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livro on line: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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    quinta-feira, abril 13, 2006
    REGRESSO AO
    ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
    ALDOUS HUXLEY


    Tradução de Eduardo Nunes Fonseca
    Sobre o Autor:
    Escritor inglês. Escreveu novelas, sátiras, ensaios, biografias, dramas, versos e
    romances. Espírito céptico mas brilhante, celebrizou-se sobretudo com o romance
    de antecipação Admirável Mundo Novo (1932), em que faz uma sátira implacável à
    sociedade industrial contemporânea.
    Sobre a digitalização desta obra:
    Se os livros tivessem preços acessíveis, todos poderiam comprá-los. A digitalização
    desta obra é um protesto contra a exclusão cultural, e por conseqüência social,
    causada pelos preços abusivos dos livros editados e publicados no Brasil. Assim, é
    totalmente condenável a venda deste e-livro em qualquer circunstância. Distribua-o
    livremente.
    “Em homenagem a Guy Montag”
    .:: Índice ::.
    1. Superpopulação (05)
    2. Quantidade, Qualidade, Moralidade (16)
    3. Superorganização (19)
    4. A Propaganda Numa Sociedade Democrática (31)
    5. A Propaganda Sob Uma Ditadura (39)
    6. As Artes de Vender (47)
    7. Lavagem Cerebral (58)
    8. Persuasão Química (68)
    9. Persuasão Subconsciente (77)
    10. Hipnopédia (85)
    11. Educação Para a Liberdade (96)
    12. Que Podemos Fazer? (108)
    .:: Prefácio ::.
    A síntese do espírito de finura pode transformar-se na
    própria essência da não-verdade. Por mais elegante e resumida
    que seja, a brevidade nunca pode, pela natureza dos fatos, ter em
    conta todos os casos de uma atuação complexa. Ao cuidar-se um
    tema com essas características só se pode ser conciso à custa de
    omissões e simplificações. A omissão e a simplificação auxiliamnos
    a compreender, contudo auxiliam-nos, em muitos casos a
    compreender imperfeitamente; porque a nossa percepção pode
    ser só a percepção das noções nitidamente formuladas por quem
    resume, e não a da realidade vasta e ramificada, a partir da qual
    tais noções foram separadas de modo tão arbitrário.
    Porém a vida é curta e o conhecimento ilimitado: ninguém
    dispõe de tempo para tudo. Na realidade somos, de um modo
    geral, forçados a optar entre uma exposição impropriamente
    breve e a impossibilidade de expor. Sintetizar é um mal
    necessário, e a tarefa daquele que sintetiza é fazer da melhor
    maneira possível um trabalho que, embora essencialmente mau,
    ainda seja melhor do que nada. Deve aprender simplificar, mas
    sem chegar ao extremo de falsificar. Sem aprender a concentrarse
    sobre o imprescindível de uma conjuntura, mas sem
    desconhecer muitos aspectos marginais expressivos da realidade.
    Assim sendo, pode suceder que não esteja capacitado a dizer toda
    a verdade (porque toda a verdade em torno de quase todos os
    assuntos importantes é incompatível com a concisão), mas
    poderá dizer avultadamente mais do que as temerárias meiasverdades
    e quartas-partes da verdade que sempre foram a moeda
    corrente do pensamento.
    A questão da liberdade e dos seus inimigos é colossal, e o
    que escrevi certamente seja demasiado resumido para o tratar
    como merece: contudo atingi muitos aspectos do problema. Cala
    qual desses aspectos talvez tenha sido resumido em excesso na
    exposição; porém estes contínuos excessos de simplificação
    justapõem-se num quadro que, espero, oferta uma sugestão da
    imensidão e complexidade do original.
    Foram omitidos do quadro (não porque não sejam valiosos.
    porém tão somente por conveniência e porque os discuti em
    ocasiões anteriores) os inimigos mecânicos e militares da
    liberdade – as armas e os engenhos que fortaleceram em demasia
    as mãos dos condutores do mundo contra os seus súditos, e os
    preparativos ainda mais desgraçadamente caros para guerras ainda
    mais insanos e suicidas. Os capítulos que seguem devem ser lidos
    contra um pano de fundo de pensamentos sobre a revolta da
    Hungria e da sua repressão, sobre as bombas H, sobre o
    orçamento que cada nação reserva para a sua “defesa”, sobre as
    intermináveis colunas de rapazes uniformizados, que marcham
    obedientemente para a vala comum.
    .:: 1. Superpopulação ::.
    Em 1931, quando a Admirável Mundo Novo estava para ser
    escrito, achava-me convencido de que restava ainda muito tempo.
    A sociedade completamente organizada, o sistema científico das
    castas, a abolição da vontade livre através de um
    condicionamento comedido, a servidão que se tornara aceitável
    através de doses regulares de felicidade artificialmente
    transmitidas, as ortodoxias propagadas em cursos noturnos
    ministrados enquanto se dorme – estas coisas aproximavam-se
    tais eu as dizia, mas não chegariam no meu tempo, nem mesmo
    no tempo dos meus netos. Esqueci a data exata dos
    acontecimentos registrados no Admirável Mundo Novo;
    ocorreram, contudo. lá pelos séculos VI ou VII d. F. (depois de
    Ford). Nós, que vivíamos na segunda metade do século XX d. C.,
    éramos os habitantes de um universo na realidade horrível;
    porém, o pesadelo daqueles anos de depressão era totalmente
    diferente do pesadelo do futuro, descrito no Admirável Mundo
    Novo. O nosso era um pesadelo de absoluta falta de ordem; o
    deles, no século VII d. F., de ordem em excesso. No decurso de
    passagem de um ao outro extremo, haveria um longo intervalo,
    imaginava eu, durante o qual a terça parte mais afortunada da raça
    humana aproveitar-se-ia melhor de ambos os mundos – o mundo
    desordenado do liberalismo e o demasiado ordenado Admirável
    Mundo Novo, onde a eficácia perfeita não deixaria lugar para a
    liberdade ou para a iniciativa pessoal.
    Vinte e sete anos depois, no terceiro quartel do século XX
    d. C., e muito antes do fim do século I d. F., sinto-me muito
    menos otimista do que quando estava para escrever o Admirável
    Mundo Novo. As profecias feitas em 1931 estão para realizar-se
    muito mais depressa do que eu calculava. O abençoado espaço
    entre a excessiva falta de ordem e o pesadelo da ordem em
    excesso não surgiu e não apresenta sinais de começar. Verdade é
    que, no Ocidente, homens e mulheres gozam ainda de uma vasta
    medida de liberdade individual. Contudo, até nos países que têm
    uma tradição de governo democrático, esta liberdade, e até o
    desejo desta liberdade, parece achar-se em declínio. No resto do
    mundo a liberdade para os indivíduos já desapareceu, ou estão
    patentemente em vias de desaparecer. O pesadelo da organização
    total, que eu situara no século VII d. F., surgiu no futuro remoto,
    e desta forma tranqüilizante, e encontra-se agora aguardando por
    nós na primeira confluência da estrada.
    O 1984 de George Orwell constituía a projeção amplificada,
    no futuro, de um presente que continha o Estalinismo, e de um
    passado imediato que testemunhara o florescimento do Nazismo.
    O Admirável Mundo Novo foi escrito antes da ascensão de Hitler
    ao poder supremo na Alemanha e quando o tirano russa ainda
    não calculara a sua marcha. Em 1931, o terrorismo metódico
    ainda não era a causa obsessiva nossa contemporânea que se
    havia torna do em 1948, e a futura ditadura do meu mundo
    fictício era, em grande parte, menos brutal do que a futura
    ditadura tão brilhantemente descrita por Orwell. No argumento
    de 1948, 1984 parecia terrivelmente convincente. Porém, afinal de
    contas, os tiranos são mortais e as circunstâncias variam. A
    recente evolução na Rússia, e progressos recentes no campo da
    ciência e da tecnologia subtraíram do livro de Orwell boa parte da
    sua medonha verossimilhança. Uma guerra nuclear subtrairia
    certamente todo o sentido das predições de qualquer pessoa. Mas,
    afirmando neste momento que as Grandes Potências podem
    abster-se por algum tempo de nos destruir, justo é dizer-se que
    tudo se apresenta, no momento. como se todas as vantagens
    pareçam mais a favor de algo como o Admirável Mundo Novo
    do que de algo como 1984.
    Ã luz do que verificamos recentemente sobre o comportamento
    do animal, em geral, e sobre o comportamento humano, em
    especial, torna-se claro que o controle do comportamento
    indesejável através do castigo é menos eficaz, afinal de contas, do
    que o controle através de reforço do comportamento desejável
    mediante recompensas, e que o governo, lançando mãos do
    terror funciona, no conjunto, pior do que o governo realizado
    pela condução não-violenta do ambiente, e dos pensamentos e
    sentimentos dos homens, das mulheres e das crianças, como
    indivíduos. A punição sustém temporariamente o
    comportamento indesejável, porém não elimina definitivamente a
    tendência da vítima em sentir-se bem ao agir desse modo. Além
    disso, as conseqüências psicofísicas do castigo podem ser
    justamente tão indesejáveis como as causas pelas quais um
    indivíduo foi castigado. A psicoterapia consagra-se largamente às
    conseqüências debilitantes ou antisociais das sanções sofridas no
    passado.
    A sociedade descrita no 1984 é uma sociedade controlada
    quase exclusivamente pelo castigo e pelo receio do castigo. No
    mundo fictício da minha própria imaginação, o castigo não é
    freqüente e é, de um modo geral, brando. O controle quase
    perfeito exercido pelo governo é executado pelo reforço
    metódico de comportamento desejável, por inúmeras variações
    de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica,
    e pela estandardização genética. As crianças geradas em
    laboratórios e o controle centralizado da reprodução não são
    talvez improváveis; mas é perfeitamente claro que, por muito
    tempo ainda, continuaremos a ser uma espécie vivípara que se
    procria ao acaso. A estandardização genética com fins práticos
    pode ser deixada de lado. Continuará a haver nas sociedades o
    controle pós-natal – pela repressão, como no passado, e, em
    extensão cada vez maior, pelos métodos mas eficientes da
    recompensa e da manipulação científica.
    Na Rússia, a ditadura fora de moda, estilo 1984, de Stalin,
    começou a ceder lugar a uma forma mais atualizada de tirania.
    Nas camadas superiores da hierarquia social dos Sovietes, o
    reforço do comportamento desejável principiou a substituir os
    métodos mais antigos de controle mediante a punição do
    comportamento indesejável. Os engenheiros e cientistas, os
    professores e os funcionários são liberalmente pagos pelo
    trabalho bem feito, e tão comedidamente coletados que se acham
    sob um incentivo permanente para fazerem melhor e serem,
    dessa forma, mais recompensados. Em alguns setores cabe-lhes a
    liberdade de pensar e de fazerem, mais ou menos, o que desejam.
    O castigo só os aguarda quando ultrapassam os limites regulados
    no campo da ideologia e da política. Pelo fato de ter sido
    garantida uma relativa dose de liberdade profissional é que os
    professores, cientistas e técnicos russos levaram a cabo
    realizações tão notáveis. Os que vivem junto à base da pirâmide
    soviética não usufruem de nenhum dos privilégios outorgados
    aos afortunados ou à minoria especialmente dotada. Os seus
    salários são irrisórios e pagam, sob a aparência de preços altos,
    um imposto disparatadamente grande. A área em que podem
    fazer o que desejam é bastante restrita, e os seus dirigentes
    subjugam-nos mais pelo castigo e pela ameaça de castigo do que
    pela condução não-violenta ou pelo reforço do comportamento
    desejável através da recompensa. O sistema soviético coordena
    elementos de 1984 com elementos que vaticinam o que se
    passava entre as castas mais elevadas no Admirável Mundo
    Novo.
    Contudo, forças impessoais as quais quase não podemos
    controlar parecem estar a empurrar-nos a todos em direção ao
    pesadelo descrito no Admirável Mundo Novo; e este impulso
    impessoal está sendo cuidadosamente acelerado por
    representantes de organizações comerciais e políticas que
    desenvolveram um número avultado de notas técnicas de
    manipulação, em prol dos interesses de uma minoria, dos
    pensamentos e sentimentos das massas. As técnicas de
    manipulação serão analisadas em capítulos posteriores. Por ora,
    limitemos a nossa atenção àquelas forças impessoais que estão,
    atualmente, tornando o mundo bastante inseguro para a
    democracia, e rude para a liberdade individual. Quais são estas
    forças? E por que conseguiu velozmente um avanço em nossa
    direção o pesadelo que eu havia ideado para o século VII d. F.? A
    resposta a estas perguntas pode iniciar-se onde a vida de todas as
    sociedades, até das mais altamente civilizadas, teve os seus
    primórdios – no plano da biologia.
    No primeiro Dia de Natal, a população do nosso planeta
    contava perto de duzentos e cinqüenta milhões de seres humanos
    – menos da metade da população da China atual. Dezesseis
    séculos após, quando os peregrinos desembarcaram em Plymouth
    Rock, o número de seres humanos subiu para um pouco além de
    quinhentos milhões. Por ocasião da assinatura da Declaração da
    Independência, a população terrestre ultrapassara a cifra de
    setecentos milhões. Em 1931, quando estava escrevendo o
    Admirável Mundo Novo, apresentava um número próximo aos
    dois biliões. Hoje, apenas vinte e sete anos após, há dois biliões e
    oitocentos milhões de seres. E amanhã – quantos? Penicilina,
    DDT e água pura são produtos baratos, cujos efeitos sobre a
    saúde públi.ca não condizem com a proporção do seu custo. Até
    um governo paupérrimo tem recursos para prover os seus súditos
    com os meios fundamentais de controle da mortalidade. O
    controle da natalidade é um outro assunto bem diferente. O
    controle da mortalidade é algo que pode ser oferecido a todo um
    povo por técnicos que trabalham a soldo de um governo
    benévolo. O controle da natalidade exige a cooperação de todo
    um povo. Pode ser praticado por grande número de indivíduos,
    dos quais exige mais inteligência e força de vontade do que
    possuem a maioria dos analfabetos que pululam pelo mundo, e
    (onde são usados métodos químicos ou mecânicos
    anticoncepcionais) um dispêndio maior de capital do que podem
    suportar muitos destes milhares de seres. Outrossim, não existem
    mais em parte alguma, quaisquer tradições religiosas que pugnem
    a favor da morte ilimitada, ao passo que as tradições religiosas e
    sociais a favor da reprodução ilimitada estão largamente
    espalhadas. Por todos estes motivos, o controle da mortalidade é
    executado com muita facilidade, o controle da natalidade é
    efetuado com grande dificuldade. As taxas de mortalidade caíram,
    portanto, nos anos mais recentes, com rapidez assustadora.
    Porém as taxas de natalidade, ou permaneceram no seu antigo
    alto nível ou, se caíram, foi muito pouco e muito lentamente.
    Consequentemente, o número de seres humanos está
    aumentando atualmente com mais rapidez do que em qualquer
    outra época da história da espécie.
    Outrossim, o crescimento anual está subindo também.
