Mundo Novo não apresentava
    nenhum dos inconvenientes do seu antepassado indiano. Ingerido
    em pequenas doses, oferecia uma sensação de felicidade; em
    doses mais elevadas, fazia-nos ter visões e, se engolíssemos três
    pílulas, cairíamos, após alguns minutos, num sono refrigerante.
    Tudo isto sem qualquer problema físico ou mental. Os habitantes
    do Admirável Mundo Não podiam libertarse dos seus humores
    negros, ou dos conflitos familiares da vida diária, sem que
    sacrificassem a saúde ou minorassem permanentemente a sua
    eficiência.
    No Admirável Mundo Novo o hábito de tomar Soma não
    era um vício privado; era uma instituição política, era a verdadeira
    essência da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade
    garantidas pela Declaração de Direitos. Mas este privilégio
    supremamente precioso e inalienável dos súditos era, da mesma
    forma, um dos mais poderosos instrumentos de domínio do
    arsenal do ditador. A dopagem sistemática dos indivíduos para
    benefício do Estado (e circunstancialmente, talvez, para o próprio
    prazer deles) era um elemento primordial da política dos
    Dominadores do Mundo. A dose diária de Soma era uma garantia
    contra a desadaptação pessoal, contra a agitação social e a
    divulgação de idéias subversivas. A religião, declarara Karl Marx,
    é o ópio do povo. No Admirável Mundo Novo, a situação
    invertera-se. O ópio, ou antes o Soma, era a religião do povo.
    Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e de
    compensar, criava visões de outro mundo, de um mundo melhor,
    dava esperança, fortalecia a fé e promovia a caridade. “A cerveja”,
    escreveu um poeta
    faz mais do que Mílton
    para justificar as vias de Deus
    [perante os homens.
    Recordemos que, comparada ao Soma, a cerveja é uma droga
    do tipo mais grosseiro e incerto. No caso de justificar as vias de
    Deus perante os homens, Soma está para o álcool como este está
    para os argumentos teológicos de Mílton.
    Em 1931, enquanto eu descrevia os efeitos deste imaginário
    produto sintético, através do qual as gerações futuras seriam
    felizes e dóceis, o bem conhecido bioquímico americano, Dr.
    Irvine Page, preparava-se para deixar a Alemanha, onde passara
    os três anos anteriores, no Kaiser Wilhelm Institut, a estudar
    química cerebral. “É difícil compreender” – escreveu o dr. Page
    num artigo recente – “porque è que os sábios demoraram tanto
    tempo a empreender o exame das reações químicas no seu
    próprio cérebro. Falo – acrescentou o dr. Irvin Page – por
    experiência pessoal. Quando regressei em 1931... não encontrei
    uma situação neste campo (no campo da química cerebral), nem
    consegui despertar o menor interesse a respeito dele.” Hoje, vinte
    e sete anos após, o interesse não despertado em 1931 tornou-se
    um enorme foco incandescente de investigações bioquímicas e
    psicofarmacológicas. Estudam-se os enzimas que regulam os
    processos cerebrais. Foram isoladas no corpo substâncias
    químicas até então desconhecidas, tais como o adrenocromo e a
    serotonina (da qual o Dr. Page foi co-descobridor), e os seus
    vastíssimos efeitos nas nossas funções mentais e físicas estão,
    presentemente, a ser investigados. Entretanto, foram sintetizadas
    novas drogas – drogas que reforçam, ou corrigem, ou interferem
    nos efeitos de várias substâncias químicas, através das quais o
    sistema nervoso opera os seus milagres de todos os dias e de
    todas as horas, na sua função de controlar o corpo, de
    instrumento e mediador da consciência. Do nosso ponto de vista
    presente, o fato mais notável, no que tange a estas drogas, é o de
    elas alterarem temporariamente a química cerebral e o estado de
    espírito que lhe está associado, sem causarem prejuízo
    permanente ao organismo, em seu conjunto. Neste aspecto, são
    semelhantes ao Soma – e marcadamente diferenciadas das drogas
    modificadoras da mente, empregadas no passado. Por exemplo, o
    ópio é o calmante clássico. Mas o ópio é uma droga perigosa que,
    desde o neolítico até o presente, fez toxicômanos e acarretou a
    ruína à saúde de muita gente. O mesmo sucede com o álcool – a
    droga que, segundo as palavras do Salmo, “torna alegre o coração
    do homem.” Mas, infelizmente, o álcool não se reduz a tornar
    alegre o coração do homem; causa, em doses excessivas, a doença
    e o vício, e tem sido uma das principais causas, há oito ou dez mil
    anos, do crime, da infelicidade doméstica, da degradação moral e
    de acidentes evitáveis.
    Entre os estimulantes conhecidos, o chá, o café e o mate são,
    felizmente, quase inofensivos. São, aliás, estimulantes muito
    fracos. Ao contrário dessas “chávenas que alegram mas não
    inebriam”, a cocaína é uma droga muito poderosa e muito
    perigosa. Aqueles que fazem uso dela devem pagar os seus
    êxtases, o seu sentido do poder ilimitado, físico e mental, com
    fases agudas de depressão agônica, com aqueles horríveis
    sintomas físicos, tais como a sensação de ser infestado por
    miríades de insetos rastejantes, e por alucinações paranóicas que
    podem levar a crimes violentos. Outro estimulante, descoberto há
    pouco tempo, foi a anfetamina, mais conhecido pelo nome
    comercial de Benzedrina. A anfetamina é dotada de grande efeito
    – mas atua, quando dela se abusa, à custa da saúde física e mental.
    Calculou-se que, no Japão, há aproximadamente um milhão de
    viciados na anfetamina.
    Dos alucinantes em evidência, os mais conhecidos são o
    peyote do México e do sudoeste dos Estados Unidos, e a
    Cannabis sativa, consumidos, em todo o mundo, sob o nome de
    hachiche, bhang, kif e marijuana. De acordo com as mais
    convincentes provas médicas e antropológicas, o peyote é muito
    menos prejudicial do que o “gin” ou o uísque do Homem
    Branco. O peyote permite aos índios, que ousam nos seus rituais
    religiosos, que ingressem no paraíso e se sintam em união perfeita
    com a bemamada comunidade, sem lhes cobrar estes privilégios
    por algo pior do que a provação de terem de mascar uma
    substância de gosto repugnante e experimentarem náuseas
    durante uma ou duas horas. A Cannabis sativa não é uma droga
    tão inócua – se bem que menos perigosa do que os amadores de
    sensações nos quereriam fazer supor. O Comité Médico,
    encarregado em 1944 pelo “Mayor” de Nova Iorque de investigar
    o problema da marijuana, chegou à conclusão, depois de
    cuidadosa investigação, de que a Cannabis sativa não é uma séria
    ameaça para a sociedade, ou mesmo para aqueles que se lhe
    entregam. É um simples incômodo.
    Destes conhecidos transformadores do espírito passemos
    aos produtos mais recentes da investigação psíquicofarmacológica.
    De entre estes, os mais largamente divulgados são
    três novos tranqüilizantes : a reserpina, a cloropromazina e o
    metrobamato. Ministrados em algumas classes de psicopatas, os
    dois primeiros provaram ser altamente eficazes, não na cura de
    doenças mentais, mas pelo menos na extinção dos seus sintomas
    mais cruéis. O meprobamato (aliás Miltown) produz efeitos
    semelhantes em pessoas que sofrem de vários tipos de neurose.
    Nenhuma destas drogas é totalmente inofensiva; porém o seu
    custo, em termos de saúde física e de eficiência mental, é
    extremamente baixo. Num mundo onde ninguém procura algo
    sem uma finalidade, os tranqüilizantes oferecem bastante por
    muito pouco. O Miltown e a cloropromazina ainda não são
    Soma; contudo não estão longe de ser um dos aspectos desta
    droga mítica. Proporcionam uma libertação temporária da tensão
    nervosa sem infligirem, na grande maioria dos casos, um prejuízo
    orgânico permanente, e sem causarem mais do que uma pequena
    diminuição, enquanto a droga atua, da eficiência física e mental.
    Exceto como narcóticos, são talvez preferíveis aos barbitúricos,
    que enfraquecem a agudeza intelectual e, em grandes doses,
    causam um certo número de sintomas psico-físicos indesejáveis e
    podem resultar numa viciação caracterizada.
    Com o LSD25 (dietilamida do ácido lisérgico), os
    farmacologistas criaram recentemente outro aspecto de Soma –
    um intensificador da percepção e um gerador de visões, que é,
    fisiologicamente falando, quase de graça. Esta droga
    extraordinária, que é eficaz em doses tão pequenas como
    cinqüenta ou até vinte e cinco milionésimos do grama, tem a
    virtude (como o peyote) de transportar as pessoas para o Outro
    Mundo. Na maioria dos casos, o Outro Mundo a que o LSD25
    dá acesso é celestial; mas pode ser outrossim, alternadamente,
    purgatório ou até infernal. Porém, positiva ou negativa, a,
    experiência do ácido lisérgico é sentida por quase todos os que
    passam por ela como marcadamente significativa e iluminante.
    De qualquer maneira, o fato de o espírito poder ser transformado
    tão radicalmente por preço tão reduzido para o corpo, é
    espantoso.
    O Soma não era apenas um gerador de visões e um
    tranqüilizante; era também (coisa seguramente impossível) um
    estimulante do espírito e do corpo, um produtor de euforia ativa,
    assim como da felicidade negativa que se segue à libertação da
    ansiedade e da tensão.
    O estimulante ideal – poderoso, porém inócuo – ainda está
    por ser descoberto. A anfetamina, como vimos, estava longe de
    ser satisfatória; o preço que vale excede muito o que nos oferece.
    Um candidato mais promissor ao papel de Soma, no seu terceiro
    aspecto, é a Iproniazida, que está sendo usada atualmente para
    livrar da sua miséria os doentes de depressão, para dar mais
    energia aos apáticos e, em geral, para aumentar a dose de energia
    psíquica disponível. Mais promissor ainda, segundo um distinto
    farmacologista meu amigo, é um novo composto, ainda em
    experiência, que será denominado Deaner. Deaner é um aminoálcool,
    e calcula-se que aumenta dentro do corpo a produção de
    acetilcolina, e, portanto, aumenta a atividade e eficiência do
    sistema nervoso. O homem que ingere esta nova pílula sente
    menos necessidade de dormir, sente-se mais desperto e mais
    eufórico, raciocina melhor e de forma mais rápida – e tudo isto
    quase sem prejuízo para o corpo, pelo menos a curto prazo. Isto
    parece demasiado belo para ser verdadeiro.
    Vemos assim que, se bem que Soma não exista ainda (e
    talvez nunca existirá), já foram descobertos magníficos
    substitutos para vários aspectos de Roma. Há, hoje em dia,
    tranqüilizantes fisiologicamente baratos, geradores de visões
    fisiologicamente baratos e estimulantes também fisiologicamente
    baratos.
    É evidente que um ditador podia, se assim o desejasse,
    empregar estas drogas para fins políticos. Poder-se-ia prevenir
    contra a agitação política transformando a química cerebral dos
    seus súditos, e fazer, desta maneira, que se contentassem com a
    sua condição servil. Podia empregar tranquilizantes para acalmar
    os excitados, estimulantes para avivar o entusiasmo nos
    indiferentes, alucinantes para distrair da sua miséria a atenção dos
    inditosos. Contudo, poder-se-á perguntar, como é que o ditador
    levará os seus súditos a ingerirem as pílulas que os farão pensar,
    sentir e comportarem-se das maneiras que ele julga desejáveis?
    Com toda a probabilidade, será suficiente que lhes coloque as
    pílulas ao alcance da mão. Hoje, o álcool e o tabaco são de fácil
    alcance, e as pessoas gastam bem mais dinheiro com estes tão
    pouco satisfatórios euforizantes, pseudoestimulantes e sedativos,
    do que estão dispostas a despender com a educação dos filhos.
