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ASGARDH, hell and heaven
Ridertamashii:animes,mangas,HQs,cultura POP
| livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. parte final |
| quinta-feira, abril 13, 2006 |
nervoso central. John Wesley iniciava o seu sermão com uma descrição longa e minuciosa dos tormentos a que os seus ouvintes seriam, com certeza, condenados para todo o sempre, a menos que se convertessem. Depois, quando o medo e um sentimento de culpabilidade torturante levavam o auditório à beira da vertigem, ou até, em alguns casos, a uma depressão cerebral completa, alterava o tom de voz e prometia a salvação àqueles que cressem e se arrependessem. Com este método de pregação, Wesley converteu milhares de seres humanos. O pavor intenso e prolongado levavaos a soçobrar e gerava um estado de sugestibili dade extremamente intensificada. Nesta situação, as pessoas eram capazes de aceitar, sem discussão, as afirmações teológicas do pregador. Depois disso, eram restabelecidos na sua integridade com palavras de consolação, e saíam da provação com sistemas de comportamento novos, e geralmente melhores, implantados de modo indestrutível nos seus espíritos e no seu sistema nervoso. A eficiência da propaganda religiosa e política depende dos métodos aplicados, não das doutrinas ensinadas. Estas doutrinas podem ser verdadeiras ou falsas, sadias ou perniciosas – pouca ou nenhuma diferença faz. Se a doutrinação for efetivada de maneira proporcionada no estado adequado da exaustão nervosa, será eficiente. Sob condições favoráveis, praticamente qualquer pessoa pode ser convertida a qualquer coisa. Possuímos descrições minuciosas dos métodos empregados pela polícia comunista no seu tratamento dos prisioneiros políticos. A partir do momento em que é detida, a vítima é automaticamente submetida a muitos gêneros de pressões físicas e psicológicas. É mal alimentada e alojada sem nenhum conforto, não é autorizada a dormir mais que poucas horas por noite. E é conservada durante esse tempo num estado de tensão psíquica, de incerteza e de aguda apreensão. Dia após dia, – ou melhor, noite após noite, porque estes polícias pavlovianos conhecem o valor da fadiga como intensificador da sugestibilidade – é interrogada freqüentes vezes, durante horas seguidas, por interrogadores que se esforçam por amedrontá-la, por confundila e por desorientá-la. Após algumas semanas ou meses de tal tratamento, o seu cérebro entra em confusão, e confessa tudo o que os seus captores querem que ela confesse. Então, se é para ser convertida e não para ser destruída, oferecem-lhe o conforto da esperança. Se ela aceitar a nova ideologia, pode ser, todavia, salva – não, certamente, numa vida futura (porque, oficialmente, não há vida futura) mas na vida presente. Meios semelhantes, se bem que menos violentos, foram empregados durante a guerra da Coréia em prisioneiros de guerra. Nos campos chineses onde se achavam, jovens prisioneiros ocidentais foram submetidos sistematicamente a pressões. Dessa forma, pelas mais ínfimas infrações das regras, os transgressores eram encaminhado ao gabinete do comandante, submetidos a interrogatório, tratados com arrogância e humilhados em público. E o processo repetir-se-ia, várias vezes, a qualquer hora do dia ou da noite. Esta hostilização seguida acarretava, nas suas vítimas, uma sensação de desorientação e de ansiedade permanentes. Para lhes agravar o sentimento de culpa ordenavam que os prisioneiros escrevessem e voltassem a escrever, com minúcias cada vez mais íntimas, longos relatórios autobiográficos das suas infrações. E depois de terem confessado suas culpas, era-lhes requerido que confessassem as culpas dos seus companheiros. O objetivo colimado consistia em criar dentro do acampamento uma sociedade de pesadelo, onde um espionava e denunciava os outros. A estas pressões mentais acrescentavam-se as pressões física da subalimentação, do desconforto e da doença. O acréscimo de sugestibilidade assim obtido era explorado habilmente pelos Chineses, que saciavam estes cérebros anormalmente receptivos com grandes doses de literatura prócomunista e anti-capitalista. Estas técnicas pavlovianas eram altamente eficazes. Entre sete, havia um americano culpado de grave colaboração com as autoridades chinesas, informamnos oficialmente, um entre três de colaboração técnica. Não se deve cogitar que este tipo de tratamento esteja reservado unicamente para os seus inimigos pelos comunistas. Os jovens trabalhadores cuja função era, durante os primeiros anos do novo regime, agir como missionários e organizadores do regime, nas inúmeras cidades e aldeias da China, eram submetidos a um curso de doutrinação muito mais rígido do que aquele a que qualquer prisioneiro de guerra foi sujeito. No seu livro China under Communism, R. L. Walker descreve os métodos através dos quais os dirigentes do partido puderam forjar, a partir de homens e mulheres vulgares, os milhares de fanáticos resolutamente devotados que lhes são necessários para propagar a doutrina comunista e fazer obedecer as suas ordens. Sob tal sistema de treino, o material humano bruto é remetido para campos especiais, onde é totalmente isolado dos seus amigos, famílias e do mundo exterior em geral. Nestes campos, ordenamlhes que executem trabalhos esgotantes, físicos e mentais; nunca permanecem sós, estão sempre em grupos; são encorajados a espiaremse mutuamente; mandamlhes que escrevam autobiografias acusatórias; vivem num estado de medo permanente do terrível destino a que podem ser levados devido ao que tenha sido dito sobre eles por informadores, ou do que eles próprios confessaram. Nesta situação de sugestibilidade aumentada, fazem-lhes seguir um curso intensivo do Marxismo teórico e aplicado – um curso em que o fracasso no exame final pode acarretar não importa que sanção, desde a expulsão vergonhosa até à permanência num campo de trabalhos forçados, ou mesmo a morte. Após seis meses nesta espécie de treino, a prolongada tensão mental e física produz resultados que as experiências de Pávlov fariam prever. Um após outro, ou por grupos inteiros, os pacientes soçobram. Surgem indícios neuróticos e histéricos. Alguns suicidam-se, outros (até vinte por cento do total, dizem-nos) adquirem uma doença mental grave. Os que sobrevivem aos rigores do método de conversão, surgem com novos e impecáveis padrões de comportamento. Todas as suas ligações com o passado – família, amigos, tradições – foram rompidas. São homens novos, recriados à imagem dos seus novos deuses e inteiramente dedicados ao seu serviço. Nas novas Comunidades Populares da China, os métodos educacionais até agora reservados aos missionários são atualmente usados, ao que parece, para todos. Um dia de trabalho de doze horas assegura um estado de permanente exaustão; espionagem, delação e ubiqüidade de policiais nutridores de uma ansiedade crônica; e a forçada repressão dos impulsos sexuais e as afeições comuns tendem a criar um senso de profunda e desesperançosa frustração. Nos homens, mulheres e crianças amolecidos por tais métodos testados de Pavlov há freqiientemente uma incessante tormenta de comando e asserções dogmáticas incandescentes e hinos de ódio, de tratamentos de horrendos castigos mitigados por milhares de promessas de coisas gloriosas a vir. Quantos milhões dobrarão sob essa forma educacional, resta a ser visto. Em todos os países comunistas dezenas de milhares destes jovens, disciplinados e devotados, são preparados todos os anos em centenas de centros de formação. O que os Jesuítas fizeram na Igreja Católica da Contra-reforma, estão a fazê-la agora estes produtos de um treino mais científico e ainda mais rígido, e continuarão, sem dúvida, a praticála nos partidos comunistas da Europa, da Ásia e da África. Em política, Pavlov parece ter sido um liberal da velha guarda. Mas, por uma estranha ironia da sorte, as suas investigações e as teorias nas quais se baseou trouxeram à realidade um grande exército de fanáticos dedicados de alma e coração, de reflexos e de sistema nervoso, à destruição do liberalismo à moda antiga, seja onde for que ele se encontre. A lavagem cerebral, tal como é agora praticada, é uma técnica híbrida, em parte dependente, no que se refere à sua eficiência, do emprego metódico da violência, em parte da habilidade de manipulação psicológica. Representa a tradição de 1984 na sua marcha para se tornar a tradição do Admirável Mundo Novo. Sob uma ditadura instituída há longo tempo e bem organizada, os nossos métodos atuais de manipulação semiviolenta parecerão, sem dúvida, paradoxalmente primários. Condicionado desde a mais tenra infância (e talvez biologicamente predestinado), o indivíduo de classe média ou baixa jamais terá necessidade de se converter, ou mesmo de seguir um curso que lhe reanime a nova fé. Os membros da classe superior terão de criar novos pensamentos a fim de responder a novas situações, e obviamente, o seu treino será muito menos intenso do que o imposto àqueles cuja função não é pensar, mas simplesmente trabalhar e morrer com um mínimo de complicações. Estes elementos da classe superior serão, além disso, membros de uma classe selvagem – treinadores e guardas, eles próprios também levemente condicionados, de um vasto rebanho de animais domésticos completamente amansados. A sua selvageria poderá levá-los a se tornarem heréticos e rebeldes. Quando isto suceder, serão liquidados, ou sofrerão uma lavagem cerebral que os devolva à ortodoxia, ou (como no Admirável Mundo Não) serão exilados para uma ilha, onde não possam causar mais transtornos exceto, certamente, uns aos outros. Mas o condicionamento universal da infância e outras técnicas de manipulação e controle ainda estão afastados de nós pelo lapso de algumas gerações. No caminho que leva ao Admirável Mundo Novo os nossos dirigentes têm de contentar-se com técnicas de lavagem cerebral provisórias e transitórias. .:: 8. Persuasão Química ::. No Admirável Mundo Nono da minha ficção não havia uísque, nem tabaco, nem heroína proibida, nem cocaína de contrabando. As pessoas não fumavam, nem bebiam, nem cheiravam rapé, nem se dopavam. Quando alguma pessoa se sentia deprimida, ou mal disposta, tornava uma ou duas pílulas de um composto químico denominado Soma. O Soma original, do qual criei o nome desta droga hipotética, era uma planta desconhecida (talvez a Asclepias acida) usada pelos antigos arianos, invasores da Índia, em um dos seus mais solene rituais religiosos. O suco intoxicante, retirado dos caules desta planta, era ingerido por nobres e sacerdotes, no transcorrer de uma cerimônia complexa. Nos hinos védicos dizem-nos que os bebedores de Soma sentiam alguns efeitos benéficos. Os seus corpos robusteciam-se, os seus corações enchiam-se de ardor, de alegria e de entusiasmo, os seus espíritos enchiam-se de lucidez, e, numa experiência imediata da vida eterna, recebiam a certeza da imortalidade. Porém o sumo sagrado apresentava os seus inconvenientes. O Soma era uma droga perigosa – tão perigosa que mesmo o grande deus do céu, Indra, adoecia às vezes, por têla ingerido. Os mortais vulgares podiam até morrer, devido a uma dosagem forte. Contudo a experiência causava uma felicidade tão transcendente e tal iluminação que o beber Soma era encarado como um grande privilégio. Por este privilégio nenhum preço era exorbitante. O Soma do Admirável Mundo Novo não apresentava nenhum dos inconvenientes do seu antepassado indiano. Ingerido em pequenas doses, oferecia uma sensação de felicidade; em doses mais elevadas, fazia-nos ter visões e, se engolíssemos três pílulas, cairíamos, após alguns minutos, num sono refrigerante. Tudo isto sem qualquer problema físico ou mental. Os habitantes do Admirável Mundo Não podiam libertarse dos seus humores negros, ou dos conflitos familiares da vida diária, sem que sacrificassem a saúde ou minorassem permanentemente a sua eficiência. No Admirável Mundo Novo o hábito de tomar Soma não era um vício privado; era uma instituição política, era a verdadeira essência da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade garantidas pela Declaração de Direitos. Mas este privilégio supremamente precioso e inalienável dos súditos era, da mesma forma, um dos mais poderosos instrumentos de domínio do arsenal do ditador. A dopagem sistemática dos indivíduos para benefício do Estado (e circunstancialmente, talvez, para o próprio prazer deles) era um elemento primordial da política dos Dominadores do Mundo. A dose diária de Soma era uma garantia contra a desadaptação pessoal, contra a agitação social e a divulgação de idéias subversivas. A religião, declarara Karl Marx, é o ópio do povo. No Admirável Mundo Novo, a situação invertera-se. O ópio, ou antes o Soma, era a religião do povo. Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e de compensar, criava visões de outro mundo, de um mundo melhor, dava esperança, fortalecia a fé e promovia a caridade. “A cerveja”, escreveu um poeta faz mais do que Mílton para justificar as vias de Deus [perante os homens. Recordemos que, comparada ao Soma, a cerveja é uma droga do tipo mais grosseiro e incerto. No caso de justificar as vias de Deus perante os homens, Soma está para o álcool como este está para os argumentos teológicos de Mílton. Em 1931, enquanto eu descrevia os efeitos deste imaginário produto sintético, através do qual as gerações futuras seriam felizes e dóceis, o bem conhecido bioquímico americano, Dr. Irvine Page, preparava-se para deixar a Alemanha, onde passara os três anos anteriores, no Kaiser Wilhelm Institut, a estudar química cerebral. “É difícil compreender” – escreveu o dr. Page num artigo recente – “porque è que os sábios demoraram tanto tempo a empreender o exame das reações químicas no seu próprio cérebro. Falo – acrescentou o dr. Irvin Page – por experiência pessoal. Quando regressei em 1931... não encontrei uma situação neste campo (no campo da química cerebral), nem consegui despertar o menor interesse a respeito dele.” Hoje, vinte e sete anos após, o interesse não despertado em 1931 tornou-se um enorme foco incandescente de investigações bioquímicas e psicofarmacológicas. Estudam-se os enzimas que regulam os processos cerebrais. Foram isoladas no corpo substâncias químicas até então desconhecidas, tais como o adrenocromo e a serotonina (da qual o Dr. Page foi co-descobridor), e os seus vastíssimos efeitos nas nossas funções mentais e físicas estão, presentemente, a ser investigados. Entretanto, foram sintetizadas novas drogas – drogas que reforçam, ou corrigem, ou interferem nos efeitos de várias substâncias químicas, através das quais o sistema nervoso opera os seus milagres de todos os dias e de todas as horas, na sua função de controlar o corpo, de instrumento e mediador da consciência. Do nosso ponto de vista presente, o fato mais notável, no que tange a estas drogas, é o de elas alterarem temporariamente a química cerebral e o estado de espírito que lhe está associado, sem causarem prejuízo permanente ao organismo, em seu conjunto. Neste aspecto, são semelhantes ao Soma – e marcadamente diferenciadas das drogas modificadoras da mente, empregadas no passado. Por exemplo, o ópio é o calmante clássico. Mas o ópio é uma droga perigosa que, desde o neolítico até o presente, fez toxicômanos e acarretou a ruína à saúde de muita gente. O mesmo sucede com o álcool – a droga que, segundo as palavras do Salmo, “torna alegre o coração do homem.” Mas, infelizmente, o álcool não se reduz a tornar alegre o coração do homem; causa, em doses excessivas, a doença e o vício, e tem sido uma das principais causas, há oito ou dez mil anos, do crime, da infelicidade doméstica, da degradação moral e de acidentes evitáveis. Entre os estimulantes conhecidos, o chá, o café e o mate são, felizmente, quase inofensivos. São, aliás, estimulantes muito fracos. Ao contrário dessas “chávenas que alegram mas não inebriam”, a cocaína é uma droga muito poderosa e muito perigosa. Aqueles que fazem uso dela devem pagar os seus êxtases, o seu sentido do poder ilimitado, físico e mental, com fases agudas de depressão agônica, com aqueles horríveis sintomas físicos, tais como a sensação de ser infestado por miríades de insetos rastejantes, e por alucinações paranóicas que podem levar a crimes violentos. Outro estimulante, descoberto há pouco tempo, foi a anfetamina, mais conhecido pelo nome comercial de Benzedrina. A anfetamina é dotada de grande efeito – mas atua, quando dela se abusa, à custa da saúde física e mental. Calculou-se que, no Japão, há aproximadamente um milhão de viciados na anfetamina. Dos alucinantes em evidência, os mais conhecidos são o peyote do México e do sudoeste dos Estados Unidos, e a Cannabis sativa, consumidos, em todo o mundo, sob o nome de hachiche, bhang, kif e marijuana. De acordo com as mais convincentes provas médicas e antropológicas, o peyote é muito menos prejudicial do que o “gin” ou o uísque do Homem Branco. O peyote permite aos índios, que ousam nos seus rituais religiosos, que ingressem no paraíso e se sintam em união perfeita com a bemamada comunidade, sem lhes cobrar estes privilégios por algo pior do que a provação de terem de mascar uma substância de gosto repugnante e experimentarem náuseas durante uma ou duas horas. A Cannabis sativa não é uma droga tão inócua – se bem que menos perigosa do que os amadores de sensações nos quereriam fazer supor. O Comité Médico, encarregado em 1944 pelo “Mayor” de Nova Iorque de investigar o problema da marijuana, chegou à conclusão, depois de cuidadosa investigação, de que a Cannabis sativa não é uma séria ameaça para a sociedade, ou mesmo para aqueles que se lhe entregam. É um simples incômodo. Destes conhecidos transformadores do espírito passemos aos produtos mais recentes da investigação psíquicofarmacológica. De entre estes, os mais largamente divulgados são três novos tranqüilizantes : a reserpina, a cloropromazina e o metrobamato. Ministrados em algumas classes de psicopatas, os dois primeiros provaram ser altamente eficazes, não na cura de doenças mentais, mas pelo menos na extinção dos seus sintomas mais cruéis. O meprobamato (aliás Miltown) produz efeitos semelhantes em pessoas que sofrem de vários tipos de neurose. Nenhuma destas drogas é totalmente inofensiva; porém o seu custo, em termos de saúde física e de eficiência mental, é extremamente baixo. Num mundo onde ninguém procura algo sem uma finalidade, os tranqüilizantes oferecem bastante por muito pouco. O Miltown e a cloropromazina ainda não são Soma; contudo não estão longe de ser um dos aspectos desta droga mítica. Proporcionam uma libertação temporária da tensão nervosa sem infligirem, na grande maioria dos casos, um prejuízo orgânico permanente, e sem causarem mais do que uma pequena diminuição, enquanto a droga atua, da eficiência física e mental. Exceto como narcóticos, são talvez preferíveis aos barbitúricos, que enfraquecem a agudeza intelectual e, em grandes doses, causam um certo número de sintomas psico-físicos indesejáveis e podem resultar numa viciação caracterizada. Com o LSD25 (dietilamida do ácido lisérgico), os farmacologistas criaram recentemente outro aspecto de Soma – um intensificador da percepção e um gerador de visões, que é, fisiologicamente falando, quase de graça. Esta droga extraordinária, que é eficaz em doses tão pequenas como cinqüenta ou até vinte e cinco milionésimos do grama, tem a virtude (como o peyote) de transportar as pessoas para o Outro Mundo. Na maioria dos casos, o Outro Mundo a que o LSD25 dá acesso é celestial; mas pode ser outrossim, alternadamente, purgatório ou até infernal. Porém, positiva ou negativa, a, experiência do ácido lisérgico é sentida por quase todos os que passam por ela como marcadamente significativa e iluminante. De qualquer maneira, o fato de o espírito poder ser transformado tão radicalmente por preço tão reduzido para o corpo, é espantoso. O Soma não era apenas um gerador de visões e um tranqüilizante; era também (coisa seguramente impossível) um estimulante do espírito e do corpo, um produtor de euforia ativa, assim como da felicidade negativa que se segue à libertação da ansiedade e da tensão. O estimulante ideal – poderoso, porém inócuo – ainda está por ser descoberto. A anfetamina, como vimos, estava longe de ser satisfatória; o preço que vale excede muito o que nos oferece. Um candidato mais promissor ao papel de Soma, no seu terceiro aspecto, é a Iproniazida, que está sendo usada atualmente para livrar da sua miséria os doentes de depressão, para dar mais energia aos apáticos e, em geral, para aumentar a dose de energia psíquica disponível. Mais promissor ainda, segundo um distinto farmacologista meu amigo, é um novo composto, ainda em experiência, que será denominado Deaner. Deaner é um aminoálcool, e calcula-se que aumenta dentro do corpo a produção de acetilcolina, e, portanto, aumenta a atividade e eficiência do sistema nervoso. O homem que ingere esta nova pílula sente menos necessidade de dormir, sente-se mais desperto e mais eufórico, raciocina melhor e de forma mais rápida – e tudo isto quase sem prejuízo para o corpo, pelo menos a curto prazo. Isto parece demasiado belo para ser verdadeiro. Vemos assim que, se bem que Soma não exista ainda (e talvez nunca existirá), já foram descobertos magníficos substitutos para vários aspectos de Roma. Há, hoje em dia, tranqüilizantes fisiologicamente baratos, geradores de visões fisiologicamente baratos e estimulantes também fisiologicamente baratos. É evidente que um ditador podia, se assim o desejasse, empregar estas drogas para fins políticos. Poder-se-ia prevenir contra a agitação política transformando a química cerebral dos seus súditos, e fazer, desta maneira, que se contentassem com a sua condição servil. Podia empregar tranquilizantes para acalmar os excitados, estimulantes para avivar o entusiasmo nos indiferentes, alucinantes para distrair da sua miséria a atenção dos inditosos. Contudo, poder-se-á perguntar, como é que o ditador levará os seus súditos a ingerirem as pílulas que os farão pensar, sentir e comportarem-se das maneiras que ele julga desejáveis? Com toda a probabilidade, será suficiente que lhes coloque as pílulas ao alcance da mão. Hoje, o álcool e o tabaco são de fácil alcance, e as pessoas gastam bem mais dinheiro com estes tão pouco satisfatórios euforizantes, pseudoestimulantes e sedativos, do que estão dispostas a despender com a educação dos filhos. Ou, então, analisemos os barbitúricos e tranqüilizantes. Nos Estados Unidos estas drogas só podem ser adquiridas com receita médica. Mas a procura que o público americano faz de algo que tornará um pouco mais suportável a vida num ambiente urbanoindustrial é tão grande que os médicos estão agora a aviar receitas de vários tranqüilizantes ao ritmo de quarenta e oito milhões por ano. Além disso, a maioria destas receitas volta a ser aviada. Cem doses de felicidade não são suficientes : tragamos da farmácia outro frasco – e, quando este terminar, mandemos buscar outro... Não há dúvida de que, se os tranqüilizantes pudessem ser adquiridos a preço tão módico e de forma tão fácil como a aspirina, seriam consumidos, não aos biliões, como são no presente, mas às vintenas e centenas de biliões. E um estimulante, bom e barato, seria quase tão popular como estes. Sob uma ditadura, os químicos receberiam ordem de mudar de direção a cada modificação das circunstâncias. Em época de crise nacional, seriam encarregados de autorizar a venda de estimulantes. Entre cada crise, excesso de vivacidade e energia por parte dos seus súditos poderia tornar-se embaraçante para o tirano. Em tais épocas, as massas seriam levadas a comprar tranqüilizantes e alucinantes. Sob a influência destes lenitivos, não teriam possibilidade de criar a menor dificuldade ao tirano. Estando as coisas como estão, os tranqüilizantes podem obstar as pessoas de causarem muita intranqüilidade, não só aos seus superiores como a si próprias. Demasiada tensão é doença; mas pouca tensão também é uma doença. Há ocasiões em que devemos estar tensos, em que um excesso de tranqüilidade (e especialmente de tranqüilidade vinda do exterior, por um agente químico) é inteiramente desapropriado. Num simpósio recente sobre o meprobamato, do qual participei, um eminente bioquímica sugeriu, jocosamente, que o governo dos Estados Unidos da América deveria doar ao povo soviético cinqüenta biliões de doses do tranqüilizante mais popular da América. A piada tinha algo de sério. Numa luta entre duas populações, sendo que uma está sendo incessantemente estimulada com ameaças e promessas, constantemente movida por uma propaganda insistente, enquanto que a outra é não menos constantemente distraída pela televisão e tranqüilizada por Miltown, qual dos oponentes terá maior probabilidade de ganhar? Além da particularidade de tranqüilizar, alucinar e estimular, o Soma da minha ficção tinha a propriedade de aumentar a sugestibi!idade e, desta maneira, podia ser empregado para alicerçar os efeitos da propaganda governamental. De modo menos eficaz e mais prejudicial para a saúde, várias drogas, já incluídas na farmacopéia, podem ser empregadas com a mesma finalidade. Há a scopolamina, por exemplo, o princípio ativo do meimendro e, em grandes doses, um veneno poderoso; há o pentotal e o amitalsódio. Apelidado, por razão obscura, o “soro da verdade”, o pentotal foi empregado pela polícia de vários países com o objetivo de extrair confissões (ou talvez para sugerir confissões) aos criminosos obstinados. O pentotal e o amitalsódio baixam a barreira entre o consciente e o subconsciente, e são de grande valia no tratamento da “fadiga de guerra”, pelo processo conhecido, na Inglaterra, pelo nome de “terapêutica dos traumatismos psicofisiológicos do soldado” e, na América, pela designação de “narcosíntese”. Diz-se que estas drogas são, por vezes, usadas pelos Comunistas quando preparam prisioneiros de gabarito para se apresentarem publicamente em tribunal. Entretanto, a farmacologia, a bioquímica e a neurologia estão evoluindo sem parar, e podemos estar cientes de que, no transcorrer de poucos anos, serão descobertos novos e mais eficientes métodos químicos de aumento da sugestibilidade e de abaixamento da resistência psicológica. Como qualquer outra coisa, estas descobertas podem ser usadas para o bem ou para o mal. Podem auxiliar o psiquiatra na luta contra a doença mental, ou podem ajudar o ditador na sua luta contra a liberdade. Visto que a ciência é divinamente imparcial, é mais provável que tais descobertas escravizem e libertem, curem e destruam, ao mesmo tempo. .:: 9. Persuasão Subconsciente ::. Numa nota de rodapé inserta na edição de 1919 do seu livro A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que publicava recentemente um artigo onde descrevia as suas experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um instrumento que se apresenta sob duas formas – um tipo de caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fração de segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com obturador ultra-rápido que pode projetar, pelo espaço de alguns segundos, uma imagem sobre uma tela.) Nestas experiências, “Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que tinham observado conscientemente de uma imagem que fora exposta à vista deles no taquistoscópio. Depois chamava-lhes a atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite anterior e rogava-lhes, mais uma vez, que desenhassem aquilo que se recordavam. Os resultados mostravam, sem sombra de dúvida, que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido observados pelo paciente, proporcionavam os elementos da construção do sonho”. Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente pelo dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o Problema dos sonhos e “a percepção pré-consciente”, no Journal of the American Psychoanalitic Association. Contudo, os psicologistas clássicos não permaneceram inativos. Confirmando as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as pessoas vêem e ouvem, de fato, muito mais coisas do que aquelas que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e ouvem, sem que o recordem, é recordado pelo subconsciente, e pode afetar os pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes delas. A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e, finalmente, tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber torna-se poder, as fórmulas e as experiências de laboratório sofrem uma metamorfose, e surgem como a bomba H. No presente caso, o belo fragmento de ciência pura descoberto por Poetzl, assim como os demais descobertos no campo da percepção pré-consciente, conservaram a sua antiga pureza durante um período de tempo demasiadamente longo. Depois, nos princípios do Outono de 1957, exatamente quarenta anos após a publicação do primeiro artigo de Poetzl, anunciou-se que a pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido aplicadas, haviam adentrado o reino da tecnologia. A revelação causou enorme sensação, e em todo o mundo civilizado falou-se e escreveu-se sobre isso. E não é para admirar; porque a nova técnica de “projeção subliminal”, como a denominaram, estava intimamente associada com a distração das massas, e na vida do ser humano civilizado a distração das massas desempenha, agora, um papel semelhante ao que foi desempenhado pela religião na Idade Média. Têm sido dadas várias denominações à nossa época – a Idade da Ansiedade, a Idade Atômica, a Idade do Espaço. Poderseia denominá-la, com igual propriedade, a Idade do vício da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Disk Jockey. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projeção subliminal não podia deixar de despertar o mais vívido interesse entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a nova técnica era-lhes diretamente dirigida, e o alvo era a manipulação dos seus espíritos sem que eles suspeitassem do que lhes estava sendo feito. Por intermédio de taquistoscópios especialmente concebidos, seriam projetadas palavras ou imagens durante um milionésimo de segundo, ou menos, nas telas dos aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem depois) o programa. “Beba Coca-Cola” ou “Fume Camel” seriam projetadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe atribulada, e os nervos éticos dos espectadores recolheriam estas mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e, na devida hora, teriam o desejo consciente de coca-cola e do cigarro. E, entretanto, outras mensagens secretas seriam retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como “Querida, amo-te”; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos terrivelmente sensíveis, e o seu subconsciente, registrariam a boa notícia referente a desodorizantes e a laxantes. Este tipo de propaganda comercial é realmente eficaz? Os dado.; trazidos pela empresa comercial que empregou, pela primeira vez, um processo de projeção subliminal são vagos e, do ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a intervalos regulares durante a projeção de um filme, num cinema, a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de cinqüenta por cento, a venda do mesmo durante o intervalo. Mas uma única experiência comprova muito pouco. Além disso, esta experiência particular fora mal planejada. Não havia controle e não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras variações que, sem dúvida, prejudicam o consumo do milho torrado por uma assistência, num cinema. Além disso, era esta a maneira mais correta de aplicar o conhecimento adquirido havia alguns anos pelos investigadores científicos da percepção subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a simples projeção do nome de um produto e a ordem de comprá-la fossem suficientes para quebrar a resistência à compra e adquirir novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é obviamente negativa. Mas isto não indica, talvez, que as descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não ofereçam qualquer importância prática. Aplicado com habilidade, o bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode tornar-se muito bem num instrumento poderoso de manipulação de espíritos desprevenidos. Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, deixemos de lado os vendedores de milho torrado para aqueles que, com menos espalhafato, mas com maior imaginação e melhores métodos, fizeram experiências no mesmo campo. Na Inglaterra, onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os investigadores assinalaram a importância prática de se gerarem as condições psicológicas apropriadas à persuasão subconsciente. Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais capaz de produzir efeito se aquele que a receber estiver num estado de ligeira hipnose, sob a influência de algumas drogas, ou se se encontrar debilitado por doença, por inanição ou não importa qual tensão psíquica ou moral. Mas o que é verídico para sugestão realizada acima do limiar de consciência é também verdadeiro relativamente a sugestões feitas abaixo deste princípio. Numa palavra, quanto mais baixo for o nível psicológico de uma pessoa, tanto maior será a eficiência das sugestões injetadas sem controle. O ditador cientifico do futuro definirá as suas máquinas de transmitir mensagens secretas e os seus projetos subliminais nas escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente sugestionáveis), e em todos os locais públicos onde os auditórios possam receber um abrandamento preliminar por intermédio de um discurso ou de ritos que aumentam a sugestibilidade. Das condições sob as quais podemos aguardar que a sugestão subliminal seja eficiente passamos agora à própria sugestão. Em que áreas deverá dirigir-se o propagandista ao subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens diretas (“Compre pipoca” ou “Vote em Jones”) e afirmações categóricas (“O Socialismo cheira mal” ou “O dentifrício X abole o mau hálito”) só terão, talvez, efeito naqueles espíritos que já são por Jones e pelo milho torrado, já despertas para os perigos dos odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de produção. Mas para robustecer a fé existente não basta isto; o propagandista, se for digno desse nome, deve gerar nova fé, deve saber como atrair o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve ser capaz de abrandar e talvez até de convencer os que lhe são contrários. À asseveração subliminal e à ordem, deve acrescer a persuasão subliminal. Acima do limiar de consciência, um dos meios mais eficientes da persuasão não-racional é o que se pode denominar persuasão “por associação”. O propagandista associa caprichosamente o seu produto selecionado, ou o seu candidato ou a sua causa com uma idéia, uma imagem de uma pessoa ou de uma coisa, que muita gente, de uma determinada cultura, considera, com razão um bem. Assim, numa promoção de vendas, a beleza feminina pode ser coisa, desde o “bulldozer” até um diurético; numa campanha política o patriotismo pode ser associado com qualquer causa desde a segregação até à integração, e com qualquer tipo de pessoa, desde Mahatma Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América Central, notei um exemplo de persuasão por associação que me encheu de espanto aterrorizado pelos homens que a imaginaram. Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas são os calendários coloridos, distribuídos gratuitamente pelas companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos índios. Os Americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades seminuas em seus calendários; porém para os nativos, os cães não vão além de objetos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram de presenciar todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem nenhum atrativo, talvez até um pouco repugnantes. Consequentemente, os calendários americanos conseguiram muito menos êxito do que os calendários alemães, porque estes haviam tido a precaução de procurar o que os índios admiravam, o que lhes despertava interesse, e lembro-me em particular de uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da imagem, via-se a marca usual sobre o familiar tubo de comprimidos brancos. Acima, nada de paisagens nevadas ou de florestas no Outono, cães felpudos, ou beldades despidas. Não – os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro requintadamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria, de uma combinação de santos e de revoadas de anjos. As virtudes milagrosas do ácido acetilsalicílico eram garantidas desta maneira, nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo Deus Pai e por toda a corte celestial. Este tipo de persuasão por associação é algo a que parecem moldar-se particularmente bem as técnicas de projeção subconsciente. Numa série de experiências levadas a cabo pela Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto Nacional da Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma pessoa acerca de qualquer imagem vista conscientemente podem ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com outra imagem, ou melhor, com palavras portadoras de valor. Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra “feliz”, uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha amigavelmente, amavelmente, acolhedoramente. Quando a mesma face fora associada, também no plano subconsciente, com o termo “furioso”, mostrava-se agressiva, desagradável e hostil. (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito masculina – ao passo que, quando era associada com a palavra “feliz”, viam a face como se esta pertencesse a um indivíduo do seu próprio sexo. Pais e maridos, façam o favor de tomar nota.) Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são, como é evidente, altamente expressivas. Se conseguir deixar as suas vítimas num estado excepcionalmente elevado de sugestibilidade, se puder apresentar-lhes, quando se encontram neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a coisa que tem para lhes oferecer, e se, no plano subconsciente, pode associar essa coisa ou pessoa ou símbolo, com qualquer palavra, ou imagem portadora de valor, o propagandista será capaz de modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas tenham a mínima idéia do que ele está realizando. Será possível, segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orleans, aumentar, mediante o uso desta técnica, o valor recreativo dos filmes e das peças de televisão. As pessoas apreciam sentir emoções fortes e, portanto, admiram as tragédias, os melodramas, os filmes policiais e as narrações de grandes paixões. A dramatização de uma batalha ou de um beijo produz fortes emoções nos espectadores. Podia gerar até emoções mais fortes se fosse associada, ao nível subconsciente, às palavras ou símbolos apropriados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada mais pungente do que já é, mediante a repetida projeção subliminal na tela, durante o desenrolar da cena, de palavras tão nefastas como “dor”, “sangue” e “morte”. As palavras não serão conscientemente vistas; mas o seu impacto sobre o subconsciente pode ser muito grande, e estes impactos podem reforçar, e muito, as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela ação e pelo diálogo. Se, como parece certo, a projeção subliminal pode avivar poderosamente as emoções sentidas pelos freqüentadores de cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota – se os produtores de peças de televisão não se apropriarem da idéia primeiro. Em face do que se disse sobre a persuasão por associação e da intensificação de emoções por sugestão subliminal, calculemos o que será uma reunião política do futuro. O candidato (se ainda houver candidatos), ou o representante indicado da oligarquia dirigente fará o discurso que todos ouvirão. Entretanto, os taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e segredadas, os projetores de imagens tão fracas que só o subconciente lhes pode reagir, fortalecerão o que ele diz, através da associação sistemática do homem e da sua causa, a palavras sobrecarregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e pela “injeção estrombônica” de palavras sobrecarregadas de valores negativos e de símbolos odientos, sempre que ele cite os inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da América, reflexos rápidos de Abraham Lincoln e as palavras “governo pelo povo” serão projetadas na tribuna. Na Rússia, o locutor será, talvez, associado a imagens rápidas de Lenine, com as palavras “democracia do povo”, e a barba profética do Pai Marx. Porque tudo isto sucederá num futuro ainda bastante remoto, podemos sorrir. Porém, daqui a dez ou vinte anos parecerá, possivelmente, um pouco menos divertido. Porque o que é agora mera ficção científica, tornar-se-á um fato político de todos os dias. Poetzl foi um dos profetas que esqueci ao escrever o Admirável Mundo Novo. Na minha ficção não há qualquer referência à projeção subliminal. É um erro de omissão que, se voltasse a escrever o livro novamente, eu corrigiria certamente. .:: 10. Hipnopédia ::. Pelos fins do outono de 1957, o Woodland Road Camp, uma instituição penal localizada em Tulare County, na Califórnia, foi alvo de uma experiência bastante curiosa e interessante. Altofalantes em miniatura foram dispostos sob os travesseiros de um grupo de presos que se tinham oferecido para ser cobaias de uma experiência de psicologia. Cada um dos alto-falantes de cabeceira estava ligado a um fonógrafo localizado no gabinete do diretor. Durante a noite, a cada hora que se escoava, um murmúrio moralizador repetia um rápido sermão sobre “os princípios da vida moral”. Acordando à meia-noite, um prisioneiro podia ouvir a voz enaltecer as virtudes cardiais ou sussurrar, em nome do que havia de melhor em si próprio, “Estou cheio de amor e de compaixão por todos, assim me ajude Deus.” Depois de ler isto sobre Woodland Road Camp, voltei ao segundo capítulo do Admirável Mundo Novo. Neste capítulo, o Diretor das Incubadoras e do Condicionamento para a Europa Ocidental explica a um grupo de jovens condicionadores e técnicos de incubação o funcionamento deste método de educação ética controlado pelo Estado, conhecido no século VII d. F. pela denominação de Hipnopédia. Os primeiros ensaios de ensino feitos durante o sono, fala o Diretor ao seu auditório, foram mal orientados e, portanto, inúteis. Os educadores tentaram dar um treino intelectual aos seus alunos sonolentos. Porém, a atividade intelectual é inconciliável com o sono. A hipnopédia só obteve êxito quando foi usada para treino moral – por outras palavras, para condicionamento do comportamento através da sugestão verbal num tempo de resistência psicológica diminuída. “O condicionamento sem palavras é grosseiro e inteiriço, não pode inculcar os modos de comportamento mais complicados exigidos pelo Estado. Para isso são necessárias palavras, mas palavras sem razão...” o tipo de palavras que não requerem qualquer raciocínio para serem compreendidas, mas podem ser sorvidas em bloco pelo cérebro adormecido. Esta é a verdadeira hipnopédia, “a maior força de moralização e de socialização de todos os tempos”. No Admirável Mundo Novo, nenhum cidadão pertencente a uma classe inferior causou jamais qualquer perturbação. Por quê? Porque, desde o momento em que pôde falar e compreender o que lhe diziam, toda criança de uma classe inferior era exposta a sugestões vagamente repetidas, noite após noite, durante as horas de modorra e de sono. Estas sugestões eram “semelhantes a gotas de lacre líquido, gotas que grudam, se incrustam, se agregam a si próprias naquilo sobre o que caem, até que, por fim, a rocha não se parece mais do que uma massa encarnada. Até que, finalmente, o espírito da criança seja estas sugestões, e a soma destas sugestões seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança. Mas também o espírito do adulto – durante toda a sua vida. O espírito que decide e que anela e julga – constituído por estas coisas sugeridas. Mas estas sugestões são as nossas sugestões – as sugestões do Estado...” Atualmente, tanto quanto sei, as sugestões hipnopédicas não foram administradas por um estado superior a Tulare County, e a natureza das sugestões hipnopédicas aplicadas em Tulare, aos infratores da lei, é vulgar. Se todos nós, e não apenas os habitantes de Woodland Road Camp, pudéssemos estar realmente repletos de amor e compaixão por todos durante o sono! Não, não é contra a mensagem transmitida pelo sussurro inspirador que apontamos objeções; é contra o método de ensino durante o sono realizado pelos poderes do Estado. É a hipnopédia o tipo de instrumento que personagens oficiais, encarregadas de exercer a autoridade numa sociedade democrática, devem ter autorização para usar como bem lhes parecer? Na atual instância, estão aplicando esse instrumento apenas em voluntários imbuídos das melhores das intenções. Mas não há certeza de que, em outras situações, as intenções sejam boas ou que a doutrinação tenha um fundamento voluntário. Qualquer lei ou prescrição social que torne viável a personagens oficiais serem levados à tentação é má. Qualquer lei ou preceito que os preserve de serem tentados de abusar do poder que lhes foi delegado, em seu benefício próprio, ou para benefício do Estado ou de alguma organização política, econômica ou eclesiástica, é boa. A hipnopédia, se fosse eficiente, seria um instrumento penosamente poderoso nas mãos de uma pessoa qualquer que se encontre numa posição que lhe permitisse impor sugestões sobre um auditório que não seja livre. Uma sociedade democrática está baseada na certeza de que se abusa muitas vezes do poder e que é conveniente, consequentemente, não o confiar aos funcionários, senão em porções limitadas e por intervalos de tempo reduzidos. Numa tal sociedade, o uso da hipnopédia por funcionários do Estado seria regulado pela lei – supondo, bem entendida, que a hipnopédia é, na realidade, um instrumento do poder. Mas é realmente um instrumento de poder? Funcionará ele tão bem quanto o imaginei em funcionamento no século VII depois de Ford? Analisemos os fatos. No Psychological Bulletin de julho de 1955, Charles W. Simon e William H. Emmons analisaram e criticaram os dez estudos mais importantes que se efetuaram neste domínio. Todos estes estudos diziam respeito à memória. O ensino efetuado durante o sono ajudará o aluno quando se trata de aprender de cor? E até que ponto é que o material sussurrado ao ouvido da pessoa adormecida é recordado na manhã seguinte quando a pessoa desperta? Simon e Emmons respondem da seguinte forma : “Dez estudos sobre o ensino realizado durante o sono foram examinados e vários deles foram mencionados indiscriminadamente por empresas comerciais, ou em revistas de divulgação e artigos de jornal, como provas a favor da viabilidade de aprender enquanto dormimos. Foi feita uma análise crítica da organização das experiências em causa, das estatísticas, da metodologia e dos meios aplicados para definir o sono. Todos os estudos revelaram pontos fracos em um ou vários destes campos. Não determinavam com uma clareza inequívoca que sejam assimilados conhecimentos pelo sujeito enquanto dorme realmente. Parece, contudo, que se produz um tipo de aquisição num estado de vigília particular, de tal maneira que os pacientes já não se lembram depois se estavam ou não acordados. Este fenômeno é capaz de ter uma grande importância prática do ponto de vista da economia do tempo de estudo, mas não pode ser analisado como um ensino durante o sono... O problema fica parcialmente ofuscado por uma definição insuficientemente precisa do sono”. Permanece, no entanto o fato de que, no exército americano, no transcorrer da última guerra mundial (e mesmo durante a primeira, a título experimental), cursos do código Morse e de línguas estrangeiras ministrados durante o dia eram completados por instruções durante o sono – com resultados que parecem satisfatórios. Desde o fim das hostilidades, várias empresas comerciais, nos Estados Unidos e em outros países, venderam grandes quantidades de alto-falantes de cabeceira, de fonógrafos com mecanismos de relojoaria e de magneto-fones e atares que tinham urgência de decorar os seus papéis, a políticos e a pregadores que queriam dar a ilusão de uma eloquência natural, a estudantes que se preparavam para os exames e por fim àqueles, incontáveis, que não estão satisfeitos consigo próprios e desejariam que a sugestão ou a auto-sugestão os ajudassem a tornar-se diferentes. A sugestão que cada um ministra a si próprio pode ser gravada com facilidade numa fita magnética e ouvida, repetidas vezes, de dia e durante o sono. As sugestões exteriores podem ser adquiridas sob a forma de discos portadores de uma variedade bastante considerável de conselhos salutares. Há no comércio discos que libertam da tensão e levam a um profundo relaxamento, a fim de favorecer a confiança em si (muito solicitados pelos caixeiros viajantes), discos para aumentar os nossos atrativos e tornar a personalidade mais marcante. Entre os que estão mais em moda, encontram-se os que permitem a realização da harmonia sexual e os discos para quem quer emagrecer. (“Sou indiferente ao chocolate, insensível à atração de batatas, desinteressado por completo de bolos”.) Há discos para melhorar a saúde, e até para ganhar mais dinheiro. E a coisa realmente notável é que, segundo testemunhos não solicitados, enviados por reconhecidos compradores destes discos, muitas pessoas ganham realmente mais dinheiro após ouvirem as sugestões hipnopédicas indicadas para este caso; muitas senhoras obesas emagrecem e muitos casais à beira do divórcio conseguem a harmonia sexual e vivem, a partir de então, felizes. Neste contexto, um artigo de Theodore X. Barber, “Sono e hipnose”, aparecido em The Journal of Clinicai and Experimental Hypnosis de outubro de 1956, é mais elucidativo. O sr. Barber assinala que há uma diferença expressiva entre o sono leve e o sono profundo. No sono profundo o eletroencefalograma não registra ondas alfa; no sono leve, elas aparecem. Nestas circunstâncias, o sono leve está mais próximo das situações de vigília e de hipnose (em ambos se apresentam as ondas alfa) do que no sono profundo. Um ruído violento fará despertar uma pessoa adormecida profundamente. Um estímulo menos violento não a fará despertar, mas ocasionará o reaparecimento das ondas alfa. O sono profundo cedeu lugar durante algum tempo ao sono leve. Uma pessoa adormecida profundamente não é sugestionável. Mas quando são dadas sugestões a pacientes mergulhados em sono leve, eles responderão a essas sugestões, da mesma maneira como reagem a sugestões quando em estado de hipnose, segundo diz o sr. Barber. Muitos dos que exploraram pela vez primeira o hipnotismo fizeram experiências análogas. Na sua clássica History, Practice and Theory of Hypnotism, inicialmente publicada em 1903, Milne Bramwell assinala que “muitas autoridades apregoam ter alterado o sono natural em sono hipnótico. Segundo Wetterstrand, por vezes é bastante fácil entrarmos em comunicação com pessoas adormecidas, notadamente crianças... Wetterstrand julga de grande valia prática este método de gerar a hipnose e afirma que o aplicou muitas vezes com êxito.” Branwell cita, neste sentido, vários outros hipnotizadores com experiência (inclusive autoridades eminentes como Bernheim, Moll e Forel). Hoje, um experimentador não falaria de “mudança do sono natural em sono hipnótico”. Tudo o que pode dizer é que o sono leve (oposto ao sono pesado sem ondas alfa) é uma situação em que muitos pacientes receberão sugestões tão facilmente como sucede quando estão sob a hipnose. Por exemplo, depois de lhes dizerem, quando levemente adormecidos, que não demorarão a acordar sedentos, muitos pacientes despertarão de fato com a boca seca e uma sede ardente. O córtex pode estar bastante inativo para pensar com clareza, mas desperto suficientemente para reagir a sugestões e enviá-las ao sistema nervoso autônomo. Como já observamos, o muito conhecido médico e experimentador sueco, Wetterstrand, conseguia êxito em particular no tratamento hipnótico de crianças adormecidas. Os métodos de Wetterstrand são seguidos em nossos dias por numerosos pediatras que instruem as jovens mães na arte de dar sugestões valiosas aos filhos durante as horas em que estes se encontram levemente adormecidos. Através desta espécie de hipnopédia, as crianças podem ser curadas da incontinência de urina e de onicofagia, permite que se