    Aumentam regularmente, conforme as regras das proporções
    compostas; e crescem também, irregularmente, com cada
    emprego dos princípios da Saúde Pública numa sociedade
    tecnologicamente atrasada. Presentemente, o crescimento anual
    da população mundial aproxima-se de aproximadamente quarenta
    e três milhões. Isto indica que, de quatro em quatro anos, a
    humanidade acrescenta ao seu total o equivalente à população
    atual dos Estados Unidos, e, de oito anos e meio em oito anos e
    meio, o equivalente à população da Índia, atualmente. No ritmo
    de crescimento que predominou entre o nascimento de Cristo e a
    morte da rainha Isabel I, foram precisos dezesseis séculos a fim
    de que a população da terra duplicasse. No ritmo atual, a
    população mundial duplicará em menos de meio século. E esta
    duplicação incrivelmente rápida do número de seres humanos
    ocorrerá num planeta cujas áreas mais férteis e produtivas já estão
    densamente povoadas, cujos solos estão sendo desgastados pelos
    esforços loucos de maus agricultores, com o objetivo de obterem
    mais alimento, e cujo capital de minerais facilmente utilizáveis
    está sendo dissipado à semelhança de um marinheiro embriagado
    que se priva rapidamente dos vencimentos que acumulou.
    No Admirável Mundo Novo da minha fantasia, a questão do
    número de seres humanos na sua relação com os recursos
    naturais foi realmente resolvido. Foi calculado um número ideal
    para a população terrestre e a totalidade da população seria
    mantida neste nível (um pouco abaixo de dois biliões, se bem me
    lembro), geração após geração. No mundo contemporâneo, a
    questão da população não foi solucionada. Bem ao contrário, o
    problema está se tornando mais grave e mais tremendo a cada
    ano que passa. É contra este sinistro pano de fundo biológico que
    se desenvolvem todos os dramas políticos, econômicos, culturais
    e psicológicos de nossa época. A medida que o século XX se
    aproxima de seu final, e os novos biliões são acrescidos aos
    biliões existentes (quando minha neta tiver cinqüenta anos, o
    número total de seres humanos ultrapassará os cinco biliões e
    meio), este pano de fundo biológico avança, sempre com mais
    insistência, sempre mais ameaçador, para a vanguarda e para o
    centro do palco histórico. O problema da relação entre o número
    total de seres humanos, que aumenta rapidamente, e os recursos
    naturais, a estabilidade social, e o bem-estar dos indivíduos – é
    agora o problema crucial da humanidade; e continuará a sê-lo,
    com certeza, durante mais um século e, talvez durante ainda
    vários séculos. Supôsse que uma nova época teve início a 4 de
    outubro de 1957. Mas na verdade, no presente contexto, toda a
    nossa exuberante tagarelice pós-Sputnik é imperdoável e
    destituída de sentido. No que tange às massas de humanidade, a
    época que se aproxima não será a Idade do Espaço; será a Idade
    Superpopulação. Podemos parodiar os termos da velha canção e
    perguntar :
    O espaço de que sois tão ricos
    acenderá um fogo na cozinha,
    ou o pequeno deus do espaço volta o espeto,
    [o espeto, o espeto?
    A resposta, é lógico, é negativa. Um desembarque na Lua
    poderá ser de alguma utilidade militar para a nação que o
    conseguir. Mas em nada contribuirá para tornar a vida mais
    tolerável, durante os cinqüenta anos que vamos despender na
    nossa duplicação, para os biliões de subalimentados que pululam
    na terra. E mesmo se, em época posterior, a emigração para
    Marte se tornar viável, mesmo que um número considerável de
    homens e de mulheres estivessem suficientemente desesperados
    para escolher uma nova vida em condições semelhantes às que
    prevalecem numa montanha duas vezes mais elevada do que o
    Monte Evereste, que diferença faria? No transcorrer dos últimos
    quatro séculos um grande número de pessoas velejou do Velho
    para o Novo Mundo. Mas, nem a sua partida, nem o fluxo, em
    sentido contrário, de matérias-primas e alimentares, solucionaram
    os problemas do Velho Mundo. Da mesma forma, envio de
    alguns seres humanos em excesso para Marte (com um custo,
    para transporte e instalação, de vários milhões de cruzeiros por
    cabeça) em nada contribuiria para anular a explosão de uma
    população humana crescente do nosso próprio planeta. Não
    resolvido, este problema tornará insolúveis todos os outros
    nossos problemas. Pior ainda, acarretará condições tais que a
    liberdade individual e as vantagens sociais do sistema
    democrático de vida tornar-se-ão impossíveis, quase imaginárias.
    Nem todas as ditaduras surgem da mesma forma. Há muitos
    caminhos que vão dar ao Admirável Mundo Novo; mas, o mais
    curto e mais largo de todos eles talvez seja o caminho que
    seguimos agora, o caminho que atravessa por entre números
    imaginários de seres humanos e o seu aumento acelerado.
    Passemos em revista, por alto, as razões desta estreita correlação
    entre povo em excesso, entre povo que se multiplica
    rapidamente, e a formulação de filosofias autoritárias, o
    nascimento de sistemas totalitários de governo.
    Assim que o número elevado e crescente de seres humanos incide
    mais pesadamente nos recursos disponíveis, a posição econômica
    da sociedade que sofre esta pressão torna-se ainda mais difícil.
    Isto é verdadeiro em relação àquelas regiões subdesenvolvidas,
    onde uma queda súbita da mortalidade devido ao DDT, à
    penicilina e à água pura não foi seguida de uma descida
    correspondente da taxa de natalidade. Em certas regiões da Ásia,
    e na maior parte da América Central e do Sul, as populações estão
    crescendo de maneira tal que ver-se-ão duplicadas em pouco mais
    de vinte anos. Se a produção de alimentos e de produtos
    manufaturados, de casas, escolas e professores for aumentada em
    rapidez superior à do número de habitantes, será possível
    melhorar a sorte miserável dos que vivem nestas regiões
    subdesenvolvidas e superpovoadas. Mas, infelizmente, falta a
    estas regiões não apenas maquinaria agrícola e unidades
    industriais para fabricarem essa maquinaria, como também a
    verba requerida para montar tais fábricas. O capital é o que resta
    depois de terem sido atendidas as necessidades básicas de uma
    população. Porém as necessidades básicas de muitos desses seres
    que vivem em regiões subdesenvolvidas nunca serão totalmente
    satisfeitas. Quase nada resta ao final de cada ano e, portanto,
    quase não há verba disponível para criar os equipamentos
    industrial e agrícola, através dos quais as necessidades da
    população poderiam ser supridas. Apesar disso, em todos estes
    países subdesenvolvidos há uma enorme escassez de mão-deobra
    especializada, sem a qual não funcionam unidades agrícola
    ou industrial modernas. As atuais possibilidades educacionais são
    inadequadas; o mesmo pode-se dizer dos recursos financeiros e
    culturais, destinados a melhorar as situações vigentes nesses
    países com a rapidez que a situação exige. Contudo, a população
    de alguns desses países subdesenvolvidos está crescendo no ritmo
    de três por cento ao ano.
    A trágica condição de tais países foi debatida num
    importante livro, publicado em 1957 – The Next Hundred Years,
    dos professores Harrison Brown, James Bonner e John Weir do
    California Institute of Technology. Como é que a humanidade vai
    pugnar contra o problema do seu aumento sempre crescente?
    Não com muito sucesso. “A evidência sugere claramente que na
    maioria dos países subdesenvolvidos a sorte da média dos
    indivíduos decaiu a olhos vistos durante os últimos cinqüenta
    anos. O povo permaneceu pior alimentado. Há menos bens de
    consumo disponíveis por pessoa. E, praticamente, cada
    experiência feita no sentido de melhorar a condição tem sido
    invalidada pela pressão inexorável de um crescimento contínuo
    da população.”
    Sempre que a vida econômica de uma nação se torna
    deficitária, o governo central se vê forçado a assumir
    responsabilidades adicionais pelo bem-estar. Deve apresentar
    planos meticulosos que lhe dêem condições de enfrentar uma
    situação crítica; deve impor limitações ainda maiores às atividades
    dos governados; e se, como é admissível, o agravamento das
    condições econômicas gera intranqüilidade política, ou rebelião
    aberta, o governo central deve interferir a fim de salvaguardar a
    ordem pública e a sua própria autoridade. Assim, na direção do
    executivo e dos burocratas que o administram concentra-se cada
    vez mais poder. Mas é tal a ordem do poder que mesmo aqueles
    que o não procuraram, mas sobre quem o poder foi lançado,
    miram a adquirir gosto por ele. “Não nos deixes cair na
    tentação”, pedimos – e com bons motivos; porque quando os
    seres humanos são tentados, de maneira demasiado sedutora ou
    durante tempo demasiado, geralmente caem. Uma constituição
    democrática é um achado que impede aos chefes locais de caírem
    nessas tentações geralmente perigosas que se levantam quando
    excesso de poder está concentrado em poucas mãos. Tal
    constituição funciona muito bem onde, como na Inglaterra ou
    nos Estados Unidos, há um respeito tradicional pelos sistemas
    constitucionais. Onde a tradição republicana ou a tradição
    monárquica atenuada são fracas, a melhor das constituições não
    impedirá os políticos ambiciosos de se rejubilarem às tentações
    do poder. E em qualquer país onde o povo começou a exercer
    severa pressão sobre os recursos disponíveis, estas tentações não
    podem deixar de aparecer. A superpopulação encaminha à
    insegurança econômica e à intranqüilidade social. intranqüilidade
    e insegurança conduzem a maior controle por parte dos governos
    centrais e a um aumento de autoridade. Na ausência de uma
    tradição constitucional, este poder reforçado será talvez exercido
    de forma ditatorial. Ainda que o Comunismo não tivesse sido
    criado, isto provavelmente sucederia. Porém o Comunismo foi
    instituído. Assim sendo, a possibilidade da superpopulação
    conduzir, através da intranqüilidade, à ditadura, tornou-se uma
    certeza virtual. Pode-se apostar, sem receio que, daqui a vinte
    anos, todos os países subdesenvolvidos e superpovoados do
    mundo estarão sob uma forma de domínio totalitário –
    provavelmente exercido pelo Partido Comunista.
    Como é que esta evolução prejudicará os países europeus
    superpovoados, porém altamente industrializados e ainda
    democráticos? Se as ditaduras recentemente criadas lhes fossem
    adversas, e se o fluxo normal de matérias-primas provindas dos
    países subdesenvolvidos fosse propositadamente interrompido,
    os países do Ocidente achar-se-iam, eles próprios em um
    caminho na realidade muito mau. O seu sistema industrial ruiria,
    e a tecnologia altamente desenvolvida, que até então lhes permitiu
    sustentassem uma população muito além do que a que poderia
    ser mantida pelos recursos locais disponíveis, não mais as
    protegeria contra as conseqüências de terem excesso de
    população num território reduzido. Se isto sucedesse, os enormes
    poderes impostos aos governos centrais pelas condições adversas
    podem chegar a ser empregados segundo o espírito de ditadura
    totalitária.
    Os Estados Unidos não são, atualmente, um país superpovoado.
    Se, porém, a população continuar a crescer no ritmo atual (que é
    mais rápido do que o aumento do da Índia, se bem que uma boa
    parte, felizmente, menos rápida do que o ritmo agora corrente no
    México ou na Guatemala), o problema da ligação entre o número
    de seres humanos e os recursos disponíveis pode alterar-se desde
    o começo do século XXI. Atualmente, a superpopulação não
    oferece ameaça direta para a liberdade pessoal dos americanos.
    Continua, todavia, uma ameaça indireta, o esboço de uma
    ameaça. Se a superpopulação levar os países subdesenvolvidos ao
    totalitarismo, e se essas novas ditaduras se aliassem com a Rússia,
    então a posição militar dos Estados Unidos tornar-se-ia menos
    segura e o preparativos de defesa e represália teriam de ser
    intensificados. Mas a liberdade, como todos sabemos, não pode
    vicejar num país que está permanentemente em pé de guerra, ou
    mesmo próximo de uma guerra. As crises contínuas justificam o
    controle permanente de todo o povo e de todas as coisas pelos
    responsáveis do governo central. E a, crise contínua é o que
    esperamos num mundo onde a superpopulação está gerando um
    estado de coisas em que a ditadura, sob os agouros comunistas, se
    torna quase inevitável.
    .:: 2. Quantidade, Qualidade, Moralidade ::.
    No Admirável Mundo Novo da minha ficção, o eugenismo e
    o seu contrário eram metodicamente praticados. Numa série de
    frascos, óvulos biologicamente superiores, fertilizados por
    esperma biologicamente superior, recebiam o melhor tratamento
    pré-natal possível e eram finalmente purificados como Betas,
    Alfas e até Alfas Positivos. Em outra série de frascos, muito mais
    numerosa, óvulos biologicamente inferiores, fertilizados por
    esperma biologicamente inferior, foram sujeitos ao Processo
    Bokanovsky (noventa e seis gêmeos retirados de um só ovo) e
    tratados, pré-natalmente, com álcool e outros conteúdos
    proteínicos. As criaturas finalmente geradas eram quase
    subumanas; mas eram capazes de realizar trabalhos que não
    requeriam perícia e, quando adequadamente condicionadas,
    enfraquecidas por livres e freqüentes relações com o sexo oposto,
    constantemente distraídas pelo divertimento gratuito, e incitadas
    a cumprir os padrões do seu bom comportamento por doses
    diárias de Soma, podiam considerar-se como incapazes de causar
    qualquer preocupação aos seus superiores.
    Nesta segunda metade do século XX, nada realizamos com
    caráter metódico pela nossa procriação; porém, com a nossa
    maneira desordenada e irregular, estamos não somente a
    superpovoar o nosso planeta, como também, parece, agindo
    seguramente para que esta população, cada vez mais numerosa,
    seja da mais baixa qualidade biológica. Nos maus dias de
    antigamente, as crianças com defeitos hereditários consideráveis
    ou até leves, raramente sobreviviam. Hoje, graças à higiene, à
    farmacologia moderna e à consciência social, muitas das crianças
    nascidas com defeitos hereditários atingem a maturidade e
    multiplicam a sua espécie. Sob as condições atualmente em vigor,
    cada avanço na medicina terá tendências a ser superado por um
    avanço correspondente no ritmo de sobrevivência dos seres
    atingidos por qualquer insuficiência genética. Apesar das novas
    drogas milagreiras e dos melhores tratamentos (de fato, em certo
    sentido, precisamente devido a estas coisas), a saúde física da
    população, em geral, não apresentará qualquer melhoria; pelo
    contrário poderá até regredir. E a par com uma queda da saúde
    média bem pode surgir um declínio na inteligência média. Na
    verdade, algumas autoridades idôneas estão convencidas de que
    tal queda já ocorreu e está em progresso. “Sob condições que são
    fáceis e irregulares”, escreve o Dr. W. H. Sheldon, “as nossas
    camadas superiores tendem a ser subvertidas por outras que lhes
    são inferiores sob todos os aspectos... É costume em certos
    círculos acadêmicos assegurar aos estudantes que o alarma
    provocado pelas taxas diferenciais de natalidade não tem
    fundamento; que estes problemas são apenas econômicos, ou
    meramente educacionais, ou simplesmente religiosos, ou
    tampouco culturais, ou qualquer coisa deste gênero. h um
    otimismo exagerado. A delinqüência no tocante à reprodução é
    biológica e básica.” E acrescenta que “ninguém sabe com certeza
    em que medida o nível do Quociente de Inteligência neste país
    (Estados Unidos da América) declinou desde 1916, quando
    Terman tentou fixar com precisão o sentido do Q.I. 100.”