    Ou, então, analisemos os barbitúricos e tranqüilizantes. Nos
    Estados Unidos estas drogas só podem ser adquiridas com receita
    médica. Mas a procura que o público americano faz de algo que
    tornará um pouco mais suportável a vida num ambiente urbanoindustrial
    é tão grande que os médicos estão agora a aviar receitas
    de vários tranqüilizantes ao ritmo de quarenta e oito milhões por
    ano. Além disso, a maioria destas receitas volta a ser aviada. Cem
    doses de felicidade não são suficientes : tragamos da farmácia
    outro frasco – e, quando este terminar, mandemos buscar outro...
    Não há dúvida de que, se os tranqüilizantes pudessem ser
    adquiridos a preço tão módico e de forma tão fácil como a
    aspirina, seriam consumidos, não aos biliões, como são no
    presente, mas às vintenas e centenas de biliões. E um estimulante,
    bom e barato, seria quase tão popular como estes.
    Sob uma ditadura, os químicos receberiam ordem de mudar
    de direção a cada modificação das circunstâncias. Em época de
    crise nacional, seriam encarregados de autorizar a venda de
    estimulantes. Entre cada crise, excesso de vivacidade e energia
    por parte dos seus súditos poderia tornar-se embaraçante para o
    tirano. Em tais épocas, as massas seriam levadas a comprar
    tranqüilizantes e alucinantes. Sob a influência destes lenitivos, não
    teriam possibilidade de criar a menor dificuldade ao tirano.
    Estando as coisas como estão, os tranqüilizantes podem
    obstar as pessoas de causarem muita intranqüilidade, não só aos
    seus superiores como a si próprias. Demasiada tensão é doença;
    mas pouca tensão também é uma doença. Há ocasiões em que
    devemos estar tensos, em que um excesso de tranqüilidade (e
    especialmente de tranqüilidade vinda do exterior, por um agente
    químico) é inteiramente desapropriado.
    Num simpósio recente sobre o meprobamato, do qual
    participei, um eminente bioquímica sugeriu, jocosamente, que o
    governo dos Estados Unidos da América deveria doar ao povo
    soviético cinqüenta biliões de doses do tranqüilizante mais
    popular da América. A piada tinha algo de sério. Numa luta entre
    duas populações, sendo que uma está sendo incessantemente
    estimulada com ameaças e promessas, constantemente movida
    por uma propaganda insistente, enquanto que a outra é não
    menos constantemente distraída pela televisão e tranqüilizada por
    Miltown, qual dos oponentes terá maior probabilidade de ganhar?
    Além da particularidade de tranqüilizar, alucinar e estimular,
    o Soma da minha ficção tinha a propriedade de aumentar a
    sugestibi!idade e, desta maneira, podia ser empregado para
    alicerçar os efeitos da propaganda governamental. De modo
    menos eficaz e mais prejudicial para a saúde, várias drogas, já
    incluídas na farmacopéia, podem ser empregadas com a mesma
    finalidade. Há a scopolamina, por exemplo, o princípio ativo do
    meimendro e, em grandes doses, um veneno poderoso; há o
    pentotal e o amitalsódio. Apelidado, por razão obscura, o “soro
    da verdade”, o pentotal foi empregado pela polícia de vários
    países com o objetivo de extrair confissões (ou talvez para sugerir
    confissões) aos criminosos obstinados. O pentotal e o
    amitalsódio baixam a barreira entre o consciente e o
    subconsciente, e são de grande valia no tratamento da “fadiga de
    guerra”, pelo processo conhecido, na Inglaterra, pelo nome de
    “terapêutica dos traumatismos psicofisiológicos do soldado” e, na
    América, pela designação de “narcosíntese”. Diz-se que estas
    drogas são, por vezes, usadas pelos Comunistas quando preparam
    prisioneiros de gabarito para se apresentarem publicamente em
    tribunal.
    Entretanto, a farmacologia, a bioquímica e a neurologia
    estão evoluindo sem parar, e podemos estar cientes de que, no
    transcorrer de poucos anos, serão descobertos novos e mais
    eficientes métodos químicos de aumento da sugestibilidade e de
    abaixamento da resistência psicológica. Como qualquer outra
    coisa, estas descobertas podem ser usadas para o bem ou para o
    mal. Podem auxiliar o psiquiatra na luta contra a doença mental,
    ou podem ajudar o ditador na sua luta contra a liberdade. Visto
    que a ciência é divinamente imparcial, é mais provável que tais
    descobertas escravizem e libertem, curem e destruam, ao mesmo
    tempo.
    .:: 9. Persuasão Subconsciente ::.
    Numa nota de rodapé inserta na edição de 1919 do seu livro
    A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção
    para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que
    publicava recentemente um artigo onde descrevia as suas
    experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um
    instrumento que se apresenta sob duas formas – um tipo de
    caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fração de
    segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com
    obturador ultra-rápido que pode projetar, pelo espaço de alguns
    segundos, uma imagem sobre uma tela.) Nestas experiências,
    “Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que
    tinham observado conscientemente de uma imagem que fora
    exposta à vista deles no taquistoscópio. Depois chamava-lhes a
    atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite
    anterior e rogava-lhes, mais uma vez, que desenhassem aquilo que
    se recordavam. Os resultados mostravam, sem sombra de dúvida,
    que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido
    observados pelo paciente, proporcionavam os elementos da
    construção do sonho”.
    Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências
    de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente pelo
    dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o
    Problema dos sonhos e “a percepção pré-consciente”, no Journal
    of the American Psychoanalitic Association. Contudo, os
    psicologistas clássicos não permaneceram inativos. Confirmando
    as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as
    pessoas vêem e ouvem, de fato, muito mais coisas do que aquelas
    que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e
    ouvem, sem que o recordem, é recordado pelo subconsciente, e
    pode afetar os pensamentos, sentimentos e comportamentos
    conscientes delas.
    A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais
    cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e,
    finalmente, tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber
    torna-se poder, as fórmulas e as experiências de laboratório
    sofrem uma metamorfose, e surgem como a bomba H. No
    presente caso, o belo fragmento de ciência pura descoberto por
    Poetzl, assim como os demais descobertos no campo da
    percepção pré-consciente, conservaram a sua antiga pureza
    durante um período de tempo demasiadamente longo. Depois,
    nos princípios do Outono de 1957, exatamente quarenta anos
    após a publicação do primeiro artigo de Poetzl, anunciou-se que a
    pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido
    aplicadas, haviam adentrado o reino da tecnologia. A revelação
    causou enorme sensação, e em todo o mundo civilizado falou-se
    e escreveu-se sobre isso. E não é para admirar; porque a nova
    técnica de “projeção subliminal”, como a denominaram, estava
    intimamente associada com a distração das massas, e na vida do
    ser humano civilizado a distração das massas desempenha, agora,
    um papel semelhante ao que foi desempenhado pela religião na
    Idade Média. Têm sido dadas várias denominações à nossa época
    – a Idade da Ansiedade, a Idade Atômica, a Idade do Espaço.
    Poderseia denominá-la, com igual propriedade, a Idade do vício
    da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Disk
    Jockey. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl
    havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projeção
    subliminal não podia deixar de despertar o mais vívido interesse
    entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a
    nova técnica era-lhes diretamente dirigida, e o alvo era a
    manipulação dos seus espíritos sem que eles suspeitassem do que
    lhes estava sendo feito. Por intermédio de taquistoscópios
    especialmente concebidos, seriam projetadas palavras ou imagens
    durante um milionésimo de segundo, ou menos, nas telas dos
    aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem
    depois) o programa. “Beba Coca-Cola” ou “Fume Camel” seriam
    projetadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe
    atribulada, e os nervos éticos dos espectadores recolheriam estas
    mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e,
    na devida hora, teriam o desejo consciente de coca-cola e do
    cigarro. E, entretanto, outras mensagens secretas seriam
    retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que
    pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o
    ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como “Querida,
    amo-te”; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos
    terrivelmente sensíveis, e o seu subconsciente, registrariam a boa
    notícia referente a desodorizantes e a laxantes.
    Este tipo de propaganda comercial é realmente eficaz? Os
    dado.; trazidos pela empresa comercial que empregou, pela
    primeira vez, um processo de projeção subliminal são vagos e, do
    ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a
    intervalos regulares durante a projeção de um filme, num cinema,
    a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de
    cinqüenta por cento, a venda do mesmo durante o intervalo. Mas
    uma única experiência comprova muito pouco. Além disso, esta
    experiência particular fora mal planejada. Não havia controle e
    não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras
    variações que, sem dúvida, prejudicam o consumo do milho
    torrado por uma assistência, num cinema. Além disso, era esta a
    maneira mais correta de aplicar o conhecimento adquirido havia
    alguns anos pelos investigadores científicos da percepção
    subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a simples
    projeção do nome de um produto e a ordem de comprá-la
    fossem suficientes para quebrar a resistência à compra e adquirir
    novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é
    obviamente negativa. Mas isto não indica, talvez, que as
    descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não ofereçam
    qualquer importância prática. Aplicado com habilidade, o
    bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode tornar-se muito
    bem num instrumento poderoso de manipulação de espíritos
    desprevenidos.
    Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, deixemos
    de lado os vendedores de milho torrado para aqueles que, com
    menos espalhafato, mas com maior imaginação e melhores
    métodos, fizeram experiências no mesmo campo. Na Inglaterra,
    onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da
    consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os
    investigadores assinalaram a importância prática de se gerarem as
    condições psicológicas apropriadas à persuasão subconsciente.
    Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais capaz de
    produzir efeito se aquele que a receber estiver num estado de
    ligeira hipnose, sob a influência de algumas drogas, ou se se
    encontrar debilitado por doença, por inanição ou não importa
    qual tensão psíquica ou moral. Mas o que é verídico para sugestão
    realizada acima do limiar de consciência é também verdadeiro
    relativamente a sugestões feitas abaixo deste princípio. Numa
    palavra, quanto mais baixo for o nível psicológico de uma pessoa,
    tanto maior será a eficiência das sugestões injetadas sem controle.
    O ditador cientifico do futuro definirá as suas máquinas de
    transmitir mensagens secretas e os seus projetos subliminais nas
    escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente
    sugestionáveis), e em todos os locais públicos onde os auditórios
    possam receber um abrandamento preliminar por intermédio de
    um discurso ou de ritos que aumentam a sugestibilidade.
    Das condições sob as quais podemos aguardar que a
    sugestão subliminal seja eficiente passamos agora à própria
    sugestão. Em que áreas deverá dirigir-se o propagandista ao
    subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens diretas
    (“Compre pipoca” ou “Vote em Jones”) e afirmações categóricas
    (“O Socialismo cheira mal” ou “O dentifrício X abole o mau
    hálito”) só terão, talvez, efeito naqueles espíritos que já são por
    Jones e pelo milho torrado, já despertas para os perigos dos
    odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de
    produção. Mas para robustecer a fé existente não basta isto; o
    propagandista, se for digno desse nome, deve gerar nova fé, deve
    saber como atrair o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve
    ser capaz de abrandar e talvez até de convencer os que lhe são
    contrários. À asseveração subliminal e à ordem, deve acrescer a
    persuasão subliminal.
    Acima do limiar de consciência, um dos meios mais
    eficientes da persuasão não-racional é o que se pode denominar
    persuasão “por associação”. O propagandista associa
    caprichosamente o seu produto selecionado, ou o seu candidato
    ou a sua causa com uma idéia, uma imagem de uma pessoa ou de
    uma coisa, que muita gente, de uma determinada cultura,
    considera, com razão um bem. Assim, numa promoção de
    vendas, a beleza feminina pode ser coisa, desde o “bulldozer” até
    um diurético; numa campanha política o patriotismo pode ser
    associado com qualquer causa desde a segregação até à
    integração, e com qualquer tipo de pessoa, desde Mahatma
    Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América
    Central, notei um exemplo de persuasão por associação que me
    encheu de espanto aterrorizado pelos homens que a imaginaram.
    Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas
    são os calendários coloridos, distribuídos gratuitamente pelas
    companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos índios.
    Os Americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades
    seminuas em seus calendários; porém para os nativos, os cães não
    vão além de objetos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram
    de presenciar todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem
    nenhum atrativo, talvez até um pouco repugnantes.
    Consequentemente, os calendários americanos conseguiram
    muito menos êxito do que os calendários alemães, porque estes
    haviam tido a precaução de procurar o que os índios admiravam,
    o que lhes despertava interesse, e lembro-me em particular de
    uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o
    calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da
    imagem, via-se a marca usual sobre o familiar tubo de
    comprimidos brancos. Acima, nada de paisagens nevadas ou de
    florestas no Outono, cães felpudos, ou beldades despidas. Não –
    os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro
    requintadamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob
    uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria,
    de uma combinação de santos e de revoadas de anjos. As virtudes
    milagrosas do ácido acetilsalicílico eram garantidas desta maneira,
    nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo
    Deus Pai e por toda a corte celestial.
    Este tipo de persuasão por associação é algo a que parecem
    moldar-se particularmente bem as técnicas de projeção
    subconsciente. Numa série de experiências levadas a cabo pela
    Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto
    Nacional da Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma
    pessoa acerca de qualquer imagem vista conscientemente podem
    ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com
    outra imagem, ou melhor, com palavras portadoras de valor.
    Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra
    “feliz”, uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha
    amigavelmente, amavelmente, acolhedoramente. Quando a
    mesma face fora associada, também no plano subconsciente, com
    o termo “furioso”, mostrava-se agressiva, desagradável e hostil.
    (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito
    masculina – ao passo que, quando era associada com a palavra
    “feliz”, viam a face como se esta pertencesse a um indivíduo do
    seu próprio sexo. Pais e maridos, façam o favor de tomar nota.)
    Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são,
    como é evidente, altamente expressivas. Se conseguir deixar as
    suas vítimas num estado excepcionalmente elevado de
    sugestibilidade, se puder apresentar-lhes, quando se encontram
    neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a coisa
    que tem para lhes oferecer, e se, no plano subconsciente, pode
    associar essa coisa ou pessoa ou símbolo, com qualquer palavra,
    ou imagem portadora de valor, o propagandista será capaz de
    modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas
    tenham a mínima idéia do que ele está realizando. Será possível,
    segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orleans,
    aumentar, mediante o uso desta técnica, o valor recreativo dos
    filmes e das peças de televisão. As pessoas apreciam sentir
    emoções fortes e, portanto, admiram as tragédias, os melodramas,
    os filmes policiais e as narrações de grandes paixões. A
    dramatização de uma batalha ou de um beijo produz fortes
    emoções nos espectadores. Podia gerar até emoções mais fortes
    se fosse associada, ao nível subconsciente, às palavras ou
    símbolos apropriados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus
    às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada
    mais pungente do que já é, mediante a repetida projeção
    subliminal na tela, durante o desenrolar da cena, de palavras tão
    nefastas como “dor”, “sangue” e “morte”. As palavras não serão
    conscientemente vistas; mas o seu impacto sobre o subconsciente
    pode ser muito grande, e estes impactos podem reforçar, e muito,
    as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela ação e pelo
    diálogo. Se, como parece certo, a projeção subliminal pode avivar
    poderosamente as emoções sentidas pelos freqüentadores de
    cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota
    – se os produtores de peças de televisão não se apropriarem da
    idéia primeiro.
    Em face do que se disse sobre a persuasão por associação e
    da intensificação de emoções por sugestão subliminal, calculemos
    o que será uma reunião política do futuro. O candidato (se ainda
    houver candidatos), ou o representante indicado da oligarquia
    dirigente fará o discurso que todos ouvirão. Entretanto, os
    taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e
    segredadas, os projetores de imagens tão fracas que só o
    subconciente lhes pode reagir, fortalecerão o que ele diz, através
    da associação sistemática do homem e da sua causa, a palavras
    sobrecarregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e
    pela “injeção estrombônica” de palavras sobrecarregadas de
    valores negativos e de símbolos odientos, sempre que ele cite os
    inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da
    América, reflexos rápidos de Abraham Lincoln e as palavras
    “governo pelo povo” serão projetadas na tribuna. Na Rússia, o
    locutor será, talvez, associado a imagens rápidas de Lenine, com
    as palavras “democracia do povo”, e a barba profética do Pai
    Marx. Porque tudo isto sucederá num futuro ainda bastante
    remoto, podemos sorrir. Porém, daqui a dez ou vinte anos
    parecerá, possivelmente, um pouco menos divertido. Porque o
    que é agora mera ficção científica, tornar-se-á um fato político de
    todos os dias. Poetzl foi um dos profetas que esqueci ao escrever
    o Admirável Mundo Novo. Na minha ficção não há qualquer
    referência à projeção subliminal. É um erro de omissão que, se
    voltasse a escrever o livro novamente, eu corrigiria certamente.
    .:: 10. Hipnopédia ::.
    Pelos fins do outono de 1957, o Woodland Road Camp, uma
    instituição penal localizada em Tulare County, na Califórnia, foi
    alvo de uma experiência bastante curiosa e interessante. Altofalantes
    em miniatura foram dispostos sob os travesseiros de um
    grupo de presos que se tinham oferecido para ser cobaias de uma
    experiência de psicologia. Cada um dos alto-falantes de cabeceira
    estava ligado a um fonógrafo localizado no gabinete do diretor.
    Durante a noite, a cada hora que se escoava, um murmúrio
    moralizador repetia um rápido sermão sobre “os princípios da
    vida moral”. Acordando à meia-noite, um prisioneiro podia ouvir
    a voz enaltecer as virtudes cardiais ou sussurrar, em nome do que
    havia de melhor em si próprio, “Estou cheio de amor e de
    compaixão por todos, assim me ajude Deus.”
    Depois de ler isto sobre Woodland Road Camp, voltei ao
    segundo capítulo do Admirável Mundo Novo. Neste capítulo, o
    Diretor das Incubadoras e do Condicionamento para a Europa
    Ocidental explica a um grupo de jovens condicionadores e
    técnicos de incubação o funcionamento deste método de
    educação ética controlado pelo Estado, conhecido no século VII
    d. F. pela denominação de Hipnopédia. Os primeiros ensaios de
    ensino feitos durante o sono, fala o Diretor ao seu auditório,
    foram mal orientados e, portanto, inúteis. Os educadores
    tentaram dar um treino intelectual aos seus alunos sonolentos.
    Porém, a atividade intelectual é inconciliável com o sono. A
    hipnopédia só obteve êxito quando foi usada para treino moral –
    por outras palavras, para condicionamento do comportamento
    através da sugestão verbal num tempo de resistência psicológica
    diminuída. “O condicionamento sem palavras é grosseiro e
    inteiriço, não pode inculcar os modos de comportamento mais
    complicados exigidos pelo Estado. Para isso são necessárias
    palavras, mas palavras sem razão...” o tipo de palavras que não
    requerem qualquer raciocínio para serem compreendidas, mas
    podem ser sorvidas em bloco pelo cérebro adormecido. Esta é a
    verdadeira hipnopédia, “a maior força de moralização e de
    socialização de todos os tempos”. No Admirável Mundo Novo,
    nenhum cidadão pertencente a uma classe inferior causou jamais
    qualquer perturbação. Por quê? Porque, desde o momento em
    que pôde falar e compreender o que lhe diziam, toda criança de
    uma classe inferior era exposta a sugestões vagamente repetidas,
    noite após noite, durante as horas de modorra e de sono. Estas
    sugestões eram “semelhantes a gotas de lacre líquido, gotas que
    grudam, se incrustam, se agregam a si próprias naquilo sobre o
    que caem, até que, por fim, a rocha não se parece mais do que
    uma massa encarnada. Até que, finalmente, o espírito da criança
    seja estas sugestões, e a soma destas sugestões seja o espírito da
    criança. E não apenas o espírito da criança. Mas também o
    espírito do adulto – durante toda a sua vida. O espírito que decide
    e que anela e julga – constituído por estas coisas sugeridas. Mas
    estas sugestões são as nossas sugestões – as sugestões do
    Estado...”
    Atualmente, tanto quanto sei, as sugestões hipnopédicas não
    foram administradas por um estado superior a Tulare County, e a
    natureza das sugestões hipnopédicas aplicadas em Tulare, aos
    infratores da lei, é vulgar. Se todos nós, e não apenas os
    habitantes de Woodland Road Camp, pudéssemos estar
    realmente repletos de amor e compaixão por todos durante o
    sono! Não, não é contra a mensagem transmitida pelo sussurro
    inspirador que apontamos objeções; é contra o método de ensino
    durante o sono realizado pelos poderes do Estado. É a
    hipnopédia o tipo de instrumento que personagens oficiais,
    encarregadas de exercer a autoridade numa sociedade
    democrática, devem ter autorização para usar como bem lhes
    parecer? Na atual instância, estão aplicando esse instrumento
    apenas em voluntários imbuídos das melhores das intenções. Mas
    não há certeza de que, em outras situações, as intenções sejam
    boas ou que a doutrinação tenha um fundamento voluntário.
    Qualquer lei ou prescrição social que torne viável a personagens
    oficiais serem levados à tentação é má. Qualquer lei ou preceito
    que os preserve de serem tentados de abusar do poder que lhes
    foi delegado, em seu benefício próprio, ou para benefício do
    Estado ou de alguma organização política, econômica ou
    eclesiástica, é boa. A hipnopédia, se fosse eficiente, seria um
    instrumento penosamente poderoso nas mãos de uma pessoa
    qualquer que se encontre numa posição que lhe permitisse impor
    sugestões sobre um auditório que não seja livre. Uma sociedade
    democrática está baseada na certeza de que se abusa muitas vezes
    do poder e que é conveniente, consequentemente, não o confiar
    aos funcionários, senão em porções limitadas e por intervalos de
    tempo reduzidos. Numa tal sociedade, o uso da hipnopédia por
    funcionários do Estado seria regulado pela lei – supondo, bem
    entendida, que a hipnopédia é, na realidade, um instrumento do
    poder. Mas é realmente um instrumento de poder? Funcionará
    ele tão bem quanto o imaginei em funcionamento no século VII
    depois de Ford? Analisemos os fatos.
    No Psychological Bulletin de julho de 1955, Charles W.
    Simon e William H. Emmons analisaram e criticaram os dez
    estudos mais importantes que se efetuaram neste domínio. Todos
    estes estudos diziam respeito à memória. O ensino efetuado
    durante o sono ajudará o aluno quando se trata de aprender de
    cor? E até que ponto é que o material sussurrado ao ouvido da
    pessoa adormecida é recordado na manhã seguinte quando a
    pessoa desperta? Simon e Emmons respondem da seguinte forma
    : “Dez estudos sobre o ensino realizado durante o sono foram
    examinados e vários deles foram mencionados
    indiscriminadamente por empresas comerciais, ou em revistas de
    divulgação e artigos de jornal, como provas a favor da viabilidade
    de aprender enquanto dormimos. Foi feita uma análise crítica da
    organização das experiências em causa, das estatísticas, da
    metodologia e dos meios aplicados para definir o sono. Todos os
    estudos revelaram pontos fracos em um ou vários destes campos.
    Não determinavam com uma clareza inequívoca que sejam
    assimilados conhecimentos pelo sujeito enquanto dorme
    realmente. Parece, contudo, que se produz um tipo de aquisição
    num estado de vigília particular, de tal maneira que os pacientes já
    não se lembram depois se estavam ou não acordados. Este
    fenômeno é capaz de ter uma grande importância prática do
    ponto de vista da economia do tempo de estudo, mas não pode
    ser analisado como um ensino durante o sono... O problema fica
    parcialmente ofuscado por uma definição insuficientemente
    precisa do sono”.