preparem os pequenos doentes para sofrerem, sem apreensão, uma intervenção cirúrgica, para lhes transmitir confiança e segurança, quando, por qualquer motivo, as circunstâncias da sua vida se tornaram aflitivas. Verifiquei, pessoalmente, os apreciáveis resultados conseguidos por esse processo em crianças, e é possível que o método não fosse menos eficiente para adultos. Para o aspirante a ditador, a moral de tudo isto é notória. Sob condições adequadas, a hipnopédia oferece resultados efetivamente – resultados, parece, tão eficientes como a hipnose. Muitas das coisas que se podem fazer com uma pessoa em estado hipnótico podem ser feitas com uma pessoa levemente adormecida. As sugestões orais podem ser comunicadas através do córtex sonolento para o cérebro médio, para a medula alongada e para o sistema nervoso autônomo. Se estas sugestões são bem concebidas e repetidas com freqüência, as funções corpóreas de quem está dormindo podem ser excitadas ou inibidas, e é possível alojar novos modelos de sentimento ao passo que os antigos são modificados, é possível darem-se ordens pós-hipnóticas, slogans, fórmulas, e palavras-chave profundamente gravadas na memória. As crianças são melhores pacientes hipnopédicos do que os adultos, e o aspirante a ditador auferirá. vantagem do fato. As crianças das creches e dos jardins de infância serão submetidas a sugestões hipnopédicas durante o sono da tarde. Para as crianças mais idosas, e particularmente para os filhos dos membros do partido – rapazes e moças que crescerão para serem dirigentes, administradores e professores – haverá internatos, em que uma esmerada educação diurna será completada pelo ensino noturno durante o sono. No caso dos adultos, será dedicada atenção particular ao doente. Como Pávlov comprovou há muitos anos, os cães dotados de grande envergadura mental e de grande resistência tornam-se totalmente sugestionáveis depois de uma operação ou quando sofrem de um mal debilitante. O nosso ditador cuidará, portanto, para que cada enfermaria seja dotada com aparelhagem sonora. Uma apendicectomia, um parto, uma pneumonia ou uma hepatite, podem constituir motivo para um curso intensivo sobre a lealdade e a verdadeira fé, um calmante dos princípios da ideologia local. Outras assistências cativas podem encontrarse nas prisões, nos campos de trabalho, nos acampamentos militares, barcos em viagem, trens e aeroplanos, durante a noite, nas soturnas salas de espera das rodoviárias e das estações ferroviárias. Ainda que as sugestões dadas a estas assistências forçadas só fossem eficientes em dez por cento dos casos, os resultados ainda seriam impressionantes e, para um ditador, altamente desejáveis. Da sugestibilidade aumentada, em associação com o sono leve e com a hipnose, passemos à sugestibilidade normal dos que estão acordados – ou, pelo menos, que se supõem acordados. (Na realidade, como insistem os budistas, muitas pessoas estão meio adormecidas durante todo o tempo e passam a vida como sonâmbulos que obedecem às sugestões de qualquer pessoa. A iluminação é o despertar total. A palavra Buda pode traduzir-se por “o Iluminado”.) Do ponto de vista genético, cada ser humano é único e em muitos sentidos diferente de qualquer outro ser humano. A escala das variações individuais, partindo-se do normal estatístico, é surpreendentemente ampla. E o normal estatístico, recordêmo-la, é útil tão só para os cálculos dos estatísticos, não na vida real. Na vida real não há pessoa que corresponda ao homem médio. Há apenas homens particulares, mulheres e crianças particulares, cada um com as suas idiossincrasias inatas, físicas e mentais, e todos eles tentando (ou sendo impelidos) comprimir as suas diversidades biológicas na conformidade de um molde cultural. A sugestibilidade é uma das qualidades que variam correspondentemente de indivíduo para indivíduo. Os fatores mesológicos desempenham, certamente, o seu papel na modelação da maior ou menor receptividade a sugestões das pessoas, mas há, outrossim, de maneira não menos carreta, diferenças constitucionais no tangente à sugestibilidade dos indivíduos. A extrema resistência à sugestão é bastante rara. Ainda bem. Porque, se cada pessoa fosse tão incapaz de ser sugestionada como algumas o são, a vida em sociedade seria impossível. As sociedades podem funcionar com um grau razoável de eficiência porque muitas pessoas são, em grau variável, facilmente sugestionáveis. A sugestibilidade extrema é mais ou menos tão rara como a incapacidade extrema para ser sugestionada. E também felizmente que assim o seja. Porque se muitas pessoas fossem tão receptivas em relação a sugestões exteriores como os homens e as mulheres que se acham nos limites extremos da sugestibilidade, a escolha livre, racional, tornar-se-ia praticamente impossível, para a maioria dos eleitores, e as instituições democráticas não poderiam sobreviver, nem sequer teriam surgido. Há alguns anos, no “Massachusetts General Hospital”, um grupo de investigadores fez um conjunto de experiências extremamente reveladoras sobre o efeito analgésico do placebo. (Um placebo é algo que um doente crê ser uma droga ativa, mas que é, realmente, farmacologicamente inócua.) Nestas experiências, os pacientes eram cento e sessenta e dois doentes que acabavam de ser operados e padeciam grandes dores. Onde quer que um paciente pedisse um medicamento para se livrar da dor, davam-lhe uma injeção, ou de morfina ou de água destilada. Todos os pacientes receberam injeções de morfina e outras de placebo. Cerca de trinta por cento dos pacientes não obtiveram qualquer resultado com o placebo. Por outro lado, catorze por cento conseguiram alívio depois de todas as injeções de água destilada. Os restantes cinqüenta e cinco por cento, obtinham alívio com o placebo em algumas ocasiões, em outras não. Sob quais aspectos diferiam entre si estes dois grupos? Estudos meticulosos e aprofundados comprovaram que a idade e o sexo não constituíam fatores significativos. Os homens reagem ao placebo tão normalmente como as mulheres, e os jovens com tanta freqüência quanto os adultos. Mesmo a inteligência, quando medida pelos testes normais, se apresenta como um fator de destaque. O Quociente de Inteligência de ambos os grupos era relativamente o mesmo. Era, acima de tudo, no temperamento, nos modos de reagir em relação a si próprios e em relação aos outros, que os indivíduos dos dois grupos eram significativamente desiguais. Os que reagiam cooperavam mais do que os que não reagiam, menos críticos e menos suspeitosos. Não davam trabalho às enfermeiras e pensavam que os cuidados que recebiam no hospital eram simplesmente “maravilhosos”. Porém, se bem que mais cordiais para com os demais, do que os que não reagiam, sentiam-se geralmente muito mais ansiosamente preocupados consigo próprios. Sob tensão, esta ansiedade propendia a transferir-se para vários sintomas psicossomáticos, tais como indigestões, diarréias e dores de cabeça. Contudo, ou devido à ansiedade, muitos dos que reagiam mostravam-se menos inibidos na manifestação da sua emoção do que os que não reagiam, e mais inconstantes. Eram também muito mais religiosos, muito mais preocupados com as coisas da sua igreja e muito mais preocupados, sob um nível subconsciente, com os seus órgãos abdominais e pélvicos. É interessante fazer uma comparação entre estes números relativos ao placebo com os cálculos realizados, no seu campo especial, pelos adeptos do hipnotismo. Um quinto da população aproximadamente pode ser hipnotizada muito facilmente, é o que nos dizem. Outro quinto não pode ser hipnotizado de maneira alguma, ou só pode ser hipnotizado quando as drogas, ou a fadiga, lhes minaram a resistência psíquica. Os três quintos restantes podem ser hipnotizados pouco menos facilmente do que o primeiro grupo, mas de maneira bem mais fácil do que o segundo. Um fabricante de discos hipnopédicos narrou-me que aproximadamente vinte por cento dos seus clientes sentiam-se entusiasmados e contavam extraordinários resultados conseguidos em muito pouco tempo. No outro extremo do fantasma de sugestibilidade há uma minoria de oito por cento que pede o reembolso da despesa. Entre estes dois extremos, achamse as pessoas que não conseguem resultados rápidos, mas que são suficientemente sugestionáveis para que alcancem resultados a longo prazo. Se continuarem a ouvir incessantemente as instruções hipnopédicas apropriadas acabarão por obter o que querem – confiança em si próprias ou harmonia sexual, menos peso ou mais dinheiro. Os ideais da democracia e da liberdade vão de encontro com o caso brutal da sugestibilidade humana. Um quinto dos eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante a aplicação de injeções de água, um quarto responderá de pronto e entusiasticamente à hipnopédia. A todas estas minorias bastante dispostas a cooperar, devemos acrescentar as maiorias de reações mais lentas, cuja sugestibilidade menos acentuada pode ser explorada por qualquer manipulador cônscio de sua função, pronto a dedicar para isso o tempo e os esforços indispensáveis. É a liberdade individual conciliável com um elevado grau de sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas reagir contra a subversão exercida do interior por especialistas hábeis na ciência e no mister de explorar a sugestibilidade dos indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada pela educação, para benefício do próprio indivíduo ou para benefício de uma sociedade democrática, a tendência natural para ser sugestionável em excesso? Até que ponto pode ser controlada, pela lei, a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de homens de negócio e de eclesiásticos, por políticos dentro e fora do poder? Explícita ou implicitamente, as duas primeiras perguntas foram estudadas no decorrer dos capítulos precedentes. Nos que se seguem abordarei os problemas da prevenção e da cura. .:: 11. Educação para a Liberdade ::. A educação para a liberdade deve começar por impor fatos e por expor argumentos de valor, e deve ir ao ponto de gerar técnicas apropriadas à execução de valores e ao combate de quem que, por qualquer motivo, prefere a ignorância da realidade ou a negação dos valores. Em capítulo anterior discorri sobre a Ética Social, em termos tais que os males oriundos da superorganização e de superpopulação são justificados e surgem como bens. É um tal sistema de valores que concordam com o que conhecemos do corpo e do temperamento humanos? A Moral Social afirma que a educação é de máxima importância na definição do comportamento humano e que a natureza – o equipamento psico-físico com os quais os indivíduos nasceram – é um fator desprezível. Porém, será isto realidade? Será verdade que os seres humanos nada mais são do que produtos do seu ambiente social? E se não for verdade, que justificativa pode alegar-se para o caso de se afirmar que o indivíduo tem menos importância do que o grupo do qual é membro? Todos os informes disponíveis nos levam à dedução de que, na vida dos indivíduos e da sociedade, a hereditariedade não é menos expressiva do que a cultura. Todo indivíduo é biologicamente único e distinto dos demais indivíduos. A liberdade é, pois, um grande bem, a tolerância uma grande virtude e a associação uma grande desgraça. Por razões práticas ou utopistas, os ditadores, os Homens de Organização e alguns cientistas estão ávidos por reduzir a exasperante diversidade da qualidade humana a uma sorte de uniformidade maneável. Na primeira maré deste fervor behaviourista, J. B. Watson declarou, formalmente, que não conseguia encontrar “qualquer indicação em prol da existência de métodos de comportamento hereditários, nem das capacidades especiais (artísticas, etc.) que se supõem receber da família.” Hoje ainda, ouvimos um eminente psicólogo, o Prof. B. F. Skinner, de Harvard, afirmar que “quanto mais a explicação científica se torna compreensiva, tanto mais a contribuição que se pode atribuir ao indivíduo tende aproximarse de zero. Os exaltados poderes criativos do homem, as suas realizações artísticas, científicas e morais, a sua capacidade de optar e o nosso direito de julgá-lo responsável pelas conseqüências da sua escolha – tudo isto é insignificante diante do novo auto-retrato científico.” Em suma, as peças de Shakespeare não foram escritas por ele, nem mesmo por Bacon ou pelo conde de Oxford; foram escritas pela Inglaterra Elizabetiana. Há mais de sessenta anos, William James redigiu um trabalho sobre Os Grandes Homens e o seu meio, no qual tentava defender o indivíduo excepcional contra os ataques de Herbert Spencer. Este declarara que “A Ciência” (essa personificação maravilhosamente conveniente das opiniões dos Profs. X, Y, Z, em determinada data) abolira totalmente o Grande Homem. “O Grande Homem”, anotara Spencer, “deve ser classificado juntamente com os outros fenômenos na sociedade que lhe deu o ser, como um derivado dos seus antecedentes.” O grande homem pode ser (ou parece ser) “o iniciador imediato de transformações... Porém, se quisermos encontrar-lhes uma explicação um tanto verídica necessário é que a procuremos neste conglomerado de circunstâncias