    Num país subdesenvolvida e superpovoado, onde quatro
    quintos da população recebem menos de duas mil calorias por dia
    e um quinto goza de uma dieta apropriada, podem as instituições
    democráticas nascer espontaneamente? Ou se fossem impostas
    de fora, ou de cima, poderiam sobreviver?
    E agora verifiquemos o caso de uma sociedade rica,
    industrializada e democrática em que, devido à prática ocasional
    mas eficaz do contrário do eugenismo, o Quociente de
    Inteligência e o vigor físico estão decaindo. Por quanto tempo
    pode uma tal sociedade manter as suas tradições de liberdade
    individual e de governo democrático? Dentro de cinqüenta ou
    cem anos os nossos filhos obterão a resposta para esta pergunta.
    Contudo, achamo-nos a nós próprios frente a um problema
    moral mais embaraçante. Sabemos que o prosseguimento dos
    bons fins não justifica o emprego de maus meios. Mas que falar
    destas situações, agora tão comumente observáveis, em que os
    bons meios apresentam resultados finais que se constata serem
    maus?
    Por exemplo, dirijamo-nos para uma ilha nos trópicos e
    com o auxílio do DDT libertemo-la da malária e, dentro de dois
    ou três anos, salvaremos centenas de milhares de vidas. Isto é
    simplesmente bom. Mas as centenas de milhares de seres
    humanos salvos desta maneira, e os milhões que eles geram e
    trazem à vida, não podem ser normalmente vestidos, alojados,
    educados ou até alimentados com os recursos locais disponíveis.
    A morte pela malária foi abolida; mas a vida tornada miserável
    pela subalimentação e pelo superpovoamento é agora a norma, e
    a morte lenta, por inanição, ameaça um número cada vez maior
    de habitantes.
    E que dizer a respeito dos organismos congenitamente
    insuficientes, que a nossa medicina e os nossos serviços sociais
    agora preservam, de tal maneira que eles possam propagar a
    espécie? Ajudar os desafortunados é logicamente bom. Porém, a
    transmissão em massa, aos nossos descendentes, dos resultados
    de mutações desfavoráveis, e o contágio progressivo da reserva
    genética o qual os membros da nossa espécie terão de beber, não
    é menos logicamente mau. Estamos nas extremidades de um
    dilema ético, e para acharmos o caminho intermediário serão
    necessárias toda a nossa inteligência e toda a nossa boa vontade.
    .:: 3. Superorganização ::.
    A estrada mais curta e mais larga em direção ao pesadelo do
    Admirável Mundo Não passa, como já assinalamos, através da
    superpopulação e do aumento sempre crescente do número total
    de seres humanos – dois biliões e oitocentos milhões hoje, cinco
    biliões e quinhentos milhões ao findar do século, com a maior
    parte da humanidade encarando a escolha entre a anarquia e o
    controle total. Porém a pressão crescente do número de seres
    humanos sobre os recursos disponíveis não é a única força que
    nos impele em direção ao totalitarismo. Este cego inimigo
    biológico da liberdade é aliado com forças muitíssimo poderosas,
    geradas precisamente pelos progressos efetuados no campo da
    tecnologia, de que mais nos orgulhamos; do que nos orgulhamos
    justificadamente, pode acrescentar-se; porque estes progressos
    são os frutos do gênio, e do árduo trabalho persistente da lógica,
    da imaginação, do sacrifício – enfim, de virtudes morais e
    intelectuais pelas quais não se pode ter senão admiração. Mas a
    Natureza das Coisas é tal que ninguém neste mundo pode atingir
    coisa alguma sem dar alguma coisa em troca. Tivemos que pagar
    estes progressos espantosos e de fato admiráveis, tal como a
    lavadora do ano precedente que ainda não foi paga – e cada
    prestação é mais elevada do que a imediatamente anterior. Muitos
    historiadores, muitos sociólogos e psicólogos escreveram
    longamente, e com profundo pesar, sobre o preço que o homem
    do Ocidente tem de pagar e continuará a pagar para o progresso
    técnico. Eles assinalam, por exemplo, que pouca esperança se
    pode ter em que a democracia floresça em sociedades onde o
    poder econômico e político será progressivamente concentrado e
    centralizado. Porém, o progresso da tecnologia conduziu e ainda
    conduz precisamente a uma tal concentração e centralização do
    poder. À medida que o mecanismo de produção em massa se
    torna mais eficiente tende a tornar-se mais complexo e mais
    dispendioso – e, portanto, longe do alcance do homem
    empreendedor que possui poucos recursos. Além disso, a
    produção em larga escala não pode funcionar sem uma
    distribuição em grande escala; a distribuição em grande escala
    apresenta problemas que só os maiores produtores podem
    resolver razoavelmente. Em um mundo de produção e de
    distribuição em grande escala os Pequenos, com o seu fundo
    insuficiente de capital operante, vêem-se em grande desvantagem.
    Em competição com os Grandes perdem o seu capital e,
    finalmente, a sua própria existência como produtores
    independentes; os. Grandes engoliram-nos. Quando os Pequenos
    desaparecem, é cada vez maior o poder econômico que passa a
    ser manipulado por mãos cada vez menos numerosas. Sob uma
    ditadura, o Alto Negócio, tornado realizável pelo progresso
    tecnológico e pela conseqüente ruína do Pequeno Negócio, é
    controlado pelo Estado – isto é, por um grupo pequeno de chefes
    políticos e de militares, polícias e funcionários civis que lhes
    executam as ordens. Numa democracia capitalista, como os
    Estados Unidos, é controlado pelo que o Prof. C. Wright Mills
    chamou a Elite do Poder. Esta Elite do Poder emprega
    diretamente milhões de unidades de mão de obra do país nas suas
    fábricas, escritórios e armazéns; controla muitos milhões de
    outros homens, emprestando-lhes dinheiro para adquirirem os
    seus produtos e, pela sua posse dos meios de comunicação com
    as massas, influencia os pensamentos, sentimentos e ações de
    quase toda a gente. Relembrando as palavras de Winston
    Churchill, nunca tantos foram dirigidos por tão poucos. Estamos
    de fato muito distante do ideal de Jefferson : uma sociedade
    francamente livre composta de uma hierarquia de unidades que se
    autogovernam – “as repúblicas elementares das circunscrições, as
    repúblicas das comarcas, as repúblicas dos Estados e a República
    da União, formando um crescimento de autoridade.”
    Vemos, pois, que a tecnologia moderna tem conduzido à
    concentração do poder econômico e político, e ao
    desenvolvimento de uma sociedade controlada (inflexivelmente
    nos Estados totalitários, polida e imperceptivelmente nas
    democracias) pelo Alto Negócio e pelo Alto Governo. Mas as
    sociedades são compostas de indivíduos e só são boas à medida
    em que ajudam os seres a realizar as suas potencialidades e
    conduzem a uma vida feliz e criadora. Como é que os indivíduos
    foram simulados pelos progressos técnicos dos anos recentes? Eis
    a resposta dada a esta pergunta por um filósofo-psiquiatra, Dr.
    Erich Fromm :
    “A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do
    seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez
    menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior,
    a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende
    a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as
    doenças mentais cada vez mais freqüentes e desespero oculto sob
    um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.”
    As nossas “doenças mentais cada vez mais freqüentes”
    podem achar manifestação em sintomas neuróticos. Estes
    sintomas são patentes e extremamente perigosos. Mas, “cuidemonos”,
    diz o Dr. Fromm, “de definir a higiene mental como
    prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos
    inimigos, porém, nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e
    conflito indica sempre que as forças da vida, que pugnam pela
    harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença
    mental realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem
    mais normais. “Muitos dos que são normais, são-no porque se
    encontram tão bem adaptados ao nosso modo de viver, porque as
    suas vozes humanas ficaram reduzidas ao silêncio tão cedo em
    suas vidas, que nem porfiam, ou sofrem, ou exibem sintomas
    como o neurótico.” São normais, não no que se pode denominar
    o sentido restrito da palavra; são normais apenas em relação a
    uma sociedade imensamente, anormal. O seu perfeito
    ajustamento a esta sociedade anormal dá a proporção da sua
    doença mental. Estes milhões de indivíduos anormalmente
    normais que vivem sem aparato numa sociedade a que, se fossem
    seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda
    acariciam “a ilusão da individualidade”, mas de fato foram em
    larga escala desindividualizados. A sua conformidade continua
    evoluindo para algo como a uniformidade. Mas, “uniformidade e
    liberdade são contraditórias. A uniformidade e a saúde mental são
    igualmente incompatíveis... O homem não foi preparado para ser
    um autômato, e se se transforma em autômato, a base da saúde
    mental estará arruinada.”
    No transcorrer da sua evolução, a natureza não se furtou a
    desgraças sem fim para que cada indivíduo fosse diferente dos
    outros indivíduos. Reproduzimos a nossa espécie estabelecendo
    contato entre os genes do pai com os genes da mãe. Estes fatores
    hereditários podem ser dispostos num número quase infinito.
    Física e mentalmente, cada um de nós é exclusivo. Qualquer
    cultura que, no interesse da eficácia, ou em nome de qualquer
    dogma político ou religioso, procura padronizar o indivíduo
    humano, comete um ultraje contra a natureza biológica do
    homem.
    A Ciência pode ser determinada como a redução da
    multiplicidade à unidade. Procura explicar os ilimitadamente
    diversos fenômenos da natureza ignorando a unicidade das
    ocorrências particulares, concentrando-se sobre o que eles
    apresentam de comum e, finalmente, abstraindo uma “lei”, em
    termos que façam sentido e com os quais possamos realmente
    lidar. Por exemplo : os frutos caem das árvores e a lua move-se
    pelo céu. Os homens notaram estes fatos desde tempos
    imemoriais; como Gertrude Stein, estavam convencidos de que,
    uma maçã é uma maça, ao passo que a lua é a lua. Estava
    reservado a Isaac Newton aperceber-se do que estes fenômenos
    dissemelhantes tinham em comum, e o expôs numa teoria da
    gravitação em termos tais que alguns aspectos do comportamento
    das maçãs, dos corpos celestes e até de todas as demais coisas do
    universo físico possam ser explicados e estudados em termos de
    um único sistema de idéias. Seguindo o mesmo espírito, o artista
    toma as inumeráveis variedades e unicidades do mundo externo,
    e a sua própria imaginação, e dá-lhes sentido dentro de um
    sistema determinado de modelos plásticos, literários ou musicais.
    O anelo de conferir ordem à confusão, de originar a harmonia a
    partir da dissonância, e a unidade da multiplicidade, é uma espécie
    de instinto intelectual, impulso primário e básico do espírito.
    Dentro dos domínios da Ciência, da Arte e da Filosofia os efeitos
    do que posso denominar “Vontade de Ordem” são sobretudo
    benéficos. Na verdade, a “Vontade de Ordem” originou muitas
    sínteses prematuras fundadas em dados insuficientes, muitos
    sistemas paradoxais de metafísica e de teologia, muita confusão
    pretensiosa entre as idéias e a realidade, entre os símbolos e
    abstrações e os dados da experiência imediata. Contudo estes
    erros, por mais lamentáveis que sejam, não prejudicaram muito,
    pelo menos diretamente – se bem que aconteça por vezes que um
    mau sistema filosófico possa prejudicar indiretamente, ao ser
    aplicado como justificação para ações carentes de sentido e
    inumanas. É na esfera social, no domínio da política e da
    economia, que a “Vontade de Ordem” se converte realmente em
    perigo.
    Aqui, a conversão teórica da ingovernável multiplicidade à
    unidade compreensiva transforma-se na redução prática da
    diversidade humana à uniformidade subumana, da liberdade à
    servidão. Em política, o equivalente de uma doutrina científica ou
    de um sistema filosófico plenamente desenvolvido é um sistema
    totalitário. Em economia, o equivalente a uma obra de arte criada
    com beleza é uma fábrica que funciona sem obstáculos, na qual
    os operários se encontram perfeitamente adaptados às máquinas.
    A Vontade de Ordem pode converter em tiranos os que aspiram
    simplesmente a desfazer a confusão. A beleza da, boa ordenação
    é aplicada como justificação para o despotismo.
    A organização é indispensável; porque a liberdade só surge e
    tem sentido dentro de uma comunidade auto-regulamentada de
    indivíduos que colaboram livremente. Porém, mesmo que
    indispensável, a organização pode também ser fatal. A
    organização em excesso transforma em autômatos homens e
    mulheres, reprime o espírito criador e elimina a própria
    possibilidade de liberdade. Como sempre, o único caminho
    seguro está no meio-termo, entre o excesso do laissez-faire, num
    dos topos da escala, e o controle total, no outro extremo.
    Durante o século passado, os progressos sucessivos da
    tecnologia foram seguidos de progressos adequados no campo da
    organização. A maquinaria complicada foi contrabalançada por
    complexas disposições sociais, destinadas a trabalharem tão
    branda e eficientemente como os novos instrumentos de
    produção. A fim de se adaptarem nestas organizações, os
    indivíduos viram-se, eles mesmos, forçados a
    desindividualizarem-se, renegaram a sua diversidade nativa, e se
    conformaram com um modelo padronizado, fizeram o máximo,
    em suma, para se tornar autômatos.
    Estes resultados desumanizadores da superorganização são
    reforçados pelos resultados desumanizadores da superpopulação.
    A indústria, quando se expande, atrai uma proporção cada vez
    maior de homens para os grandes centros. Mas a vida nas grandes
    cidades não leva à saúde mental (a mais alta incidência de
    esquizofrenia, dizem-nos, encontra-se entre os enxames de
    habitantes dos bairros sórdidos dos setores industriais) ; a
    indústria também não desenvolve o gênero de liberdade
    responsável dentro de pequenos grupos autônomos, que é a
    condição sine-qua-non da verdadeira democracia. A vida na
    cidade é anônima e, por isso mesmo, abstrata. As pessoas se
    relacionam umas com as outras, não como personalidades
    integrais, mas como personificações de funções econômicas ou,
    quando não estão no emprego como pessoas que procuram
    irrefletidamente o entretenimento. Sujeitos a uma vida desta
    espécie, os indivíduos tendem a sentir-se solitários e sem
    importância. A sua existência deixa de ter qualquer importância
    ou qualquer sentido.
    Biologicamente falando, o homem é um ser moderadamente
    gregário, e não completamente social – uma criatura mais
    parecida ao lobo, por exemplo, ou a uma formiga. Na sua forma
    primitiva, as sociedades humanas nada tinham em comum com
    um cortiço ou com um formigueiro; eram, apenas, grupos. A
    Civilização é, entre outras coisas, o processes pelo qual os grupos
    primitivos são transformados num análogo, grosseiro e mecânico,
    às comunidades orgânicas dos insetos sociais. Presentemente, a
    explosão da superpopulação e das modificações tecnológicas
    estão acelerando este processo. A termiteira representa agora um
    ideal realizável e, para alguns, até desejável. É desnecessário
    repetir que o ideal jamais será, de fato, atingido. Um grande
    abismo separa o inseto socializável do mamífero não muito
    gregário e dotado de um grande cérebro; e ainda que o mamífero
    aplicasse todos os esforços por imitar o inseto, o abismo
    continuaria. Por maior que seja a tentativa, os homens não
    conseguem criar um organismo social, apenas pode criar uma
    organização. Insistindo nas tentativas de criação de um
    organismo, os homens instituirão tão somente um despotismo
    totalitário.