    Permanece, no entanto o fato de que, no exército americano,
    no transcorrer da última guerra mundial (e mesmo durante a
    primeira, a título experimental), cursos do código Morse e de
    línguas estrangeiras ministrados durante o dia eram completados
    por instruções durante o sono – com resultados que parecem
    satisfatórios. Desde o fim das hostilidades, várias empresas
    comerciais, nos Estados Unidos e em outros países, venderam
    grandes quantidades de alto-falantes de cabeceira, de fonógrafos
    com mecanismos de relojoaria e de magneto-fones e atares que
    tinham urgência de decorar os seus papéis, a políticos e a
    pregadores que queriam dar a ilusão de uma eloquência natural, a
    estudantes que se preparavam para os exames e por fim àqueles,
    incontáveis, que não estão satisfeitos consigo próprios e
    desejariam que a sugestão ou a auto-sugestão os ajudassem a
    tornar-se diferentes. A sugestão que cada um ministra a si próprio
    pode ser gravada com facilidade numa fita magnética e ouvida,
    repetidas vezes, de dia e durante o sono. As sugestões exteriores
    podem ser adquiridas sob a forma de discos portadores de uma
    variedade bastante considerável de conselhos salutares. Há no
    comércio discos que libertam da tensão e levam a um profundo
    relaxamento, a fim de favorecer a confiança em si (muito
    solicitados pelos caixeiros viajantes), discos para aumentar os
    nossos atrativos e tornar a personalidade mais marcante.
    Entre os que estão mais em moda, encontram-se os que
    permitem a realização da harmonia sexual e os discos para quem
    quer emagrecer. (“Sou indiferente ao chocolate, insensível à
    atração de batatas, desinteressado por completo de bolos”.) Há
    discos para melhorar a saúde, e até para ganhar mais dinheiro. E a
    coisa realmente notável é que, segundo testemunhos não
    solicitados, enviados por reconhecidos compradores destes
    discos, muitas pessoas ganham realmente mais dinheiro após
    ouvirem as sugestões hipnopédicas indicadas para este caso;
    muitas senhoras obesas emagrecem e muitos casais à beira do
    divórcio conseguem a harmonia sexual e vivem, a partir de então,
    felizes.
    Neste contexto, um artigo de Theodore X. Barber, “Sono e
    hipnose”, aparecido em The Journal of Clinicai and Experimental
    Hypnosis de outubro de 1956, é mais elucidativo. O sr. Barber
    assinala que há uma diferença expressiva entre o sono leve e o
    sono profundo. No sono profundo o eletroencefalograma não
    registra ondas alfa; no sono leve, elas aparecem. Nestas
    circunstâncias, o sono leve está mais próximo das situações de
    vigília e de hipnose (em ambos se apresentam as ondas alfa) do
    que no sono profundo. Um ruído violento fará despertar uma
    pessoa adormecida profundamente. Um estímulo menos violento
    não a fará despertar, mas ocasionará o reaparecimento das ondas
    alfa. O sono profundo cedeu lugar durante algum tempo ao sono
    leve.
    Uma pessoa adormecida profundamente não é sugestionável.
    Mas quando são dadas sugestões a pacientes mergulhados em
    sono leve, eles responderão a essas sugestões, da mesma maneira
    como reagem a sugestões quando em estado de hipnose, segundo
    diz o sr. Barber.
    Muitos dos que exploraram pela vez primeira o hipnotismo
    fizeram experiências análogas. Na sua clássica History, Practice
    and Theory of Hypnotism, inicialmente publicada em 1903, Milne
    Bramwell assinala que “muitas autoridades apregoam ter alterado
    o sono natural em sono hipnótico. Segundo Wetterstrand, por
    vezes é bastante fácil entrarmos em comunicação com pessoas
    adormecidas, notadamente crianças... Wetterstrand julga de
    grande valia prática este método de gerar a hipnose e afirma que
    o aplicou muitas vezes com êxito.” Branwell cita, neste sentido,
    vários outros hipnotizadores com experiência (inclusive
    autoridades eminentes como Bernheim, Moll e Forel). Hoje, um
    experimentador não falaria de “mudança do sono natural em
    sono hipnótico”. Tudo o que pode dizer é que o sono leve
    (oposto ao sono pesado sem ondas alfa) é uma situação em que
    muitos pacientes receberão sugestões tão facilmente como sucede
    quando estão sob a hipnose. Por exemplo, depois de lhes
    dizerem, quando levemente adormecidos, que não demorarão a
    acordar sedentos, muitos pacientes despertarão de fato com a
    boca seca e uma sede ardente. O córtex pode estar bastante
    inativo para pensar com clareza, mas desperto suficientemente
    para reagir a sugestões e enviá-las ao sistema nervoso autônomo.
    Como já observamos, o muito conhecido médico e
    experimentador sueco, Wetterstrand, conseguia êxito em
    particular no tratamento hipnótico de crianças adormecidas. Os
    métodos de Wetterstrand são seguidos em nossos dias por
    numerosos pediatras que instruem as jovens mães na arte de dar
    sugestões valiosas aos filhos durante as horas em que estes se
    encontram levemente adormecidos. Através desta espécie de
    hipnopédia, as crianças podem ser curadas da incontinência de
    urina e de onicofagia, permite que se preparem os pequenos
    doentes para sofrerem, sem apreensão, uma intervenção cirúrgica,
    para lhes transmitir confiança e segurança, quando, por qualquer
    motivo, as circunstâncias da sua vida se tornaram aflitivas.
    Verifiquei, pessoalmente, os apreciáveis resultados conseguidos
    por esse processo em crianças, e é possível que o método não
    fosse menos eficiente para adultos.
    Para o aspirante a ditador, a moral de tudo isto é notória.
    Sob condições adequadas, a hipnopédia oferece resultados
    efetivamente – resultados, parece, tão eficientes como a hipnose.
    Muitas das coisas que se podem fazer com uma pessoa em estado
    hipnótico podem ser feitas com uma pessoa levemente
    adormecida. As sugestões orais podem ser comunicadas através
    do córtex sonolento para o cérebro médio, para a medula
    alongada e para o sistema nervoso autônomo. Se estas sugestões
    são bem concebidas e repetidas com freqüência, as funções
    corpóreas de quem está dormindo podem ser excitadas ou
    inibidas, e é possível alojar novos modelos de sentimento ao
    passo que os antigos são modificados, é possível darem-se ordens
    pós-hipnóticas, slogans, fórmulas, e palavras-chave
    profundamente gravadas na memória. As crianças são melhores
    pacientes hipnopédicos do que os adultos, e o aspirante a ditador
    auferirá. vantagem do fato. As crianças das creches e dos jardins
    de infância serão submetidas a sugestões hipnopédicas durante o
    sono da tarde. Para as crianças mais idosas, e particularmente
    para os filhos dos membros do partido – rapazes e moças que
    crescerão para serem dirigentes, administradores e professores –
    haverá internatos, em que uma esmerada educação diurna será
    completada pelo ensino noturno durante o sono. No caso dos
    adultos, será dedicada atenção particular ao doente. Como Pávlov
    comprovou há muitos anos, os cães dotados de grande
    envergadura mental e de grande resistência tornam-se totalmente
    sugestionáveis depois de uma operação ou quando sofrem de um
    mal debilitante. O nosso ditador cuidará, portanto, para que cada
    enfermaria seja dotada com aparelhagem sonora. Uma
    apendicectomia, um parto, uma pneumonia ou uma hepatite,
    podem constituir motivo para um curso intensivo sobre a
    lealdade e a verdadeira fé, um calmante dos princípios da
    ideologia local. Outras assistências cativas podem encontrarse nas
    prisões, nos campos de trabalho, nos acampamentos militares,
    barcos em viagem, trens e aeroplanos, durante a noite, nas
    soturnas salas de espera das rodoviárias e das estações
    ferroviárias. Ainda que as sugestões dadas a estas assistências
    forçadas só fossem eficientes em dez por cento dos casos, os
    resultados ainda seriam impressionantes e, para um ditador,
    altamente desejáveis.
    Da sugestibilidade aumentada, em associação com o sono
    leve e com a hipnose, passemos à sugestibilidade normal dos que
    estão acordados – ou, pelo menos, que se supõem acordados. (Na
    realidade, como insistem os budistas, muitas pessoas estão meio
    adormecidas durante todo o tempo e passam a vida como
    sonâmbulos que obedecem às sugestões de qualquer pessoa. A
    iluminação é o despertar total. A palavra Buda pode traduzir-se
    por “o Iluminado”.)
    Do ponto de vista genético, cada ser humano é único e em
    muitos sentidos diferente de qualquer outro ser humano. A escala
    das variações individuais, partindo-se do normal estatístico, é
    surpreendentemente ampla. E o normal estatístico, recordêmo-la,
    é útil tão só para os cálculos dos estatísticos, não na vida real. Na
    vida real não há pessoa que corresponda ao homem médio. Há
    apenas homens particulares, mulheres e crianças particulares, cada
    um com as suas idiossincrasias inatas, físicas e mentais, e todos
    eles tentando (ou sendo impelidos) comprimir as suas
    diversidades biológicas na conformidade de um molde cultural.
    A sugestibilidade é uma das qualidades que variam
    correspondentemente de indivíduo para indivíduo. Os fatores
    mesológicos desempenham, certamente, o seu papel na
    modelação da maior ou menor receptividade a sugestões das
    pessoas, mas há, outrossim, de maneira não menos carreta,
    diferenças constitucionais no tangente à sugestibilidade dos
    indivíduos. A extrema resistência à sugestão é bastante rara.
    Ainda bem. Porque, se cada pessoa fosse tão incapaz de ser
    sugestionada como algumas o são, a vida em sociedade seria
    impossível. As sociedades podem funcionar com um grau
    razoável de eficiência porque muitas pessoas são, em grau
    variável, facilmente sugestionáveis. A sugestibilidade extrema é
    mais ou menos tão rara como a incapacidade extrema para ser
    sugestionada. E também felizmente que assim o seja. Porque se
    muitas pessoas fossem tão receptivas em relação a sugestões
    exteriores como os homens e as mulheres que se acham nos
    limites extremos da sugestibilidade, a escolha livre, racional,
    tornar-se-ia praticamente impossível, para a maioria dos eleitores,
    e as instituições democráticas não poderiam sobreviver, nem
    sequer teriam surgido.
    Há alguns anos, no “Massachusetts General Hospital”, um
    grupo de investigadores fez um conjunto de experiências
    extremamente reveladoras sobre o efeito analgésico do placebo.
    (Um placebo é algo que um doente crê ser uma droga ativa, mas
    que é, realmente, farmacologicamente inócua.) Nestas
    experiências, os pacientes eram cento e sessenta e dois doentes
    que acabavam de ser operados e padeciam grandes dores. Onde
    quer que um paciente pedisse um medicamento para se livrar da
    dor, davam-lhe uma injeção, ou de morfina ou de água destilada.
    Todos os pacientes receberam injeções de morfina e outras de
    placebo. Cerca de trinta por cento dos pacientes não obtiveram
    qualquer resultado com o placebo. Por outro lado, catorze por
    cento conseguiram alívio depois de todas as injeções de água
    destilada. Os restantes cinqüenta e cinco por cento, obtinham
    alívio com o placebo em algumas ocasiões, em outras não.
    Sob quais aspectos diferiam entre si estes dois grupos?