e de condições de que o Grande Homem e as modificações apareceram”. Eis uma daquelas profundezas vazias a que se não pode atribuir, talvez, qualquer sentido prático. O que o nosso filósofo diz é que temos necessidade de tudo conhecer antes de podermos compreender a fundo o que for. Não há dúvida. Realmente, porém, jamais teremos conhecimento de tudo. Devemos contentar-nos, portanto, com o conhecimento parcial e com as causas próximas – incluindo entre elas a influência dos grandes homens. “Se qualquer coisa for humanamente certa”, escreve William James, “é que a sociedade do grande homem, propriamente dita, não o faz antes de que ele possa refazê-la. Forças fisiológicas, com as quais as condições sociais, políticas, geográficas e, em larga escala, antropológicas, apresentam exatamente tanta analogia, nem mais, nem menos, quanto a cratera do Vesúvio está em relação com a vacilação do gás que me alumia neste instante, eis o que torna o grande homem. Afirmará o sr. Spencer que as pressões sociológicas dirigiram-se com tanto ímpeto sobre StatforduponAvon por volta de 26 de abril de 1564, que certo W. Shakespeare, com todas as suas peculiaridades mentais, teve de nascer lá?... Quererá ele afirmar que, se o supramencionado W. Shakespeare tivesse sucumbido de cólera infantil, uma outra mãe de Stratford-upon-Avon deveria apresentar uma cópia igual ao original para restabelecer o equilíbrio sociológico?” O Prof. Skinner é um psicólogo experimentado, e o seu trabalho sobre “A Ciência e o Comportamento Humano” está baseado firmemente sobre fatos. Porém, infelizmente, estes pertencem a uma classe tão reduzida que, quando o autor se arrisca finalmente a fazer uma propagação, as suas conclusões são tão elementares e tão remotas da realidade quanto as do teorista vitoriano. Não podia ser de outra maneira, porque a indiferença do Prof. Skinner relativamente ao que William James chamava “forças fisiológicas” é quase tão completa como a de Herbert Spencer. As causas genéticas determinantes do comportamento humano são resumidas em menos de uma página pelo Prof. Skinner. No seu livro não há a menor alusão às descobertas da medicina constitucional, nem a essa psicologia constitucional cujos princípios seriam os únicos que permitiriam (tanto quanto posso julgar) que narrássemos a biografia completa e realista de um indivíduo, em relação aos casos relevantes da sua existência – o corpo, o temperamento, os dotes intelectuais, o meio imediato em cada instante, o tempo, situação e cultura. Uma ciência do comportamento humano é semelhante à ciência do movimento no abstrato – necessária, mas, por si própria, totalmente imprópria aos acontecimentos. Consideremos uma libélula, um foguete, uma vaga que se desfaz. Os três casos ilustram as mesmas leis básicas do movimento; mas ilustram de maneiras diferentes estas leis, e as peculiaridades são pelo menos tão importantes como as suas semelhanças. Por si próprio, um estudo do movimento quase nada pode apresentar-nos sobre o que, em dado momento, está se movendo. Igualmente, um estudo do comportamento, por si próprio, quase nada pode dizer-nos sobre o composto “corpo-espírito” individual que, em um dado instante, apresenta o seu comportamento. Mas para nós, que somos compostos “corpo-espírito”, o conhecimento deles é de suma importância. Além do mais, sabemos por observação e experiência que as diferenças entre compostos “corpo-espírito” individuais são demasiadamente grandes, e que alguns compostos “corpo-espírito” podem prejudicar e prejudicam profundamente o seu ambiente social. Acerca deste último ponto, o sr. Bertrand Russel está em completo acordo com William James – e praticamente com toda a gente, acrescerei, com exceção dos proponentes do pensamento spenceriano ou behaviorístico. Segundo Russel os princípios das modificações históricas são de três espécies – desenvolvimento econômico, teoria política e individualidades importantes. “Não creio”, disse Russel, “que qualquer uma delas pode ser ignorada, ou totalmente explicada como efeito de causas de outra natureza.” Assim, se Bismarck e Lenine tivessem morrido na infância, o nosso mundo atual seria muito diferente do que, graças em parte a Bismarck e a Lenine, o é atualmente. “A História não é ainda uma ciência e só pode passar por científica graças à mistificação e omissões.” Na vida real, na vida tal como é vivida no dia a dia, o individual nunca pode ser aniquilado por uma explicação. É apenas em teoria que a sua cooperação parece aproximar-se do zero; na prática, essa cooperação é de suma importância. Quando se executa um trabalho no mundo, o que o executa verdadeiramente? De quem são os olhos e os ouvidos que o percepcionam, o cérebro que o idealiza? Quem experimenta os sentimentos que fazem agir, a vontade que supera os obstáculos? Certamente não será o ambiente social; porque um grupo não é um organismo, porém apenas uma cega organização sem consciência. Tudo o que é realizado dentro de uma sociedade é realizado pelos indivíduos. Estes indivíduos são, certamente, profundamente influenciados pela cultura local, pelos tabus e preconceitos morais, pela informação correta ou incorreta que se transmitiu do passado ao presente no corpo das tradições orais ou da literatura escrita; mas seja o que for que cada indivíduo tira da sociedade (ou, para sermos mais explícitos, o que ele recebe de outros indivíduos reunidos em associações, ou dos arquivos simbólicos coligidos por outros indivíduos, vivos ou mortos) será empregado por ele na sua própria e única maneira com os seus sentidos, a sua formação bioquímica, o seu físico, o seu temperamento e não com os dos outros. Nenhuma explicação científica, por mais completa e profunda que seja, pode eliminar estes fatos evidentes. E lembremos que a apresentação científica do homem, feita pelo Prof. Skinner, como produto do meio social, não é a única apresentação científica. Há outros, de aparências mais realistas. Consideremos, por exemplo, a exposição realizada pelo Prof. Roger Williams. O que ele representa, não é o comportamento em abstrato, mas complexos “corpo-espírito” a comportarem-se – complexos “corpo-espírito” que são, em parte, conseqüências do ambiente que partilham com outros complexos “corpoespírito”, em parte da sua hereditariedade particular. Em The Human Frontier e Free but Unequal, o Prof. Williams estendeuse, com provas abundantes e evidentes, sobre estas diferenças naturais entre indivíduos para as quais o Dr. Watson não encontrava qualquer apoio e cuja importância, aos olhos do Dr. Skinner, aproxima-se de zezo. Entre os animais, a diferença biológica dentro de uma dada espécie torna-se cada vez mais acentuada assim que subimos na escala da evolução. Esta diferença biológica é superior no homem, e os seres humanos apresentam um grau de diversidade bioquímica, estrutural e temperamental, superior à dos membros das outras espécies. É um fato facilmente observável. Mas o que eu denominei a Vontade de Ordem, o desejo de impor uma uniformidade compreensível acerca da diversidade embaraçante das coisas e dos acontecimentos, levou muita gente a desconhecer este fato. Reduziram ao mínimo a unicidade biológica e concentraram toda a atenção em fatores ambientais, mais simples, e, no estado atual do conhecimento, mais compreensíveis, que abarcam o comportamento humano. “Como resultado deste pensamento e desta investigação sediada sobre o ambiente”, escreve o Prof. Williams, “a doutrina da uniformidade primordial dos filhos do homem foi declaradamente aceita e afirmada por um grande setor da psicologia social, da sociologia, da antropologia social, e por muitos outros investigadores, incluindo historiadores, economistas, pedagogos, juristas e homens públicos. Esta doutrina foi anexada à maneira predominante de pensamento de muita gente que teve ocasião de agir no campo da educação e da administração, e é muitas vezes aceita, sem discussão, por aqueles que pouco uso fazem do seu pensamento crítico.” É possível que um sistema ético fundado sobre uma apreciação tão realista dos dados da experiência seja mais benéfico do que maléfico. Porém muitos sistemas éticos foram alicerçados sobre uma apreciação da experiência, um ponto de vista sobre a natureza das coisas, que é funestamente irrealista. Tais éticas ocasionarão, talvez, mais prejuízos do que benefícios. Assim, até uma época bastante recente, acreditava-se piamente que o mau tempo, as doenças do gado e a impotência sexual podiam ser, e eram realmente em muitos casos, ocasionadas por ações malévolas de mágicos. Prender e exterminar mágicos era, por isso, um dever – e este dever, além disso, fora ordenado por Deus no segundo livro de Moisés: “Não sofras a fim de que viva um mágico”. Os sistemas éticos e jurídicos que se alicerçavam sobre este errôneo ponto de vista sobre a natureza das coisas foram causa (durante os séculos em que foram levados mais a sério pelos homens e pelas autoridades) de males aterradores. Os excessos de espionagem, de linchamento, e do crime judicial, que estas errôneas concepções sobre a magia tornaram lógicas e obrigatórias, não foram igualadas até os nossos dias quando as éticas comunistas e nazistas, a primeira alicerçada em pontos de vista errôneos sobre a economia, a segunda baseada¿ em pontos de vista errados sobre as raças, ordenaram e justificaram atrocidades numa escala ainda maior. conseqüências pouco menos indesejáveis seguem-se verossimilmente da aceitação generalizada de uma Ética Social, alicerçada do ponto de vista errôneo de que somos uma espécie amplamente sociável, que os filhos dos homens nascem uniformes e que os indivíduos são a. conseqüência do condicionamento levado a efeito pelo e dentro do ambiente coletivo. Se estes pontos de vista fossem corretos, se os seres humanos fossem, realmente, membros de espécies autenticamente saciáveis, e se as suas diferenças individuais fossem as menores possíveis e facilmente deléveis mediante um condicionamento adequado, não haveria então, necessariamente, necessidade de liberdade, e o Estado teria justificação para o fato de perseguir os heréticos que a reclamassem. Para a térmite individual, o serviço da termiteira representa a liberdade perfeita. Porém os seres humanos não são seres totalmente saciáveis; são apenas ligeiramente gregários. As suas sociedades não são organismos, à semelhança do cortiço ou do formigueiro, porém organizações, ou em outros termos, máquinas ad hoc preparadas para a vida coletiva. Além do mais, são tão grandes as diferenças entre indivíduos que, malgrado a mais intensa cultura transformadora, um endomorfo extremo (usando a terminologia de W. H. Sheldon) há de reter as suas características viscerotônicas, sociáveis, um mesomorfo extremo permanecerá energeticamente somatotônico apesar de tudo, e um ectomorfo será sempre cerebrotônico, introvertido e hipersensível. No Admirável Mundo Novo da minha ficção, o comportamento socialmente desejável seria garantido por um processo duplo de manipulação genética e condicionamento pós-natal. As crianças seriam geradas em provetas e estaria, assim, assegurado um alto grau de uniformidade do produto humano, devido a utilização de óvulos provenientes de um número reduzido de mães, através do tratamento a que cada um deles seria submetido, de maneira tal que seriam realizadas neles divisões e subdivisões até o infinito, gerando gêmeos idênticos em quantidades de uma centena ou mais. Assim sendo, seria possível fabricar máquinas-padrão possuidoras de cérebro para servir a máquinas-padrão. E a padronização das máquinas detentoras de cérebro seria aperfeiçoada, após o nascimento, pelo condicionamento infantil através da hipnopédia e pela euforia quimicamente induzida como substituição para a satisfação de nos sentirmos livres e criadores. No mundo em que vivemos, como foi assinalado em capítulo anterior, enormes forças impessoais estão agindo a favor da centralização do poder e por uma sociedade centralizada. A padronização genética dos indivíduos é, por enquanto, impossível; mas o Grande Governo e o Alto Negócio já possuem, ou não tardarão a possuir, todas as técnicas de manipulação do espírito descritas no Admirável Mundo Novo, além de outras que, por falta de imaginação, não pude idealizar. Faltando-lhes capacidade para impor a uniformidade genética aos embriões, os dirigentes do superpovoado e superorganizado mundo do futuro tentarão impor a uniformidade social e cultural sobre os adultos e sobre os seus filhos. Para conseguirem este objetivo, lançarão mãos (a menos que sejam impedidos) de todas as técnicas de manipulação do espírito de que disponham, e não titubearão em reforçar estes meios de persuasão não-racional pela pressão econômica e pela ameaça de torturas físicas. Se desejarmos que este tipo de tirania seja evitado, devemos começar, sem demora, a educar-nos a nós e aos nossos filhos para a liberdade e o autogoverno. Uma tal educação para a liberdade será, como disse, uma educação alicerçada, em princípio, em fatos e valores – os fatos atinentes à diversidade individual e à unicidade genética, e os valores de liberdade, tolerância e