    O Admirável Mundo Novo apresenta um quadro fictício e
    um pouco grosseiro de uma sociedade em que a tentativa de
    recriar seres humanos à semelhança de térmites foi levada quase
    até as raias do possível. Que estamos sendo impulsionados em
    direção do Admirável Mundo Novo é evidente. Porém não é
    menos lógico v fato de que nos podemos, se assim o quisermos,
    recusar a cooperar com as forças obscuras que nos impulsionam.
    Por ora, todavia, a ânsia de resistir não nos parece ser muito forte
    ou muito generalizada. Como o sr. William Whyte apresentou no
    seu notável livro, The Organization Man, uma nova Ética Social
    está substituindo o nosso sistema ético tradicional – o sistema em
    que o indivíduo se apresenta em primeiro lugar. As palavraschave
    desta Ética Social são : “ajustamento”, “adaptação”,
    “comportamento socialmente orientado”, “integração”,
    “aquisição de técnicas sociais”, “trabalho de equipe”, “vida em
    grupo”, “lealdade ao grupo”, “dinâmica de grupo”, “pensamento
    de grupo” e “criatividade de grupo”. A sua afirmação
    fundamental é a de que o todo social tem mais valor e
    importância do que as suas partes peculiares, que as diferenças
    biológicas inatas devem ser renunciadas à uniformidade cultural,
    que os direitos da coletividade têm primazia sobre o que o século
    XVIII proclamava os Direitos do Homem. De acordo com a
    Moral Social, Jesus errou completamente ao afirmar que o sabbat
    fora feito para o homem. Pelo contrário, o homem é que foi feito
    para o sabbat, e deve sacrificar as suas idiossincrasias herdadas e
    pretender ser o tipo de bom rapaz sociável que os organizadores
    da atividade de grupo consideram ideal para os seus objetivos.
    Este ser ideal é o homem que exibe o “conformismo dinâmico”
    (deliciosa frase! ) e uma forte lealdade ao grupo, um incansável
    desejo de se subordinar, de ser aceito. E o homem ideal deve ter
    uma mulher ideal, altamente gregária, infinitamente adaptável, e
    não apenas conformada ao fato de que a primeira lealdade de seu
    marido seja para a Corporação, senão que também bastante leal
    por sua conta própria. “Ele só para Deus”, como disse Mílton de
    Adão e Eva, “ela para Deus nele”. E um aspecto importante, a
    mulher do homem ideal para a organização é, em grande parte,
    menos partilhada do que o foi nossa mãe Eva. A ela e a Adão
    consentiu o Senhor que não tivessem quaisquer inibições em
    matéria de “carícias juvenis”.
    Nem Adão se afastava, suponho,
    de sua alegre esposa, nem Eva recusava
    os ritos misteriosos do amor conjugal.
    Hoje, de acordo com um colaborador da Harvard Business
    Review, a mulher do homem que procura viver à altura do ideal
    proposto pela Ética Social “não deve exigir demasiado tempo e
    interesse de seu marido. Devido ao seu concurso exclusivo para o
    trabalho, até a sua atividade sexual deve ser relegada para segundo
    plano.” O monge faz votos de castidade, pobreza e obediência. O
    homem da organização é autorizado a ser rico, porém promete
    obediência (“aceita a autoridade sem ressentimento, e admira os
    seus superiores” – Mussolini Ha sempre ragione) e deve estar
    apto, para maior glória da organização que o emprega, a rejeitar
    até o amor conjugal.*
    * Com Mao TseTung esses conselhos capitalistas de perfeição se transformaram em
    mandamentos e modificados como regulamentos. Nas novas Comunidades Populares a
    condição conjugal foi abolida. Não havendo ternuras mútuas, maridos e esposas habitam
    barracões separados e lhes é permitido dormir juntos (por um breve período de uma ou duas
    horas, como prostitutas e seus clientes) somente em noites alternadas de sábado.
    É importante notar que, em 1984, os membros do Partido
    eram compelidos a conformar-se a uma moral sexual de uma
    severidade mais do que puritana. No Admirável Mundo Novo,
    por outro lado, qualquer pessoa tem o direito de satisfazer os seus
    desejos sem preconceito ou constrangimento. A sociedade
    exposta na ficção de Orwell é uma sociedade permanentemente
    em guerra, e o objetivo dos seus dirigentes é, em primeiro plano,
    decerto, exercer o poder para seu gozo próprio e, em segundo
    plano, manter os seus súditos num estado de tensão constante
    que um estado de guerra constante exige daqueles que a travam.
    Fazendo cruzada contra a sexualidade, os dirigentes estão aptos a
    manter a tensão requerida aos seus seguidores e ao mesmo tempo
    podem satisfazer de uma forma mais amena a sua cobiça de
    poder. A sociedade descrita no Admirável Mundo Novo é um
    Estado mundial em que a guerra foi eliminada e onde o principal
    objetivo dos que a conduzem é tolher a todo custo que os seus
    súditos causem quaisquer perturbações. Conseguem isto pela
    (entre outros métodos) legalização de um relativo grau de
    liberdade sexual (tornada possível pela abolição da família) que
    assegura praticamente os habitantes do Admirável Mundo Novo
    de qualquer forma de tensão emocional destrutiva (ou criadora).
    Em 1984 o desejo de poder é satisfeito infligindo-se o
    sofrimento; no Admirável Mundo Novo, infligindo um prazer
    pouco menos humilhante.
    A Ética Social corrente, é evidente, constitui apenas uma
    justificação a posteriori das conseqüências menos desejáveis da
    superorganização. Representa uma tentativa enternecedora para
    fazer da necessidade virtude para exaurir um valor positivo de um
    elemento desagradável da experiência. É um sistema de
    moralidade de fato irrealista e, portanto, bastante perigoso. O
    todo social, cujo valor se considera maior do que o das suas
    partes componentes, não é um organismo como um cortiço ou
    uma termiteira podem ser considerados como tal. É apenas uma
    organização, uma peça do maquinismo social. Só pode ter valor
    relativamente à vida e à consciência. Uma organização não é
    consciente nem viva. O seu valor é instrumental e derivado. Não
    é boa em si; é boa apenas na medida em que promove o bem dos
    indivíduos que são partes do todo coletivo. Dar primazia às
    organizações sobre as pessoas é subordinar os fins aos meios. O
    que sucede quando os fins são subordinados aos meios foi
    claramente comprovado por Hitler e por Stalin. Sob os seus
    repugnantes governos, os fins pessoais eram subordinados aos
    meios da organização devido a uma mistura de violência e de
    propaganda, terror sistemático e sistemática manipulação de
    espíritos. Nas mais eficientes ditaduras do futuro haverá, talvez,
    muito menos violência do que sob Hitler e Stalin. Os súditos do
    ditador do futuro serão governados sem sofrimentos por um
    corpo de Engenheiros Sociais altamente instruídos. “O desafio
    lançado pela engenharia social do nosso tempo”, escreve um
    advogado admirador desta nova ciência, “é como o desafio
    lançado pela engenharia técnica há cinqüenta anos. Se a primeira
    metade do século XX foi a era dos engenheiros técnicos, a
    segunda metade bem pode ser p, era dos engenheiros sociais” – e
    o século XXI, cálculo, será a era dos Administradores do Mundo,
    do sistema científico das casas e do Admirável Mundo Novo. À
    pergunta quis custodiet custodes? – quem montará guarda em
    volta dos nossos guardas, quem será o engenheiro desses
    engenheiros? – a resposta é uma suave negação de que eles
    precisem de qualquer supervisão. Parece ser uma crença
    concernente, entre os doutorados em sociologia, a de que os
    doutorados em sociologia jamais serão corrompidos pelo poder.
    Assim como Sir Galahad, a força deles é semelhante à força de
    dez porque o seu coração é puro – e o coração deles é puro
    porque são cientistas e despenderam seis mil horas de aulas sobre
    Ciências Sociais.
    Ai de nós, a instrução superior não é precisamente uma
    certeza de virtude superior, ou de superior sabedoria política. E a
    estes receios originados por causas morais e psicológicas devem
    acrescentar-se receios de índole puramente científica. Podemos
    nós aceitar as teorias nas quais os engenheiros sociais assentam a
    sua prática, e em cujos termos eles justificam a sua condução dos
    seres humanos? Por exemplo, o Prof. Elton Mayo diz-nos
    formalmente que “o desejo que o homem experimenta de estar
    seguidamente associado aos seus semelhantes no trabalho é uma
    característica humana relevante, senão a mais relevante.” Pareceme
    que isto é obviamente uma inverdade. Algumas pessoas
    possuem essa espécie de desejo descrito por Mayo; outras não o
    experimentam. É apenas uma questão de temperamento e de
    constituição hereditária. Qualquer organização social alicerçada
    no princípio de que o “homem” (seja qual for o “homem” que
    possa ser) deseja estar seguidamente associado aos seus
    semelhantes seria, para muitos homens e muitas mulheres, um
    leito de Procusta. Seria necessário amputá-los ou levarem-nos ao
    pelourinho para que se adaptassem a isso.
    Depois, como são quimericamente enganadoras as
    descrições líricas da Idade Média, com as quais muitos teoristas
    contemporâneos das relações sociais adornam as suas obras! “O
    fato de pertencer a uma guilda, a um domínio senhorial ou a uma
    aldeia protegia o homem medieval durante sua vida e oferecia-lhe
    paz e serenidade.” Protegia-o de quê, pode-se saber? Certamente,
    não de maus tratos que os seus senhores lhe infligiam sem
    remorsos. E do mesmo modo que toda essa “paz e serenidade”
    havia, através de toda a Idade Média, uma grande onda de
    frustração crônica, infelicidade aflitiva e um ressentimento
    arrebatado contra o rígido e hierárquico sistema que não permitia
    qualquer movimento vertical rumo ao topo da escala social e,
    para aqueles que estavam presos à terra, muito pouco movimento
    horizontal no espaço. As forças impessoais da superpopulação e
    da superorganização, e os engenheiros sociais que estão tentando
    dirigir essa forças, estão a impelir-nos em direção a um novo
    sistema medieval. Este ressurgimento será mais aceitável do que o
    original, através de algumas amenidades do Admirável Mundo
    Novo, tais como o condicionamento pré-natal, o ensino durante
    o sono e a euforia provocada por drogas; mas, para a maioria dos
    homens e das mulheres, isso será ainda um tipo de servidão.
    .:: 4. A Propaganda Numa Sociedade Democrática ::.
    “As doutrinas da Europa”, escreveu Jefferson, “diziam que
    os homens, dentro de associações numerosas, não podiam ser
    confinados no interior dos limites da ordem e da justiça, a não ser
    por forças físicas e morais desencadeadas sobre eles por
    autoridades alheias ao seu querer... Nós (os fundadores da nova
    democracia americana) cremos que o homem é um animal
    racional, dotado de direitos pela natureza, e com um sentido inato
    de justiça, que pode ser obstado de prejudicar, e conservado no
    bem, através de poderes moderados, confiados a pessoas de sua
    própria escolha e ligadas aos seus deveres por dependência da sua
    própria vontade.” Para ouvidos pós-freudianos, este tipo de
    linguagem parece concernentemente extravagante e ingênuo. Os
    seres humanos são, em grande parte, menos racionais e
    inatamente justos do que supunham os otimistas do século
    XVIII. Por outro lado, nem são tão moralmente cegos nem tão
    incontestemente desrazoáveis como os pessimistas do século XX
    pretenderam fazer acreditar. A despeito do Id e do
    Subconsciente, a despeito da neurose endêmica e da supremacia
    de baixos quocientes de inteligência, a maioria dos homens e das
    mulheres são, talvez, suficientemente honestos e razoáveis para
    lhes ser entregue a direção dos seus próprios destinos. As
    instituições democráticas são preceitos destinados a conciliar a
    ordem social com a liberdade e a iniciativa individual, e submeter
    o poder imediato dos governantes de um país ao poder último
    dos governados. O fato de estes preceitos, na Europa Ocidental e
    na América, terem funcionado no final das contas, de forma que
    não foi de todo má, é prova bastante de que os otimistas do
    século XVIII não se enganaram completamente. Se lhes oferecem
    oportunidade, os seres humanos podem governar-se a si próprios,
    e governar-se a si próprios melhor, ainda que talvez com menos
    eficiência mecânica, do que podem sê-lo por “autoridades alheias
    à sua vontade”. Se lhes oferecem boa oportunidade, repito;
    porque a oportunidade é um requisito prévio indispensável.
    A respeito de nenhum povo que passa abruptamente de um
    estado de servilismo, sob o governo de uma déspota, para um
    estado ainda não experimentado de independência política,
    podes-e dizer que teve um grande ensejo para fazer funcionar as
    instituições democráticas. Além disso, nenhum povo em
    condições econômicas precárias tem uma grande oportunidade
    para estar capaz de governar-se democraticamente a si próprio. O
    liberalismo prospera numa atmosfera de progresso e declina
    quando a prosperidade decadente exige do governo a sua
    intervenção, cada vez mais freqüente e drástica, nos assuntos dos
    seus súditos. A superpopulação e a superorganização são duas
    condições que, como já observei, retiram de uma sociedade a boa
    oportunidade de fazer as instituições democráticas funcionarem
    efetivamente. Vemos, pois, que há determinadas condições
    históricas, econômicas, demográficas e tecnológicas que tornam
    bastante difícil aos animais racionais de Jefferson, dotados pela
    natureza de direitos inalienáveis e de um sentimento inato da
    justiça, o exercício da sua razão, a reivindicação dos seus direitos
    e o agirem de maneira honesta numa sociedade
    democraticamente organizada. Nós, no Ocidente, tivemos a
    felicidade inestimável de nos ter sido oferecida boa oportunidade
    de realizarmos a grande experiência do autogoverno.
    Infelizmente, parece agora que, devido a transformações recentes
    do nosso ambiente, essa oportunidade imensamente preciosa
    está, pouco a pouco, sendo afastada de nós. E isto talvez não seja
    tudo. Estas forças impessoais cegas não são as únicas inimigas da
    liberdade individual e das instituições democráticas. Há também
    forças de outra tendência, menos abstrata, forças que podem ser
    deliberadamente empregadas por homens ávidos de poder, cujo
    objetivo seja estabelecerem controle parcial ou total sobre os seus
    semelhantes. Há cinqüenta anos, quando eu era rapaz, parecia
    evidente que os maus dias de outrora tinham terminado, que a
    tortura e o massacre, a escravidão e a perseguição do herético
    eram coisas do passado. Para as pessoas que usavam chapéu alto,
    viajavam em trens, e tornavam banho todas as manhãs, tais
    horrores estavam simplesmente fora de discussão. Afinal de
    contas, vivíamos no século XX. Alguns anos mais tarde, estas
    pessoas que tornavam um banho diário e iam à igreja, de cartola,
    praticavam atrocidades em grau tal que os Africanos e os
    Asiáticos, mergulhados nas trevas da ignorância, jamais
    sonharam. À luz da história recente, seria loucura supor que este
    estado de coisas não possa voltar a suceder outra vez. Pode e,
    sem dúvida, sucederá. Mas, num futuro imediato, há alguma
    razão para acreditarmos que os métodos punitivos de 1984
    cederão lugar aos reforços e manipulações do Admirável Mundo
    Novo.