    Estudos meticulosos e aprofundados comprovaram que a idade e
    o sexo não constituíam fatores significativos. Os homens reagem
    ao placebo tão normalmente como as mulheres, e os jovens com
    tanta freqüência quanto os adultos. Mesmo a inteligência, quando
    medida pelos testes normais, se apresenta como um fator de
    destaque. O Quociente de Inteligência de ambos os grupos era
    relativamente o mesmo. Era, acima de tudo, no temperamento,
    nos modos de reagir em relação a si próprios e em relação aos
    outros, que os indivíduos dos dois grupos eram
    significativamente desiguais. Os que reagiam cooperavam mais do
    que os que não reagiam, menos críticos e menos suspeitosos. Não
    davam trabalho às enfermeiras e pensavam que os cuidados que
    recebiam no hospital eram simplesmente “maravilhosos”. Porém,
    se bem que mais cordiais para com os demais, do que os que não
    reagiam, sentiam-se geralmente muito mais ansiosamente
    preocupados consigo próprios. Sob tensão, esta ansiedade
    propendia a transferir-se para vários sintomas psicossomáticos,
    tais como indigestões, diarréias e dores de cabeça. Contudo, ou
    devido à ansiedade, muitos dos que reagiam mostravam-se menos
    inibidos na manifestação da sua emoção do que os que não
    reagiam, e mais inconstantes. Eram também muito mais
    religiosos, muito mais preocupados com as coisas da sua igreja e
    muito mais preocupados, sob um nível subconsciente, com os
    seus órgãos abdominais e pélvicos.
    É interessante fazer uma comparação entre estes números
    relativos ao placebo com os cálculos realizados, no seu campo
    especial, pelos adeptos do hipnotismo. Um quinto da população
    aproximadamente pode ser hipnotizada muito facilmente, é o que
    nos dizem. Outro quinto não pode ser hipnotizado de maneira
    alguma, ou só pode ser hipnotizado quando as drogas, ou a
    fadiga, lhes minaram a resistência psíquica. Os três quintos
    restantes podem ser hipnotizados pouco menos facilmente do
    que o primeiro grupo, mas de maneira bem mais fácil do que o
    segundo. Um fabricante de discos hipnopédicos narrou-me que
    aproximadamente vinte por cento dos seus clientes sentiam-se
    entusiasmados e contavam extraordinários resultados
    conseguidos em muito pouco tempo. No outro extremo do
    fantasma de sugestibilidade há uma minoria de oito por cento que
    pede o reembolso da despesa. Entre estes dois extremos, achamse
    as pessoas que não conseguem resultados rápidos, mas que são
    suficientemente sugestionáveis para que alcancem resultados a
    longo prazo. Se continuarem a ouvir incessantemente as
    instruções hipnopédicas apropriadas acabarão por obter o que
    querem – confiança em si próprias ou harmonia sexual, menos
    peso ou mais dinheiro.
    Os ideais da democracia e da liberdade vão de encontro
    com o caso brutal da sugestibilidade humana. Um quinto dos
    eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos,
    um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante a aplicação
    de injeções de água, um quarto responderá de pronto e
    entusiasticamente à hipnopédia. A todas estas minorias bastante
    dispostas a cooperar, devemos acrescentar as maiorias de reações
    mais lentas, cuja sugestibilidade menos acentuada pode ser
    explorada por qualquer manipulador cônscio de sua função,
    pronto a dedicar para isso o tempo e os esforços indispensáveis.
    É a liberdade individual conciliável com um elevado grau de
    sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas
    reagir contra a subversão exercida do interior por especialistas
    hábeis na ciência e no mister de explorar a sugestibilidade dos
    indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada
    pela educação, para benefício do próprio indivíduo ou para
    benefício de uma sociedade democrática, a tendência natural para
    ser sugestionável em excesso? Até que ponto pode ser controlada,
    pela lei, a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de
    homens de negócio e de eclesiásticos, por políticos dentro e fora
    do poder? Explícita ou implicitamente, as duas primeiras
    perguntas foram estudadas no decorrer dos capítulos
    precedentes. Nos que se seguem abordarei os problemas da
    prevenção e da cura.
    .:: 11. Educação para a Liberdade ::.
    A educação para a liberdade deve começar por impor fatos e
    por expor argumentos de valor, e deve ir ao ponto de gerar
    técnicas apropriadas à execução de valores e ao combate de quem
    que, por qualquer motivo, prefere a ignorância da realidade ou a
    negação dos valores.
    Em capítulo anterior discorri sobre a Ética Social, em termos
    tais que os males oriundos da superorganização e de
    superpopulação são justificados e surgem como bens. É um tal
    sistema de valores que concordam com o que conhecemos do
    corpo e do temperamento humanos? A Moral Social afirma que a
    educação é de máxima importância na definição do
    comportamento humano e que a natureza – o equipamento
    psico-físico com os quais os indivíduos nasceram – é um fator
    desprezível. Porém, será isto realidade? Será verdade que os seres
    humanos nada mais são do que produtos do seu ambiente social?
    E se não for verdade, que justificativa pode alegar-se para o caso
    de se afirmar que o indivíduo tem menos importância do que o
    grupo do qual é membro?
    Todos os informes disponíveis nos levam à dedução de que,
    na vida dos indivíduos e da sociedade, a hereditariedade não é
    menos expressiva do que a cultura. Todo indivíduo é
    biologicamente único e distinto dos demais indivíduos. A
    liberdade é, pois, um grande bem, a tolerância uma grande virtude
    e a associação uma grande desgraça. Por razões práticas ou
    utopistas, os ditadores, os Homens de Organização e alguns
    cientistas estão ávidos por reduzir a exasperante diversidade da
    qualidade humana a uma sorte de uniformidade maneável. Na
    primeira maré deste fervor behaviourista, J. B. Watson declarou,
    formalmente, que não conseguia encontrar “qualquer indicação
    em prol da existência de métodos de comportamento
    hereditários, nem das capacidades especiais (artísticas, etc.) que se
    supõem receber da família.” Hoje ainda, ouvimos um eminente
    psicólogo, o Prof. B. F. Skinner, de Harvard, afirmar que “quanto
    mais a explicação científica se torna compreensiva, tanto mais a
    contribuição que se pode atribuir ao indivíduo tende aproximarse
    de zero. Os exaltados poderes criativos do homem, as suas
    realizações artísticas, científicas e morais, a sua capacidade de
    optar e o nosso direito de julgá-lo responsável pelas
    conseqüências da sua escolha – tudo isto é insignificante diante
    do novo auto-retrato científico.” Em suma, as peças de
    Shakespeare não foram escritas por ele, nem mesmo por Bacon
    ou pelo conde de Oxford; foram escritas pela Inglaterra
    Elizabetiana.
    Há mais de sessenta anos, William James redigiu um
    trabalho sobre Os Grandes Homens e o seu meio, no qual
    tentava defender o indivíduo excepcional contra os ataques de
    Herbert Spencer. Este declarara que “A Ciência” (essa
    personificação maravilhosamente conveniente das opiniões dos
    Profs. X, Y, Z, em determinada data) abolira totalmente o
    Grande Homem. “O Grande Homem”, anotara Spencer, “deve
    ser classificado juntamente com os outros fenômenos na
    sociedade que lhe deu o ser, como um derivado dos seus
    antecedentes.” O grande homem pode ser (ou parece ser) “o
    iniciador imediato de transformações... Porém, se quisermos
    encontrar-lhes uma explicação um tanto verídica necessário é que
    a procuremos neste conglomerado de circunstâncias e de
    condições de que o Grande Homem e as modificações
    apareceram”. Eis uma daquelas profundezas vazias a que se não
    pode atribuir, talvez, qualquer sentido prático. O que o nosso
    filósofo diz é que temos necessidade de tudo conhecer antes de
    podermos compreender a fundo o que for. Não há dúvida.
    Realmente, porém, jamais teremos conhecimento de tudo.
    Devemos contentar-nos, portanto, com o conhecimento parcial e
    com as causas próximas – incluindo entre elas a influência dos
    grandes homens. “Se qualquer coisa for humanamente certa”,
    escreve William James, “é que a sociedade do grande homem,
    propriamente dita, não o faz antes de que ele possa refazê-la.
    Forças fisiológicas, com as quais as condições sociais, políticas,
    geográficas e, em larga escala, antropológicas, apresentam
    exatamente tanta analogia, nem mais, nem menos, quanto a
    cratera do Vesúvio está em relação com a vacilação do gás que
    me alumia neste instante, eis o que torna o grande homem.
    Afirmará o sr. Spencer que as pressões sociológicas dirigiram-se
    com tanto ímpeto sobre StatforduponAvon por volta de 26 de
    abril de 1564, que certo W. Shakespeare, com todas as suas
    peculiaridades mentais, teve de nascer lá?... Quererá ele afirmar
    que, se o supramencionado W. Shakespeare tivesse sucumbido de
    cólera infantil, uma outra mãe de Stratford-upon-Avon deveria
    apresentar uma cópia igual ao original para restabelecer o
    equilíbrio sociológico?”
    O Prof. Skinner é um psicólogo experimentado, e o seu
    trabalho sobre “A Ciência e o Comportamento Humano” está
    baseado firmemente sobre fatos. Porém, infelizmente, estes
    pertencem a uma classe tão reduzida que, quando o autor se
    arrisca finalmente a fazer uma propagação, as suas conclusões são
    tão elementares e tão remotas da realidade quanto as do teorista
    vitoriano. Não podia ser de outra maneira, porque a indiferença
    do Prof. Skinner relativamente ao que William James chamava
    “forças fisiológicas” é quase tão completa como a de Herbert
    Spencer. As causas genéticas determinantes do comportamento
    humano são resumidas em menos de uma página pelo Prof.
    Skinner. No seu livro não há a menor alusão às descobertas da
    medicina constitucional, nem a essa psicologia constitucional
    cujos princípios seriam os únicos que permitiriam (tanto quanto
    posso julgar) que narrássemos a biografia completa e realista de
    um indivíduo, em relação aos casos relevantes da sua existência –
    o corpo, o temperamento, os dotes intelectuais, o meio imediato
    em cada instante, o tempo, situação e cultura. Uma ciência do
    comportamento humano é semelhante à ciência do movimento
    no abstrato – necessária, mas, por si própria, totalmente
    imprópria aos acontecimentos. Consideremos uma libélula, um
    foguete, uma vaga que se desfaz. Os três casos ilustram as
    mesmas leis básicas do movimento; mas ilustram de maneiras
    diferentes estas leis, e as peculiaridades são pelo menos tão
    importantes como as suas semelhanças. Por si próprio, um estudo
    do movimento quase nada pode apresentar-nos sobre o que, em
    dado momento, está se movendo. Igualmente, um estudo do
    comportamento, por si próprio, quase nada pode dizer-nos sobre
    o composto “corpo-espírito” individual que, em um dado
    instante, apresenta o seu comportamento. Mas para nós, que
    somos compostos “corpo-espírito”, o conhecimento deles é de
    suma importância. Além do mais, sabemos por observação e
    experiência que as diferenças entre compostos “corpo-espírito”
    individuais são demasiadamente grandes, e que alguns compostos
    “corpo-espírito” podem prejudicar e prejudicam profundamente
    o seu ambiente social. Acerca deste último ponto, o sr. Bertrand
    Russel está em completo acordo com William James – e
    praticamente com toda a gente, acrescerei, com exceção dos
    proponentes do pensamento spenceriano ou behaviorístico.
    Segundo Russel os princípios das modificações históricas são de
    três espécies – desenvolvimento econômico, teoria política e
    individualidades importantes. “Não creio”, disse Russel, “que
    qualquer uma delas pode ser ignorada, ou totalmente explicada
    como efeito de causas de outra natureza.” Assim, se Bismarck e
    Lenine tivessem morrido na infância, o nosso mundo atual seria
    muito diferente do que, graças em parte a Bismarck e a Lenine, o
    é atualmente. “A História não é ainda uma ciência e só pode
    passar por científica graças à mistificação e omissões.” Na vida
    real, na vida tal como é vivida no dia a dia, o individual nunca
    pode ser aniquilado por uma explicação. É apenas em teoria que a
    sua cooperação parece aproximar-se do zero; na prática, essa
    cooperação é de suma importância. Quando se executa um
    trabalho no mundo, o que o executa verdadeiramente? De quem
    são os olhos e os ouvidos que o percepcionam, o cérebro que o
    idealiza? Quem experimenta os sentimentos que fazem agir, a
    vontade que supera os obstáculos? Certamente não será o
    ambiente social; porque um grupo não é um organismo, porém
    apenas uma cega organização sem consciência. Tudo o que é
    realizado dentro de uma sociedade é realizado pelos indivíduos.