caridade mútuas que são as conseqüências éticas deste fatos. Porém, infelizmente, o conhecimento exato e princípios sólidos não são suficientes. Uma verdade sem luz pode ser eclipsada por uma falsidade apaixonante. Um apelo hábil à paixão é, geralmente, demasiado forte contra as melhores das boas intenções. As conseqüências da propaganda falsa e perniciosa só podem ser bloqueadas por um treino sólido no mister de analisar as suas técnicas e de enxergar claramente através dos seus sofismas. A linguagem tornou possível o progresso do homem da selvageria à civilização. Contudo a linguagem inspirou, também, essa loucura perseverante e essa maldade sistemática, essa maldade verdadeiramente diabólica que não são menos distinções do comportamento humano do que as virtudes do pensamento metodicamente previdente e da contínua benevolência angélica inspiradas pela palavra. Àqueles que a usam, a palavra permitelhes que prestem atenção às coisas, às pessoas e aos acontecimentos, quando as coisas e as pessoas estão ausentes e os acontecimentos estão por se realizar. A linguagem dá clareza e nitidez às nossas recordações e, traduzindo as experiências em símbolos, converte a fugacidade imediata do desejo ou do horror, do amor ou do ódio, em princípios duradouros do sentimento e da conduta, de maneira que não tendo nós consciência, o sistema reticular do cérebro seleciona, de uma quantidade inumerável de estímulos, aquelas parcas experiências que são de importância prática para nós. Destas experiências selecionadas a esmo, separamos e abstraímos mais ou menos conscientemente um relativo número, que catalogamos com palavras do nosso vocabulário e classificamos, então, num sistema ao mesmo tempo metafísico, científico e ético, construído por outras palavras do mais elevado nível de alheamento. Nos casos em que a seleção e alheamento não foram inspirados por um método que não é demasiado errôneo como ponto de vista sobre a natureza das coisas, e onde os rótulos verbais foram inteligentemente selecionados e a sua natureza aparente claramente compreendida, o nosso comportamento será capaz de ser realista e toleravelmente decente. Porém, sob a influência de palavras mal selecionadas, mal aplicadas, sem qualquer compreensão do seu caráter meramente simbólico, que foram separadas e abstraídas à luz de um sistema de idéias errôneas, somos capazes de nos comportar com uma perversidade e uma estupidez organizadas, de que os animais mudos (precisamente porque são mudos e não conseguem falar) são, felizmente, inaptos. Na sua propaganda anti-racional, os adversários da liberdade corrompem automaticamente os recursos de linguagem com a finalidade de, através da badalação ou do pavor, levarem as suas vítimas a pensar, sentir e agir como eles, os manipuladores dos espíritos, querem que elas pensem, sintam e ajam. Uma educação para a liberdade (e para o amor e para a inteligência que são, ao mesmo tempo, as condições e as conseqüências da liberdade), deve ser, entre outras coisas, uma educação do emprego correto da linguagem. No transcorrer das duas últimas ou três gerações, os filósofos dedicaram grande parte do tempo e do pensamento para a análise de símbolos e para o significado do significado. Como se referem as palavras e as frases que pronunciamos com as coisas, pessoas e fatos com os quais estamos em contato na nossa vida diária? A discussão deste problema tomar-nos-ia bastante tempo e levar-nos-ia demasiado longe. Basta assinalar que todos os instrumentos intelectuais necessários para nos instruírmos bastante no emprego exato da linguagem – a todos os níveis educativos, desde o jardim de infância até os cursos para pós-graduados – estão atualmente à nossa disposição. Uma tal educação na arte de distinguir entre a aplicação carreta e o uso incorreto dos símbolos pode ser de imediato inaugurada. Na verdade, poderia ter sido inaugurada em qualquer ocasião, durante os últimos trinta ou quarenta anos. E todavia, em nenhuma parte se ensina às crianças um meio sistemático de distinção entre afirmações inverídicas, verdadeiras, com sentido ou sem sentido. Por que sucede isto? Porque os mais idosos, mesmo nos países democráticos, não desejam que elas sejam educadas desta maneira. Neste contexto, a resumida triste história do Institute for Propagand Analpsis é bastante significativa. O instituto foi fundado em 1937, quando a propaganda nazista fazia o seu mais intenso ruído e a sua maior eficácia, pelo sr. Filene, filantropo da Nova Inglaterra. Sob os seu auspícios elaborava-se uma análise da propaganda não-racional e eram preparados vários textos para educação dos estudantes dos liceus e das universidades. Surgiu então a guerra – uma guerra ampla em todas as frentes, na frente intelectual não menos do que na frente física. Com todos os Governos Aliados envolvidos na “guerra psicológica” insistir-se sobre a necessidade ou não de analisar a propaganda pareceu um pouco destituída de tato. O Instituto foi fechado em 1941. Porém, mesmo antes de terem início as hostilidades, havia muita gente para quem as suas atividades eram inteiramente capazes de objeção. Certos educadores, por exemplo, não adotavam o ensino da análise da propaganda com a desculpa de que isso tornaria os adolescentes indevidamente cínicos. Também não era bem recebida pelas autoridades militares, que tinham receio de que os soldados pudessem começar a analisar as palavras dos sargentos instrutores. E havia ainda os eclesiásticos e os especialistas de publicidade. Os eclesiásticos eram contrários à análise da propaganda porque ela tendia a solapar a fé e a diminuir a freqüência às igrejas; os especialistas de publicidade faziam objeções à análise da propaganda com o argumento de que ela podia minar a fidelidade à marca e a reduzir as vendas. Estes receios e repugnâncias não são infundados. Um exame demasiado crítico, efetuado por muitos homens médios, do que é dito pelos seus pastores e superiores pode revelar-se profundamente subversivo. Na sua forma atual a ordem social depende, para continuar a sobreviver, da aceitação, sem demasia de problemas embaraçantes, da propaganda posta a circular pelas autoridades e da propaganda consagrada pelas tradições locais. O problema, mais uma vez, é encontrar o meio-termo. Os indivíduos devem ser suficientemente sugestionáveis para querer e poder assegurar o funcionamento da sua sociedade, mas não em demasia, para evitar que caiam, desamparados, sob o império dos manipuladores de cérebro profissionais. Da mesma forma devem ser suficientemente informados da análise da propaganda para que se livrem de crer a esmo no puro sem sentido, mas não demasiado, para que não recusem em massa as efusões nem sempre racionais dos guardiães bem intencionados da tradição. Talvez o meio-termo entre a crença e o ceticismo total jamais possa ser descoberto e apoiado apenas pela análise. Esta aproximação um tanto negativa do problema deverá ser suplementarizada por algo mais positivo – a exposição de um conjunto de valores geralmente aceitos – fundado sobre uma sólida base de fatos constatados. O primordial será a liberdade individual, alicerçada nos fatos da diversidade humana e na unicidade genética; o valor da caridade e da compaixão, fundada no velho fato familiar, recentemente redescoberto pela psiquiatria moderna – o fato de que, seja qual for a sua diversidade física ou mental – o amor é tão imprescindível aos seres humanos como o alimento e o abrigo; e, por fim, o valor da inteligência, sem o qual a amor é impotente e a liberdade inacessível. Este conjunto de valores fornecer-nos-á um critério segundo o qual a propaganda poderá ser analisada. Aquela que for reconhecida ao mesmo tempo como absurda e imoral poderá ser abolida de imediato. A que for simplesmente irracional, porém conciliável com o amor e com a liberdade, e não por princípio aposta ao exercício da inteligência, poderá ser aceita de início pelo que vale. .:: 12. Que podemos fazer? ::. Podemos ser doutrinados para a liberdade – muito melhor doutrinados para a liberdade do que o somos atualmente. Mas a liberdade, como tentei demonstrar, está ameaçada de tomar muitas direções, e estas ameaças são de muitos tipos diferentes – demográficos, sociais, políticos e psicológicos. A nossa doença tem uma multiplicidade de causas que cooperam e só pode ser sanada por uma multiplicidade de remédios também cooperantes. Para tentar resolver qualquer situação humana complicada, devemos ter em mente todos os fatores relevantes, não apenas um só fator. Mesmo que isso seja tudo, é realmente suficiente. A liberdade está ameaçada, e a educação para a liberdade torna-se necessária, urgentemente. Porém, nessa mesma situação, achamse muitas outras coisas – por exemplo, a organização social para a liberdade, a limitação dos nascimentos para a liberdade, a legislação para a liberdade. Iniciemos por este último ponto. Desde a época da Magna Carta, e mesmo antes, os legistas anglo-saxônicos cuidaram-se da proteção da liberdade física do indivíduo. Uma pessoa presa por duvidosa legalidade tem o direito de apelar para uma das altas instâncias jurídicas a fim de obter uma ordem de habeas-corpus, nos termos da Common Lav precisados pelo estatuto de 1679. O documento de apelação é remetido por um juiz do tribunal ao chefe da polícia, ou ao diretor da prisão, e ordena-lhe que faça comparecer ao tribunal, nos prazos ordenados, a pessoa que mantém sob custódia, a fim de que o seu caso seja examinado – que traga, note-se, não a queixa por escrito da pessoa, não os seus representantes legais, mas o seu corpus, o seu corpo, a carne demasiado carnal que foi forçada a dormir numa tarimba, a respirar uma atmosfera pútrida e a ingerir a alimentação condenável da cadeia. Esta preocupação com a condição básica da liberdade – a falta de constrangimento físico – é, sem discussão, necessária, porém não é tudo o que é indispensável. É perfeitamente natural que um homem esteja longe da prisão sem estar livre, que não se ache sob qualquer constrangimento físico e esteja, todavia, preso do ponto de vista psicológico, forçado a raciocinar, a sentir e a agir como os representantes do Estado ou de qualquer interesse privado dentro da nação, querem que ele raciocine, sinta e proceda. Jamais haverá tal coisa como o habeas-mentem; porque nenhum juiz ou carcereiro pode levar a um tribunal um espírito preso ilegalmente, e nenhuma pessoa cujo espírito tenha sido tornado cativo pelos meios traçados nos capítulos precedentes estaria em condições para se lamuriar do seu cativeiro. A natureza do manuseamento psicológico é tal que os que agem sob constrangimento conservam-se sob a impressão de que estão agindo por sua própria iniciativa. A vítima da manipulação do espírito ignora que é vítima. Para ela, são invisíveis os muros da prisão, e julga-se a si própria livre. Que não esteja livre é visível apenas para as outras pessoas. A sua servidão é estritamente objetiva. Não torno a dizer, não pode haver coisa semelhante como o direito ao habeas-mentem. Mas pode haver uma legislação preventiva – uma proibição do tráfico da escravidão psicológica, um estatuto para a salvaguarda de espíritos contra os provisores sem escrúpulos da propaganda venenosa, modelado pelos estatutos para a salvaguarda de corpos contra os vendedores sem escrúpulos de alimentos impróprios para consumo e de drogas perniciosas. Exemplificando, poderia haver, e, julgo, deveria haver uma legislação que reduzisse o direito das autoridades públicas, civis ou militares, a sujeitarem as assistências forçadas, sob as suas ordens, ou sob a sua responsabilidade, ao ensino durante o sono. Poderia haver, e julgo que deveria haver, uma legislação que coibisse o uso da sugestão subliminal em locais públicos ou em programas de televisão. Poderia haver, e penso que deveria haver, uma legislação que coibisse os candidatos políticos não só a disporem mais do que relativa importância nas campanhas eleitorais, mas também que os proibisse de usar aquela espécie de propaganda anti-racional que torna numa pantomima todo o processo democrático. Uma legislação preventiva desse tipo pode gerar algum bem; mas se as grandes forças impessoais que ameaçam, no momento, a liberdade, continuarem a ganhar terreno, tal legislação não poderá ser benéfica durante muito tempo. A melhor das constituições e das leis previdentes não terá qualquer poder contra a pressão sempre crescente da superpopulação e de um excesso de organização imposto pelo número sempre crescente dos seres humanos pelo desenvolvimento da técnica. As constituições não serão abrogadas e as boas leis continuarão nos códigos; porém estas formas liberais servirão apenas para dissimular e adornar uma substância profundamente não-liberal. Não subjugado o excesso de população e o excesso de organização, podemos prever, em países democráticos, uma inversão do método que transformou a Inglaterra numa democracia, ao mesmo tempo em que mantinha todas as formas aparentes de monarquia. Sob a pressão desumana de uma superpopulação crescente e de uma crescente superorganização, e através de recursos cada vez mais eficazes de manipulação