    Há dois tipos de propaganda – propaganda racional a favor
    da ação que é de acordo com o próprio interesse esclarecido
    daqueles que a fazem e daqueles a quem é dirigida, e a
    propaganda não-racional, que não é de acordo com o próprio
    interesse esclarecido de ninguém, mas que é ditada por e apeia
    para, paixões, impulsos cegos, desejos ou medos inconscientes.
    Quando se trata de atas individuais, existem motivos mais
    elevados do que o interesse próprio bem compreendido, mas
    quando se trata de uma ação coletiva, no domínio da política e da
    economia,, o próprio interesse bem compreendido é, talvez, o
    mais importante dos incentivos. Se os Políticos e seus eleitores
    procedessem sempre com o objetivo de promover o seu próprio
    interesse durável, ou o do seu país, este mundo seria um paraíso
    terrestre. Na verdade, procedem muitas vezes contra o seu
    próprio interesse, apenas para satisfazer as paixões menos dignas
    de surpresa; o mundo, por conseqüência, é um vale de lágrimas.
    A propaganda encaminhada a favor da ação que concorda com o
    interesse bem compreendido apeia para a razão por meio de
    indícios lógicos baseados sobre as provas livres mais sólidas,
    expostas honesta e totalmente. A propaganda a favor da ação
    inspirada por impulsos que estão abaixo do verdadeiro interesse,
    apresenta provas falsas, falsificadas ou incompletas, evita os
    argumentos lógicos e procura influenciar as suas vítimas pela
    simples repetição de frases feitas, pela denúncia louca de bodes
    expiatórios, estrangeiros ou domésticos, e pela associação hábil
    das paixões mais vis com os mais elevados ideais, de modo tal
    que são perpetradas atrocidades em nome de Deus e a mais cínica
    espécie de realpolitik chega a converter em algo como um
    princípio religioso ou um dever patriótico.
    Segundo os princípios de John Dewey, “um rebento de fé
    na natureza humana comum, nas suas potencialidades em geral, e
    no seu poder, em particular, de anuir à razão e à verdade, é
    obstáculo mais seguro contra o totalitarismo do que uma
    demonstração de êxito material, ou do que a devoção religiosa
    por uma certa manifestação legal e política.” O poder de anuir à
    razão e à verdade existe em todos nós. Mas, da mesma maneira,
    infelizmente, também há a tendência para anuirmos à desrazão e
    à falsidade – particularmente naqueles casos em que a falsidade
    evoca qualquer emoção deliciosa, ou onde o apelo à desrazão faz
    vibrar qualquer corda, que lhe corresponde, das profundidades
    subumanas e primitivas do nosso ser. Em certas atribuições da
    atividade, os homens aprenderam a responder à razão e à verdade
    com plena conformidade. Os autores de artigos eruditos não
    apeiam para as paixões dos seus camaradas cientistas e técnicos.
    Expõem o que, em sincera consciência, é a verdade sobre
    qualquer aspecto particular da realidade, utilizam a razão para
    explicar os fatos que observaram, e sustentam o seu ponto de
    vista com testemunhos que apeiam para a razão de outras
    pessoas. Tudo isto é relativamente simples no setor das ciências
    físicas e da tecnologia. É muito mais difícil no setor da política, da
    religião e da ética. Aqui, os fatos principais fogem-nos muitas
    vezes, assim como o significado dos fatos que depende
    obviamente do sistema particular de idéias em cujos termos
    deliberamos interpretá-los. E estes não são o.; únicos obstáculos
    com que topa quem procura a verdade razoavelmente. Na vida
    pública e privada, sucede muitas vezes que não há apenas tempo
    para colher os fatos relevantes ou para avaliar a importância deles.
    Somos forcados a agir firmados em fatos insuficientes e dirigidos
    por uma luz bem menos refulgente do que a da lógica. Com a
    melhor das boas vontades do mundo, nem sempre podemos ser
    totalmente verdadeiros ou logicamente racionais. Tudo o que está
    ao nosso alcance é sermos tão verdadeiros e racionais quanto as
    circunstâncias o permitam, e reagirmos como pudermos à
    limitada verdade e aos raciocínios imperfeitos, oferecidos à nossa
    consideração por outros.
    “Se uma nação diz-se ignorante e livre”, disse Jefferson,
    “espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem
    estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e
    cada homem capaz de ler, tudo está salvo.” Do outro lado do
    Atlântico, na mesma época, outro crente exaltado da razão,
    pensava em termos quase precisamente iguais. Observe-se o que
    John Stuart Mill escrevia a respeito de seu pai, o filósofo
    utilitarista James Mill. “Tão completa era a sua confiança no
    domínio da razão sobre o espírito humano, sempre que lhe é
    dada a possibilidade de o atingir, que percebia que tudo estaria
    salvo se toda a população fosse capaz de ler e se permitisse-se
    que toda espécie de opiniões fosse dirigida aos homens pela
    palavra ou pela escrita, e se, pelo voto, os homens pudessem
    eleger uma legislatura que efetuasse as opiniões que tivessem
    adotado.” Tudo está salvo, tudo estaria ganho! Mais uma vez,
    ouvimos a voz do otimismo do século XVIII. É verdade que
    Jefferson era tão realista quanto otimista. Sabia, por amarga
    experiência, que da liberdade de Imprensa pode-se abusar
    escandalosamente. Jefferson declarou : “Em nada do que se lê
    num jornal pode-se acreditar atualmente”. Contudo, Jefferson
    afirmava (e nós só devemos concordar com ele), que “nos limites
    da verdade, a Imprensa é uma nobre instituição, igualmente amiga
    da ciência e da liberdade civil.” A comunicação com as massas,
    em uma palavra, não é boa nem má; é simplesmente um poder e,
    como qualquer outro poder, pode ser bem ou mal empregado.
    Utilizados de uma maneira, a Imprensa, o rádio e o cinema são
    imprescindíveis para a sobrevivência da democracia. Utilizados de
    modo diverso, encontram-se entre as armas mais poderosas do
    arsenal dos ditadores. No campo da comunicação com as massas,
    como em quase todos os demais campos da indústria humana, o
    progresso técnico lesou os Pequenos e favoreceu os Grandes. Há
    apenas cinqüenta anos, todos os países democráticos
    orgulhavam-se do grande número de pequenos jornais e diários
    locais. Milhares de editoriais expressavam milhares de opiniões
    independentes. Por toda parte imprimia-se praticamente o que
    quisesse. Hoje, a Imprensa é ainda legalmente livre; mas a maioria
    desses pequenos jornais desapareceu. O custo do papel, das
    máquinas das modernas tipografias e das agências de informação,
    é muito elevado para os Pequenos. No Leste totalitário há uma
    censura política, e os meios de comunicação com as massas são
    controlados pelo Estado. No Ocidente democrático há a censura
    econômica e os meios de comunicação com o povo são
    controlados pela “Elite do Poder”. A censura, através do
    aumento das despesas e a concentração do poder de comunicação
    nas mãos de alguns grandes organismos, é menos censurável do
    que o monopólio do Estado e a propaganda governamental; mas
    não é, com certeza, algo que um democrata jeffersoniano deva
    aprovar.
    No que diz respeito à propaganda, os primeiros defensores
    da instrução obrigatória e de uma Imprensa livre só enfrentavam
    duas possibilidades : a propaganda podia ser verdadeira ou falsa.
    Não previam o que realmente sucedeu, principalmente nas nossas
    democracias capitalistas acidentais – o crescimento de uma vasta
    indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte
    não se preocupa nem com o verdadeiro nem com o falso, mas
    com o irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa
    palavra, não levaram em conta o quase infinito apetite humano de
    distrações.
    No passado, a maioria das pessoas nunca teve oportunidade
    de satisfazer completamente este apetite. Desejavam demais
    distrações, mas não lhas forneciam. O Natal só surgia uma vez
    por ano, as festas eram “solenes e raras”, havia poucos leitores e
    muito pouco que ler, e o que havia mais aproximado de um
    cinema de bairro era a igreja paroquial, onde os espetáculos, se
    bem que freqüentes, eram bastante monótonos. Para encontrar
    condições, mesmo de longe comparáveis às atualmente
    existentes, temos de recuar até à Roma Imperial, onde o povo era
    mantido de bom humor graças a doses repetidas e gratuitas das
    mais variadas distrações – desde os dramas em verso até os
    combates dos gladiadores, desde recitais de Virgílio até os
    combates de pugilismo, desde festivais de música até paradas
    militares e execuções públicas. Mas, mesmo em Roma, não havia
    nada de semelhante à distração contínua agora fornecida por
    jornais e magazines, pelo rádio, televisão e cinema. No Admirável
    Mundo Novo, as distrações contínuas da mais fascinante natureza
    são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo,
    com a finalidade de obstar o povo de prestar demasiada atenção
    às realidades da situação social e política. O mundo da religião é
    diferente do mundo do divertimento; mas parecem-se um com o
    outro por, decididamente, “não serem deste mundo”. Ambos são
    divertimentos e, se vivemos neles de forma excessivamente
    contínua, ambos podem tornars-e, segundo a frase de Marx, “o
    ópio do povo”, tornando-se assim uma ameaça à liberdade. Só
    uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os
    que estão constante e inteligentemente despertos podem
    alimentar a esperança de se governar a si próprios eficazmente
    por meios democráticos. Uma sociedade, cuja maioria dos
    membros dissipa uma grande parte do seu tempo não na vigília,
    não aqui e agora e no futuro previsível, mas em outra parte, nos
    outros mundos irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da
    mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às
    investidas daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.
    Na sua propaganda, os ditadores atuais limitam-se, na
    maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização –
    repetição de estribilhos que pretendem sejam aceitos como
    verdades, à supressão de fatos que eles pretendem sejam
    ignorados, ao desencadeamento e à racionalização de paixões que
    podem ser aplicadas nos interesses do Partido ou do Estado.
    Quando a arte e a ciência da manipulação vierem a ser mais bem
    conhecidas, os ditadores do futuro aprenderão, sem dúvida, a
    combinar estas técnicas com as distrações ininterruptas que, no
    Ocidente, ameaçam agora submergir num mar de irrelevância a
    propaganda racional indispensável à manutenção da liberdade
    individual e à sobrevivência das instituições democráticas.
    .:: 5. A Propaganda Sob Uma Ditadura ::.
    No seu processo após a Segunda Guerra Mundial, Albert
    Speer, ministro do Armamento de Hitler, pronunciou um longo
    discurso em que, com considerável argúcia, descrevia a tirania
    nazista e analisava-lhe os métodos. “A ditadura de Hitler”, disse,
    “diferençou, num ponto fundamental, de todas as que a
    antecederam historicamente. Foi a primeira ditadura no presente
    período do progresso técnico moderno, uma ditadura que aplicou
    um uso total de todos os recursos técnicos para dominar o seu
    próprio país. Através de artifícios técnicos como o rádio e o altofalante,
    oitenta milhões de pessoas foram privadas da liberdade
    de pensar. Desta maneira foi possível sujeitá-las ao desejo de um
    homem... Os ditadores que antecederam Hitler necessitavam de
    assistentes altamente qualificados mesmo nos escalões mais
    inferiores – homens que podiam pensar e agir de maneira
    totalmente livre. O sistema totalitário, no período do moderno
    desenvolvimento técnico, pode dispensar tais homens; graças a
    métodos modernos de comunicação, é possível mecanizar a
    direção dos escalões inferiores. Em conseqüência disto, surgiu o
    tipo atual do homem que recebe ordens e se abstém de críticas.”
    No Admirável Mundo Novo da minha profética ficção, a
    tecnologia avançou para muito além do ponto a que chegara no
    tempo de Hitler; em conseqüência, os que receberam ordens
    eram muito menos críticos do que os seus semelhantes nazistas,
    muito mais submissos à “elite” dirigente. Apesar disso, foram
    padronizados geneticamente e condicionados após o nascimento,
    de forma a realizarem as suas funções subalternas e, portanto, a
    comportarem-se de maneira tão previsível como máquinas.
    Conforme veremos noutro capítulo, este condicionamento dos
    “escalões inferiores” já é praticado nas ditaduras comunistas. Os
    Chineses e os Russos não se prendem meramente aos efeitos
    indiretos da tecnologia que sempre progride; trabalham
    diretamente nos organismos psicofísicos dos subordinados mais
    inferiores submetendo corpos e espíritos a um sistema de
    moderação inflexível e, sob todos os aspectos, altamente
    eficiente. “Quantos homens”, disse Speer, “têm sido obsediados
    pela pesadelo de que as nações pudessem ser um dia dominadas
    por meios técnicos. Esse pesadelo foi quase. concretizado pelo
    sistema totalitário de Hitler.” Quase, mas não totalmente. Os
    nazistas não tiveram tempo – e talvez não tivessem inteligência e
    os necessários conhecimentos – para fazer lavagens cerebrais e
    condicionar os seus escalões inferiores. Talvez seja este um dos
    motivos do seu fracasso.
    Desde o tempo de Hitler, o arsenal de dispositivos técnicos
    à disposição do aspirante a ditador foi consideravelmente
    aumentado. Além do rádio, do alto-falante, do cinema e das
    grandes rotativas, o publicista contemporâneo pode empregar a
    televisão para transmitir a imagem, assim como a voz, do seu
    cliente, e pode registrar tanto a voz como a imagem nos carretéis
    das fitas magnéticas. Graças ao progresso técnico, o Grande
    Irmão pode ser agora quase tão onipresente como Deus. E não é
    apenas na atribuição da técnica que a mão do aspirante a ditador
    recebeu novas forças. Desde o tempo de Hitler, têm-se realizado
    trabalhos notáveis nos campos da psicologia e da neurologia
    aplicadas, que são o campro próprio do propagandista, do
    doutrinador e do lavador de cérebros. Antigamente, estes
    especialistas na arte de transformar os espíritos dos homens eram
    empiristas. Através ele um método de aproximações constantes
    tinham apurado um determinado número de técnicas e métodos,
    que usavam com grande proveito sem, contudo, conhecerem
    necessariamente por que eram capazes. Hoje, a arte de controlar
    os espíritos está em vias de tornar-se uma ciência. Os praticantes
    desta ciência sabem o que estão fazendo e por quê. São guiados
    na sua obra por meio e hipóteses firmemente estabelecidas sobre
    uma grande massa de fatos experimentalmente constatados.
    Graças a novos pontos de vista, e a novas técnicas tornadas
    possíveis por esses novos pontos de vista, o pesadelo que foi
    “quase concretizado no ‘sistema totalitário de Hitler” não tardará
    talvez a ser totalmente realizável.