    Estes indivíduos são, certamente, profundamente influenciados
    pela cultura local, pelos tabus e preconceitos morais, pela
    informação correta ou incorreta que se transmitiu do passado ao
    presente no corpo das tradições orais ou da literatura escrita; mas
    seja o que for que cada indivíduo tira da sociedade (ou, para
    sermos mais explícitos, o que ele recebe de outros indivíduos
    reunidos em associações, ou dos arquivos simbólicos coligidos
    por outros indivíduos, vivos ou mortos) será empregado por ele
    na sua própria e única maneira com os seus sentidos, a sua
    formação bioquímica, o seu físico, o seu temperamento e não
    com os dos outros. Nenhuma explicação científica, por mais
    completa e profunda que seja, pode eliminar estes fatos evidentes.
    E lembremos que a apresentação científica do homem, feita pelo
    Prof. Skinner, como produto do meio social, não é a única
    apresentação científica. Há outros, de aparências mais realistas.
    Consideremos, por exemplo, a exposição realizada pelo Prof.
    Roger Williams. O que ele representa, não é o comportamento
    em abstrato, mas complexos “corpo-espírito” a comportarem-se
    – complexos “corpo-espírito” que são, em parte, conseqüências
    do ambiente que partilham com outros complexos “corpoespírito”,
    em parte da sua hereditariedade particular. Em The
    Human Frontier e Free but Unequal, o Prof. Williams estendeuse,
    com provas abundantes e evidentes, sobre estas diferenças
    naturais entre indivíduos para as quais o Dr. Watson não
    encontrava qualquer apoio e cuja importância, aos olhos do Dr.
    Skinner, aproxima-se de zezo. Entre os animais, a diferença
    biológica dentro de uma dada espécie torna-se cada vez mais
    acentuada assim que subimos na escala da evolução. Esta
    diferença biológica é superior no homem, e os seres humanos
    apresentam um grau de diversidade bioquímica, estrutural e
    temperamental, superior à dos membros das outras espécies. É
    um fato facilmente observável. Mas o que eu denominei a
    Vontade de Ordem, o desejo de impor uma uniformidade
    compreensível acerca da diversidade embaraçante das coisas e dos
    acontecimentos, levou muita gente a desconhecer este fato.
    Reduziram ao mínimo a unicidade biológica e concentraram toda
    a atenção em fatores ambientais, mais simples, e, no estado atual
    do conhecimento, mais compreensíveis, que abarcam o
    comportamento humano.
    “Como resultado deste pensamento e desta investigação
    sediada sobre o ambiente”, escreve o Prof. Williams, “a doutrina
    da uniformidade primordial dos filhos do homem foi
    declaradamente aceita e afirmada por um grande setor da
    psicologia social, da sociologia, da antropologia social, e por
    muitos outros investigadores, incluindo historiadores,
    economistas, pedagogos, juristas e homens públicos. Esta
    doutrina foi anexada à maneira predominante de pensamento de
    muita gente que teve ocasião de agir no campo da educação e da
    administração, e é muitas vezes aceita, sem discussão, por aqueles
    que pouco uso fazem do seu pensamento crítico.”
    É possível que um sistema ético fundado sobre uma
    apreciação tão realista dos dados da experiência seja mais
    benéfico do que maléfico. Porém muitos sistemas éticos foram
    alicerçados sobre uma apreciação da experiência, um ponto de
    vista sobre a natureza das coisas, que é funestamente irrealista.
    Tais éticas ocasionarão, talvez, mais prejuízos do que benefícios.
    Assim, até uma época bastante recente, acreditava-se piamente
    que o mau tempo, as doenças do gado e a impotência sexual
    podiam ser, e eram realmente em muitos casos, ocasionadas por
    ações malévolas de mágicos. Prender e exterminar mágicos era,
    por isso, um dever – e este dever, além disso, fora ordenado por
    Deus no segundo livro de Moisés: “Não sofras a fim de que viva
    um mágico”. Os sistemas éticos e jurídicos que se alicerçavam
    sobre este errôneo ponto de vista sobre a natureza das coisas
    foram causa (durante os séculos em que foram levados mais a
    sério pelos homens e pelas autoridades) de males aterradores. Os
    excessos de espionagem, de linchamento, e do crime judicial, que
    estas errôneas concepções sobre a magia tornaram lógicas e
    obrigatórias, não foram igualadas até os nossos dias quando as
    éticas comunistas e nazistas, a primeira alicerçada em pontos de
    vista errôneos sobre a economia, a segunda baseada¿ em pontos
    de vista errados sobre as raças, ordenaram e justificaram
    atrocidades numa escala ainda maior. conseqüências pouco
    menos indesejáveis seguem-se verossimilmente da aceitação
    generalizada de uma Ética Social, alicerçada do ponto de vista
    errôneo de que somos uma espécie amplamente sociável, que os
    filhos dos homens nascem uniformes e que os indivíduos são a.
    conseqüência do condicionamento levado a efeito pelo e dentro
    do ambiente coletivo. Se estes pontos de vista fossem corretos, se
    os seres humanos fossem, realmente, membros de espécies
    autenticamente saciáveis, e se as suas diferenças individuais
    fossem as menores possíveis e facilmente deléveis mediante um
    condicionamento adequado, não haveria então, necessariamente,
    necessidade de liberdade, e o Estado teria justificação para o fato
    de perseguir os heréticos que a reclamassem. Para a térmite
    individual, o serviço da termiteira representa a liberdade perfeita.
    Porém os seres humanos não são seres totalmente saciáveis; são
    apenas ligeiramente gregários. As suas sociedades não são
    organismos, à semelhança do cortiço ou do formigueiro, porém
    organizações, ou em outros termos, máquinas ad hoc preparadas
    para a vida coletiva. Além do mais, são tão grandes as diferenças
    entre indivíduos que, malgrado a mais intensa cultura
    transformadora, um endomorfo extremo (usando a terminologia
    de W. H. Sheldon) há de reter as suas características
    viscerotônicas, sociáveis, um mesomorfo extremo permanecerá
    energeticamente somatotônico apesar de tudo, e um ectomorfo
    será sempre cerebrotônico, introvertido e hipersensível. No
    Admirável Mundo Novo da minha ficção, o comportamento
    socialmente desejável seria garantido por um processo duplo de
    manipulação genética e condicionamento pós-natal. As crianças
    seriam geradas em provetas e estaria, assim, assegurado um alto
    grau de uniformidade do produto humano, devido a utilização de
    óvulos provenientes de um número reduzido de mães, através do
    tratamento a que cada um deles seria submetido, de maneira tal
    que seriam realizadas neles divisões e subdivisões até o infinito,
    gerando gêmeos idênticos em quantidades de uma centena ou
    mais. Assim sendo, seria possível fabricar máquinas-padrão
    possuidoras de cérebro para servir a máquinas-padrão. E a
    padronização das máquinas detentoras de cérebro seria
    aperfeiçoada, após o nascimento, pelo condicionamento infantil
    através da hipnopédia e pela euforia quimicamente induzida
    como substituição para a satisfação de nos sentirmos livres e
    criadores. No mundo em que vivemos, como foi assinalado em
    capítulo anterior, enormes forças impessoais estão agindo a favor
    da centralização do poder e por uma sociedade centralizada. A
    padronização genética dos indivíduos é, por enquanto,
    impossível; mas o Grande Governo e o Alto Negócio já
    possuem, ou não tardarão a possuir, todas as técnicas de
    manipulação do espírito descritas no Admirável Mundo Novo,
    além de outras que, por falta de imaginação, não pude idealizar.
    Faltando-lhes capacidade para impor a uniformidade genética aos
    embriões, os dirigentes do superpovoado e superorganizado
    mundo do futuro tentarão impor a uniformidade social e cultural
    sobre os adultos e sobre os seus filhos. Para conseguirem este
    objetivo, lançarão mãos (a menos que sejam impedidos) de todas
    as técnicas de manipulação do espírito de que disponham, e não
    titubearão em reforçar estes meios de persuasão não-racional pela
    pressão econômica e pela ameaça de torturas físicas. Se
    desejarmos que este tipo de tirania seja evitado, devemos
    começar, sem demora, a educar-nos a nós e aos nossos filhos
    para a liberdade e o autogoverno.
    Uma tal educação para a liberdade será, como disse, uma
    educação alicerçada, em princípio, em fatos e valores – os fatos
    atinentes à diversidade individual e à unicidade genética, e os
    valores de liberdade, tolerância e caridade mútuas que são as
    conseqüências éticas deste fatos. Porém, infelizmente, o
    conhecimento exato e princípios sólidos não são suficientes. Uma
    verdade sem luz pode ser eclipsada por uma falsidade
    apaixonante. Um apelo hábil à paixão é, geralmente, demasiado
    forte contra as melhores das boas intenções. As conseqüências da
    propaganda falsa e perniciosa só podem ser bloqueadas por um
    treino sólido no mister de analisar as suas técnicas e de enxergar
    claramente através dos seus sofismas. A linguagem tornou
    possível o progresso do homem da selvageria à civilização.
    Contudo a linguagem inspirou, também, essa loucura
    perseverante e essa maldade sistemática, essa maldade
    verdadeiramente diabólica que não são menos distinções do
    comportamento humano do que as virtudes do pensamento
    metodicamente previdente e da contínua benevolência angélica
    inspiradas pela palavra. Àqueles que a usam, a palavra permitelhes
    que prestem atenção às coisas, às pessoas e aos
    acontecimentos, quando as coisas e as pessoas estão ausentes e os
    acontecimentos estão por se realizar. A linguagem dá clareza e
    nitidez às nossas recordações e, traduzindo as experiências em
    símbolos, converte a fugacidade imediata do desejo ou do horror,
    do amor ou do ódio, em princípios duradouros do sentimento e
    da conduta, de maneira que não tendo nós consciência, o sistema
    reticular do cérebro seleciona, de uma quantidade inumerável de
    estímulos, aquelas parcas experiências que são de importância
    prática para nós. Destas experiências selecionadas a esmo,
    separamos e abstraímos mais ou menos conscientemente um
    relativo número, que catalogamos com palavras do nosso
    vocabulário e classificamos, então, num sistema ao mesmo tempo
    metafísico, científico e ético, construído por outras palavras do
    mais elevado nível de alheamento. Nos casos em que a seleção e
    alheamento não foram inspirados por um método que não é
    demasiado errôneo como ponto de vista sobre a natureza das
    coisas, e onde os rótulos verbais foram inteligentemente
    selecionados e a sua natureza aparente claramente compreendida,
    o nosso comportamento será capaz de ser realista e
    toleravelmente decente. Porém, sob a influência de palavras mal
    selecionadas, mal aplicadas, sem qualquer compreensão do seu
    caráter meramente simbólico, que foram separadas e abstraídas à
    luz de um sistema de idéias errôneas, somos capazes de nos
    comportar com uma perversidade e uma estupidez organizadas,
    de que os animais mudos (precisamente porque são mudos e não
    conseguem falar) são, felizmente, inaptos.
    Na sua propaganda anti-racional, os adversários da liberdade
    corrompem automaticamente os recursos de linguagem com a
    finalidade de, através da badalação ou do pavor, levarem as suas
    vítimas a pensar, sentir e agir como eles, os manipuladores dos
    espíritos, querem que elas pensem, sintam e ajam. Uma educação
    para a liberdade (e para o amor e para a inteligência que são, ao
    mesmo tempo, as condições e as conseqüências da liberdade),
    deve ser, entre outras coisas, uma educação do emprego correto
    da linguagem. No transcorrer das duas últimas ou três gerações,
    os filósofos dedicaram grande parte do tempo e do pensamento
    para a análise de símbolos e para o significado do significado.