do espírito, as democracias transformarão a sua natureza; as velhas formas pitorescas – eleições, parlamentos, Supremos Tribunis e tudo o mais – subsistirão. A substância subjacente será um novo tipo de totalitarismo não-violento. Todos os nomes tradicionais, todos os dísticos consagrados permanecerão tal e qual como nos velhos tempos; a democracia e a liberdade serão os argumentos de todas as emissões radiodifundidas e de todos os artigos de fundo – porém tratar-se-á de uma democracia, de uma liberdade num sentido absolutamente pickwickiano. Entretanto, a oligarquia dirigente e a sua altamente treinada “elite” de soldados, policiais, forjadores de pensamento e manipuladores de cérebros conduzirão tranqüilamente o espetáculo como lhes apetecer. Como podemos controlar as grandes forças impessoais que agora ameaçam as nossas liberdades conquistadas com tanto sacrifício? No plano verbal e geral das questões, pode-se responder à pergunta com grande facilidade. Analisemos o problema da superpopulação. A quantidade sempre crescente de seres humanos pesa cada vez mais sobre os recursos naturais. O que fazer? Evidentemente, devemos, com toda a rapidez possível, aumentar a produção de alimentos, instituir e pôr em ação um plano mundial para a preservação dos solos e das florestas, desenvolver a produção de substâncias que substituam os combustíveis, de preferência os menos perigosos e que se esgotem com menos rapidez do que o urânio, e, poupando sempre os recursos em minerais facilmente acessíveis, que diminuem, devemos pôr em execução novos e não muito dispendiosos meios a fim de extrairmos estas substâncias dos minerais cada vez mais pobres – sendo a água do mar o mais pobre de todos. Mas quase não vale a pena dizer que tudo isto é mais fácil de escrever do que fazer. É necessário reduzir o excedente anual dos nascimentos. Como? Devemos escolher entre a fome, as epidemias e a guerra, de um lado, e o maltusianismo de outro lado. A maioria das pessoas optará por esta última solução – e encontramo-nos imediatamente frente a frente a um problema que é, ao mesmo tempo, um puzzle fisiológico, médico, sociológico, psicológico e mesmo teológico. “A Pílula” ainda não está aperfeiçoada. Quando, e se chegar a ser aperfeiçoada, como distribuí-la aos muitos milhões de mães em potência (ou, se for uma pílula que aja sobre o macho, pais em potência) que terão de ingeri-la se a natalidade da espécie tiver de ser limitada? E, em virtude dos costumes sociais existentes, as forças culturais e a inércia psicológica, como podem as pessoas que devem tomar a pílula, mas não querem tomá-la, ser persuadidas a modificarem o seu parecer? E que fazer contra as objeções estabelecidas pela Igreja Católica a qualquer forma de controle da natalidade a não ser pelo chamado Método rítmico – método que, diga-se de passagem, constatou-se até então ser quase totalmente ineficaz na limitação da taxa de natalidade nas sociedades de economia subdesenvolvida onde a limitação dos nascimentos seria mais necessária? Essas mesmas questões que devem ser propostas sobre a “pílula” supostamente perfeita, surgem, com tão pequena hipótese de lhes darmos respostas convincentes, a propósito dos meios mecânicos e químicos já utilizáveis. Quando passamos dos problemas do controle da natalidade aos problemas do aumento das quantidades de gêneros alimentícios disponíveis e à conservação dos recursos naturais, vemo-nos frente a dificuldades não talvez tão grandes, mas ainda insuperáveis. Há, acima de tudo, o problema da educação. Como podem ser rapidamente educados na aperfeiçoamento dos seus métodos os incontáveis camponeses e lavradores agora responsáveis pela colheita da maior parte da produção mundial de alimentos? E quando educados, se o forem, onde encontrarão eles o capital que lhes permita equiparem-se com as máquinas, os combustíveis e os lubrificantes, a energia elétrica, os adubos e as espécies selecionadas das sementes produtoras de víveres, e os animais domésticos, sem o que a sua melhor formação agrícola não tem utilidade? Semelhantemente, quem vai inculcar à raça humana os princípios e processos práticos de conservação? Como poderemos impedir os cidadãos-camponeses esfomeados, de uma nação cuja população e as necessidades essenciais crescem celeremente, de fazerem uso do solo? E se o conseguirmos, quem pagará a alimentação deles enquanto a terra, cansada, for paulatinamente dotada, se possível, de vigor e fertilidade? Consideremos, outrossim, as sociedades desenvolvidas que tentam atualmente a industrialização. Se o conseguirem, quem as tolherá, nos seus esforços desesperados por alcançarem o nível das outras e de se manterem nele, de consumirem os recursos insubstituíveis do planeta, tão estupidamente e em pura perda como os seus precursores fizeram, e ainda o fazem, na sua evolução? E quando surgir o dia de regular as coisas, onde encontraremos, nos países mais pobres, os técnicos e os gigantescos capitais que serão necessários para extrair dos minerais de fraca concentração, os metais imprescindíveis, nas contingências atuais, para que esse trabalho seja viável sob o ponto de vista técnico, ou justificável sob o ponto de vista econômico? Pode suceder que, com o tempo, encontre-se uma resposta prática para todas estas questões. Porém, dentro de quanto tempo? Em uma corrida, seja ela qual for, entre a quantidade das massas humanas e os recursos naturais, o tempo trabalha contra nós. No final do presente século, haverá, se empregarmos ingentes esforços, aproximadamente duas vezes mais produtos alimentícios, nos mercados mundiais, do que hoje; contudo haverá, também, duas vezes mais seres humanos, e vários biliões deles viverão em países pouco industrializados onde consumirão dez vezes mais energia, água, madeira e minerais insubstituíveis do que os seus pais consomem hoje. Em resumo, a situação alimentar será tão péssima como é agora, e a das matérias-primas ficará consideravelmente agravada. Encontrar uma solução para o problema da superorganização é pouco menos difícil do que encontrá-la para o problema da desigualdade dos recursos naturais e do número crescente de seres humanos. No plano verbal e em termos genéricos, a resposta é perfeitamente simples. Assim, é um provérbio político que o poder acompanha a propriedade. Contudo, atualmente é um fato histórico que os meios de produção tornam-se depressa propriedade monopolística do Alto Negócio e do Grande Governo. Portanto, se acreditais na democracia, adotai medidas que permitam distribuir a propriedade tão amplamente quanto possível. Ora, consideremos o direita ao voto. De início, é um grande privilégio. Na prática, como a história contemporânea tem provado reiteradamente, o direito ao voto, por si mesmo, não é garantia de liberdade. Portanto, se quereis evitar a ditadura por plebiscito, dividi as enormes coletividades, semelhantes a maquinismos, da sociedade moderna, em grupos independentes que cooperem voluntariamente, capazes de funcionarem independentes dos sistemas burocráticos do Alto Negócio e do Grande Governo. A superpopulação e a superorganização fizeram a metrópole moderna, na qual uma vida totalmente humana de múltiplas relações pessoais quase se tornou impossível. Portanto, se desejais evitar o empobrecimento espiritual dos seres humanos e de sociedades inteiras, deixai a metrópole e fazei ressurgir a pequena comunidade rural, ou então humanizai a metrópole, criando no interior da rede da sua organização mecânica, os equivalentes urbanos das pequenas comunidades rurais onde os indivíduos podem encontrar-se e cooperar como pessoas, não como meras encarnações de atribuições especializadas. Tudo isto é evidente hoje, como de fato, o era há cinqüenta anos. Desde Hilaire Belloc a Mortimer Adler, desde os primeiros apóstolos das uniões cooperativas de crédito até os reformadores agrários da Itália e do Japão modernos, homens de boa vontade defenderam, durante gerações, a descentralização do poder econômico e a distribuição mais ampla da riqueza. E quantos sistemas argutos foram propostos para a dispersão da produção, para um retorno à “indústria aldeã” em pequena escala. E depois, surgiram os estudos bastante aprofundados de Dubreuil, com o objetivo de oferecer uma relativa medida de autonomia e de iniciativa aos diversos serviços de uma grande organização industrial. Apareceram os sindicalistas com os seus projetos, para uma sociedade sem Estado, organizada como uma federação de grupos produtores, sob os augúrios das associações profissionais. Na América, Arthur Morgan e Baker Brownell formularam a teoria, e descreveram a prática, de um novo tipo de comunidade, vivendo à semelhança da aldeia e da pequena cidade. O Prof. Skinner, de Harvard, apresentou o ponto de vista do psicólogo sobre este problema no seu Walden T»o, romance de ficção que apresenta uma comunidade organizada de maneira de tal modo científico que ninguém jamais é induzido na tentação antisocial e, sem os meios de coação ou de propaganda indesejável, cada pessoa cumpre o seu dever, e todas são felizes e inventivas. Na França, durante e após a Segunda Guerra Mundial, Marecl Barbu, e os seus adeptos, organizaram um certo número de grupos de produção autônomos, sem hierarquia, e que eram ao mesmo tempo sociedades de socorros mútuos e centros de vida realmente humana. Contudo, em Londres, a experiência de Pechkam comprovava que é possível, coordenando os serviços de saúde com os interesses mais amplos do grupo, formar uma verdadeira comunidade, mesmo numa metrópole. Vemos, pois, que a doença da superorganização foi claramente reconhecida, que algumas medidas de penetração foram tomadas, e que a terapêutica experimental dos sintomas foi tentado aqui e ali, por vezes com bastante êxito. E, contudo, a despeito de toda esta pregação e desta prática exemplificativa, o mal se expande com rapidez. Sabemos que é perigoso consentir que o poder se concentre nas mãos de uma oligarquia dirigente; contudo, o poder está realmente sendo concentrado em um número cada vez menor de mãos. Sabemos que, para a maioria das pessoas, a vida numa metrópole moderna é anônima, atômica, abaixo da condição humana, e, contudo, as cidades crescem cada vez mais e o sistema de vida urbano-industrial permanece o mesmo. Sabemos que numa sociedade vasta e complexa, a democracia não tem qualquer sentido senão em função de grupos autônomos de dimensões manejáveis – e todavia, uma parte cada vez mais importante dos negócios de um país é gerido pelos burocratas dos Grandes Governos e do Alto Negócio. Em todos estes casos, sabemos o que seria preciso fazer, mas em nenhum deles fomos capazes de agir com eficiência em função do que sabemos. Neste ponto encontramo-nos frente a uma pergunta atribuladora : Desejamos realmente agir segundo o que sabemos? Considerará a maioria da população que vale a pena fazer esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos adolescentes abaixo dos vinte anos, os eleitores do futuro, não acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagem na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo a que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos, e invejamos os seres alados devido ao seu poder de movimento ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos : “Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos”. E quando Alyosha Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde : “Absolutamente! Ele reivindica como um louvor para si próprio e para a sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito para tornarem os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do que a liberdade.” Nada, exceto a ausência de liberdade, porque quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para lutar pela liberdade. O grito de “Dêem-me televisão e cachorrosquentes, mas não me assombrem com as responsabilidades da liberdade”, pode ceder lugar, sob uma, modificação das circunstâncias, ao grito de “Dêem-me a liberdade ou a morte.” Se tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito pouco domínio, em parte devido à falta de competência destes dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão pobremente se encontravam preparados, os Grandes Inquisidores do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor. O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os homens à liberdade e diz-lhe : “Corrigimos a tua obra e estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade.” Mas o milagre, o mistério e a autoridade não são o necessário para garantir a sobrevivência duradoura de uma ditadura. No Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres – transformando a fé em conhecimento extasiado. Os ditadores antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa. Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a palmatória de um ditador científico, a educação produzirá realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia derrubada. Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever fazer tudo o que pudermos para resistir-lhes. |
posted by iSygrun Woelundr @ 1:39 PM   |
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