    Mas antes de discutirmos estes novos pontos de vista e estas
    novas técnicas, demos uma vista de olhos no pesadelo que quase
    se concretizou na Alemanha nazista. Quais eram os métodos
    aplicados por Hitler e Goebbels para “privarem oitenta milhões
    de pessoas da liberdade do pensamento e para sujeitarem-nas à
    vontade de um homem”? E qual seria a teoria e sobre qual
    natureza humana estes métodos terrivelmente bem ocorridos
    estavam baseados? Podemos encontrar a maioria das respostas a
    estas perguntas nas próprias palavras de Hitler. E como essas
    palavras são notavelmente claras e sagazes! Quando escreve
    acerca de devaneios tão amplos como Raça, História e
    Providência, Hitler é estritamente ilegível. Mas, quando escreve
    acerca das massas alemãs e dos meios que empregou para
    dominá-las e dirigi-las, o seu estilo se transforma. A ausência de
    sentido dá lugar ao sentido, as frases espalhafatosas cedem lugar a
    uma lucidez amarga e cínica. Nas meditações filosóficas, Hitler
    sonhava acordado ou traduzia idéias fumarentas e um tanto cruas
    de outras pessoas. Nas suas notas sobre as multidões e a
    propaganda Hitler escrevia sobre coisas que conhecia por
    experiência direta. Segundo as palavras do seu excelente biógrafo,
    Alan Bullock, “Hitler era o maior demagogo da história.” Aqueles
    que acrescentam “não além de um demagogo” falham na
    apreciação da natureza do poder político numa época de política
    de massas. Como ele próprio dizia, “Ser um dirigente significa
    estar apto a mover as massas”. O objetivo de Hitler era,
    primeiramente, mover as massas e após, tendo-as arrancado às
    suas fidelidades e moralidades tradicionais, impunha-lhes (com o
    consentimento hipnotizado da maioria) uma nova ordem
    autoritária, de sua própria inventiva. “Hitler”, escrevia Herman
    Rauschning em 1939, “tem uma profunda reverência pela Igreja
    Católica e pela ordem dos Jesuítas; não devido à sua doutrina
    cristã, mas devido ao “maquinismo” que eles elaboraram e
    controlaram, o seu método hierárquico, as suas táticas bastante
    hábeis, o seu profundo conhecimento da natureza humana e o
    sagaz uso da fraqueza humana para dominarem os crentes.”
    Clericalismo sem Cristianismo, a disciplina de uma regra
    monástica, não para maior glória de Deus ou para execução da
    salvação pessoal, mas para glória do Estado e para maior glória e
    poder do demagogo convertido em dirigente político – tal era o
    fim para que tendia a direção sistemática das massas.
    Vamos ver o que julgava Hitler das massas que dirigia, e
    como as movimentava. O princípio fundamental de que partia era
    um julgamento de valor : as massas são absolutamente
    desprezíveis. São incapazes de pensamento concentrado e
    desinteressadas de qualquer caso que ultrapasse a sua experiência
    direta. O seu comportamento é regulado, não pelo conhecimento
    e pela razão, mas por sensibilidades e impulsos inconscientes. É
    nestes impulsos e sensibilidades que “as raízes das suas atitudes,
    tanto positivas como negativas, estão implantadas”. Para obter
    êxito, um propagandista deve aprender a dirigir estes instintos e
    emoções. “A força de impulsão que ocasionou as revoluções mais
    terríveis do mundo nunca foi um corpo de ensinamentos
    científicos que estendesse a sua influência sobre as massas, porém
    foi sempre uma afeição que as inspirou, e muitas vezes como uma
    histeria que as impulsionou para a ação. Quem pretenda arrastar
    as multidões deve conhecer a chave que lhes abre a porta dos
    corações”. – Em termo pós-freudiano, do seu inconsciente.
    Hitler lançou o seu mais forte apelo àqueles membros da
    pequena burguesia que foram arruinados pela inflação de 1923, e
    depois arruinados novamente pela depressão de 1929 e dos anos
    seguintes. “As massas” de que falava eram estes milhões de
    pessoas desnorteadas, frustradas e inveteradamente ansiosas. Para
    os tornar mais “massa”, mais identicamente subumanos, Hitler
    reunia-os, por milhares e dezenas de milhares, em recintos e
    anfiteatros vastos onde os indivíduos normalmente perdiam a
    identidade pessoal, até mesmo a sua humanidade elementar, e
    fundiamse com a multidão. Um homem ou uma mulher tornam
    contato direto com a sociedade de duas maneiras : como membro
    de um grupo familiar, profissional ou religioso, ou como membro
    de uma multidão. Os grupos são capazes de ser tão morais e
    inteligentes como os elementos que os formam; uma multidão é
    desordenada, não tem objetivo próprio, e é capaz de qualquer
    desatino com exceção de ação inteligente e de pensamento
    realista. Agrupadas numa multidão, as pessoas perdem o poder de
    raciocínio e a capacidade da escolha moral. A sugestibilidade
    pode ser fomentada até o ponto em que cessam de ter qualquer
    juízo ou vontade própria. Tornam-se excitáveis, perdem todo o
    senso de responsabilidade individual ou coletiva, são sujeitos a
    acessos súbitos de ódio, de entusiasmo e de pânico. Numa
    palavra, uma pessoa numa multidão comporta-se como se tivesse
    tomado uma grande dose de tóxico. É uma vítima do que eu
    denominei “envenenamento gregário”. Como o álcool, o veneno
    gregário é uma droga ativa e estimulante. Os membros de uma
    multidão intoxicada fogem à responsabilidade, à inteligência e à
    moralidade, e entram numa espécie de animalidade frenética e
    alienada.
    Durante a sua longa carreira de agitador, Hitler estudou os
    efeitos do veneno gregário e aprendeu a expiá-los em benefício
    dos seus próprios fins. Descobriu que o orador pode apelar para
    aquelas “forças ocultas” que provocam as ações dos homens,
    muito mais eficientemente do que o escritor. Ler é uma ocupação
    privada e não coletiva. O escritor dirige-se apenas a indivíduos,
    sentados em suas casas, num estado de sobriedade normal. O
    orador fala para massas de indivíduos, já bastante contaminados
    pelo “veneno gregário”. Estão à sua mercê e, se conhece bem o
    seu ofício, pode fazer deles o que lhe agradar. Como orador,
    Hitler conhecia o seu ofício de forma elevada. Era capaz,
    segundo as suas próprias declarações, “de seguir a indicação da
    grande massa de maneira tal que, a partir da emoção viva dos seus
    ouvintes, era-lhe sugerida a palavra adequada de que necessitava
    e, por sua vez, esta ia direta ao coração dos seus ouvintes.” Otto
    Strasser denominou-o “um alto-falante, proclamando os desejos
    mais íntimos, os instintos menos admissíveis, os sofrimentos e
    revoltas pessoais de todo um país”. Vinte anos antes da Madison
    Avenue se ter lançado na “Investigação das Motivações”, Hitler
    explorava e utilizava metodicamente os temores e esperanças
    íntimas, os desejos, as ansiedades e frustrações das massas alemãs.
    É pelo manuseio de “forças ocultas” que os versados em
    publicidade nos induzem a comprar-lhes os produtos – um
    dentifrício, uma marca de cigarros, um candidato político. E foi
    recorrendo para as mesmas forças ocultas – e para outras
    demasiado perigosas para que a Madison Avenue tornasse
    contato com elas – que Hitler levou as massas alemãs a
    comprarem elas própria um Fuehrer, uma filosofia insana e a
    Segunda Guerra Mundial.
    Ao contrário das massas, os intelectuais têm gosto pela
    ponderação e interesse pelos acontecimentos. O espírito de critica
    torna-os resistentes ao tipo de propaganda que tão bem atua
    sobre a multidão. Entre as massas “o instinto é o senhor
    supremo, e do instinto vem a fé... Enquanto os indivíduos sãos
    do povo cerram automaticamente fileiras para formar uma
    comunidade de pessoas” (sob um dirigente, é desnecessário dizêla),
    “os intelectuais tentam vários caminhos, assim como galinhas
    debicam o chão do galinheiro. Com eles não se pode fazer a
    História; não podem ser empregados como elementos
    componentes de uma comunidade.” Os intelectuais são o tipo de
    pessoas que exigem provas e ficam melindrados pelas
    inconsistências lógicas e pelos falatórios. Olham a
    supersimplificação como o pecado original do espírito e não
    fazem qualquer uso de slogans, de afirmações categóricas e
    generalizações abusivas que são o repertório do publicista. “Toda
    propaganda efetiva”, escreveu Hitler, “deve resumir-se ao
    estritamente indispensável e deve, portanto, exprimir-se em meia
    dúzia de fórmulas estereotipadas.” Estas fórmulas estereotipadas
    devem ser constantemente marteladas porque “só pela repetição
    constante conseguir-se-á imprimir finalmente uma idéia na
    memória de uma multidão.” A filosofia nos ensina a sentirmonos
    indecisos sobre coisas que nos parecem evidentes por si
    mesmas. A propaganda, no extremo oposto, nos ensina a aceitar
    como por si mesmo evidente aquilo de que seria razoável duvidar
    ou sustar o nosso juízo. O propósito do demagogo é criar a
    coesão social sob o seu próprio comando. Mas, como Bertrand
    Russel observou, “sistemas dogmáticos sem fundamentos
    empíricos, tais como a Escolástica, o Marxismo e o Fascismo,
    apresentam a vantagem de gerar uma grande dose de coerência
    social entre os seus adeptos”. O propagandista demagógico deve,
    portanto, ser regularmente dogmático. Todas as suas afirmações
    são feitas de modo explícito. Na sua visão do mundo não há
    atenuantes, as coisas ou são diabolicamente pretas ou
    celestialmente brancas. Segundo as próprias declarações de Hitler,
    o propagandista deve tomar “uma atitude sistematicamente
    parcial em relação aos problemas de que cuidar.” Jamais deve
    admitir que tenha errado ou que as pessoas que defendem um
    ponto de vista diferente possam ter parcialmente razão. Não se
    deve altercar com adversários; serão atacados, reduzidos ao
    silêncio, ou, se se tornam demasiado prejudiciais, liquidados. O
    intelectual com demasiados escrúpulos morais pode ficar
    melindrado com este tipo de coisas. Mas as massas estão sempre
    convictas de que “o direito está do lado do agressor ativo.”
    Tal era, pois, a opinião de Hitler sobre a humanidade nas
    massas. É uma opinião muito vil. Era, por sua vez, uma opinião
    incorreta? A árvore é conhecida pelos seus frutos, e uma teoria
    sobre a natureza humana que inspirou o tipo de técnicas que se
    provaram tão medonhamente eficazes deve conter, pelo menos,
    um elemento de verdade. A virtude e a inteligência pertencem aos
    seres humanos como indivíduos livremente interligados com
    outros indivíduos em pequenos grupos. O pecado e a
    imbecilidade também. Mas a ausência subumana de espírito a que
    o demagogo dirige o seu apelo, a imbecilidade moral em que se
    apoia quando induz as suas vitimas à ação, são características não
    dos homens e das mulheres como indivíduos, mas dos homens e
    das mulheres em multidão. A ausência de espírito e a estupidez
    moral não são atributos especificamente humanos; são sinais de
    envenenamento gregário. Nas mais altas religiões de todo o
    mundo, a salvação e a iluminação são para os indivíduos. O reino
    dos céus está no íntimo de uma pessoa, não dentro da demência
    coletiva de uma multidão. Cristo prometeu estar presente onde
    dois ou três se encontrassem reunidos. Nada disse sobre a sua
    presença onde milhares de pessoas se envenenam umas às outras
    com tóxico gregário. Sob os nazistas, grandes grupos de pessoas
    eram forçadas a despender muito tempo marchando em filas
    cerradas do ponto A para o ponto B e outra vez para trás, de B
    para A. “Este desvelo em pôr toda, a população em marcha
    parecia uma insensata perda de tempo e de energia. Só muito
    mais tarde”, diz Hermann Rauschning, “é que se descobriu nisso
    uma intenção engenhosa, baseada numa bem considerada
    adaptação dos fins e dos meios. Marchar diverte o pensamento
    humano. A marcha distrai o pensamento. A marcha põe um fim à
    individualidade. A marcha é o passe de mágica indispensável com
    o objetivo de habituar o povo a uma atividade mecânica, quase
    ritual, até que se torne uma segunda natureza.”
    Do seu ponto de vista e até o nível que escolheu para
    realizar a sua terrível obra, Hitler tinha perfeita razão na sua
    opinião sobre a natureza humana. Nós que olhamos os homens e
    as mulheres como pessoas mais do que como indivíduos do
    povo, ou coletividades arregimentadas, julgamos que ele tenha se
    enganado redondamente. Numa época de superpopulação
    crescente, de crescente superorganização e de meios de
    comunicação cada vez mais eficientes com as massas, como
    podemos manter intacta a integridade e reafirmar o valor do ser
    humano individual? Eis uma questão que ainda pode ser
    levantada e que seja talvez possível resolver de maneira eficaz.
    Daqui a uma geração poderá ser demasiado tarde para se
    encontrar uma resposta, e talvez seja até impossível, no asfixiante
    ambiente coletivo dessas épocas futuras, suscitar o problema.
    .:: 6. As Artes de Vender ::.
    A sobrevivência da democracia depende da capacidade de
    grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de
    uma informação sólida. Uma ditadura, pelo contrário, mantém-se
    censurando ou deturpando os fatos, e apelando, não para a razão,
    não para o interesse próprio esclarecido, mas para a paixão e para
    o convencionalismo, para as poderosas “forças ocultas”, como
    Hitler as denominava, presentes nas profundezas inconscientes
    de cada espírito humano.
    No Ocidente, os princípios democráticos são proclamados, e
    muitos propagandistas capazes e conscienciosos fazem o possível
    para prestar aos leitores informações concretas e convencê-los,
    por meio de argumentos racionais, a fazerem escolhas realistas à
    luz dessa informação. Tudo isso é ótimo. Mas, infelizmente, a
    propaganda, nas democracias acidentais, especialmente na
    América, apresenta duas faces e uma personalidade dividida.
    Como chefe de redação encontra-se muitas vezes um
    democrático Dr. Jekyll – um publicista que seria muito feliz se
    conseguisse provar que John Dewey tinha razão quando falava
    acerca da aptidão da natureza humana para reagir à verdade e à
    razão. Mas este estupendo homem só dirige uma parte do
    maquinismo de comunicação com as massas. No serviço de
    publicidade temos pela frente um antidemocrático, porque antiracionalista
    Sr. Hyde – ou antes um Dr. Hyde, porque Hyde é
    agora doutorado em psicologia e tem, outrossim, uma licenciatura
    em Ciências Sociais. Este Dr. Hyde seria de fato muito infeliz se
    as pessoas se mostrassem sempre dignas da confiança que John
    Dewey depositava na natureza humana. Verdade e razão formam
    parte das atribuições de Jekyll, não das suas. Hyde é um analista
    das Motivações, e a sua função é estudar as fraquezas e falhas
    humanas, investigar estes desejos e medos inconscientes pelos
    quais é analisado o pensamento consciente e o comportamento
    exterior de tantos homens. E fá-lo, não com o espírito do
    moralista que gostaria de tornar melhores as pessoas, ou do
    médico que gostaria de lhes melhorar a saúde mas tão só com o
    fim de assegurar a melhor maneira de usufruir vantagens da sua
    ignorância e de explorar-lhes a irracionalidade em benefício
    pecuniário dos seus patrões. Mas depois de tudo, pode afirmar-se
    que “o capitalismo está morto, e o consumidor é rei” – e o
    consumidor requer os préstimos do técnico de vendas
    especializado em todas as artes (incluindo as artes mais capciosas)
    de persuasão. Sob o sistema da livre concorrência, a propaganda
    comercial por todos e quaisquer meios é absolutamente
    indispensável. Mas o indispensável não é indispensavelmente o
    desejável. O que é seguramente bom na esfera da economia, pode
    estar muito longe de ser bom para os homens e mulheres como
    eleitores ou até como seres humanos. Uma geração precedente,
    mais impregnada de moral, teria ficado profundamente
    melindrada pelo franco cinismo dos Analistas de Motivações.