    Como se referem as palavras e as frases que pronunciamos com
    as coisas, pessoas e fatos com os quais estamos em contato na
    nossa vida diária? A discussão deste problema tomar-nos-ia
    bastante tempo e levar-nos-ia demasiado longe. Basta assinalar
    que todos os instrumentos intelectuais necessários para nos
    instruírmos bastante no emprego exato da linguagem – a todos os
    níveis educativos, desde o jardim de infância até os cursos para
    pós-graduados – estão atualmente à nossa disposição. Uma tal
    educação na arte de distinguir entre a aplicação carreta e o uso
    incorreto dos símbolos pode ser de imediato inaugurada. Na
    verdade, poderia ter sido inaugurada em qualquer ocasião,
    durante os últimos trinta ou quarenta anos. E todavia, em
    nenhuma parte se ensina às crianças um meio sistemático de
    distinção entre afirmações inverídicas, verdadeiras, com sentido
    ou sem sentido. Por que sucede isto? Porque os mais idosos,
    mesmo nos países democráticos, não desejam que elas sejam
    educadas desta maneira. Neste contexto, a resumida triste história
    do Institute for Propagand Analpsis é bastante significativa. O
    instituto foi fundado em 1937, quando a propaganda nazista fazia
    o seu mais intenso ruído e a sua maior eficácia, pelo sr. Filene,
    filantropo da Nova Inglaterra. Sob os seu auspícios elaborava-se
    uma análise da propaganda não-racional e eram preparados vários
    textos para educação dos estudantes dos liceus e das
    universidades. Surgiu então a guerra – uma guerra ampla em
    todas as frentes, na frente intelectual não menos do que na frente
    física. Com todos os Governos Aliados envolvidos na “guerra
    psicológica” insistir-se sobre a necessidade ou não de analisar a
    propaganda pareceu um pouco destituída de tato. O Instituto foi
    fechado em 1941. Porém, mesmo antes de terem início as
    hostilidades, havia muita gente para quem as suas atividades eram
    inteiramente capazes de objeção. Certos educadores, por
    exemplo, não adotavam o ensino da análise da propaganda com a
    desculpa de que isso tornaria os adolescentes indevidamente
    cínicos. Também não era bem recebida pelas autoridades
    militares, que tinham receio de que os soldados pudessem
    começar a analisar as palavras dos sargentos instrutores. E havia
    ainda os eclesiásticos e os especialistas de publicidade. Os
    eclesiásticos eram contrários à análise da propaganda porque ela
    tendia a solapar a fé e a diminuir a freqüência às igrejas; os
    especialistas de publicidade faziam objeções à análise da
    propaganda com o argumento de que ela podia minar a fidelidade
    à marca e a reduzir as vendas.
    Estes receios e repugnâncias não são infundados. Um
    exame demasiado crítico, efetuado por muitos homens médios,
    do que é dito pelos seus pastores e superiores pode revelar-se
    profundamente subversivo. Na sua forma atual a ordem social
    depende, para continuar a sobreviver, da aceitação, sem demasia
    de problemas embaraçantes, da propaganda posta a circular pelas
    autoridades e da propaganda consagrada pelas tradições locais. O
    problema, mais uma vez, é encontrar o meio-termo. Os
    indivíduos devem ser suficientemente sugestionáveis para querer
    e poder assegurar o funcionamento da sua sociedade, mas não em
    demasia, para evitar que caiam, desamparados, sob o império dos
    manipuladores de cérebro profissionais. Da mesma forma devem
    ser suficientemente informados da análise da propaganda para
    que se livrem de crer a esmo no puro sem sentido, mas não
    demasiado, para que não recusem em massa as efusões nem
    sempre racionais dos guardiães bem intencionados da tradição.
    Talvez o meio-termo entre a crença e o ceticismo total jamais
    possa ser descoberto e apoiado apenas pela análise. Esta
    aproximação um tanto negativa do problema deverá ser
    suplementarizada por algo mais positivo – a exposição de um
    conjunto de valores geralmente aceitos – fundado sobre uma
    sólida base de fatos constatados. O primordial será a liberdade
    individual, alicerçada nos fatos da diversidade humana e na
    unicidade genética; o valor da caridade e da compaixão, fundada
    no velho fato familiar, recentemente redescoberto pela psiquiatria
    moderna – o fato de que, seja qual for a sua diversidade física ou
    mental – o amor é tão imprescindível aos seres humanos como o
    alimento e o abrigo; e, por fim, o valor da inteligência, sem o qual
    a amor é impotente e a liberdade inacessível. Este conjunto de
    valores fornecer-nos-á um critério segundo o qual a propaganda
    poderá ser analisada. Aquela que for reconhecida ao mesmo
    tempo como absurda e imoral poderá ser abolida de imediato. A
    que for simplesmente irracional, porém conciliável com o amor e
    com a liberdade, e não por princípio aposta ao exercício da
    inteligência, poderá ser aceita de início pelo que vale.
    .:: 12. Que podemos fazer? ::.
    Podemos ser doutrinados para a liberdade – muito melhor
    doutrinados para a liberdade do que o somos atualmente. Mas a
    liberdade, como tentei demonstrar, está ameaçada de tomar
    muitas direções, e estas ameaças são de muitos tipos diferentes –
    demográficos, sociais, políticos e psicológicos. A nossa doença
    tem uma multiplicidade de causas que cooperam e só pode ser
    sanada por uma multiplicidade de remédios também cooperantes.
    Para tentar resolver qualquer situação humana complicada,
    devemos ter em mente todos os fatores relevantes, não apenas
    um só fator. Mesmo que isso seja tudo, é realmente suficiente. A
    liberdade está ameaçada, e a educação para a liberdade torna-se
    necessária, urgentemente. Porém, nessa mesma situação, achamse
    muitas outras coisas – por exemplo, a organização social para a
    liberdade, a limitação dos nascimentos para a liberdade, a
    legislação para a liberdade. Iniciemos por este último ponto.
    Desde a época da Magna Carta, e mesmo antes, os legistas
    anglo-saxônicos cuidaram-se da proteção da liberdade física do
    indivíduo. Uma pessoa presa por duvidosa legalidade tem o
    direito de apelar para uma das altas instâncias jurídicas a fim de
    obter uma ordem de habeas-corpus, nos termos da Common Lav
    precisados pelo estatuto de 1679. O documento de apelação é
    remetido por um juiz do tribunal ao chefe da polícia, ou ao
    diretor da prisão, e ordena-lhe que faça comparecer ao tribunal,
    nos prazos ordenados, a pessoa que mantém sob custódia, a fim
    de que o seu caso seja examinado – que traga, note-se, não a
    queixa por escrito da pessoa, não os seus representantes legais,
    mas o seu corpus, o seu corpo, a carne demasiado carnal que foi
    forçada a dormir numa tarimba, a respirar uma atmosfera pútrida
    e a ingerir a alimentação condenável da cadeia. Esta preocupação
    com a condição básica da liberdade – a falta de constrangimento
    físico – é, sem discussão, necessária, porém não é tudo o que é
    indispensável. É perfeitamente natural que um homem esteja
    longe da prisão sem estar livre, que não se ache sob qualquer
    constrangimento físico e esteja, todavia, preso do ponto de vista
    psicológico, forçado a raciocinar, a sentir e a agir como os
    representantes do Estado ou de qualquer interesse privado dentro
    da nação, querem que ele raciocine, sinta e proceda. Jamais
    haverá tal coisa como o habeas-mentem; porque nenhum juiz ou
    carcereiro pode levar a um tribunal um espírito preso ilegalmente,
    e nenhuma pessoa cujo espírito tenha sido tornado cativo pelos
    meios traçados nos capítulos precedentes estaria em condições
    para se lamuriar do seu cativeiro. A natureza do manuseamento
    psicológico é tal que os que agem sob constrangimento
    conservam-se sob a impressão de que estão agindo por sua
    própria iniciativa. A vítima da manipulação do espírito ignora que
    é vítima. Para ela, são invisíveis os muros da prisão, e julga-se a si
    própria livre. Que não esteja livre é visível apenas para as outras
    pessoas. A sua servidão é estritamente objetiva.
    Não torno a dizer, não pode haver coisa semelhante como o
    direito ao habeas-mentem. Mas pode haver uma legislação
    preventiva – uma proibição do tráfico da escravidão psicológica,
    um estatuto para a salvaguarda de espíritos contra os provisores
    sem escrúpulos da propaganda venenosa, modelado pelos
    estatutos para a salvaguarda de corpos contra os vendedores sem
    escrúpulos de alimentos impróprios para consumo e de drogas
    perniciosas. Exemplificando, poderia haver, e, julgo, deveria
    haver uma legislação que reduzisse o direito das autoridades
    públicas, civis ou militares, a sujeitarem as assistências forçadas,
    sob as suas ordens, ou sob a sua responsabilidade, ao ensino
    durante o sono. Poderia haver, e julgo que deveria haver, uma
    legislação que coibisse o uso da sugestão subliminal em locais
    públicos ou em programas de televisão. Poderia haver, e penso
    que deveria haver, uma legislação que coibisse os candidatos
    políticos não só a disporem mais do que relativa importância nas
    campanhas eleitorais, mas também que os proibisse de usar
    aquela espécie de propaganda anti-racional que torna numa
    pantomima todo o processo democrático.
    Uma legislação preventiva desse tipo pode gerar algum bem;
    mas se as grandes forças impessoais que ameaçam, no momento,
    a liberdade, continuarem a ganhar terreno, tal legislação não
    poderá ser benéfica durante muito tempo. A melhor das
    constituições e das leis previdentes não terá qualquer poder
    contra a pressão sempre crescente da superpopulação e de um
    excesso de organização imposto pelo número sempre crescente
    dos seres humanos pelo desenvolvimento da técnica. As
    constituições não serão abrogadas e as boas leis continuarão nos
    códigos; porém estas formas liberais servirão apenas para
    dissimular e adornar uma substância profundamente não-liberal.
    Não subjugado o excesso de população e o excesso de
    organização, podemos prever, em países democráticos, uma
    inversão do método que transformou a Inglaterra numa
    democracia, ao mesmo tempo em que mantinha todas as formas
    aparentes de monarquia. Sob a pressão desumana de uma
    superpopulação crescente e de uma crescente superorganização, e
    através de recursos cada vez mais eficazes de manipulação do
    espírito, as democracias transformarão a sua natureza; as velhas
    formas pitorescas – eleições, parlamentos, Supremos Tribunis e
    tudo o mais – subsistirão. A substância subjacente será um novo
    tipo de totalitarismo não-violento. Todos os nomes tradicionais,
    todos os dísticos consagrados permanecerão tal e qual como nos
    velhos tempos; a democracia e a liberdade serão os argumentos
    de todas as emissões radiodifundidas e de todos os artigos de
    fundo – porém tratar-se-á de uma democracia, de uma liberdade
    num sentido absolutamente pickwickiano. Entretanto, a
    oligarquia dirigente e a sua altamente treinada “elite” de soldados,
    policiais, forjadores de pensamento e manipuladores de cérebros
    conduzirão tranqüilamente o espetáculo como lhes apetecer.
    Como podemos controlar as grandes forças impessoais que
    agora ameaçam as nossas liberdades conquistadas com tanto
    sacrifício? No plano verbal e geral das questões, pode-se
    responder à pergunta com grande facilidade. Analisemos o
    problema da superpopulação. A quantidade sempre crescente de
    seres humanos pesa cada vez mais sobre os recursos naturais. O
    que fazer? Evidentemente, devemos, com toda a rapidez possível,
    aumentar a produção de alimentos, instituir e pôr em ação um
    plano mundial para a preservação dos solos e das florestas,
    desenvolver a produção de substâncias que substituam os
    combustíveis, de preferência os menos perigosos e que se
    esgotem com menos rapidez do que o urânio, e, poupando
    sempre os recursos em minerais facilmente acessíveis, que
    diminuem, devemos pôr em execução novos e não muito
    dispendiosos meios a fim de extrairmos estas substâncias dos
    minerais cada vez mais pobres – sendo a água do mar o mais
    pobre de todos. Mas quase não vale a pena dizer que tudo isto é
    mais fácil de escrever do que fazer. É necessário reduzir o
    excedente anual dos nascimentos. Como? Devemos escolher
    entre a fome, as epidemias e a guerra, de um lado, e o
    maltusianismo de outro lado. A maioria das pessoas optará por
    esta última solução – e encontramo-nos imediatamente frente a
    frente a um problema que é, ao mesmo tempo, um puzzle
    fisiológico, médico, sociológico, psicológico e mesmo teológico.
    “A Pílula” ainda não está aperfeiçoada. Quando, e se chegar a ser
    aperfeiçoada, como distribuí-la aos muitos milhões de mães em
    potência (ou, se for uma pílula que aja sobre o macho, pais em
    potência) que terão de ingeri-la se a natalidade da espécie tiver de
    ser limitada? E, em virtude dos costumes sociais existentes, as
    forças culturais e a inércia psicológica, como podem as pessoas
    que devem tomar a pílula, mas não querem tomá-la, ser
    persuadidas a modificarem o seu parecer? E que fazer contra as
    objeções estabelecidas pela Igreja Católica a qualquer forma de
    controle da natalidade a não ser pelo chamado Método rítmico –
    método que, diga-se de passagem, constatou-se até então ser
    quase totalmente ineficaz na limitação da taxa de natalidade nas
    sociedades de economia subdesenvolvida onde a limitação dos
    nascimentos seria mais necessária? Essas mesmas questões que
    devem ser propostas sobre a “pílula” supostamente perfeita,
    surgem, com tão pequena hipótese de lhes darmos respostas
    convincentes, a propósito dos meios mecânicos e químicos já
    utilizáveis.
    Quando passamos dos problemas do controle da natalidade
    aos problemas do aumento das quantidades de gêneros
    alimentícios disponíveis e à conservação dos recursos naturais,
    vemo-nos frente a dificuldades não talvez tão grandes, mas ainda
    insuperáveis. Há, acima de tudo, o problema da educação. Como
    podem ser rapidamente educados na aperfeiçoamento dos seus
    métodos os incontáveis camponeses e lavradores agora
    responsáveis pela colheita da maior parte da produção mundial de
    alimentos? E quando educados, se o forem, onde encontrarão
    eles o capital que lhes permita equiparem-se com as máquinas, os
    combustíveis e os lubrificantes, a energia elétrica, os adubos e as
    espécies selecionadas das sementes produtoras de víveres, e os
    animais domésticos, sem o que a sua melhor formação agrícola
    não tem utilidade? Semelhantemente, quem vai inculcar à raça
    humana os princípios e processos práticos de conservação?
    Como poderemos impedir os cidadãos-camponeses esfomeados,
    de uma nação cuja população e as necessidades essenciais
    crescem celeremente, de fazerem uso do solo? E se o
    conseguirmos, quem pagará a alimentação deles enquanto a terra,
    cansada, for paulatinamente dotada, se possível, de vigor e
    fertilidade? Consideremos, outrossim, as sociedades
    desenvolvidas que tentam atualmente a industrialização. Se o
    conseguirem, quem as tolherá, nos seus esforços desesperados
    por alcançarem o nível das outras e de se manterem nele, de
    consumirem os recursos insubstituíveis do planeta, tão
    estupidamente e em pura perda como os seus precursores
    fizeram, e ainda o fazem, na sua evolução? E quando surgir o dia
    de regular as coisas, onde encontraremos, nos países mais pobres,
    os técnicos e os gigantescos capitais que serão necessários para
    extrair dos minerais de fraca concentração, os metais
    imprescindíveis, nas contingências atuais, para que esse trabalho
    seja viável sob o ponto de vista técnico, ou justificável sob o
    ponto de vista econômico? Pode suceder que, com o tempo,
    encontre-se uma resposta prática para todas estas questões.
    Porém, dentro de quanto tempo? Em uma corrida, seja ela qual
    for, entre a quantidade das massas humanas e os recursos
    naturais, o tempo trabalha contra nós. No final do presente
    século, haverá, se empregarmos ingentes esforços,
    aproximadamente duas vezes mais produtos alimentícios, nos
    mercados mundiais, do que hoje; contudo haverá, também, duas
    vezes mais seres humanos, e vários biliões deles viverão em países
    pouco industrializados onde consumirão dez vezes mais energia,
    água, madeira e minerais insubstituíveis do que os seus pais
    consomem hoje. Em resumo, a situação alimentar será tão
    péssima como é agora, e a das matérias-primas ficará
    consideravelmente agravada.
    Encontrar uma solução para o problema da
    superorganização é pouco menos difícil do que encontrá-la para o
    problema da desigualdade dos recursos naturais e do número
    crescente de seres humanos. No plano verbal e em termos
    genéricos, a resposta é perfeitamente simples. Assim, é um
    provérbio político que o poder acompanha a propriedade.
    Contudo, atualmente é um fato histórico que os meios de
    produção tornam-se depressa propriedade monopolística do Alto
    Negócio e do Grande Governo. Portanto, se acreditais na
    democracia, adotai medidas que permitam distribuir a
    propriedade tão amplamente quanto possível.
    Ora, consideremos o direita ao voto. De início, é um grande
    privilégio. Na prática, como a história contemporânea tem
    provado reiteradamente, o direito ao voto, por si mesmo, não é
    garantia de liberdade. Portanto, se quereis evitar a ditadura por
    plebiscito, dividi as enormes coletividades, semelhantes a
    maquinismos, da sociedade moderna, em grupos independentes
    que cooperem voluntariamente, capazes de funcionarem
    independentes dos sistemas burocráticos do Alto Negócio e do
    Grande Governo.
    A superpopulação e a superorganização fizeram a metrópole
    moderna, na qual uma vida totalmente humana de múltiplas
    relações pessoais quase se tornou impossível. Portanto, se desejais
    evitar o empobrecimento espiritual dos seres humanos e de
    sociedades inteiras, deixai a metrópole e fazei ressurgir a pequena
    comunidade rural, ou então humanizai a metrópole, criando no
    interior da rede da sua organização mecânica, os equivalentes
    urbanos das pequenas comunidades rurais onde os indivíduos
    podem encontrar-se e cooperar como pessoas, não como meras
    encarnações de atribuições especializadas.
    Tudo isto é evidente hoje, como de fato, o era há cinqüenta
    anos. Desde Hilaire Belloc a Mortimer Adler, desde os primeiros
    apóstolos das uniões cooperativas de crédito até os reformadores
    agrários da Itália e do Japão modernos, homens de boa vontade
    defenderam, durante gerações, a descentralização do poder
    econômico e a distribuição mais ampla da riqueza. E quantos
    sistemas argutos foram propostos para a dispersão da produção,
    para um retorno à “indústria aldeã” em pequena escala. E depois,
    surgiram os estudos bastante aprofundados de Dubreuil, com o
    objetivo de oferecer uma relativa medida de autonomia e de
    iniciativa aos diversos serviços de uma grande organização
    industrial. Apareceram os sindicalistas com os seus projetos, para
    uma sociedade sem Estado, organizada como uma federação de
    grupos produtores, sob os augúrios das associações profissionais.
    Na América, Arthur Morgan e Baker Brownell formularam a
    teoria, e descreveram a prática, de um novo tipo de comunidade,
    vivendo à semelhança da aldeia e da pequena cidade.
    O Prof. Skinner, de Harvard, apresentou o ponto de vista
    do psicólogo sobre este problema no seu Walden T»o, romance
    de ficção que apresenta uma comunidade organizada de maneira
    de tal modo científico que ninguém jamais é induzido na tentação
    antisocial e, sem os meios de coação ou de propaganda
    indesejável, cada pessoa cumpre o seu dever, e todas são felizes e
    inventivas. Na França, durante e após a Segunda Guerra Mundial,
    Marecl Barbu, e os seus adeptos, organizaram um certo número
    de grupos de produção autônomos, sem hierarquia, e que eram
    ao mesmo tempo sociedades de socorros mútuos e centros de
    vida realmente humana. Contudo, em Londres, a experiência de
    Pechkam comprovava que é possível, coordenando os serviços de
    saúde com os interesses mais amplos do grupo, formar uma
    verdadeira comunidade, mesmo numa metrópole.
    Vemos, pois, que a doença da superorganização foi
    claramente reconhecida, que algumas medidas de penetração
    foram tomadas, e que a terapêutica experimental dos sintomas foi
    tentado aqui e ali, por vezes com bastante êxito. E, contudo, a
    despeito de toda esta pregação e desta prática exemplificativa, o
    mal se expande com rapidez. Sabemos que é perigoso consentir
    que o poder se concentre nas mãos de uma oligarquia dirigente;
    contudo, o poder está realmente sendo concentrado em um
    número cada vez menor de mãos. Sabemos que, para a maioria
    das pessoas, a vida numa metrópole moderna é anônima,
    atômica, abaixo da condição humana, e, contudo, as cidades
    crescem cada vez mais e o sistema de vida urbano-industrial
    permanece o mesmo. Sabemos que numa sociedade vasta e
    complexa, a democracia não tem qualquer sentido senão em
    função de grupos autônomos de dimensões manejáveis – e
    todavia, uma parte cada vez mais importante dos negócios de um
    país é gerido pelos burocratas dos Grandes Governos e do Alto
    Negócio. Em todos estes casos, sabemos o que seria preciso
    fazer, mas em nenhum deles fomos capazes de agir com
    eficiência em função do que sabemos.
    Neste ponto encontramo-nos frente a uma pergunta
    atribuladora : Desejamos realmente agir segundo o que sabemos?
    Considerará a maioria da população que vale a pena fazer
    esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter
    a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados
    Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do
    mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações
    recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos
    adolescentes abaixo dos vinte anos, os eleitores do futuro, não
    acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagem
    na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo
    do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por
    serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos
    qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo a
    que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores
    bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do
    mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se
    governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade
    de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não
    muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos, e
    invejamos os seres alados devido ao seu poder de movimento
    ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de
    nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a
    esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as
    asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para
    sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres
    humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três
    vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de
    pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao
    final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao
    final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos :
    “Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos”. E quando Alyosha
    Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o
    Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde :
    “Absolutamente! Ele reivindica como um louvor para si próprio e
    para a sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito
    para tornarem os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens
    felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi
    mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do
    que a liberdade.” Nada, exceto a ausência de liberdade, porque
    quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os
    infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas
    – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os
    tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem
    mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina
    agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para
    lutar pela liberdade. O grito de “Dêem-me televisão e cachorrosquentes,
    mas não me assombrem com as responsabilidades da
    liberdade”, pode ceder lugar, sob uma, modificação das
    circunstâncias, ao grito de “Dêem-me a liberdade ou a morte.” Se
    tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças
    sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito
    pouco domínio, em parte devido à falta de competência destes
    dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o
    emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a
    ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o
    aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão
    pobremente se encontravam preparados, os Grandes Inquisidores
    do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus
    sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos
    de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor.
    O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os
    homens à liberdade e diz-lhe : “Corrigimos a tua obra e
    estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade.” Mas o
    milagre, o mistério e a autoridade não são o necessário para
    garantir a sobrevivência duradoura de uma ditadura. No
    Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a
    ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela
    manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos
    espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar
    apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos
    mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os
    seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres
    – transformando a fé em conhecimento extasiado. Os ditadores
    antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente
    aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não
    tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação
    mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram
    muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa.
    Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores
    clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a
    palmatória de um ditador científico, a educação produzirá
    realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos
    homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem
    nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido
    para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia
    derrubada.
    Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É
    verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um
    relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres
    humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a
    liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que
    agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se
    lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever
    fazer tudo o que pudermos para resistir-lhes.
    posted by iSygrun Woelundr @ 1:39 PM  
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