    Lemos hoje um livro como The Hidden Persuaders do sr. Vance
    Packard e sentimo-nos mais divertidos do que horrorizados, mais
    resignados do que indignados. Dado Freud, dada a Psicologia do
    Comportamento, dada a necessidade arraigadamente desesperada
    que o produtor em massa necessita de um consumo em massa, é
    o gênero de coisa que devemos esperar. Mas qual é, podemos
    perguntar, o tipo de coisa que devemos esperar para o futuro?
    São as atividades de Hyde conciliação a longo prazo com as de
    Jekyll? Pode uma campanha a favor da racionalidade obter êxito
    quando apanhada nas mandíbulas de outra, e ainda 'mais
    vigorosa, campanha em prol da irracionalidade? 'país são as
    perguntas que, no momento, não tentarei responder, porém
    deixarei pendentes, por assim dizer, a fim de que sirvam de pano
    de fundo para a nossa discussão dos meios de persuasão em
    massa numa sociedade democrática tecnologicamente avançada.
    A função de um propagandista comercial numa sociedade
    democrática é, sob alguns ângulos, mais fácil e, sob outros, mais
    difícil do que a de um propagandista político encarregado por um
    ditador já constituído ou por um ditador em vias de se
    estabelecer. É mais fácil à medida em que quase todo o povo tem,
    de início, um preconceito favorável em relação à cerveja, a
    cigarros e a frigoríficos, ao passo que quase ninguém tem
    qualquer convencionalismo a favor de tiranos. É mais difícil à
    medida em que não é consentido a um propagandista comercial,
    pelas normas do seu jogo profissional, apelar para os instintos
    mais selvagens do seu público. O agente de publicidade de
    laticínios bem que gostaria de dizer aos leitores e ouvintes que
    todas as suas infelicidades são originadas pelas maquinações de
    um horrível bando internacional de fabricantes de margarina, sem
    qualquer tipo de fé religiosa, e que é sua obrigação patriótica
    marchar contra as fábricas dos opressores e incendiá-las. Este
    tipo de coisas, todavia, é deixado de lado, e tem de contentar-se
    com algo de mais comedidamente aproximado. Mas essa
    aproximação comedida é menos estimulante do que a violência
    verbal e física. A longo termo, a cólera e o ódio são emoções que
    se exterminam. Mas a curto prazo apresentam altos dividendos,
    sob a forma de satisfações psicológicas e até (dado que libertam
    grandes quantidades de adrenalina e noradrenalina) fisiológicas.
    As pessoas podem iniciar com um convencionalismo inicial
    contra os tiranos; porém quando os tiranos ou aspirantes a tais
    lhes fornecem uma propaganda libertadora de adrenalina sobre a
    ignomínia dos seus inimigos – principalmente dos inimigos
    suficientemente fracos para poderem ser perseguidos – estão
    prontos a segui-lo com entusiasmo. Nos seus discursos, Hitler
    não cessava de martelar palavras violentas como “ódio”, “força”,
    “impiedade”, “esmagar”, “despedaçar”; e acompanhava estes
    termos violentos com gestos ainda mais violentos. Urrava,
    vociferava, as veias inchavam-lhe, tornava-se arroxeado. As
    emoções fortes (como todos os atares e dramaturgos sabem)
    contagiam no mais alto grau. Contaminada pelo frenesi funesto
    do orador, a assistência gemia, soluçava e urrava, numa orgia de
    paixão desenfreada. E estas orgias provocavam tal deleite que
    muitos daqueles que as provavam pediam avidamente mais.
    Quase todos desejamos a paz e a liberdade; mas somos poucos a
    ter entusiasmo pelos pensamentos, sentimentos e ações que
    concorrem para a paz e para a liberdade. Analogamente, quase
    ninguém deseja a guerra e a tirania; contudo grande parte das
    pessoas encontra prazer intenso nos pensamentos, sentimentos e
    ações que concorrem para a guerra e para a tirania. Estes
    pensamentos, sentimentos e ações são demasiado perigosos
    quando explorados com finalidades comerciais. Aceitando esta
    desvantagem, o técnico de publicidade obterá o máximo de
    resultados com um mínimo de emoções menos venenosas, com
    as formas mais tranqüilas de irracionalidade.
    Uma propaganda eficiente e racional só se torna possível
    quando há uma compreensão clara, por parte de todos a quem é
    dirigida, da natureza dos símbolos e das suas relações com as
    coisas e com os fatos representados. A eficiência da propaganda
    irracional depende de uma derrocada geral na compreensão da
    natureza dos símbolos. Os simples de espírito têm a propensão a
    igualar o símbolo com o que ele representa, a atribuir às coisas e
    aos fatos algumas das qualidades manifestadas por palavras que o
    propagandista escolheu para dissertar sobre eles, em função dos
    seus próprios fins. Consideremos um simples exemplo. Muitos
    cosméticos são feitos de lanolina, que é uma fusão de gordura
    extraída da lã de carneiro e de água, fusão agitada em emulsão.
    Esta emulsão apresenta muitas propriedades salutares : penetra a
    pele, não rança, é ligeiramente anti-séptica, etc. Mas os
    propagandistas comerciais ‘nada dizem a respeito das genuínas
    virtudes da emulsão. Dão-lhe um nome pitorescamente deleitoso,
    falam arrebatada e incorretamente da beleza feminina, e exibem
    figuras de louras sensuais cuidando dos seus tecidos cutâneos
    com um trófico da pele. “Os produtores de cosméticos”,
    escreveu um deles, “não estão vendendo lanolina, estão vendendo
    esperança.” Por esta esperança, por esta fraudulenta promessa
    tácita de serem transfiguradas, as mulheres pagarão dez ou vinte
    vezes o valor da emulsão que os propagandistas expuseram tão
    habilmente, por meio de sinais enganadores, a uma ambição
    feminina profundamente enraizada e quase universal – a ambição
    de ser mais atraente aos indivíduos do sexo oposto. Os princípios
    atinentes a esta espécie de propaganda são extremamente simples.
    Encontrar uma ambição generalizada, um receio ou uma
    ansiedade inconsciente bastante geral; encontrar um meio de
    relacionar este desejo ou medo com o produto que se tem para
    vender; construir, depois, uma ponte de símbolos verbais ou
    visuais sobre o qual o cliente possa passar da realidade a um
    sonho compensatório, e do sonho à ilusão de que o seu produto,
    quando procurado, fará que o sonho se torne realidade. “Já não
    compramos laranjas, compramos vitalidade, já não compramos
    um automóvel, compramos prestígio.” E assim sucessivamente.
    Com um dentifrício, por exemplo, adquirimos, não um mero
    anti-séptico ou um produto de higiene, mas sim a libertação do
    medo de sermos sexualmente repulsivos. Com o “vodka“ ou o
    “whisky” não adquirimos um veneno protoplásmico que, em
    pequenas doses, pode afetar o sistema nervoso de maneira
    psicologicamente valiosa; estamos adquirindo amizade e boa
    camaradagem, o calor de Dingley Deli e o brilho da Mermaid
    Tavem. Com os nossos laxantes adquirimos a saúde de um deus
    grego, o brilho radiante de uma ninfa de Diana. Com o
    heortseller do mes adquirimos cultura, a inveja dos vizinhos
    menos ilustrados e a admiração dos que são intelectuais. Em cada
    um dos casos, o analista de motivações encontrou um desejo ou
    receio fundamente enraizado, cuja energia pode ser aplicada para
    levar o consumidor a distribuir dinheiro e assim, de maneira
    indireta, a fazer girar as rodas da indústria. Armazenada nos
    espíritos e nos corpos de inúmeros indivíduos, esta energia
    potencial é liberada e transmitida por uma linha de símbolos
    cuidadosamente disposta de modo a evitar a racionalidade e a
    ofuscar a verdadeira questão.
    Por vezes, os símbolos adquirem efeito por serem
    desigualmente impressivos, obsessivos e por si mesmos
    fascinantes. São deste tipo os ritos e as pompas da religião. Estas
    “belezas sagradas” fortalecem a fé, onde já haja fé e, onde não há
    fé, contribuem para a conversão. Apelando, como apeiam, apenas
    para o sentido estético, não confirmam a verdade nem o valor
    ético das doutrinas a que foram, de maneira muito arbitrária,
    associadas. Num plano de verdade histórica, as belezas sagradas
    foram muitas vezes igualadas e até ultrapassadas pelas belezas
    profanas. Com Hitler, por exemplo, as reuniões anuais em
    Nuremberg eram obras-primas de arte ritual e teatral. “Passei seis
    anos em S. Petersburgo, antes da guerra, nos melhores dias do
    velho bailado russo”, escreveu Sir Neville Henderson, o
    embaixador inglês na Alemanha de Hitler, “porém nunca vi um
    bailado que se comparasse em beleza ao congresso de
    Nuremberg.” Pensase em Keats – “a beleza é a verdade, a
    verdade é a beleza”. Aí, a identidade só existe num plano último,
    supra-terrestre. Nos planos político e teológico, a beleza é
    perfeitamente conciliável com o sem sentido e a tirania. O que é
    aliás uma sorte, porque se a beleza fosse incompatível com o
    absurdo e com a tirania haveria muito pouca arte neste mundo.
    As obras-primas de pintura, de escultura e de arquitetura foram
    feitas como propaganda religiosa ou política, para maior glória de
    um deus, de um governo ou de um clero. Porém muitos reis e
    sacerdotes foram despóticos e todas as religiões foram assinaladas
    pela superstição. O gênio foi servidor da tirania e a arte fez a
    propaganda dos méritos do culto local. O tempo, à medida que
    escoa, separa a boa arte da má metafísica. Podemos nós aprender
    a fazer esta distinção, não depois do acontecimento, mas
    enquanto ele está por realizar-se? Eis o problema.
    Na propaganda comercial, o princípio do símbolo
    desmedidamente fascinante é claramente compreendido. Cada
    propagandista tem a sua Seção de Arte, e constantemente são
    feitas tentativas com o objetivo de se embelezarem os painéis
    publicitários com cartazes sedutores, as páginas de anúncios dos
    magazines com desenhos e fotografias repletos de vida. Não
    aparecem obras-primas, porque as obras-primas são visam a um
    público muito limitado, e a propaganda comercial é destinada a
    cativar a maioria. Para a propaganda comercial, o ideal é uma
    mediania excelente. Aqueles que prezam esta arte, não demasiado
    boa mas suficientemente cativante, decerto apreciarão os
    produtos a que ela foi associada e que tal arte representa
    simbolicamente.
    Outro símbolo desmedidamente fascinante é o “Canto
    Comercial”. Os Cantos Comerciais são uma invenção recente;
    porém o Canto Teológico e o Canto Religioso – o hino e o salmo
    – são tão antigos como a própria religião. Os Cantos Militares, ou
    marchas, são contemporâneos da guerra, e os Cantos Patrióticos,
    os precursores dos nossos hinos nacionais, eram certamente
    empregados com o objetivo de promover a solidariedade do
    grupo, para acentuar a distinção entre “nós” e “eles”, pelos
    bandos nômades de caçadores do paleolítico e pelos coletores de
    alimentos. Para a maioria das pessoas, a música é intimamente
    atraente. Além disso, as melodias tendem a gravar-se por si
    mesmas no espírito do ouvinte. Uma ária pode molestar a
    memória durante uma vida inteira. Eis, por exemplo, uma
    afirmação ou um juízo de valor de pouco interesse. Tal como é
    dito, ninguém lhe dará atenção. Mas colocai agora as palavras
    numa ária eletrizante e de fácil recordação. Tornam-se de
    imediato palavras poderosas. Outrossim, as palavras terão
    tendência a se repetir automaticamente toda vez que a melodia
    for ouvida ou recordada espontaneamente. Orfeu aliou-se com
    Pavlov – o poder dos sons com o reflexo condicionado. Para o
    prapagandista comercial, como para os seus companheiros da
    política e da religião, a música possui ainda outra vantagem. Os
    absurdos que seria vergonhoso para um ser humano escrever,
    dizer ou ouvir dizer, podem ser cantados ou ouvidos pelo mesmo
    ser humano, com prazer, e até com uma certa convicção
    intelectual. Podemos nós aprender a isolar o prazer de cantar ou
    de ouvir cantar e a propensão demasiado humana para crer na
    propaganda que a canção encobre? Eis novamente o problema.
    Graças ao estudo obrigatório e às rotativas, o propagandista
    conseguiu, há muitos anos, fazer chegar as suas mensagens quase
    a todos os adultos, em todo país civilizado. Hoje, graças ao rádio
    e à televisão, o propagandista acha-se na feliz posição de ser
    capaz de comunicar até com os adultos e crianças ainda não
    instruídas.
    As crianças, como é de se esperar, são muito sensíveis à
    propaganda. Desconhecem o mundo e seus costumes, e estão,
    portanto, totalmente desprevenidas. As suas faculdades críticas
    não estão desenvolvidas. Os mais novos ainda não alcançaram a
    idade da razão e aos mais velhos falta-lhes a experiência sobre a
    qual a sua recém-descoberta faculdade de raciocinar poderia agir
    efetivamente. Na Europa, era costume designar em tom jocoso
    os recrutas pela expressão “carne para canhão”. Os seus
    irmãozinhos e irmãzinhas transformaram-se, agora, em carne para
    a televisão ou para o rádio. Na minha infância ensinavam-nos a
    cantar canções infantis e, nas famílias religiosas, hinos. Hoje as
    crianças sussurram Cantos Comerciais. O que é melhor –
    “Rheingold é a minha cerveja, a cerveja que mata a sede”, ou “Foi
    na loja do Mestre André...”? “Deus nos chama, é nossa a hora”
    ou “Dentes brancos e sadios, só com a pasta Pepsodent”? Quem
    sabe?
    “Não digo que as crianças devam correr atrás de seus pais
    para que comprem os produtos que viram anunciados na
    televisão, porém, ao mesmo tempo não posso desconhecer o fato
    de que isso sucede diariamente”. Assim escreve conhecido ator
    de um dos muitos programas dirigidos a assistências juvenis. “As
    crianças”, diz o ator, “são registros vivos e falantes daquilo que
    lhes narramos todos os dias.” E, no devido tempo, estes registros
    vivos e falantes da televisão comercial crescerão, ganharão
    dinheiro e adquirirão os produtos da indústria.
    “Pensai”, escreve o sr. Clyde Miller, admirado, “pensai no
    que pode apresentar de lucros para a vossa firma se conseguirdes
    aliciar um milhão, ou dez milhões de crianças, que se tornarão
    adultos treinados para a aquisição dos vossos produtos, como os
    soldados são antecipadamente treinados para avançar quando
    ouvem as palavras-estímulo : Em frente, marche”. Sim, pensemos
    em tudo isso! E, ao mesmo tempo, lembremos que os ditadores e
    os seus sequazes andam há anos pensando neste tipo de coisa, e
    que milhões, dezenas de milhões de crianças se encontram num
    ritmo de crescimento para comprar o produto ideológico do
    déspota local e, como soldados bem treinados, para responder
    com um comportamento adequado às palavras-estímulo injetadas
    nestes jovens espíritos pelos propagandistas dos déspotas.
    O autogoverno está na razão inversa do quantitativo de
    seres humanos. Quanto mais elevado for o eleitorado, mais baixo
    é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um
    entre milhões, o indivíduo-eleitor sente-se uma quantidade
    irrelevante e sem forças. Os candidatos para os quais votou estão
    muito distante, no último degrau da pirâmide do poder.
    Teoricamente são os servidores do povo; contudo, são os
    servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base da
    grande pirâmide, que deve acatar as ordens. O crescimento da
    população e os progressos da tecnologia resultaram em um
    aumento do número e da complexidade das organizações, em um
    aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos
    dirigentes, e em uma diminuição correspondente da intensificação
    do controle exercido pelos eleitores, ao mesmo tempo que se dá
    um decréscimo do interesse do público pelos processos
    democráticos. Já enfraquecidas por imensas forças impessoais que
    agem no mundo moderno, as instituições democráticas estão
    agora sendo interiormente minadas pelos políticos e pelos seus
    propagandistas.
    Os seres humanos agem de múltiplas maneiras irracionais,
    mas todos eles parecem aptos a fazer uma escolha razoável com
    as informações de que dispõem, se lhes derem oportunidade de a
    fazer. As instituições democráticas não podem funcionar, a não
    ser que todos os interessados façam o máximo para difundir
    conhecimentos e para encorajar o emprego da razão. Mas hoje,
    na democracia mais poderosa da Terra, os políticos e os seus
    propagandistas preferem escarnecer as instituições democráticas
    apelando quase unicamente para a ignorância e para a falta de
    tino dos eleitores. “Ambos os partidos”, disse-nos em 1956 o
    editor de uma poderosa revista comercial, “mercadejam os seus
    candidatos e programas, pelos sistemas idênticos de que os
    negociantes lançam mãos para vender os seus produtos. Estes
    exigem a escolha científica de proposições e a repetição
    planificada deles... Os anúncios e os comerciais feitos na rádio
    repetirão os estribilhos com uma intensidade premeditada. Os
    cartazes exibirão estribilhos de efeito comprovado... Os
    candidatos necessitam, além de vazes meigas e dicção perfeita, de
    ser capazes de olhar “com sinceridade” a câmara de TV.”
    Os vendedores de política recorrem apenas para a
    debilidade dos eleitores, não para a sua força potencial. Não
    fazem qualquer sacrifício no sentido de educar as massas a fim de
    que estas se preparem para se governar a si próprias, contentamse
    tão só com a manipulação e a exploração delas. Para a
    consecução deste objetivo são mobilizados e colocados em ação
    todos os recursos da psicologia e das ciências sociais. Amostras
    cuidadosamente escolhidas do eleitorado são submetidas a
    “entrevistas em profundidade”. Estas entrevistas em
    profundidade revelam os receios e desejos inconscientes que mais
    sobressaem, numa determinada sociedade, na ocasião da eleição.
    Frases e imagens destinadas a amenizar ou, em caso de
    necessidade, a intensificar estes receios, a satisfazer estes anelos,
    pelo menos simbolicamente, são então selecionadas pelos
    técnicos, experimentadas em eleitores e auditores, alteradas ou
    melhoradas, segundo os dados conseguidos desta forma. Então a
    campanha eleitoral está apta para uma transmissão em cadeia.
    Agora só falta dinheiro e um candidato que possa ser treinado a
    fim de assumir o “comando”. Deste novo princípio, os pontos de
    vista políticos e os planos para uma ação específica acabaram por
    perder grande parte da sua importância. A personalidade do
    candidato e a maneira por que ele é lançado pelos técnicos de
    publicidade são as coisas que realmente entram em ação.
    De qualquer modo, sob o aspecto de um homem viril ou de
    um pai amável, o candidato deve ser encantador. Deve ser,
    outrossim, palrador e que nunca aborreça a assistência.
    Acostumada à televisão e ao rádio, esta assistência está habituada
    a ser distraída e não deseja que lhe peçam que se concentre ou
    faça um sacrifício intelectual prolongado. Todos os discursos
    proferidos pelo conversador-candidato devem, portanto, ser
    curtos e incisivos. As grandes questões da atualidade devem ser
    tratadas, no máximo, em cinco minutos – e preferivelmente (dado
    que a assistência estará impaciente para ver qualquer coisa de
    mais atraente do que a inflação ou a bomba H) em sessenta
    segundos. Dada à natureza da oratória, sempre houve entre os
    políticos e os eclesiásticos a tendência para simplificarem ao
    extremo as questões complexas. De um púlpito ou de uma
    tribuna, até os oradores mais conscienciosos acham difícil falar a
    verdade. Com os recursos aplicados agora, para comerciar o
    candidato político como se ele fosse um desodorizante, coloca-se
    positivamente o eleitorado ao amparo de ouvir toda a verdade
    sobre o que quer que seja.
    .:: 7. Lavagem Cerebral ::.
    Nos dois capítulos anteriores descrevi as técnicas do que se
    pode chamar manipulação em massa dos espíritos, tal qual foi
    posta em prática pelo maior demagogo e pelos mais eficientes
    técnicos de vendas da história escrita. Mas nenhum problema
    humano pode ser solucionado apenas pelos meios destinados a
    grandes quantidades. A arma de caça tem sua vez, contudo a
    seringa hipodérmica tem também a sua. Nos capítulos posteriores
    descreverei algumas das técnicas mais eficientes não para
    manusear multidões, não para manusear público, porém para
    indivíduos isolados.
    No decurso das suas experiências, que marcaram época,
    sobre os reflexos condicionados, Ivan Pavlov notou que, quando
    submetidos a uma tensão física ou psíquica prolongada, os
    animais de laboratório exibiam todos os sintomas de uma grande
    depressão nervosa. Recusando-se a afrontar por mais tempo uma
    situação intolerável, os seus cérebros entravam em greve, por
    assim dizer, e, ou deixavam completamente de funcionar (o cão
    perdia a consciência) ou então lançavam mão da marcha lenta e
    da sabotagem (o cão comportava-se de modo incoerente, ou
    exibia o tipo de sintomas físicos que, num ser humano,
    denominaríamos histéricos). Alguns animais são mais resistentes à
    tensão do que outros. Os cães que possuíam o que Pavlov
    denominava uma constituição “fortemente excitável”
    soçobravam mais depressa do que os cães dotados de um
    temperamento simplesmente “vivo” (em oposição ao
    temperamento colérico ou agitado). Identicamente, os cães
    “fracamente inibidos” esgotavam a sua energia muito mais
    depressa do que os “tranqüilos e imperturbáveis”. Mas até os cães
    mais resistentes eram incapazes de resistir indefinidamente. Se a
    tensão a que fosse submetido fosse suficientemente intensa ou
    suficientemente prolongada, o cão acabava por soçobrar de um
    modo tão abjeto como o animal menos resistente da sua espécie.
    As descobertas de Pavlov foram confirmadas da maneira
    mais aflitiva, e numa escala muito ampla, durante as duas Guerras
    Mundiais. Em conseqüência de uma única experiência
    catastrófica, ou de uma série de terrores menos violentos mas
    freqüentemente repetidos, os soldados apresentam um
    determinado número de sintomas de demolição psicofísico.
    Inconsciência temporária, agitação extrema, letargia, cegueira ou
    paralisia funcional, respostas inteiramente desconexas para o
    estímulo dos acontecimentos, alterações estranhas de
    comportamentos normais – todos os sintomas que Pavlov
    observara nos seus cães ressurgiram entre as vítimas do que foi
    denominado na Primeira Guerra Mundial “o horror nervoso à
    guerra” e, na Segunda, “a fadiga de guerra”. Cada homem, como
    cada cão, tem o seu limite individual de resistência. A maior parte
    dos homens atinge esse limite após trinta dias de tensão, mais ou
    menos contínua, sob as condições do combate moderno. Os mais
    fracos sucumbem em quinze dias. Os mais fortes perduram por
    quarenta e cinco ou até cinqüenta dias. Fortes ou fracos, todos
    finalmente soçobram. Todos, quer dizer, os que gozavam de boa
    saúde. Porque, diga-se com sarcasmo, as únicas pessoas que
    conseguem suportar indefinidamente a pressão da guerra
    moderna são os psicopatas. A loucura individual está prevenida
    em relação às conseqüências da loucura coletiva.
    O fato de cada indivíduo ter um limite de resistência foi
    conhecido e explorado desde tempos remotos de uma maneira
    lamentavelmente pouco científica. Em alguns casos, a horrível
    falta de 'humanidade do homem para com o homem foi inspirada
    pelo amor da crueldade, devido à terrível fascinação que esta
    exerce. Com muita freqüência, contudo, o puro sadismo foi
    abrandado pelo utilitarismo, pela teologia ou por razões de
    Estado. O castigo físico e outras formas de violência foram
    infligidas pelos homens da lei com o objetivo de soltarem a língua
    das testemunhas obstinadas; por clérigos, a fim de punir os não
    ortodoxos e os impelirem a mudar de opiniões; pela polícia
    secreta, com a finalidade de extrair confissões de pessoas
    suspeitas de ser hostis ao governo. Com Hitler, a tortura, seguida
    pelo extermínio em massa, era aplicada em relação a esses
    heréticos biológicos, os judeus. Para um jovem nazista, uma
    temporada de serviço nos campos de concentração era (segundo
    as próprias palavras de Himmler) “a melhor doutrinação sobre os
    seres inferiores e as raças subumanas”. Dada a virtude vexatória
    do anti-semitismo adquirido por Hitler durante a juventude, nos
    bairros pobres de Viena, esta reminiscência dos meios
    empregados pelo Santo Ofício contra os heréticos e feiticeiros era
    inevitável. Mas, em virtude das descobertas de Pávlov e dos
    conhecimentos obtidos pelos psiquiatras no tratamento das
    neuroses de guerra, tal reminiscência parece um anacronismo
    ridículo e repugnante. Agressões suficientemente amplas para
    causarem uma completa derrocada cerebral podem ser efetuadas
    por meios que, embora abominavelmente desumanos, ficam
    aquém da tortura física.
    Seja o que for que tenha ocorrido outrora, parece mais ou
    menos razoável que a tortura já não é muito aplicada pela polícia
    comunista atual. Esta inspira-se não no inquisidor ou no SS, mas,
    sim, no fisiologista e nos seus animais de laboratório,
    devidamente condicionados. Para o ditador e sua polícia, as
    descobertas de Pavlov têm conseqüências práticas importantes.
    Se o sistema nervoso central dos cães pode ser levado a soçobrar,
    o sistema nervoso central dos prisioneiros políticos pode sê-la da
    mesma forma. É apenas uma questão de aplicar a quantidade
    exata de tensão durante o tempo adequado. Ao final do
    tratamento, o prisioneiro estará em estado de neurose ou de
    histeria e, portanto, apto a confessar o que os seus captares
    desejarem que ele confesse.
    Contudo a confissão não é suficiente. Um neurótico
    incurável jamais será útil a alguém. O ditador inteligente e prático
    não precisa de um paciente para ser hospitalizado, ou de uma
    vítima para ser abatida, porém de um convertido que trabalhe
    pela causa. Voltando-se mais uma vez para Pavlov, o ditador
    aprende que, no seu caminho para a queda final, os cães se
    tornam anormalmente sugestionáveis. Quando o paciente se
    encontra perto do limite final da sua resistência cerebral, é fácil
    fazer-lhe contrair novos comportamentos que permanecem
    radicados para sempre. O animal em que tais formas de
    comportamento foram implantadas jamais voltará a ser
    descondicionado; o que o animal aprendeu sob o seu estado de
    tensão, permanecerá como parte integrante do seu ser.
    A tensão psicológica pode ser gerada de muitas maneiras. Os
    cães sentem-se perturbados quando os estímulos são
    demasiadamente fortes; quando o intervalo entre o estímulo e a
    resposta habitual é por demais prolongado, e o animal
    conservado num estado de suspensão psíquica, quando o cérebro
    fica confundido pelos estímulos que aparecem ao contrário do
    que o cão aprendeu a esperar, quando os estímulos não fazem
    sentido dentro da disposição de referência do paciente. Além
    disso, observou-se que, provocando deliberadamente o temor, a
    cólera ou a ansiedade, avolumava-se notavelmente a
    sugestibilidade do cão. Se estas emoções forem levadas a um
    elevado grau de intensidade, durante um tempo relativamente
    longo, o cérebro põe-se “em greve”. Quando isto sucede, podem
    instalar-se, com bastante êxito, novos padrões de
    comportamento.
    Entre as causas físicas que desenvolvem a sugestibilidade de
    um cão acham-se a fadiga, os ferimentos e todas as formas de
    doença.
    Para o aspirante a ditador, estas descobertas contêm
    importantes conseqüências práticas. Estas observações provam,
    por exemplo, que Hitler estava com a razão ao afirmar que as
    reuniões em massa eram mais eficientes à noite do que de dia.
    “Durante o dia”, escreveu Hitler, “a vontade do homem rebela-se
    com maior energia contra qualquer tentativa de o forçarem a
    submeter-se a outras vontades e opinião. À noite, porém, o
    homem sucumbe mais facilmente à força dominante de uma
    vontade mais forte.”
    Pavlov teria concordado com ele; a fadiga aumenta a
    sugestibilidade. (É por esse motivo, entre outros, que as firmas
    que patrocinam um programa de televisão preferem as emissões
    noturnas e se prontificam a pagar caro a sua preferência.)
    A doença é ainda mias efetiva do que a fadiga, no que tange
    à intensificação da sugestibilidade. No passado, os quartos de
    doentes eram palcos de inumeráveis cenas de conversão religiosa.
    O ditador do futuro, cientificamente treinado, terá todos os
    hospitais dos seus domínios prontos a receberem o som e
    equipados com almofadas alto-falantes. Persuasão em conserva
    permanecerá no ar vinte e quatro horas por dia, e os pacientes
    mais ilustres serão visitados por salvadores da alma política e por
    transformadores do espírito, como no passado os seus pais eram
    visitados por padres, freiras e leigos piedosos.
    O fato das emoções fortes e negativas tenderem a aumentar
    a sugestibilidade e a facilitarem, assim, uma substituição de
    opiniões, foi anotada e explorada muito antes de Pavlov. Como
    assinalou o Dr. William Sargant no seu tão esclarecedor livro,
    Battle for tbc Mind, o grande êxito de John Wesley como
    pregador baseava-se no conhecimento intuitivo do sistema
    posted by iSygrun Woelundr @ 1:46 PM  
    1 Comments:
    • At 1:17 PM, Anonymous Anônimo said…

      Então fascinante esta página parece bem organizado.........Boa pinta :/
      Gostei muito Continua deste modo !

       
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